Homem Borboleta
3 Três — Asas instáveis.
Notas iniciais
Tiveram problemas para escolher o melhor termo para a reunião que fariam; aliás, reunião era péssimo, tinham decidido. Mas chamar amigos para conferir se o colega suicida estava realmente bem era um evento que não tinha nome. Que tipo de comida servir? Colocar ou não música? Como evitar um clima de festa e de funeral ao mesmo tempo? O moreno já estava exausto da preocupação excessiva do noivo, e decidiu acabar com todos os problemas.
Deixe as sensações nos levarem, disse, vamos saber o que fazer na hora.
Chamaram apenas os amigos íntimos, Yurio, Chris e Phichit, por motivos óbvios. Era uma noite fria de sábado e combinaram de se encontrarem por volta das oito. Passariam algum tempo no novo apartamento do casal para depois caminharem por parques e bosques da Rússia.
O moreno não estava com muitas expectativas para o encontro; na verdade, se sentia um bocado nervoso por ter de lidar com a situação. Já o russo corria de um lado para o outro, extremamente preocupado sobre como deveria agir e como deveria fazer os outros se comportarem para que não machucassem Yuuri.
A hora chegou e o casal se encontrava em frente a porta, cada um tremendo por seu próprio motivo. Os três convidados apareceram juntos, todos usando roupas casuais e mantendo um largo sorriso no rosto. Cumprimentaram com educação Viktor, mas se demoraram em um longo abraço com Yuuri. O patinador japonês percebeu que Yurio também tremia, e jurou ter visto lágrimas surgindo nos olhos dele.
Foram para a sala e sentaram-se, permanecendo longos minutos em silencio. Quem quebrou o gelo foi Phichit que elogiou a nova casa dos dois e perguntou por Makkachin. Chamaram o cão e este apareceu preguiçoso, esfregando-se de leve nos convidados.
— Ele é tão amável! — Comentou Phichit, acariciando com delicadeza o animal. — É como o filho de vocês...
— Pois é... E ele tem se adaptado bem a nova casa; estou feliz com isso. — Viktor comentou, olhando distraidamente para o animal. — Makkachin tem passado um bom tempo com Yuuri, também.
— Falando nele... como está se sentindo, Yuuri? — Chris jogou a pergunta principal no ar, se espreguiçando contra o sofá e tentando parecer extremamente relaxado.
— Vou preparar um chocolate quente para nós. — Anunciou Viktor, pronto para deixá-los a sós. Também tinham discutido muito sobre isso. O Russo acreditava que não deveria se intrometer em uma conversa pessoal como esta; poderia deixar seu amante apenas mais nervoso com sua presença, pois imaginava que existiam coisas que ele não queria que soubesse. Mas o japonês discordou completamente e teimou que só falaria qualquer coisa com o noivo presente.
E não estava mentindo.
— Assim que ele voltar nós conversamos sobre isso. — O moreno e o noivo se encararam de forma quase agressiva por poucos segundos, até Viktor seguir para a cozinha. Se sentiu na obrigação de puxar assunto. — O que vocês têm feito desde o mundial?
— Decidi tirar uns dias de descanso, mas já voltei a treinar. — Respondeu Chris primeiro, cruzando as pernas e ficando mais energético. Provavelmente estava preocupado pois estava ficando mais velho e ainda não havia ganhado o ouro.
— Eu não participei, então... tenho apenas me esforçado para o Grand Prix. — Phichit sorriu, entusiasmado. — Dessa vez quero ser ainda mais surpreendente.
Esperaram pela resposta do loiro, o campeão do mundial, que não veio. Seus olhos estavam perdidos em outra dimensão, seja lá qual fosse. Parecia cada vez mais abalado desde que havia chegado, e os outros começaram a perceber isso. Yuuri não insistiu na mesma pergunta; apenas começou a falar sobre outro assunto, como se tudo estivesse bem. Algum tempo depois Viktor apareceu com as bebidas e a hora chegou.
Não disseram mais nada, apenas olharam para o moreno em expectativa, revelando o verdadeiro humor em que se encontravam: pânico, apreensão, ansiedade, e outros não muito bons.
— Bem... a verdade é que me sinto em uma montanha russa. — Começou o rapaz, falando lentamente, escolhendo bem as palavras e se dividindo entre falar, respirar e bebericar seu chocolate quente. — Existem momentos em que me sinto completamente bem com tudo, imagino um futuro brilhante pela frente para mim e sou cheio de esperanças. Em outros, tudo é uma escuridão que é apenas formada dos meus erros do passado, que me perseguem e tentam me enforcar. Existem de situações de neutralidade, sim. O problema real é o desespero, é ele que me faz tomar decisões inconsequentes. Ele surge da escuridão que falei, e parece impossível me livrar dele. — Deu um longo gole em sua bebida e passou a olhar o nada. — Se ele fosse uma pessoa, seria como um perseguidor, nunca me deixando viver em completa segurança.
Finalmente o moreno teve coragem para encarar os outros, e todos estavam de cabeças baixas. Menos seu noivo. Este lhe encarava com lágrimas nos olhos e tremia por alguma razão; o russo de cabelos platinados pediu licença educadamente e caminhou em direção ao banheiro, sendo seguido pelo cão, que sentiu a dor do dono e agora se encontrava preocupado com ele.
Yuuri ia se levantar para ir atrás de Viktor, mas sentiu-se ser segurado por alguém. Era Yurio, que continuava olhando para baixo, mas que parecia disposto a falar algo.
— Eu quero caminhar com você. A sós. Por favor. — Sua voz era baixa e fraca, e parecia quase estar entrando em pânico. O moreno olhou para os outros dois, que lhe acenaram com a cabeça. Cuidariam de Viktor enquanto ele iria atrás de Yurio. Colocaram seus casacos e saíram do prédio em silencio, caminhando pelas ruas de São Petersburgo sobre um céu noturno e um clima frio.
~~
Respirar o ar puro da noite acalmou o moreno. Eram tantos carros, tantas luzes, e a frente de ambos estava o mar, que trazia um leve aroma salgado consigo. Sentaram-se em um dos bancos que ficavam próximos da praia e observaram as estrelas.
— Eu me pergunto se não consigo entender porque sou novo ou porque me falta empatia. — Disse o loiro, distraído. — Já me imaginei passando por diversas situações na vida, mas nunca algo como isso. Quem me ligou pela primeira vez para dar a notícia foi o Victor. Eu escutei a notícia e fiquei numa confusão estranha. Sempre tinha ouvido falar de tentativas de suicídio, mas sempre me pareceu um problema distante.
O loiro ficou em silêncio, então Yuuri achou que já era sua vez de falar.
— Bem, no Japão o índice de suicido é alto, então...
— Quieto! Ainda não acabei. — O moreno quase reclamou da grosseria, até prestar atenção que que a voz do outro estava embargada. Olhou-o com mais atenção e percebeu que lágrimas brotavam em seus olhos. — Eu fiquei tão assustado. Por mais que eu imagine muitas coisas, não consigo imaginar um desespero tão grande a ponto da pessoa... — Yurio começou a soluçar no meio das palavras, sendo silenciado pelo próprio choro. —... tentar acabar... com a... própria... vida.
O moreno nunca imaginou que um dia iria ver Yurio chorando, tão frágil e ferido, como via naquele momento. Não tinha parado para pensar que sua atitude tinha causado sofrimento em tantas pessoas, nem mesmo que o loiro de importasse com ele. Mas isso era culpa do complexo de inferioridade que o ajudou a caminhar para a tentativa de suicido. Mordeu os lábios e se segurou para não chorar também; o aperto no peito e a falta de ar da ansiedade já começavam a se fazer presentes.
— Desculpe. Eu não estava pensando direito, eu... Não é minha culpa.
O loiro virou-se para ele e soltou uma gargalhada forçada, enquanto lágrimas ainda lhe escorriam pelo rosto.
— É claro que não. Eu não disse isso. Ninguém tem culpa de sentir angustia e desespero. Eu é que me sinto extremamente culpado. Fico pensando se todo os momentos em que fui grosso com você te ajudaram a ficar assim. Qual é a minha parcela de culpa. — Ele secou o nariz com a blusa e fungou, voltando a soltar um soluço. — Desculpe, desculpe se fiz algo de errado, não era minha intenção. Posso parecer indiferente a você, mas realmente me importo... Não quero te ver morto... Eu...
O moreno calou o amigo com um abraço apertado, enquanto suas lágrimas também caiam...
— Eu não queria, eu nunca quis... — Começou Yuuri, desesperando-se. — Eu não queria te machucar, eu estava tão assustado, eu...
Antes que terminasse a frase, alguém falou algo em russo muito próximo de si. Foi então que percebeu que muitas pessoas estavam ao redor dos dois, observando com uma intrusa curiosidade.
Isso foi o gatilho perfeito.
Primeiro Yuuri sentiu uma dor forte no peito, e depois a falta de ar seguida do pânico. O mundo parecia fechar ao seu redor e todas as pessoas pareciam prestes a lhe caçar. Em uma última olhadela para Yurio, este estava com os olhos arregalados e com o telefone na mão, provavelmente pedindo a ajuda de alguém.
Mas estava assustado, e como toda a presa, precisava correr. O fez, seguindo pelo calçadão do beira-mar, batendo contra seu público e atravessando a rua inconsequentemente, com a visão bloqueada pelas lágrimas. Escutou um som de freio seguido de uma batida leve contra sua perna. Gritou e caiu, sendo xingado pelo motorista do carro. Nenhum osso havia sido quebrado, então tornou a seguir seu desespero, finalmente chegando do outro lado.
Continuou sua corrida por mais alguns minutos, até tropeçar e cair no chão. A falta de ar já lhe sufocava completamente e sentia-se desmaiando. Mais pessoas pararam a seu socorro, e sentiu vontade de gritar. Já ia se levantando para fugir novamente quando sentiu mãos fortes lhe segurarem com brutalidade e lhe recolherem no colo.
— Yuuri? Yuuri?
Reconheceu a voz quente e acolhedora do amado e então agarrou-se contra ele com força, assustado. As pessoas continuavam lhe olhando como se fosse louco, mas com Viktor ao seu lado nada disso importava. Afastou-se para poder encarar o noivo e viu no olhar deste a raiva.
Antes que pudesse entender, Viktor já estava gritando com as pessoas em sua língua natal. Estas aos poucos foram ficando horrorizadas, e não precisava entender russo para saber que elas estavam sendo xingadas. Porém, o espetáculo só estava ganhando mais público, e Yuuri percebeu que o noivo não pretendia acabar aquela discussão tão cedo. Teria de implorar.
— Por favor, vamos para casa. Pare com isso.
Viktor encarou aquele que estava em seu colo por alguns segundos, como se tivesse esquecido que estava carregando alguém. Logo o arrependimento tomou conta de sua face e acenou com a cabeça, fazendo o caminho de volta para casa.
Não sem antes fazer um gesto obsceno com as mãos para a plateia.
~~
Com delicadeza fora colocado na cama. Ainda tremia, mas a sensação de que o mundo estava se fechando ao seu redor estava diminuindo. Já podia respirar, mesmo continuando assustado. Os três visitantes estavam na porta do quarto, observando, assustados. Não tinha visto Yurio voltar, só percebeu que este estava com uma expressão mais derrotada que antes.
Viktor apareceu segurando um copo de água em uma mão e remédios em outra. Conhecia bem aquelas cápsulas. Eram os remédios que o médico havia aconselhado a dar em caso de ataque. Com sua melhora dos últimos dias a quantidade de pílulas tinha diminuído, e graças a isso conseguia se manter acordado por mais tempo e se sentir disposto.
Não queria voltar a ficar dormente, sendo dominado por remédios.
— Por favor Viktor... Não... eu não aguento mais...
O russo de cabelos platinados deixou escapar um soluço e mordeu os lábios para segurar o choro, aproximando os remédios.
— É para seu bem, meu querido. Só agora, eu prometo... amanhã não tem que tomar de novo. Só que agora está alterado, me ajudaria muito se colaborasse.
Yuuri respirou fundo por alguns segundos e tentou manter o controle. Por mais que continuasse ansioso, estava se esforçando para se acalmar. Mesmo depois do ataque queria provar que estava melhorando.
— Eu sinto muito, de verdade, pelo que fiz, mas... eu tenho que aprender a me acalmar sozinho. Se eu sempre depender de remédios, nunca vou me controlar. Por favor, já estou assustado...
O noivo lhe encarou por alguns segundos, questionando-se qual seria a decisão correta a tomar. Por fim respirou fundo e se esforçou para sorrir.
— Tudo bem, tudo bem... mas vou pedir para que fique no quarto repousando. Pode assistir a filmes. Vou terminar minha conversa com os outros.
Yuuri deitou-se na cama e recebeu um beijinho carinhoso de Viktor na testa, que lhe cobriu com cuidado e colocou um desenho infantil na TV. O moreno acenou para o trio da porta e pediu desculpas. A luz foi desligada e a porta fechada, e então mergulhou na sua própria solidão.
A pequena borboleta agora já tentava voar mais alto, porém, com as asas ainda feridas, acabava por cair, dominada por seus medos. Almejava pelo dia que seria mais forte.
Quando este dia chegasse, ousaria atravessar o vasto oceano.
Até lá, teria de se recolher em sua pequena insignificância.
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