SRA. SANCHES

Eu e a menina entramos no carro. Ficamos em silencio durante a viagem, até que ela pegou no sono. Ainda dirigindo na escuridão da madrugada até o hotel mais próximo.

Senti que Sophia estava distante, olhá-la ali dormindo, me vez me lembrar do que estava sendo acusada. Ela começou a falar frases em Hebraico... Nada “divino”.

– Oh! – exclamei — Acorda! — Ela não conseguiu me obedecer, sua coluna começara a ficar arqueada, o que me quase me levou ao desespero — Já chega! — Ela arregalou os olhos e voltou em sua posição normal. — Pesadelos? –perguntei.

Ela não me respondeu, mas eu já sabia o que era. E era muito pior que simples pesadelos. Tinha algo maligno em seu coração, que a cada segundo que passava, chegava mais perto de sua alma.

Quando chegamos à portaria do hotel, ela saiu correndo, como uma criança num parque de diversões, ao ver um gato preto perto da lixeira do hotel.

– Hei! Eu tenho que dormir! – Ela voltou para mim.

– Desculpe... – disse, de cabeça baixa — Eu amo gatos. — Balancei a cabeça, peguei sua mão e caminhamos até a recepção do hotel.

– Um quarto, por favor. Duas camas separadas. – pedi a recepcionista, que sorriu.

– Quanto tempo ficará conosco?

– Tempo indeterminado. – respondi.

– Bem vinda ao Mott Hotel. – falou, me entregando um cartão-chave.

– Obrigada. – virei-me para Sophia — Vamos? — Ela assentiu e me seguiu até o elevador.

– Por que não fomos para sua casa? – perguntou, pensativa. Eu sorri.

– Eu moro com meus pais em Nova York. — Ela sorriu com minha escolha. Digo, minha mentira. Porque sou órfã tem mais de mil anos.

– Sei. Carie também não gosta de levar gente na casa dela.

– É? E com quem ela mora? – especulei.

– Com os pais, eu acho. Ela diz que eles eram muito ruins para ela.

– Eram? – perguntei, observando o erro na frase — Ela arregalou os olhos.

– Não conte a ninguém. – pediu, entramos no elevador.

– Não se preocupe... Sigilo profissional. — As portas do elevador se abriram. Destranquei a porta com o cartão, e entramos no quarto de cor amarela, com suas camas de solteiro e duas cômodas e a leste a porta do banheiro.

– Você vai para a escola amanha? – perguntei.

– Acho que sim. – respondeu, pensativa.

– Sabe... Se não quiser, não precisa. — Ela balançou a cabeça.

– Acho que vai ser melhor eu ir... Ocupar a mente. — Assenti com sua decisão — Vou dormir. — Ela me deu as costas e foi para a primeira cama.

– Ok. Eu vou sair, já volto – anunciei. Saí do quarto tornei a pegar o elevador.

– Preciso usar um computador. – falei a recepcionista, que baixou a cabeça.

– Senhora, eu...

– Por favor. – insisti. Ela me deixou usar o computador. Fiz o dossiê de Sophia Leroy, que a culpava do caso. Quando terminei, três horas depois, subi para quarto com o documento em mãos. Abri a porta e fui olhar se Sophia estava em sua cama.

– Procurando por mim? — Meu coração!

– Ai, Meu Deus! Garota, que susto. – falei apertando o peito com uma das mãos. Ela sorriu.

Quem não deve não teme. O que é isso ai? – perguntou, apontando para o livro em minhas mãos.

– Er... Uns documentos da delegacia. Sobre a investigação da morte de seus pais.

– Aah... – contraiu os lábios — Vou voltar a dormir, boa noite.

– Boa noite. – respondi.

xxx

– Senhora Sanches! – a ouvi ao longe de minha mente — Sanches! — Sua voz soava desesperada. Pensei que ela poderia ter visto o dossiê!

– O quê?! – exclamei, sentando-me num salto.

– Tenho que ir para a escola. – lembrou.

– Aah... – fiquei aliviada.

– Já tomei café.

– Ok. Vou me arrumar, já volto. — Fui para o banheiro e levei o dossiê comigo. Quando sai, ela já não estava mais no quarto, vesti-me com rapidez e corri para o elevador. Lá em baixo, ela estava conversando com uma recepcionista, não era a mesma de ontem, ainda bem.

– Vamos?

– Aham. – ela sorriu e segurou minha mão. Caminhamos até meu carro e entramos.

– Onde arrumou essas roupas? –perguntei. Ela deu de ombros.

– Carie trouxe-as para mim.

– Ah... E por que ela não ficou para ir com a gente? – perguntei.

– Desculpe, ela não gosta de pessoas estranhas perto dela. – justificou. Ignorei a indireta.

Meia hora depois estávamos próximos a escola, que por ventura, ficava perto de um cemitério.

– Pode me deixar aqui. – falou.

– O quê? Ainda falta um quarteirão. – insisti.

– Sim. Mas Carie está ali me esperando. – disse, apontado “para o nada” na calçada do cemitério — Não pode ver? — Sorri e fingi que vi alguma coisa.

– Vá. – parei o carro — Virei te buscar.

– Ok – desceu do carro às pressas. Assim que saiu, tomei rumo para a delegacia.

– Onde está Smith? – perguntei, invadindo a delegacia.

– No escritório. – um policial respondeu. Fui até lá.

– Você costumava ser mais educada. – disse Smith, lendo um jornal. Eu joguei o livro em sua mesa.

– Aqui. – apontei para o papel — Não é a primeira vez que isso acontece com ela. — Ele olhou o documento.

– Ela nos disse isso ontem, Sanches.

– Smith, eu tenho que levar isso ao chefe. – falei, desesperada — É mais serio que eu pensei.

– O que está acontecendo?!

– Não estamos lidando com pessoas, Smith! — Ele engoliu em seco.

– Prove.

– Ela... Ela tem uma amiga imaginária.

– Saches... Por favor – disse, coçando a cabeça — Isso não prova nada!

– Smith, eu nunca erro... Só uma chance. – implorei. Ele respirou fundo.

– Me deem licença por um momento, por favor. – pediu aos policiais ali presentes. Todos se retiraram.

– Smith, eu...

– Precisamos de testemunhas, provas. – murmurou, depois de um tempo.

– Temos a prima de Sophia, os pais da criança que a avó dela cuidava, e a professora Elizabeth Bennet...

– Eu sei que sua conexão com a igreja católica é forte e que você é... Bem, porém a última vez levou a vida de uma jovem! — Meu lado divino reagiu a lembrança.

– O vaticano não me deixou agir! – Lembrei.

– Tudo isso porque você deixou! – argumentou.

– Você sabe que o meu dever...

– O seu dever é ajudar o mundo! Não o Papa.

– O que eu posso fazer se o mundo acredita mais nele do que em mim?! — Ele balançou a cabeça.

– Esse foi um desses motivos que abandonei a batina. – murmurou. Engoli em seco e ele ficou em silencio. Carter invadiu a sala.

– Meu Deus! – exclamou Smith — Todo mundo esqueceu a educação em casa?!

– Senhor, tenho que te mostrar uma coisa.

– Claro. Amélia, depois nós conversaremos.

– Smith! – chamei indignada — Por favor... — Sai do escritório com tanta raiva que se chutasse alguma coisa para o alto, só voltaria em dois dias.

– Espere, Sanches! – disse um policial atrás de mim. Parei de andar e fitei a calçada por um tempo para manter a calma.

– O que foi agora? – perguntei.

– O delegado quer te mostrar uma coisa. — Voltei para o escritório e Carter e Smith estavam lá.

– O que foi? – perguntei. Smith engoliu em seco.

– Carter gravou a conversa de Sophia com a tal amiga. Ergui uma sobrancelha.

– E...?

– Escute. – pediu ele me estendendo fones, coloquei eles.

*

– Oi. Carie?

Linguagem estranha: grego, hebraico e russo misturado.

– É uma emergência. Estou na delegacia... Aconteceu uma tragédia.

Linguagem.

– Meus pais... Estão mortos...

Linguagem.

– Acabou seu tempo. – a voz de Carter ao longe.

– Tenho que desligar.

Linguagem.

–Tchau.

*

Tirei os fones sentindo minhas pernas bombas.

– Meu Deus... – falei.

– Sanches... – disse Carter.

– Eu cuidarei do caso. – falei sem pensar.

– Tem certeza? – perguntou Smith.

– Tenho, é minha chance...

– Chance? – perguntou ele — Chance de quê?

– De voltar para casa. – murmurei ao sair do escritório.

Ao sair da delegacia entrei em meu carro e parti para a escola de dança, mas no meio do caminho apareceu uma coisa inusitada: uma criatura descabela, de pele acinzentada e quase pelada apareceu no meio da rua, o que quase me fez perder o controle do volante.

– Depois eu cuido de você docinho. – murmurei ao desviar da criatura. Estacionei o carro na frente da escola de dança, entrei na recepção do prédio que tinha três mulheres mexendo nos computadores e em papéis.

– Com licença. — Elas me olharam, até que uma ruiva de olhos verdes sorriu.

– Eu atendendo. – declarou — Em que posso ajudar?

– Gostaria de conversar com a professora Bennet. – pedi. A porta se abriu e se fechou atrás de mim.

– Ela acabou de chegar. – anunciou — Elizabeth, essa moça quer lhe falar.

– Pois não? – disse Bennet. Apresentei-me formalmente. Ela era linda, tinha olhos castanhos amarelados e cabelos dourados. Pele tão branca quanto algodão. Convidei-a para almoçar, e por sorte, ela aceitou. Caminhamos até a lanchonete mais próxima, no caso, no outro lado da rua. Pedimos dois refrigerantes e uma porção de batata frita.

– O que quer saber? – perguntou, depois de um tempo.

– Quero saber sobre Sophia. – respondi, ela juntou as sobrancelhas.

– Se isso é um interrogatório, por que não me enviaram uma intimação para ir à delegacia? — Eu neguei.

– Ainda não é um interrogatório. É uma simples conversa.

– Fiquei sabendo do ocorrido pelo jornal. – disse — Eu não sou muito próxima de Soph, mas ela dança muito bem. Ela é uma das melhores alunas que já tive, parece uma boneca.

– Como?

– Ela se esquece do mundo aqui fora, só pensa na leveza de seus passos... Ela se transforma em algo não humano, por assim dizer, quando está na sala diante do espelho. — Bebi o refrigerante.

– Mais alguma coisa?

– Bem, ela não tem amigas aqui. Não fala com ninguém, nem comigo. – deu de ombros — É solitária.

– Sério? – perguntei.

– Sim, já a convidei para sair, mas ela recusa e diz que vai sair com uma amiga... Não lembro o nome dela.

– Carie? – perguntei.

– Aham. – confirmou.

– Estranho... – uma pausa — Ela disse que Carie dançava aqui também. Ela deu de ombros.

– Vamos voltar para a escola. – disse. – Tanto!

– Sim. – respondeu o garçom.

– Coloque na minha conta.

Voltamos para a escola.

– Lara, me dê a fixa de todas as matriculas feitas nos últimos cinco meses. — A secretária sorriu e nos deu uma basta na grossura de uma bíblia amarela. Elizabeth mexeu na papelada.

– Aqui. Carie Jhenet... Jhenet? Que nome é esse?! – ele deu uma curta risada — Enfim... Essa foi o único registro desse ano de uma aluna com esse nome.

– Obrigada. – agradeci — Ela já veio alguma vez? — Consultou os papéis.

– Nenhuma. – contraiu os lábios — Espero ter ajudado em alguma coisa.

– Me ajudou muito. – dei meu sorriso mais sincero — Se precisarmos de você, enviaremos essa intimação.