Homem Borboleta

2 Dois — Homem dormente.


Notas iniciais
Olá, pessoal! Só queria dizer que estou muuuuuito grato pelos favoritos e comentários do último capitulo. Sério, vocês são demais. ♥ Espero que gostem desse capitulo, e desejo uma boa leitura xD

Depois de muitas discussões, foi decidido que Yuuri continuaria na Rússia para que pudesse ficar ao lado de Victor e de outros amigos que havia feito, pois era mais difícil falar de problemas com a família, e também poderia usar a patinação para se recuperar. Nas primeiras duas semanas, o médico aconselhou que não deixassem o moreno sozinho e que evitassem atividades físicas por causa dos fortes medicamentos.

Ninguém havia recomendado isso, mas Viktor decidiu mudar de apartamento por conta própria, dessa vez para um lugar com vista para a praia. Não conseguiu mais entrar no banheiro de sua antiga casa sem passar mal, e a reação em Yuuri seria ainda pior. Este protestou um pouco ao receber a notícia no hospital, mas no fim acabou concordando.

Na meia hora de viagem do hospital até a nova casa escutaram músicas que gostavam, revezando os turnos, e comentavam sobre cantores e bandas que descobriram nos últimos tempos. O moreno demorava para responder e tinha dificuldades na hora de falar, danos causados pelos fortes antidepressivos; também se mantinha sonolento, cochilando por um ou dois minutos algumas vezes e depois acordando novamente, lutando para manter o diálogo.

Conforme Viktor anunciava que estavam se aproximando do destino, seu amante ia ficando cada vez mais acordado, ansioso para conhecer o novo prédio onde moravam. Sentiriam muita falta da antiga casa, mas um apartamento na frente do mar facilmente poderia reprimir essa saudade. O moreno ficou boquiaberto ao ver o prédio, e sua surpresa foi ainda maior quando entraram no saguão.

Comparada as outras estruturas da região, aquela era simples e sem muito luxo. O apartamento deles havia reduzido de tamanho em função do preço, que aumentou razoavelmente. Só que quase nunca ficavam em casa e o cão muitas vezes acabava passando o dia com outras pessoas amigas que cuidavam dele, então já era uma habitação dentro do ideal familiar deles.

Mal pisaram dentro da nova casa e o moreno caminhou em passos rápidos até a janela, maravilhando-se com a nova vista e sorrindo bobamente. Isso aqueceu o coração do russo, que ficava feliz e aliviado de ver seu amado melhor do que quando o vira naquela cama, onde parecia completamente sem emoções. Correu até ele e o abraçou, também contente, e naquele momento de carinho puderam esquecer de seus problemas por alguns minutos.

— Eu amei o lugar. — Disse Yuuri. — É bem pequeno, mas isso faz com que ele seja parecido com o nosso ninho.

— Mas você só olhou a janela do corredor! Tem o resto da casa ainda.

— Só pelo que vi até aqui já amo este lugar! — O moreno deu uma olhadela em volta. — Cadê o Makkachin?

— Yurio está cuidando dele...

O moreno arregalou os olhos e por um momento deixou-se esvaziar daquele momento.

— Não vi mais o Yurio desde... — Yuuri se interrompeu, com medo de dizer aquelas palavras. Talvez nem ele soubesse ao certo o porquê de ter tomado aquela atitude. — Como ele está?

— Bem, um pouco assustado, mas bem. Aqui na Rússia nunca conversamos muito sobre o tema, e por isso ele acabou tendo más reações quanto a isso, e tivemos de explicar a ele sobre o assunto. Foi até te visitar um dia, mas você estava dormindo e ele começou a passar mal. Ficou um pouco arrasado, mas agora está se acostumando.

— Eu entendo... E os outros patinadores?

— Phichit insistiu em vir te visitar, mas eu pedi que esperasse um pouco mais de tempo. Sei que ele acabaria te bombardeando com perguntas desagradáveis. Os outros mandaram mensagens de apoio e Chris está insistindo para que a gente de encontre aqui um dia. Yurio já falou que se agrada com a ideia.

Yuuri tremeu um pouco diante da proposta de encontrar os velhos amigos e passou a encarar os próprios pés ao invés da bela paisagem. Viktor abraçou-o mais forte e lhe deu um beijinho delicado no pescoço.

— Vai ficar tudo bem, eu estou aqui.

O moreno tentou olhar na direção do outro diante dessas palavras, mas não alcançou os olhos do técnico devido a posição que estavam. Fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes, tentando espantar a ansiedade que ameaçava aparecer. Sentia vergonha e medo de encarar os velhos companheiros, pois poderia ser terrivelmente julgado. O suicido não era algo bem visto em nenhum país do mundo, e as pessoas não eram compreensivas sobre isso. Todavia, o que lhe deixava um pouco mais leve era Viktor, que estava sempre ao seu lado lhe dando todo o apoio que precisava, na medida do possível.

Talvez fosse por ele que estava tão feliz em morar ali naquele momento; não era a vista ou o lugar que lhe encantava e lhe aquecia o coração, e sim Viktor.

— Mas... — Continuou o homem de cabelos platinados. — Eles vão compreender se você não quiser. E também...

— Eu quero. — Interferiu Yuuri, voltando a olhar para o horizonte do mar. — Eu quero vê-los e dessa vez quero ficar mais próximos deles do que antes.

Viktor levantou o rosto e encarou o amado. Aquilo sim havia sido inesperado, para quem parecia tão assustado a segundos atrás. Mas era algo bom, significava que Yuuri não tinha mais intenções de se ferir, e que também queria uma vida completamente nova. Sabia que ele ainda podia decair, e por isso se esforçaria em estar ao seu lado em todos esses terríveis momentos.

— Quero dormir um pouco. — Anunciou Yuuri, finalizando o toque e se virando com um sorriso doce. Sua expressão era carregada do mesmo cansaço de mais cedo, como se fosse desmaiar a qualquer instante.

O homem de cabelos platinados acenou com a cabeça e segurou na mão de seu noivo, guiando-o até o novo quarto dos dois. A cama ainda era a mesma, mas o quarto também tinha uma janela voltada para o mar. Dormiriam todas as noites na companhia do oceano. Naquele momento deitaram-se juntos e abraçados, o técnico acariciando com capricho os fios negros do outro. Os corpos unidos estavam quentes e confortáveis, trazendo até mesmo uma sensação materna para ambos. Era o contato físico mais íntimo que tinham em dias, e queriam preservar aquele momento.

Ambos sabiam que uma hora teriam de conversar sobre o ocorrido, e que àquela hora estava chegando lentamente. Aquela primeira semana novamente juntos não seria a ideal, mas também não podiam deixar que esse tempo se prolongasse mais.

Naqueles primeiros dias de vida nova o foco seria na recuperação de Yuuri, em casa, ao lado de Victor.

Depois disso, pensariam em voar um pouco mais alto.

~~

Os três dias que se seguiram depois da chegada de Yuuri poderiam ser definidos por duas palavras: cobertores e filmes. E um Makkachin entre eles. Devido aos remédios fortes o moreno passava mais de quatorze horas por dia dormindo, e o tempo que se esforçava para ficar acordado era gasto assistindo filmes infantis ao lado do namorado. Nesse tempo nenhum pico de ansiedade afetou o japonês, e seu humor se manteve quase saudável e estável.

Ainda existiam momentos em que olhava para o próprio pulso e sua expressão se tornava assustadoramente vazia, mantendo-se assim por um longo tempo.

E quando isso acontecia o russo de cabelos platinados ficava assustado. Temia que o moreno fosse tentar acabar com a própria vida novamente, e esse medo lhe dominava por muitas horas depois que aparecia. Teve uma vez que, sem dizer uma palavra, tomou os pulsos do amante enquanto este os encarava e desenhou pequenas borboletas na região, que seguiam voando livres pelo braço, e em troca recebeu o sorriso mais bonito que conhecia. Sentiu-se orgulhoso de si mesmo na ocasião.

Viktor se apaixonou completamente por Mulan, a guerreira chinesa, e já Yuuri se deixou cair pelos encantos de Bambi, o príncipe da floresta. Aliás, estava pensando em usar uma música da trilha sonora do filme em seu programa curto. Passaram por infantis japoneses e russos, e aprenderam um pouco mais sobre outras culturas com isso. Depois de dias em animações infantis, o moreno insistiu que variassem um pouco. Foi então que juntos encontraram um filme deveras interessante de ação. Começaram sem muitas expectativas, e terminaram gritando de empolgação.

— Precisamos viajar para a América do sul. — Disse Yuuri, com os olhos brilhando enquanto se segurava para não gritar. — Que filme perfeito! Socorro!

— Sim! Eu já sabia que aquele velhinho era o atirador fodão, mas a história foi de arrasar mesmo assim. Aquela mulher estava lá para calar a boca dos homens que não acreditaram nela.

— Como foi aquele dialogo mesmo? Ah... estou surtando. Nunca imaginei que um país dessa região pudesse ser tão divertido. Você viu como o sol parece forte pra caramba lá? E quantas florestas tem? Eu realmente quero conhecer um país do Sul agora...

— Já fui para a África do Sul antes. Não fica na América, mas é igualmente lindo.

— Não vamos ter tempo para isso neste ano, né?

— Talvez. Eu posso arrumar.

— Obrigado!

Yuuri jogou os cobertores para o lado e saiu dando pulinhos em direção ao banheiro, animado. Viktor também se levantou, pois tinha de fazer a janta; estava feliz por ver o namorado transbordando de alegria depois de um simples filme. Cozinhou cantarolando uma música em sua língua natal e demorou para perceber que o moreno não tinha voltado para a cama, e sim se encontrava sentado na mesa atrás de si, lhe observando com um sorrisinho irônico.

— Não se incomode comigo. Pode continuar sua musiquinha.

— Correndo o risco de você me gravar? Nem fodendo. — O cão apareceu no cômodo e se deitou aos pés de Viktor, interferindo na conversa. — Olhe só, este preguiçoso...

— Parece com o dono... ficou sem treinar todos esses dias, não é mesmo?

Às vezes, quando se está muito alegre, é comum falar coisas levemente inconsequentes.

— Eu tinha que cuidar de você, né? Para não fazer besteira novamente.

Só percebeu o significado de suas palavras depois que já tinham saído. Virou-se para checar o moreno e este mordia os lábios em um sorriso forçado, não sabendo ao certo para onde olhar. O russo soltou uma risada também forçada e finalizou sua tarefa, colocando a sopa de Yuuri em uma tigela e sua própria comida em um prato, servindo ambos na mesa.

— Desculpe por dito isso. Hoje à noite está mais quente que as outras, não?

Por mais que ainda estivesse impactado, o moreno conseguiu levantar uma sobrancelha e fazer uma cara de ironia.

— Em algum momento é quente na Rússia?

— Estamos só na primavera. Logo o verão vai chegar.

E depois, o silencio permaneceu entre eles. Comeram calmamente, tentando evitar que um clima tenso se propagasse. Se auxiliaram para lavar a louça e seguiram novamente para a cama, acompanhados do cão. Às vezes Yuuri tinha a mania de entrar nos canais livres da Rússia e ficar navegando por eles, mesmo sem entender nada. Dizia que era engraçado e que se sentia mais integrado no país. Viktor só dava de ombros e realmente conseguia entender o que os jornalistas falavam.

Estavam passando por um canal de notícias quando o rosto de Yuuri apareceu na tela.

Acidentalmente pularam para outro canal, e o moreno fez questão de voltar.

Seu rosto desapareceu da tv no exato momento em que voltou ao canal, e diversas imagens de suicídio apareceram na tela.

Viktor demorou alguns segundos para interferir e desligar o aparelho.

Encarou o moreno, que estava com o olhar ainda paralisado na televisão, mantendo uma expressão neutra.

Uma lágrima solitária caiu primeiro, e então outras vieram acompanhadas de um grito desolador.

O russo correu para segurar o namorado, que agora abraçava os joelhos e se balançava freneticamente, chorando incessantemente.

O mundo era um lugar cruel até mesmo para um homem. Enquanto suas asas estivessem feridas o mundo insistiria em jogá-lo contra a tempestade.

Notas finais
Desculpe qualquer erro e espero que tenham gostado do capitulo. ♥ Por favor, sigam meu amigo desenhista nas redes sociais: Tumblr: http://hallostarr.tumblr.com/ Facebook: https://www.facebook.com/hallostarr?__mref=message_bubble Ele faz artes maravilhosas ♥ Até ♥