Homo Sapiens
2 Tudo o que eu vejo é você
O nome dele era Matviei Goranovich Lieshev e ele era seu professor de Feitiços. Tinha o rosto queimado de frio, cabelos castanhos e olhos azuis, escuros. As aulas dele eram as preferidas de Arseni e ele não sabia bem a razão. Talvez por causa do carisma do professor, que conseguia encantar – ha— a classe em poucos gestos, ou talvez fosse as aulas em si. Ele gostava de praticar feitiços, muito mais do que preparar poções ou tratar de plantas barulhentas e fedorentas. E ele era bom nisso.
Às vezes Matviei parecia olhar diretamente para ele enquanto explicava algo para a classe. Seus olhos eram grandes e cheios de vida. Seu sorriso deixava marcas de expressão por todo o seu rosto, e ele tinha um riso quase cavernoso, mas agradável de ouvir.
Arseni se via com as bochechas quentes toda vez que o ouvia rir.
*
Em seu quarto ano, Arseni deveria escolher um tutor. Era mais opcional do que uma obrigação, mas ele decidiu escolher Matviei. O professor de pronto o aceitou, mostrando-lhe sua sala, um cômodo circular com uma poltrona que parecia caber duas pessoas – “meu antecessor foi um ½ gigante”, ele disse –, uma mesa de madeira escura com pés esculpidos ao modo de patas, e estantes e estantes de livros. Um gato muito peludo, que mais parecia uma almofada, estava no tapete no centro do cômodo, cochilando tranquilamente.
— Cuidado para não tropeçar nele — Matviei disse — Ele escolhe sempre os piores lugares para dormir.
A sala era acolhedora.
*
Um dia, durante a tutoria, Arseni se abaixou para pegar o gato no colo. De alguma maneira sua camisa se ergueu e exibiu as cicatrizes que tinha nas costas. Ele, sem notar, continuou com o gato no colo, acariciando sua cabeça e balançando-o como se fosse um bebê. Ao se virar para encarar Matviei, viu uma expressão de preocupação em seu rosto. Não soube a razão.
— Tudo bem? — ele perguntou, um pouco confuso. O homem então se aproximou dele, tirou o gato de seu colo e ergueu as costas de sua camisa. Arseni se afastou, sentindo-se um pouco invadido. Ninguém sabia daquelas marcas.
— O que são elas? — Matviei perguntou, tentando se aproximar outra vez. Arseni se afastou novamente e eles andaram em quase círculo.
— Nada. — ele respondeu encostando-se à mesa, de maneira que o outro não pudesse tocar suas costas.
Matviei o encarou com certa decepção. Sentou-se na poltrona de gigantes ao lado da lareira, apagada, e passou as mãos nos cabelos.
— Conte-me. — disse.
Arseni engoliu a saliva e respirou fundo, uma inspiração trêmula. Perguntou-se se devia confiar nele, especialmente por ser uma figura de autoridade. Sentiu, porém, que não tinha escolha, e disse:
— Meu pai. — pausou, encarando o azul daqueles olhos — Ele me bate.
A testa de Matviei enrugou.
— Por quê?
Arseni deu os ombros, um quase riso engasgado na garganta.
— Ele é legilimente. Eu não posso pensar em nada perto dele.
Matviei puxou o lábio inferior para entre os dentes. Encarou o outro por um tempo que pareceu interminável, cruzou as pernas e disse:
— Você quer ajuda com isso?
Matviei conhecia um bruxo oclumente. Estava disposto a ajudar o garoto a desenvolver a habilidade.
*
— Você é muito ruim nisso. — era o que Matviei dizia com uma frequência estrondosa enquanto observou Arseni estudar oclumência com seu antigo tutor nos dois anos seguintes. Ele nunca pareceu se irritar com aquilo no entanto, mesmo que o garoto pedisse desculpas a todo instante. Matviei apenas passava uma das mãos no cabelo dele, bagunçando os fios de um tom médio de castanho, e sorria.
— Não se preocupe. — dizia então — Poucas pessoas são boas nisso.
O peso da mão dele na cabeça de Arseni era algo bom, e foi talvez em um desses momentos que Arseni percebeu enfim que estava apaixonado.
*
Dividiam uma garrafa de vodca depois que o tutor ia embora. Não era permitido na escola o consumo de álcool entre alunos, e os professores, é claro, nunca eram encorajados a oferecer qualquer coisa alcoólica a eles, mas Matviei não se importava com aquilo. Naquela noite, ele narrava, gesticulando dramaticamente, o duelo que teve com um homem em um bar. Ambos estavam tão bêbados que todos os feitiços destruíram os móveis ao redor. Acabaram sendo expulsos pelo dono do estabelecimento, e Matviei recebia olhares tortos todas as vezes que entrava lá.
— Mas foi ele que me provocou. — ele disse então, bebendo mais uma dose da vodca — Eu não entro em brigas sem ser provocado.
Arseni deu um riso genuíno, talvez o primeiro em algumas semanas. Sentia o torpor do álcool invadir sua cabeça e sua razão se enevoava. Ele bebeu outra dose, soltando um arroto baixo e viu o outro homem rir, um de seus risos altos e cavernosos. O gato, que estava deitado sobre alguns pergaminhos na mesa, se assustou e pulou do móvel.
— Acho que chega para você. — Matviei disse, afastando o copo e a garrafa do garoto. — É melhor ir para o seu dormitório.
— Estou sem sono. — ele disse, mas se levantou.
— Com o tanto que bebeu, logo vai estar — foi a resposta.
Matviei o guiava até a porta, uma vez que Arseni tropeçava nos próprios pés. Ele abriu a porta quando ali chegaram e tentou empurrar o rapaz de seus braços, mas Arseni não se soltou.
Foi quando o lapso aconteceu: Arseni se ergueu nas pontas dos pés e beijou o canto dos lábios de Matviei. Não soube se queria beijar seus lábios ou a bochecha, mas aquilo não importou: o homem fechou a porta bruscamente e o puxou do portal para dentro da sala outra vez. Tinha uma expressão de quase terror no rosto.
— O quê? — Arseni perguntou, engolindo um soluço.
— O quê? — Matviei repetiu, a voz alta — Como assim “o quê”?!
— Um beijo de boa noite. — disse Arseni, tentando focalizá-lo com a visão turva — Nada de mais.
Matviei suspirou. Passou a mão pelo rosto, agitou a varinha para que a porta se abrisse e ela o fez.
— Vá para o seu dormitório, Arseni. — foi o que disse.
Arseni não compreendeu a reação dele.
*
O tutor não apareceu e Matviei entregou a Arseni um pergaminho na próxima sessão de tutoria.
— Assine, por favor. — disse.
Arseni passou os olhos pelos escritos. Dizia que as sessões terminariam ali, pois “o aluno não tem capacidade para aprender a habilidade requisitada” e “o professor pensa que treinar outra habilidade com outro professor seria um uso melhor do tempo dele”.
— Isso não é sério. — Arseni disse, soltando a pena e erguendo a cabeça para Matviei, que não respondeu. Ele fungou e respirou fundo. — É por causa do beijo?
— Eu te disse um milhão de vezes: você é ruim nisso. — foram as palavras de Matviei.
— É por causa do beijo, não é? — ele insistiu, a voz um pouco mais alta.
Os lábios de Matviei estavam secos e ele suspirava com frequência. Demorou para que suas próximas palavras fossem ditas:
— Sim, Arseni, é por causa do beijo.
Arseni soltou um riso amargo.
— Eu estava bêbado. Mal me lembro do que fiz.
O silêncio pairou entre eles por alguns instantes.
— Assine. — Matviei disse enfim, empurrando o papel na direção do outro.
— Não. — ele respondeu, os olhos fixos nos dele. — Você não pode estar tão ofendido por causa de um beijo.
— Você não me conhece. — A voz dele era grave.
— É por que eu sou homem? — Arseni perguntou, afastando-se um pouco da mesa — E viado?
— Você não é um homem. — Matviei rebateu — Você tem dezessete anos, é um menino.
— Ah, então estaria tudo bem se eu tivesse dezoito anos? — Arseni estava com raiva agora. Sentia suas veias pulsarem.
— Assine a porra do papel de uma vez. — ele empurrou o pergaminho de novo e contornou a mesa, sentando-se na poltrona que cabia dois dele.
Arseni não se virou naquela direção. Encarou o papel sobre a mesa, os dedos, de nós brancos, pressionados com força ali.
— Eu te amo, Matviei. — ele disse, baixo.
Não teve certeza se o outro tinha escutado até ouvir um riso engasgado vir da direção dele.
— Você é uma criança, não tem ideia do que está falando.
— Eu sei que você gosta de mim também. — Arseni continuou a dizer — Eu percebo.
— Eu sou casado, Arseni. Sou vinte e dois anos mais velho que você. — o outro disse — Eu tenho um filho que poderia ser seu irmão.
Aquilo o ofendeu. Se tivesse menos controle, já teria rasgado o pergaminho e jogado os pedaços na cara dele.
— Por favor, assine o pergaminho. Torne isso mais fácil. — Matviei continuou, a voz calma porém ainda fria.
O rapaz soltou um suspiro fundo. Fez uma rubrica no pergaminho e se retirou, sem encarar Matviei.
*
Ele esperou encontrar Matviei na próxima aula de Feitiços, mas quem viu em vez dele foi uma mulher baixa e gorducha.
— Onde está o professor Lieshev? — Ele perguntou à mulher, que o encarou como se aquela pergunta fosse óbvia.
— Ele se demitiu, querido. — ela disse — Você não soube?
A cadeira de Arseni imediatamente raspou o chão. Ele se levantou e correu para fora da sala de aula, passando pelos corredores como se fugisse de algo.
Bateu várias vezes na sala que era de Matviei. Ninguém respondeu. Ele disse um alohomora e a porta se abriu, revelando uma sala vazia, sem nem mesmo o gato que costumava ficar ali. Ele foi então ao corujal e rabiscou um pergaminho, pedindo a uma das corujas que enviasse a Matviei, e ficou ali esperando a resposta. Passaram-se algumas horas quando a coruja marrom finalmente retornou com um novo pergaminho.
“Não me escreva mais. – M. G. L.”
Sentiu que choraria.
*
Nada de excepcional aconteceu em seu último ano em Koldovstoretz: ele foi amargo e frio.
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