Homem Borboleta
1 Um — Borboleta caída.
Notas iniciais
Desculpa qualquer erro ae, e boa leitura.
Viktor admirava borboletas.
Eram criaturas frágeis que tinham um tempo curto de vida, e que mesmo assim batalhavam todos os dias para garantirem sua sobrevivência efêmera.
Voavam contra ao vento, fugiam da tempestade a aproveitavam o forte calor do sol.
Sim, borboletas eram criaturas com um espirito forte, que nem sempre resistiam aos horrores do mundo.
E Viktor passou a ver Yuuri como uma dessas borboletas.
~~
Entrou no quarto do hospital tremendo e se segurando para não derramar nenhuma lágrima. Tentava manter sua pose de perfeita calma e segurança, mas por dentro sentia-se desmoronando. Não estava preparado para ver aquilo e era forçado a estar, pelo bem daquele que amava; e por mais que se passassem anos, jamais ficaria pronto para lidar com aquela cena.
Foi como se o seu coração pudesse parar. Yuuri estava deitado de olhos fechados em uma cama, ligado a vários aparelhos e fluidos, de olhos fechados. Uma sonda estava ligada a seu corpo, pois seu fígado havia sido quase destruído depois de tantos remédios, e só conseguia se alimentar dessa forma. Os cortes verticais de seu pulso estavam bem costurados, os pontos eram bem visíveis; alguém havia doado sangue para ele, e gostaria de poder agradecer essa pessoa depois. A expressão dele era de derrota, de um completo vazio, como se tivesse se tornado apenas uma casca vazia, um casulo; aonde estaria a borboleta? Talvez morta, todavia se negava a acreditar nessa possibilidade. Queria pensar que ela estava apenas repousando, com as asas feridas demais para seguir seu voo.
Aproximou-se com cautela, tentando decifrar se ele dormia ou não. Depois de alguns passos o moreno repentinamente abriu os olhos e tentou encontrar o que se aproximava. Sua visão teria sido prejudicada, também? Ou então seriam os novos remédios que lhe deixavam tão dopado que mal conseguia se concentrar em um ponto? Estava com medo de perguntar. Por isso apenas sorriu, tentando ser o Viktor de sempre e agir naturalmente.
— Olá, Yuuri. Parece que você fez algo de errado, não é mesmo? — Evitou que um tom de julgamento tomasse a sua voz, e a frase saiu neutra. Queria fingir que era um bom pai que estava levemente decepcionado com o filho. — Mas agora você não se encontra mais em perigo, então tome o tempo para descansar.
O moreno desviou o olhar, passando a encarar um ponto aleatório no teto, extremamente envergonhado. Viktor sabia que o que ele havia feito era visto como desonra no Japão, e que poderia ser humilhado publicamente por isso. Temeu que isso só piorasse sua situação, e já pensou em alguma forma de mantê-lo longe das notícias de seu país natal.
— Sua família está vindo lhe visitar. Estão preocupados com você. — Também soou neutro. Algo quis se libertar dentro de si, mas reprimiu esse desejo. Tremeu e se esforçou para segurar o choro, aguentando a dor que dominava seu peito. Estava indo bem até aquele momento, mas pareciam horas de tortura ficar observando o amado naquele estado. — Você não consegue falar, não é mesmo?
Yuuri negou com a cabeça, apontando com certa fraqueza para a máscara de respiração.
Não tinha papel nem caneta para que o outro se comunicasse, e mesmo isso não adiantaria. Precisava escutar sua voz, precisava; queria sentir que o noivo continuava ali, vivo e sendo o mesmo de sempre. Estava prestes a explodir. Não era de ferro e já tinha aguentando aquela situação por muito tempo, agora queria liberar-se.
Queria a resposta mais importante para toda a aquela situação.
— Eu só gostaria de te perguntar uma coisa. Por quê? — Dessa vez sua voz falhou, e tossiu para tentar segurar e disfarçar seu choro.
O moreno apontou novamente para a máscara, dessa vez pedia para que lesse seus lábios. Aproximou-se e observou-o balbuciar algo como “ Nem todas as perguntas tem respostas. Eu sinto muito ”. No fim, tudo se resumiria a um pedido de desculpas. O corpo dele havia sido destruído, e o coração do Viktor estava em pedaços, e tudo o que causador desses desastres poderia lhe dizer era um mero “sinto muito”.
Uma lágrima caiu, e então outra. A irracionalidade estava tomando total conta de seu comportamento. Arranhou discretamente a palma de suas mãos e desviou o olhar, observando o mundo através de uma janela com grades que ali existia. Sentiu cada sentimento seu desmoronando, um por vez.
— Eu estou feliz por ainda estar aqui. — Jogou ao ar, com a voz falha. Percebeu que Yuuri havia levantado a mão para tentar secar suas lágrimas, e grosseiramente desviou-se do toque, não encarando mais ele nos olhos. — Acho que já estou indo. — Dessa vez o outro conseguiu alcançar a manga do paletó que usava, segurando-a com fraqueza, pedindo que ficasse.
Ignorou aquilo e levantou-se, saindo pela porta com uma frieza que lhe era incomum, escutando o choro de desespero do outro antes de colocar os fones de ouvido e escutar uma música qualquer. Secou suas lágrimas e enfrentou o frio até sua casa, reprimindo por todo o trajeto seus verdadeiros sentimentos. O vento cortante parecia uma brisa suave naquele momento. Chegou em seu apartamento e foi recebido pelo cão, com sua típica felicidade.
Trancou a porta e tirou o casaco. Sentou-se no sofá e respirou fundo. Abraçou os próprios joelhos e voltou a chorar freneticamente, sucumbindo a própria dor.
Nunca mais seria o mesmo.
Yuuri também.
A partir daquele incidente a vida dos dois mudaria para sempre.
~~
Faziam poucos meses desde que Yuuri havia se mudado para a Rússia e morava com Viktor. Nesse tempo estivera ocupado como técnico, treinando Yuuri, e como competidor, todos fins de tarde e noites sendo supervisionado por Yakov. Dificilmente passava um tempo a sós com o noivo, e a falta de comunicação entre eles apenas acabou aumentando.
Quando percebeu que estavam afastados não quis admitir para si mesmo que já podia ser tarde demais. No último mês havia acontecido o campeonato mundial de patinação artística no gelo, e por mais que estivessem ocupados implorou para Yuuri sair com ele toda vez que tinha tempo livre, com a esperança de que os corações voltassem a se conectar. Realmente, estava quase funcionando. Mas só aquilo não bastava.
Podiam se falar poucas vezes durante a semana e apenas sobre assuntos que envolviam patinação. E isso lhe impediu de ver o que realmente importava.
A ansiedade podia ser controlada com remédios, mas não curada. Ela desaparecia e aparecia em ritmos frequentes em Yuuri; este lidava com esse problema sem remédios, e sempre havia se saído bem no processo. Até então.
Achou que o silencio de seu amado se devia ao cansaço dos treinos, que o dia que o havia encontrado chorando era realmente pelo final de uma série, e que sua magreza se devia ao fato de que andava se dedicando aos exercícios. Não conseguia assumir para si mesmo que tinha ignorado todos esses sintomas devido ao próprio cansaço.
Era para ser só mais um dia comum em que chegava exausto de seu treino. Como de costume colocou seu casaco no cabide ao lado da porta e tomou cuidado para fazer silencio, pois Yuuri já deveria estar dormindo.
Encontrou a porta do banheiro fechada, não entreaberta, como costumava deixar. Comprovou que o moreno não estava na cama, e aguardou pacientemente a saída do outro. Depois de longos minutos, arriscou-se a chamar, sem nenhuma suposição em mente.
“Ei, Yuuri, está tudo bem aí? ”
Silencio.
“Yuuri? ”
Nada.
Foi então que seu cérebro sonolento começou a se acelerar, e o pior começou a se passar por sua cabeça. Ele poderia ter caído e batido a cabeça durante o banho, ou passado terrivelmente mal e seu corpo estaria morto ali. Respirou fundo e tentou ser otimista. Talvez só tivesse dormido na privada.
“Estou entrando ”.
Abriu a porta e ficou momentaneamente paralisado, até finalmente cair joelhos.
Yuuri Katsuki estava caído sobre um chão ensanguentado, ao lado de um vidro de remédios completamente vazio e com os pulsos abertos.
Depois disso, tudo se tornou um borrão.
Não se lembra de detalhes. Apenas sabe que chamou uma ambulância e que dormiu o sono mais vazio de sua vida no banco do hospital.
No outro dia, espalhou a notícia para aqueles que precisavam saber dela.
E sua longa luta teve início.
~~
Nas semanas que se seguiram o incidente o caos foi instalado em seu mundinho particular. A família de Yuuri se hospedou temporariamente em São Petersburgo para ficar ao lado do parente e outros patinadores também vieram lhe visitar e lhe prestar apoio. Viktor decidiu que seria mais saudável permanecer afastado por algumas semanas, e assim não viu seu amado por um certo período de tempo.
Nesses dias em que se manteve ausente não deixou de visitar a praia uma única vez. Olhar para o mar lhe fazia lembrar de Yuuri e todos os momentos que haviam passado juntos. Não existiam muitas borboletas na Rússia, mas naquele meio de primavera uma corajosa decidiu se aventurar pelas plantas adormecidas que beiravam o oceano.
Observou-a pairar com dificuldade os montes de areia, suas asas escuras desafiando o poder do vento. Aquele era Yuuri agora: lutando contra o mundo a sua volta, batendo as asas contra uma tempestade.
E quem seria Viktor?
Quem seria aquece que permitiu que o desastre ocorresse?
Este seria como o oceano e o céu, um mero espectador de eventos, que se deixava afetar por aqueles que lhe admiravam, mas jamais era capaz de tomar uma atitude.
O sol nasceu mais uma vez no horizonte, e agora, Viktor teria de lutar para que Yuuri pudesse vê-lo novamente.
A borboleta já estava caída e não adiantava se lamentar pelo ocorrido.
Agora era hora de consertar suas asas.
Notas finais
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