Homem Borboleta

4 Quatro — Amantes do oceano.


Notas iniciais
Obrigado pelos comentários e acompanhamentos, pessoal ♥ Boa leitura

Poucos dias depois do reencontro de Yuuri com seus amigos foi decidido que este poderia voltar a patinar, finalmente. Viktor podia ver a ansiedade e o entusiasmo de seu noivo em entrar em uma pista novamente por ações sutis, como apertar as mãos, balançar a perna freneticamente ou então morder os lábios, e também pelo fato de que desde que haviam acordado o moreno não falava em outra coisa, massivamente. Se fosse qualquer outra pessoa fazendo isso se sentiria cansado e daria um fora nesse alguém, porém, como era alguém que amava tanto, suportava as falas repetitivas.

Haviam acordado excessivamente cedo naquele dia pois queriam assistir ao nascer do sol no oceano e conversar seriamente sobre tudo. Já estavam vestidos e com Makkachin preso a uma coleira, prontos para passear. Mas sentia medo de dar um passo à frente; seria um dia essencial na evolução da recuperação de Yuuri e sentia não poderia cometer um erro sequer. Foi o moreno que puxou sua mão com um pouco mais de força e lhe tirou do apartamento, se não poderia ficar ali parado por um longo tempo, apenas sendo reprimido por seu temor.

Um vizinho se encontrava no corredor, observando os dois com excessiva atenção. Se incomodaram com o olhar e reforçaram o aperto nas mãos, que estavam dadas. Desceram para o saguão principal e saíram para a rua.

São Petersburgo era vazia antes do amanhecer. Poucos carros e pessoas passavam, e a cidade ainda se encontrava cheia de luzes por todo o lado. Atravessaram a avenida e seguiram para a praia com certa dificuldade, pois o cão de encontrava muito preguiçoso e andava lentamente. Pisar na areia do mar, mesmo que sob sapatos, foi uma ótima sensação para Viktor; fechou os olhos e respirou o ar salgado da água, sentindo seu coração bater mais forte.

Nos últimos tempos aquele odor e aquela vista lhe eram comuns; era seu local de descanso e de paz, onde poderia parar e refletir sobre todos os acontecimentos que lhe cercavam. Sempre ia sozinho e a ideia de compartilhar seu local sagrado de resignação era um pouco agressiva. Ao mesmo tempo queria dividir aquela paz de espírito com o noivo, que já se encontrava encantado e concentrado no imenso horizonte.

Encontrou um lugar limpo na areia que era próximo da água e ali se sentou com o cão, que pareceu agradecer por terem tirado um descanso depois de uma longa caminhada de cinco minutos. Yuuri demorou um pouco para lhe acompanhar, ocupado olhando em volta, e então novamente para o oceano. Parecia estar pensando em algo importante.

Imaginou como os pensamentos do outro deveriam ser repletos de sentimentalismo e de reflexão, e quis poder fazer parte daquilo...

— Ei... — Começou Yuuri, como se lesse seus pensamentos. — A gente poder comer quando chegar em casa? Me bateu uma fome do nada.

Soltou uma risada rápida e acariciou o cão.

— Eu falei para você tomar café. O frio da fome.

— Isso é verdade?

— Acho que não. É que seu organismo deve estar voltando ao normal mesmo, já que voltou a comer coisas sólidas.

— Olha, vou ser sincero... eu estava com muita saudade de Katsudon. Engordei quatro quilos desde nosso encontro com os rapazes.

— Também... você anda comendo o dia todo porcarias, né?

— Eu estava com saudades de comer essas coisas, e estou aproveitando para sair um pouco da dieta enquanto não volto a patinar a sério.

— Não tem problema em comer as porcarias, de verdade... você ainda está muito magro.

E era verdade. O moreno se deitou ao seu lado, olhando o céu, e mesmo com várias camadas de roupa dava para perceber o quanto ele havia emagrecido nos últimos meses. Preferia mil vezes vê-lo acima do peso do que daquela maneira; sentiu-se culpado por quando o fez emagrecer a força, a um ano atrás, para que pudesse voltar a patinar. Estava privando Yuuri de uma coisa que lhe era essencial para controlar sua ansiedade.

Lembrou-se que naquele mesmo dia voltariam a patinar. Engoliu em seco e ficou ansioso para correr logo para seu assunto principal.

— Acho que não vou voltar a patinar como competidor.

Yuuri lhe encarou com uma expressão surpresa e veio se deitar encostado ao seu corpo. Tremeu levemente com o toque. Fazia quanto tempo que não trocavam caricias mais diretas? Arriscou-se a segurar a mão do noivo, que aceitou o toque sem protestos.

— Não conversamos sobre isso no fim do ano passado? Achei que esse fosse um assunto já resolvido...

— É que depois dos últimos acontecimentos não sei se tenho tempo de treinar. Vou ter que ser seu técnico e ficar de olho em você.

— Ei, não sou nenhuma criança que precisa de baba. Você pode ir treinar que eu consigo ficar sozinho em casa.

— Como da última vez? Não posso mais arriscar sua vida, desculpe, Yuuri.

O moreno bufou e se afastou do noivo, se levantando e caminhando em direção ao mar. Viktor logo lhe acompanhou, perdendo sua mente no horizonte. Tudo aquilo lhe era tão cansativo, e estava tão longe de acabar... Muitas vezes pensava que não conseguiria resistir, que não encontraria forças e teria de fugir; mas então, quando seu olhar se encontrava com o daquele que tanto amava, sabia que poderia ser capaz de tudo. Respirou fundo algumas vezes e sorriu.

— Sei que parece uma realidade cruel para você, querido, mas é o novo caminho que vamos ter de trilhar. Tem de aceitar isso.

— Eu não vou competir se você não competir também.

— Você está sendo teimoso.

— E você não?

Viktor não pode conter uma expressão de frustração e seriedade, que assustou um pouco Yuuri.

— Tenho vinte e oito anos. Antes de te conhecer eu tinha passado por poucas emoções verdadeiras na vida, que você fez questão de ir mostrando aos poucos. Dentre elas está o desespero, é claro. Eu sei que não foi sua culpa o que aconteceu, mas não quero passar por isso novamente. Não mesmo.

O moreno ficou um pouco perplexo com a intensidade daquelas palavras e por isso ficou quieto, apenas observando o oceano. Viktor conhecia aquele olhar. Estava procurando uma boa solução em sua mente, de forma que não ferisse ninguém.

— Sabe... — Continuou o Russo, também se deixando perder no horizonte. — Não tem como eu não me sentir culpado. Você já estava se comportando de maneira estranha a muito tempo e eu ignorei tudo isso por muito tempo, apenas por cansaço. Não quero isso de novo, nem para você nem para mim...

O moreno deu um sorriso triste.

— A pessoa que eu mais pensei em todo aquele tempo foi em você, Viktor. Eu tentava me manter forte por você, resistir por você, viver e lutar por você... Mas infelizmente o desespero foi maior. Não consegui resistir. Mas agora, depois de passar por tudo não sei se seria capaz disso novamente... eu QUERO lutar.

— Eu sei, vejo em todas as suas ações a sua luta. Mas sabe? Seria irresponsabilidade minha te deixar sozinho... Se você pudesse ficar na casa de alguém, ou então arrumar alguma coisa para fazer no fim de tarde para a noite...

O rosto de Yuuri se iluminou, encontrando uma solução imediata para a proposta.

— Vamos fazer uma rotina assim: De manhã você me treina até a hora do almoço. No período da tarde você tem seu treino com Yakov e eu vou fazer um curso de sei lá... Russo? E passo um pouco de tempo sozinho. Quando estiver anoitecendo fazemos os exercícios físicos juntos.

Viktor surpreendeu-se, levantando uma sobrancelha.

— Isso foi muito rápido para ter sido pensado agora. Faz quanto tempo que pensa nisso?

O moreno corou um pouco, evitando encarar o noivo.

— Por mais que eu saiba algumas palavras me sinto extremamente deslocado aqui. Quero andar na rua e entender o que estão falando. Quero ir para o treino e participar das conversas. Eles não são obrigados a falar em inglês por mim. Foi com esse pensamento que queria começar um curso de Russo desde antes do acidente, mas tudo aconteceu... E desde que soube que eu poderia voltar a patinar tenho tentado criar uma rotina boa.

— Bem, realmente seria ótimo. E eu também poderia te ajudar em uma coisinha ou outra. E com a rotina que você criou você passaria um curto tempo sozinho... eu gostei dela. Acho que a aceito. Com uma condição.

Yuuri ficou de frente para o noivo, para provar que prestasse atenção.

— Vou te ligar duas ou três vezes no tempo que estiver sozinho. Só para saber se você realmente está ok. Tudo bem? — O outro ficou radiante, acenando e quase dando pulinhos. — E isso ainda é irresponsabilidade da minha parte... se qualquer coisa acontecer com você, eu...

— Não vai. — O outro lhe cortou no meio da frase. — Acredite em mim, que vou vencer a luta. Você é tudo o que tenho aqui...

Por mais que aquela frase tivesse sido proferida em tom amistoso, acabou se sentindo culpado. Encostou sua testa na do outro e fechou os olhos, permanecendo assim por alguns segundos. Tinha medo de avançar para um toque mais profundo, e enquanto se encontrava perdido em seus pensamentos sentiu lábios alheios tocarem os seus.

Seu coração acelerou como se fosse um adolescente que fizesse aquilo pela primeira vez, mas não demorou para se soltar e corresponder aos beijos, passando os braços sobre o corpo do outro.

O mar assistia com atenção ao amor dos dois, curioso e orgulhoso de seus amantes. Aquele não era o primeiro casal que via se beijar, mas era um dos poucos em que encontrava amor verdadeiro.

Em algum lugar distante do oceano uma borboleta jovem voou, pronta para partir em uma longa jornada.

Notas finais
Sim, esse capitulo foi mais calmo... Espero que tenham gostado mesmo assim. ♥ Até mais.