Homo Sapiens
1 Peso
Não é a primeira vez que está ali; estuda ali há quase um ano. Ainda se sente desconfortável no entanto, e está, agora, encostado em um dos muros do castelo, longe do sol. Tem a touca do moletom que usa na cabeça, ainda que seja primavera e esteja quente para seus padrões – ele viveu na Rússia, ele sabe o que é frio de verdade. Mas se sente confortável apenas quando se esconde. E sente que precisa se esconder.
Não é timidez. Ele não é tímido, ele é quieto. São coisas diferentes. É capaz de se aproximar de alguém, é capaz de segurar uma conversa sem ter as palmas das mãos suando e o coração batendo rápido e forte. Ele apenas prefere ficar em silêncio e ouvir as outras pessoas. Era assim em Koldovstoretz, onde dividia apenas os risos com as piadas de seus amigos e colegas. E ele faz essa divisão, entre amigos e colegas. Amigos são aqueles em que ele confia, aqueles que sabem seus segredos. Colegas são o resto. O problema é que ele está em um país estrangeiro, precisando falar um idioma que o faz ficar com um sotaque tão duro que ele próprio mal suporta, dizer palavras que às vezes esquece, então frequentemente mistura sua língua materna e o inglês em suas falas. É quase um pesadelo falar nas aulas, quando os professores apontam para ele e perguntam: “O você acha, sr. Varkhov?”. E ele tropeça nas palavras, a língua sem obedecer às palavras em sua mente.
É humilhante.
Certo que ele nunca foi um aluno muito brilhante. Suas notas são medíocres – exceto pelo desastre em Adivinhação; até hoje ele não sabe por que diabos pegou a disciplina – e o único “ótimo” que tem é em Feitiços. Gosta de ser bom em feitiços. Isso o faz se tornar bom em duelos. Nunca precisou duelar de verdade, é claro, mas se divertia no clube de sua escola anterior. Agora, aqui, nem tem certeza se há um clube de duelos. A verdade é que ele sabe muito pouco da academia em si: sabe apenas seus horários, conhece apenas seus professores. Não tem amigos e nem colegas. Às vezes tem a impressão de que as pessoas riem às suas custas, porque ele é o rapaz que anda sempre de gola alta não importa a temperatura, mas quando se vira para trás, vê que é apenas um grupo de amigos trocando piadas sobre outro assunto. E passam por ele, às vezes esbarrando, às vezes sem nem notá-lo.
Ele suspira, jogando o peso do corpo na perna direita.
Olha para as próprias mãos, pálidas e longas. Deseja ter um cigarro, mas não há nada em seus bolsos. Subitamente se lembra de um trecho de uma obra de trouxas que leu um dia: “ela não sabia o que fazer com a bolsa, não sabia o que fazer consigo mesma”. Neste caso, não há bolsa. Mas há um peso, e ele é um pouco maior do que ele pode suportar.
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