Homem Borboleta

6 Seis — Feridas abertas.


Notas iniciais
Oláa, é com muita vergonha que venho postar esse capitulo depois de todo esse tempo. Comecei a fazer cursinho pré vestibular, e vou ter que focar muito nos estudos agora. Vou conversar cobre meus planos mais tarde, nas notas finais. TWs do capitulo: homofobia, violência. Por favor, não me batam por um capitulo tão bad. Estou tentando retratar diversas realidades aqui, e essa é uma delas. Boa leitura ♥ (E obrigado por todos os acompanhamentos, favoritos, comentários e essa recomendação, adoro esse carinho. ♥)

Em todas as memórias de sua infância lembrava de uma Rússia fria e cheia de neve. Tudo tinha um estranho tom de branco, cinza e negro. E de azul, pois sempre estivera habituado a assistir o oceano. Por mais que existisse verão no país, não tinha recordações claras de gramas verdes, animais coloridos ou um céu limpo. Era como se todas as cores tivessem sido apagadas de sua lembrança, roubadas de si.

Quando cresceu, as cores não existiam pois estava ocupado demais ascendendo como patinador, e então não tinha tempo para notá-las. Nesse ponto de sua vida, até os tons escuros e mórbidos desapareceram, e só então percebeu que apesar de melancólicos, eles ainda conseguiam lhe trazer um pouco de felicidade. Deveria ter percebido isso quando ainda era tempo; mas é como dizem: Só se descobre o valor de uma coisa quando a perde.

Só que talvez não fosse sua culpa, afinal, sua infância não tinha sido nada fácil.

Havia sido criado pela mãe. Apenas pela mãe; uma mãe solteira. O pai havia a engravidado, e antes que pudessem se casar, ele faleceu em um acidente de emprego. Era bombeiro, se sua memória não estivesse falhando. E mesmo que todos da vizinhança soubessem disso, ainda viam como desonra uma mulher engravidar antes do casamento.

Por culpa disso passara a infância assistindo a mãe se afundar na depressão, com dois empregos nas costas e uma criança para criar. Como ela não tinha tempo para cuidar do filho, o colocara em uma academia de patinação artística, apenas para que este se sentisse menos solitário, sem intenções de torná-lo famoso ou coisa assim.

E o resultado fora Viktor Nikiforov, um dos maiores patinadores do mundo.

Não que depois disso tudo tenha se tornado feliz. A mãe morrera quando tinha apenas quatorze anos. Os médicos nunca lhe disseram o motivo real da morte, mas algo dentro de si sabia que estava relacionado ao excesso de trabalho. Como já estava ganhando fama no mundo da patinação foi acolhido por tios que antes não mantinham contato, apenas por interesse. Não foi uma convivência terrível, mas não poderia ser chamada de agradável. Assim que se tornou maior de idade, foi morar sozinho.

Quando estava quase desistindo de não ter um mundo apagado, viu uma borboleta colorida passar por seus olhos, discreta demais para ser notada por outras pessoas. Ela era simples e comum, mas ainda assim algo lhe disse que ela era bem mais que isso. Então se aproximou dela, e como um passe de mágica, aos poucos as cores de suas asas foram preenchendo tudo ao redor, trazendo a felicidade que tanto esperava.

Desde que seu mundo se transformara, até mesmo sua terra natal que tinha tons apagados se tornara incrivelmente feliz e colorida. Amava-a, e não se imaginava morando em outro lugar pelo resto de sua vida. E queria que Yuuri também se sentisse assim. Por isso, ajudava-o com o curso de russo e quando tinha a oportunidade o levava para os locais mais belos da cidade.

Só que este parecia a cada dia mais apagado.

Não fazia muito tempo desde que tinham voltado a se amar fisicamente. Aos poucos foi percebendo que algo começava a ficar errado com Yuuri e não esperou muito para tomar uma atitude. Em um fim de tarde ensolarado pediu para que o noivo se sentasse ao seu lado na cama. Precisavam conversar. Este pareceu inicialmente assustado e confuso, mas logo entendeu o que acontecia.

— Qual o problema, meu querido? — Começou Viktor, mantendo a voz doce de um pai. — Por que parece tão triste?

Yuuri olhou para o nada por alguns segundos, pensativo, e chamou o cão. Acariciou este enquanto tinha o olhar fixado em um ponto aleatório no chão. Por fim sorriu e recolheu o animal no colo, como se este fosse um bebe.

— Estou com saudades de casa. — Seu tom de voz indicava que estava com vergonha. — A Rússia é totalmente diferente de todos os lugares que já vivi, e por isso me sinto deslocado. As pessoas olham diferente, sabe? Parece que não gostam muito de mim.

— Entendi...

Por mais que amasse a Rússia, Viktor tinha de admitir que ela era cheia de defeitos. Era um país conservador, machista e homofóbico. Sempre que se lembrava da forma como a mãe fora rejeitada e maltratada pelas pessoas daquele país, sua visão de amor sobre aquela terra decaia.

A mídia sempre havia divulgado diversas informações sobre o relacionamento dos dois, e todo o mundo sabia que eram um casal assumidamente gay no mundo da patinação. Alguns países foram indiferentes a essa informação, outros parabenizaram os dois. Mas a Rússia não; pessoas com influência criticaram a falta de vergonha dos dois e em seu instagram vivia recebendo mensagens homofóbicas do povo.

Até então, não tinha com o que se preocupar. Viviam apenas treinando com as pessoas de sempre ou então em casa, sozinhos, em um círculo social saudável. Mas agora Yuuri estava estudando com outras pessoas, e seu risco de sofrer algum tipo de agressão aumentara. Internamente temeu pelo noivo, mas tinha de passar tranquilidade para este.

— Você poderia tentar ignorar esses olhares... não é fácil, eu sei, mas é a única solução. E daqui a alguns meses você pode ir visitar sua família por um tempo, sozinho. Yakov não vai me deixar tirar férias, nem para aquela nossa viagem a algum país tropical.

— Esses olhares me desanimam um pouco, mas vou dar meu melhor para lidar com eles. Também existem pessoas legais no curso e no treino, no fim. É que eu nunca havia sido tratado dessa maneira antes, estou surpreso. E foi uma surpresa desagradável. E não me importo de esperar mais um tempo para voltar para o Japão, talvez no fim eu só esteja com um pouco de medo mesmo...

— Medo?

— Sabe, eu tenho acompanhado russos nas redes sociais. A homofobia daqui parece ir além de olhares feios ou xingamentos, entende?

Ah. Ele tinha visto algum vídeo de linchamento a homossexuais.

Não entendia o porquê de agora as pessoas estarem olhando o noivo dessa forma. Ficaram na Rússia por um tempo considerável antes do acidente, e ninguém havia agido tão explicitamente contra a relação dos dois.

Yuuri despreocupadamente olhou na direção dos pulsos. Havia se arranhado de leve por cima das cicatrizes, e coçava a ferida. Parecia perdido em seus próprios pensamentos.

De repente, a mente se Viktor se iluminou.

O suicido servira de estopim para que Yuuri começasse a ser perseguido.

Na Rússia, um homem tinha que ser forte, corajoso e dominante. A figura paterna perfeita, o soldado sempre pronto para a guerra. Não um suicida que vivia um relacionamento homossexual.

Yuuri estava longe de ser o que a Rússia esperava de um homem, e sendo uma figura pública com influência, queriam ele o mais longe possível de seu país, para não mancharem sua imagem conservadora.

Soltou um longo suspiro, e então deu um abraço caloroso no noivo, seguido de um beijo leve.

— Não tema, Yuuri. Ninguém vai ter coragem de te fazer mal. Você é famoso, e isso na Rússia é sinônimo de proteção, se você for homem. Eles não seriam loucos de te agredir... E eu sei que os olhares machucam, mas tem que pensar que não é por tanto tempo. Quando ganhar a medalha de ouro e esfregar na cara deles, vão reconhecer seu talento.

Estava mentindo, isso era errado e tinha consciência. Mas via nos olhos e nas ações de Yuuri que ele estava ansioso. Se continuasse alimentado seu medo, logo não teria coragem de sair de casa, e se saísse, teria uma crise. Não queria isso. Então mentiras seriam uma medida passageira para o problema.

Abraçaram-se e permaneceram assim por longos minutos.

Teriam de ser mais unidos ainda, agora que novas lutas se aproximavam.

A borboleta e o oceano caminharam juntos, temendo a tempestade iminente.

~~

Aquela tarde de quarta-feira era para ser apenas mais um dia comum, em que chegaria do trabalho e caminharia com Yuuri. Mas assim que abriu a porta de casa, soube que ele não encontrava. A janela do corredor estava aberta, e as cortinas brancas voavam, levadas pela brisa primaveril. O sol do fim de tarde cobria o cômodo, trazendo a Viktor uma sensação calorosa de lar. Makkachin surgiu do quarto, caminhando em sua direção de forma preguiçosa. Sorriu para o cão e o acariciou.

Era uma pessoa calma, que não gostava de sofrer por antecedência, e por isso tentava se manter relaxado quanto ao sumiço do noivo. Iria ligar apenas para se certificar que tudo estava realmente bem. Foi a cozinha para preparar um lanche enquanto ligava, e na geladeira encontrou um bilhete cheio de coraçõezinhos.

“Fui ao petshop comprar ração para o Makkachin... Você deixou acabar, menino mal”.

Riu da mensagem, mas era de vergonha. Na divisão dos afazeres domésticos era sua obrigação cuidar de tudo que tinha relação com o cachorro, por escolha própria. Não estava extremamente atarefado ou coisa para passar seu trabalho ao noivo. Esquecimento acontecia nas melhores famílias, porém odiava parecer irresponsável.

Para compensar, iria de encontro a Yuuri, e assim voltariam caminhando juntos. O lanche ficaria para depois. Se despediu do cão e colocou seu casaco novamente, pronto para enfrentar novamente o frio.

Pela primeira vez em algum tempo seu vizinho não estava na porta observando o movimento do corredor, e lhe encarando de forma estranha. Quase achou esquisito, mas sempre imaginou que em alguma hora do dia ele devia ir fazer outra coisa; essa era a hora, então.

O petshop não ficava tão longe do prédio em que moravam. Quinze minutos de caminhada bastariam para que se encontrassem. Seguiu pelo tão conhecido caminho de forma despreocupada, apenas aproveitando a brisa salgada do oceano próximo.

Os quinze minutos se passaram; chegou no petshop e não encontrou Yuuri lá. Perguntou para o vendedor da loja, e descobriu que o noivo havia saído de lá a longos minutos atrás. Teria ele pego outro caminho? Dessa vez não pensou muito para ligar, nem para entrar em pânico depois do outro não atender. Apenas saiu correndo pelas ruas, procurando e gritando por Yuuri.

Pessoas tinham visto ele fazer o caminho de volta e entrar no prédio a vários minutos atrás. A informação foi confirmada pelo porteiro, que por gentileza olhou nas câmeras de segurança.

As imagens lhe causaram enjoo.

O “vizinho ocupado” deles havia atraído Yuuri para seu apartamento, e desde então nenhum dos dois havia saído de lá. Fazia quase meia hora.

Decidiu na hora que ia invadir o apartamento dele.

Avisou o porteiro que se não saísse de lá em dez minutos, era para chamar a polícia. Esse pareceu ficar tenso com a situação, mas concordou.

Para sua sorte o elevador não se demorou, e em menos de três minutos estava batendo na porta do vizinho.

Um, dois, três minutos se passaram. Os segundos agora pareciam fatais.

Estava pronto para bater novamente quando a porta abriu.

E tinha uma arma apontada em sua direção.

Antes mesmo que pudesse gritar, sentiu a bala atravessar sua barriga.

E caiu em uma profunda escuridão.

Notas finais
NÃO ME BATAM, PRO FAVOR AAAAAAAAAAAAA Sério gente, eu precisava retratar essa realidade da Rússia aqui. Para mim era um aspecto super importante na fic e tals... Desculpe. Sobre o futuro da fic: mesmo com o cursinho e com os estudos não vou desistir. Prometo postar ao menos um capitulo por mês, e me esforçar pra tentar postar mais que isso. Sei que muitos vão desistir de ler por isso, e não posso culpar vocês. Sinto muito mesmo. :/ Por favor, sigam meu amigo desenhista em suas redes sociais; ele que fez essa capa maravilinda ♥ Tumblr: http://hallostarr.tumblr.com/ Facebook: https://www.facebook.com/hallostarr?__mref=message_bubble
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.