Homem Borboleta
5 Cinco — O amanhecer das sensações.
Notas iniciais
Patinar no gelo, para Yuuri, era mais que um simples esporte. Era como respirar, era parte da razão de sua existência e de seu viver. Estar sobre patins lhe transformava completamente de um homem simples para um ser que podia sentir e apreciar todos os elementos a sua volta. Era seu refúgio para os momentos de desespero.
Não conseguia colocar em palavras o que patinar lhe significava.
Acreditava que quando retornasse para a pista sua recuperação estaria finalmente completa. Era a única coisa que lhe faltava. E por isso se encontrava tão ansioso desde cedo; queria sentir a força dos patins contra seus pés, a pressão da lamina contra o gelo, como seu corpo se tornava leve como o de uma borboleta ao patinar. Sentia saudades de todas essas sensações.
Finalmente a hora tinha chegado. Colocar os patins novamente fez seu coração bater mais rápido; mordeu os lábios para controlar a ansiedade e seguiu com o noivo para a pista de patinação. A cada passo queria sair correndo e se jogar contra o gelo, entregando-se completamente a sua paixão, mas sabia que tinha de ser paciente. Ainda faltava cumprimentar os outros patinadores que sempre treinavam perto dele.
Neste dia a pista estava fechada para o público por culpa de seu retorno. Apenas Mila, Yuri e Yakov se encontravam nela treinando; Georgi estava fora em uma viagem. Antes que entrasse, a ruiva abandonou as instruções que seu técnico lhe dava e correu para lhe dar um longo e apertado abraço. O homem velho não se irritou com isso, apenas se aproximou para lhe cumprimentar, um tanto sem jeito. O loiro pareceu tímido e sequer olhou em sua direção.
— Yuuri, como você está? Não te vejo desde o hospital... estava tão preocupada... — Disse a ruiva, sempre sincera e atenciosa. — Não pude conversar com Viktor nos últimos dias, e Yurio se recusa a falar sobre você. Ele anda muito rebelde ultimamente...
— Estou bem melhor. Muito obrigado pela sua preocupação, Mila. — Respondeu o rapaz, com um sorriso sincero e retribuindo o abraço.
— Agora você finalmente vai deixar minha criança prodígio treinar sem ficar preocupado? — Perguntou Yakov, soltando uma risadinha e tentando fazer parte da conversa.
— Está falando do Yurio?
— Não, do Viktor. Eu estava morrendo de saudades de treinar ele, sabe? Não pode roubá-lo só para si. — O tom de voz do senhor estava debochado, sem sinais de julgamentos ou repreensões, mas Yuuri percebeu que o noivo não gostou do comentário. Antes que esse falasse alguma coisa, decidiu brincar também.
— Nah, eu não me importo de deixa-lo treinar. Antes eu estava um pouco inseguro quanto a isso e decidi atrasar o treino dele, mas agora já tenho certeza que vou vencê-lo mesmo. Ele é todo seu.
Isso fez o humor de Viktor relaxar; este deu uma risadinha e um tapinha em seu ombro.
— Ora, seu...! Quanta ingratidão. Te treinei por pura bondade e é isso que faz comigo?
— Reclame menos e faça mais. — Brincou o moreno, passando por Yakov e Mila e entrando na pista de patinação. Quase caiu inicialmente, mas ao retomar o equilíbrio fez uma pose cômica e mostrou a língua para Viktor. — Quero ver fazer melhor que isso.
Mila e Yakov voltaram à suas posições de antes aos risos, enquanto Viktor lhe encarava com as mãos na cintura, sentindo-se verdadeiramente desafiado.
— Você se lembra do que aconteceu da última vez que você me desafiou no gelo, né?
— Brevemente. Minha memória está fraca, você sabe. — Falava o moreno enquanto dava rodopios provocadores. — Acho que você perdeu?
— Eu vou te mostrar quem perdeu. — Disse o noivo, levantando uma sobrancelha e entrando na pista. Correu em sua direção com a graça e a suavidade de um cisne. Ficou tão encantado com os movimentos que sequer tentou fugir. Apenas admirou cada passo que o amado fazia sobre patins. — Ei, não vai brincar?
Nos últimos meses antes do acidente, toda vez que via Viktor patinar era como se algo em si mudasse. Não seria bom o suficiente, jamais seria como ele, aquele que tanto admirava. Não importava o quanto se esforçasse, jamais seria como ele. E era com pensamentos assim que sua insegurança crescia e seu humor ficava estranho. Já não tinha mais vontade de brincar, e estava com medo de patinar na frente daquela quantidade de pessoas. Seus pensamentos deviam estar estampados na cara, pois o homem de cabelos platinados parou no meio do caminho, parecendo preocupado.
— Ei, Yuuri, está tudo bem?
— Ah, sim, está sim... Só não quero brincar mais. Não agora. Quero patinar um pouco no canto, sozinho.
Seu noivo mordeu os lábios, inseguro sobre que atitude tomar, mas então assentiu, concordando em lhe deixar sozinho. Ficou extremamente grato por aquilo. Seguiu para o lado vazio da pista e ficou alguns segundos parado, apenas encarando o gelo sobre seus pés. Então fechou os olhos e respirou fundo, deixando-se dominar pelas sensações.
Deu algumas voltas simples e aleatórias pela pista, para poder se acostumar novamente com a sensação de patinar, e depois de fazer um bom reconhecimento iniciou seu show interno. Como uma borboleta jovem saindo do casulo, cheia de graça e esperança, rodopiou sobre as laminas, por toda sua extensão da pista. Logo, era um com o vento e o céu, o oceano e o sol. Conseguia sentir a brisa fria que entrava pela janela, pequenos pontos de aquecimento nas partes da pista em que o sol da manhã batia, a força que seus músculos tinham de fazer para realizar os movimentos. Tudo era muito claro e profundo.
Não gostava de sentir inveja do noivo, era um sentimento que considerava completamente errôneo, mas ao mesmo tempo parecia inevitável. Ele era seu ídolo desde a infância, gostava de imitá-lo e sonhava em um dia ser como ele. Mas agora que estavam lado a lado e conhecia as verdades do mundo da patinação, sabia que as coisas não eram assim.
Cada patinador era único e tinha uma história única. Havia encantado a todos na última final do grand prix, mas porque Viktor Nikiforov não estava competindo. Agora seria apenas ofuscado pelo seu brilho e esquecido por todos.
Não.
Não podia pensar dessa forma. Tinha de se esforçar para impressionar Viktor e deixá-lo orgulhoso. Acima de tudo o amava e não queria decepcioná-lo. Ele fizera uma pausa por sua causa e agora estava finalmente voltando. Não podia deixá-lo com receio de competir.
Era sua vez de brilhar para o mundo e ...
Muito repentinamente sentiu-se fraco e suas pernas perderam a força, logo em um salto. Como esperado, não conseguiu se equilibrar e caiu no chão com um baque surdo. A dor foi instantânea; havia batido a cabeça. Antes que pudesse fazer qualquer coisa foi levantado e segurado por alguém.
Era Viktor, tinha certeza.
— Yuuri, está bem? O que aconteceu?
A visão do mundo estava levemente borrada, mas o foco retornava aos poucos.
— Sim, eu só me desequilibrei....
— Você bateu a cabeça, eu vi.
Não precisava ser muito inteligente para imaginar que Viktor estava lhe vigiando esse tempo todo.
— Mas também... — Continuou ele. — Quem patina de olhos fechados?
Ia retrucar de uma forma mais grossa, sentindo-se julgado, mas ao prestar atenção na expressão do outro, percebeu que esta era carregada de preocupação. Sorriu amistosamente e acariciou a face do amado.
— Querido, todos os patinadores caem no gelo e batem com a cabeça alguma vez. Já me aconteceu antes. Foi apenas um erro de cálculo, tudo vai ficar bem.
Livrou-se com educação dos braços de Viktor e se levantou.
— Podemos começar o treinamento agora?
Sabia que estava sendo observado pelos outros três patinadores ali presentes e que o noivo estava se sentindo contrariado, queria argumentar alguma coisa, mas este mais uma vez se calou.
Yuuri tinha que voar, e Viktor sabia disso.
Só não tinha certeza se o moreno estava voando da maneira correta.
~~
Duas semanas se passaram e por mais que ainda faltasse um tempo considerável, já podiam sentir o verão que se aproximava. Yuuri havia começado o curso de Russo e estava indo muito bem; tinha ótimos colegas de sala, em sua maioria estrangeiros, com os quais já estava aprendendo a se soltar e socializar. Passava um tempo mínimo sozinho, no qual Viktor lhe monitorava o máximo que conseguia.
No geral, estavam reconstruindo sua rotina de forma harmoniosa.
Em mais uma manhã acordava sobre quentes lençóis, de conchinha, uma posição rotineira e confortável. O moreno agora era sempre o primeiro a despertar, e se aproveitava disso para fitar o amado enquanto ainda estava dormente. A pele de Viktor era extremamente macia aos olhos de Yuuri, e apreciava acaricia-la em todas as oportunidades que podia. Só que era tímido demais para investidas tão diretas, então contentava-se em apenas olhar.
Desde o incidente o máximo que haviam trocado eram beijos um pouco mais quentes, porém nenhum dos dois se arriscava a tentar algo mais. A primeira vez dos dois levara meses para acontecer devido a timidez de Yuuri, pois eram desconhecidos; depois que a relação dos dois sofreu uma quebra, era como se tivessem voltado para esse patamar e teriam que ter uma “primeira segunda” vez.
Só que ninguém tomava uma atitude. Até então.
Talvez fosse os efeitos remédios que haviam se estabilizado com seu organismo, ou então apenas um desejo que tinha vergonha de assumir, mas estava cada vez mais querendo voltar a fazer “aquilo” com seu noivo. Seu corpo, seu coração e sua mente pediam por isso. Só não sabia como contar isso para Viktor, ou demonstrar.
Naquela manhã em especial, enquanto admirava os fios platinados do noivo, algo em seu coração pediu por mais. Arriscou-se, como uma criança atrevida, a tocar de leve a pele do outro; este reagiu levemente ao toque, mas logo voltou ao normal, aceitando a caricia. Isso deu a liberdade que o moreno esperava para passar as mãos por toda extensão da costas e pescoço do homem, admirando sua maciez e sua quentura.
Antes que pudesse perceber, Viktor despertava e lhe atacava com um abraço carinhoso, lhe dando diversos beijinhos por toda extensão do rosto. Ficou tímido e tentou esconder sua excitação, mas antes que conseguisse o outro esbarrou acidentalmente no meio de suas pernas, percebendo o que estava acontecendo.
A reação do noivo foi a esperada. Este hesitou por alguns segundos e depois sorriu; não um sorriso sedutor, malicioso, típico em que se dá em situações como está, e sim um gentil, compreensível, nada excitante. Com uma atitude de respeito, Viktor já ia se afastando, com medo de tomar uma atitude errada, todavia Yuuri segurou em sua mão e o puxou de volta.
— Eu quero. — Disse, com certeza. Sua expressão quase se deixou abalar pela vergonha por alguns segundos, mas escondeu isso e manteve-se firme na decisão. — Eu realmente quero.
Os dois se encararam por aproximadamente meio minuto. Sem dizer uma palavra, o noivo pegou sua mão, a que se encontrava o anel, e a beijou com carinho. Sorriu e subiu a trilha de beijos pelo braço, até chegar no pescoço. Ali depositou chupões leves e gentis, que não deixavam manchas, e então voltou a olhar firme em seus olhos.
— Você tem certeza que está preparado para isso, querido?
Não desviou o olhar mais uma vez, tentando parecer decidido.
— Tenho. Mas só se você quiser, é claro.
Viktor sorriu mais uma vez, e dessa vez seu sorriso se tornou levemente sedutor, ainda que seus olhos tivessem hesitação.
— Eu quero, é claro que quero. Só que não quero forçá-lo a nada, quero que faça tudo em seu tempo. Eu te amo e espero que perceba isso.
— Não está me forçando. A hora apenas chegou. Por favor, Viktor... — Implorou, se jogando nos braços do amado. — Vamos fazer amor.
O homem de cabelos platinados não disse mais nenhuma palavra. Apenas atacou os lábios do amado com desejo, unindo seus corpos e corações.
Naquela manhã se amaram e se entregaram um ao outro, consertando mais algumas feridas, provando o quanto se amavam e quanto precisavam estar juntos.
Prazer, calor, delírio, perfume. Eram todos elementos que enevoaram suas mentes por um tempo precioso.
A borboleta dançou para o oceano com toda sua sensualidade simples e gentil, típica das borboletas, e esse lhe entregou todo o prazer que havia segurado até então.
As sensações daquela manhã ficariam na lembrança para sempre.
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