Hora de voltar para casa
1 Capítulo 1
SOPHIA
Era uma segunda-feira quando...
–... Onde você estava? – perguntou-me o policial, demorei a absorver a pergunta. — Onde você estava? – repetiu ele.
Naquela hora eu estava na frente de minha casa. Bombeiros, ambulâncias e policias para todos os lados. Não demorou muito para que meu desespero aparecesse e por algum motivo desaparecesse no mesmo segundo...
– O que está acontecendo? – perguntei. Ele me encarou.
– Sinto muito, senhorita... – era um policial novato, ainda não sabia lidar com as situações de extremidade.
– Cadê meus pais?! – insisti.
Ele não me respondeu. Então olhei ao meu redor e vi bombeiros apagando um “pequeno” incêndio na garagem, policiais andando por todos os lados e curiosos querendo saber o que estava acontecendo. Ignorei tudo isso. Sentindo um nó na garganta, corri até minha casa.
Na sala, minha irmã estava imóvel no chão. Um enfermeiro tentava reanimá-la.
–Sandy? – chamei ao me aproximar dos dois.
– Se afaste, moça – disse o enfermeiro.
– Sandy... – senti uma mão segurar meu braço — Sandy! — Olhei para quem me segurava. Era uma mulher de estatura baixa e de cabelos vermelhos.
– Não torne isso mais difícil, – falou ela — você não tem ideia do que estamos passando.
– E você sabe pelo que eu estou passando?! – perguntei. Dois bombeiros saiam da sala carregando uma maca. — Mãe?
– Fique longe, moça – disse um deles.
– Mãe!
– Solte-a, Thalia... – disse alguém — Não fará diferença segura-la.
Assim que a vi sair, minha tristeza aumentou, lágrimas rolaram por minhas bochechas e pude sentir que naquele instante tudo havia acabado.
Olhei ao meu redor desnorteada, minha visão parou na porta do banheiro onde tinha marcas vermelhas de duas mãos. Senti meu estomago contorcer, abri a porta e o vi...
GRITEI.
Cerca de três policiais apareceram, entre eles, o mesmo que tentou me interrogar.
Os outros, ao ver meu pai naquela situação – com cabeça dentro do sanitário — tiveram náuseas e saíram de perto quase regorjeando ali mesmo.
– Preciso de enfermeiros aqui. Agora! – disse o novato no rádio em seu ombro, de costas para o banheiro. Depois de uns segundos entraram os enfermeiros com uma maca
– Saiam da frente. – disse um deles.
Dei um passo para trás e os vi pegar a cabeça de meu pai e enrolar...
– Não olhe. – instruiu o policial. Engoli em seco e o deixei que me guiasse para fora daquele inferno.
No quintal encontramos uma mulher de cabelos loiros e trajes sociais falando ao telefone.
– Sanches? – chamou o policial. Ela o olhou, desligando o celular.
– Policial Carter – me olhou. — Quem é você?
– Sophia Leroy. – respondi intimidada.
– Ela mal sabe o que está acontecendo, detetive. – disse o policial. Ela me olhou nos olhos.
– Por que está cuidando dela, novato? — Ele encolheu os ombros.
– O delegado está muito ocupado... — Assim que ele explicou, os enfermeiros saíram com o corpo de meu pai. Ela encarou a cena com normalidade.
– Entendo – assentiu. — Posso falar com você?
– S-sim... – gaguejei.
– Quantos anos você tem? – perguntou.
– Tenho 15, senhora –respondi. Ela virou para o policial.
– É filha das vítimas? — engoli em seco.
– Sou.
Ela segurou meu ombro e deu um sorriso angelical, Reconfortante, de certa forma.
– Carter? – chamou ela.
– Senhora?
– Quero que leve para a delegacia, lá pelas duas da madrugada.
– Você realmente vai se meter nisso? – disse uma voz desconhecida. Ela se afastou de mim.
– Algum problema, delegado Smith? — jogou um olhar capaz de queimá-lo vivo.
– Nenhum, Sanches. – respondeu, balançando a cabeça. Ela olhou para o policial Carter.
– Obedeça.
– Sim, senhora.
Ao chegarmos à delegacia – um prédio velho, como o resto da cidade — ele me guiou até o escritório do delegado, um lugar rústico em que as mesas eram de madeira e as cadeiras giratórias estofadas, de couro negro.
– Sente-se. – disse, obedeci.
– Ele vai demorar? – perguntei. Carter deu de ombros.
– Não sei. – uma pausa — Sinto muito pelos seus pais. — Contrai os lábios e balancei a cabeça. Ficamos em silencio por quase meia hora.
– Posso fazer uma ligação? – perguntei. Minha voz quebrando o silencio, soou mais alta que desejei.
– Claro. – ele pegou um caderno, olhou no seu relógio de pulso e escreveu — Pode usar o telefone. — Tirei o fone do gancho e apertei os números de Carie com rapidez.
– Alô? – disse ela do outro lado da linha.
–Oi, Carie?
–Sophia? Ficou louca? É meia noite e pouco! – exclamou.
–É uma emergência. – dei uma curta pausa — Aconteceu uma tragédia. — Olhei para Carter.
– O que foi? – seu tom mudou para nervoso.
– Meus pais... Foram mortos.
– O que?! Como?!
– Acabou seu tempo. – disse o policial. Ele se afastou do computador de tentou disfarçar o olhar desesperado.
– Tenho que desligar. – falei.
– Mas Soph...
– Tchau. – interrompi, já colocando o fone no gancho. O policial me olhava amedrontado — O que foi? — Ele desviou o olhar, olhou o relógio de pulso e escreveu novamente.
Passaram-se duas horas, eu e meu “companheiro” ainda estávamos sentados e morrendo de sono, mal trocamos duas palavras. E por isso ele pôs os fones de ouvidos...
– Desculpem pela demora. – disse o delegado ao entrar. Eu bocejei, Carter tirou os fones e entregou o caderno para o delegado.
– Hmm... Para quem você ligou? – perguntou.
– Para uma amiga.
– Posso ir para casa? – perguntou Carter, o delegado assentiu. A porta se abriu e um cheiro de rosas inundou o escritório.
– Boa noite! – disse Sra. Sanches — Vai interrogá-la? — Logo atrás dela, outro policial de cabelos dourados segurava seu cotovelo.
– Aham. — respondeu — Mas Sanches, por favor... — Ela forçou sorriso.
– Eu não vou sair daqui. — Ele respirou fundo.
–Douglas? – chamou.
– Senhor. – respondeu o policial — Ela é mais forte que parece.
– Eu sei. – disse o delegado — Pode começar a escrever, Douglas.
– Sim, senhor. — Sanches sentou-se ao meu lado com um caderno e uma caneta.
– Podemos começar? – perguntou.
– Sim. – respondi.
– Onde você estava na hora do acontecido? — hesitei.
– Na aula de balé...? — Ele arqueou as sobrancelhas.
– É? Onde você pratica?
– Na escola de dança jazz dance, no centro da cidade.
– Pode me dizer o nome de sua professora?
– Elizabeth Bennet. –respondi. Sanches sem dizer uma única palavra, disparava a caneta.
– Ok. Reparei que você está usando uma roupa esportiva.
– Sim. Eu fui para academia, depois para a aula de balé.
– Então...
– Você é ridículo, Smith. – disse Saches — Preciso que nos fale desde o começo, criança – disse para mim.
– Como assim? – perguntei. Ela olhou em meus olhos.
– Me conte desde o início. — Engoli em seco.
–Sanches, não a pressione...
–Não, não... – falei — Tudo bem, delegado – suspirei — Desde o começo...
“Quando eu nasci, minha mãe teve depressão pós-parto, então fui morar com meu tio. Me adotou porque era estéril, sua esposa me amava – eu sorri com a lembrança — E eles já tinham minha prima que é um ano mais velha que eu, Nunca nos damos bem... – engoli em seco — Quando tinha quatro anos, minha tia, por milagre, engravidou. Três anos se passaram e... Um dia eu tinha saído de casa, quando voltei... – suspirei — Tudo havia acabado”
– Como assim acabado? – perguntou o delegado.
– A tragédia de Seattle em 2007. – disse Sra. Sanches — Todos foram assassinados, menos Sophia Leroy e Catarina Leroy. Assenti.
– “Minha mãe e meu pai... Fizeram-me morar com minha avó paterna, uma idosa que na época tinha sessenta e poucos anos. Passou um pouco mais de um ano. Ela e a criancinha de três anos que cuidava...”
– Assassinato de abril 2008... Em Nova Jersey. – informou Sra. Sanches. Assenti.
– Desde então moro com meus pais. – falei. O delegado pareceu desconfortável.
– E você se dava bem com seus pais?
– Sim... Às vezes rolava uma discussão ou outra, mas nada além disso. – falei. Ele contraiu os lábios.
– E... Você sabe me dizer se seu pai estava devendo dinheiro para alguém? — Neguei com a cabeça.
– Em qual colégio você estuda?
– No colégio feminino da cidade – respondi hesitante.
– E sua aula de dança... Carie também faz? –perguntou ele. Dei de ombros.
–Aham.
–Ok. Isso é tudo, você terá de depor outras vezes, mas como sabe, estamos exaustos. Bem, ligarei para o ajuizado de menores...
– Eu ficarei com ela. – disse Sra. Sanches — Terá uma audiência semana que vêm e...
– O quê?! Temos uma semana para selecionar o caso?! Ficou louca?!
– A audiência para decidir quem e qual parente ela ficara e... Se ninguém a quiser, irá para um abrigo. — O delegado assentiu.
– Faça como quiser. – murmurou, ela o ignorou e se levantou.
– Obrigada, delegado.
– Amélia. – ele também se levantou. Amélia mais uma vez o ignorou, segurou minha mão e sorriu.
– Sou Amélia Sanches... Me chame de Amélia, criança. – não pude esconder meu sorriso — Vamos? — Balancei a cabeça e (ainda segurando sua mão fria) saímos daquela delegacia.
Fale com o autor