Hold my Heart
5 O silêncio dos ratos
Notas iniciais

Vila de Magnólia, Fiore. X12X7X440
Eles andam em direção à floresta densa, deixando toda destruição de carnificina para trás. Lucy o olha, observando as feições que tanto ama, sentindo o braço quente envolvendo sua cintura. Ele disse que estaria segura agora, que ninguém ousaria machuca-la novamente.
Ela toca o próprio abdômen, onde um volume quase imperceptível estava presente, ganhando um olhar preocupado de Natsu, que arregalou os olhos. Ela apenas sorri como se dissesse que estava bem. Tinha esperanças de que o ocorrido de hoje não prejudicasse em nada. Não suportaria perder outro filho. Eles nunca chegavam a nascer. Foram tantas vezes, tantas lágrimas, tanto sofrimento. “Está tudo bem mesmo?” Pergunta outra vez. Ela responde com um pequeno aceno de cabeça.
O braço de repente recua da cintura, descendo para as pernas e apoiando o outro em suas costas, fazendo-a olha-lo com curiosidade antes de ser erguida do chão, passando as mãos pelo pescoço de Natsu em busca de apoio. “Descanse, Luce.” Sussurrou tranquilizantemente, voltando a andar pelo caminho escuro. Ela bufa e encosta a cabeça em seu peitoral, deleitando-se com o som das batidas firmes do coração do Demônio de cabelos salmão, a respiração agora voltando ao ritmo normal. Mal percebera seu estado ofegante. Sentia dor, porém o torpor ainda a rondava, tornando as pálpebras pesadas. Concentrou-se apenas no calor fornecido pelos braços que a seguravam, o sangue dos aldeões presente neles não secara, mas a loira permaneceu calada, sentia que se abrisse a boca acabaria por vomitar.
Finalmente chegam ao casebre de madeira. Ele a leva até o quarto, deitando-a sobre os lençóis de algodão na cama, olha para as próprias mãos e aperta a mandíbula. Estava coberto por sangue. Ela observa com a visão turva enquanto ele segue em direção ao banheiro, deixando-a sozinha no quarto escuro.
Lucy continua a encarar um ponto vago na parede ao lado, apenas ouvindo os sons de água e sentindo o cheiro pútrido que exalava de seu corpo sujo. Estava beirando a inconsciência quando um som mais perto a fez virar a cabeça. Viu Natsu, já limpo sentado na beira da cama, ao seu lado. Ele carinhosamente afastou uma mecha loira de cabelo grudada na testa. “Lucy, vamos...” Tentou ajuda-la a levantar, porém, a pobre garota não encontrava forças para se mover e protesta com um grunhido. “Amor eu sei que você está cansada, mas você precisa, por favor. Seus ferimentos vão infeccionar.” Suplica. Ela debilmente acena com a cabeça.
O Demônio a pega no colo, carregando-a como se fosse uma criança, e levando-a até o banheiro, que estava repleto de vapor e cheirava a lavanda graças à banheira cheia de água recém-aquecida misturada com ervas. Natsu a senta num banco de madeira próximo à área de banho, cuidadosamente retirando o vestido imundo do corpo machucado de sua amada. Com uma das mãos, desceu as mangas da veste puída pelos ombros magros, mantendo a outra fixamente em suas costas, impedindo-a de cair, já que ela mal conseguia manter-se consciente. Natsu sabe que tudo o que ela merece agora é uma boa noite de sono. Em paz. Mas é realmente necessário limpar seus ferimentos antes. Sempre levara a saúde de Lucy a sério, principalmente depois de algum tempo de vivência na terra, onde percebera o quão frágeis são os Seres-Humanos.
Ele faria qualquer coisa para o bem dela.
Terminou de despi-la, engasgando ao ver a quantidade de feridas e hematomas novos presentes no corpo frágil em seus braços. Observou um ferimento maior, que ia do ombro até parte do braço, estava repleto de estilhaços de pedra cravados na carne e sujeira misturando-se ao corte. Sentiu um aperto no peito. Droga. Um nó se formara na garganta. Eu deveria ter chegado mais cedo. A ergueu, colocando-a na banheira. Lentamente afundando cada parte de seu corpo gélido na água quente. Ela soltou um gemido de dor ao sentir a ardência dos ferimentos contra a água, porém, relaxou em seguida graças ao efeito anestésico de uma das ervas medicinais adicionadas à mistura. Manteve-se sentado na borda da banheira de pedra polida, grande o suficiente para que ele pudesse escorregar dois pés dentro, um em cada lado de Lucy. Ele continuou segurando-a com uma mão, que também a impedia de deslizar de vez. O Demônio tratou de lava-la, tirando a sujeira de seu corpo e cabelos, tirando-a da banheira e enxugando-a para depois tratar de seus ferimentos, já limpos, com devida cautela. Primeiramente deitou o corpo já seco na cama, vestindo-a com roupas íntimas, sorrindo de forma tranquilizadora quando a viu abrir um dos olhos cansados e sorrir em agradecimento. Ele se abaixou, afastando os fios loiros para depositar um beijo terno na testa e sussurrar “Durma Lucy. Está tudo bem agora, amor, descanse.” E então, como se suas palavras fossem o mais poderoso dos feitiços, os olhos castanhos se fecharam e a mente de Lucy Heartfilia Dragneel vagou na plena e etérea inconsciência.
Ele a empurra conta a parede, erguendo os braços e entrelaçando seus dedos nos dela. A beija com voracidade, paixão, fazendo-a envolver as pernas ao redor de sua cintura. Colavam os corpos cada vez mais, buscando contato, buscando tornar-se um só. Cada centímetro de pele intocada parecia fria. Ele trilha doces mordidas de amor pelo pescoço. Ela geme. As mãos dele seguram seus quadris, os toques e beijos tornam-se mais famintos. Ele a morde no ombro com força o suficiente para fazer sangue descer pela pele branca, e, sem pensar duas vezes, lambe as gotas carmesim que brotaram da pele alva. Ela geme outra vez, explorando o corpo dele com os dedos frágeis, sussurrando coisas sujas em seu ouvido. Coisas que os tornavam pecadores. Almas impuras. A mão quente estava no meio de suas cochas, levando-a a beira da loucura. O calor estava insuportável. Ela implora por mais, implora por mais toques, implora por êxtase.
Ele concede. Dando exatamente o que sua mestra pediu.
Ela descansa no peitoral do Demônio, que a abraça, suavemente desenhando círculos com o polegar em seu ombro nu. Suspira feliz. Adora a sensação de estar perto dele. Poderiam ficar lá para sempre, juntos. Ela olha para o simples anel dourado em seu dedo.
Sim, ficariam juntos para sempre.
E passaram-se os dias. Dias calmos e felizes, como num sonho. Dias transformaram-se em semanas, que por sua vez, tornaram-se meses. E nesses meses, nada ousara perturbar bolha de felicidade que cercava a Cientista e o Demônio nas profundezas da floresta de Magnólia. Aqueles que não participaram do linchamento se foram, fugiram como ratos após o massacre, com o juramento de nunca falar sobre o ocorrido. A Vila de Magnólia tornara-se uma cidade fantasma, nem uma única alma caminharia por aquelas ruas manchadas de sangue outra vez. Ninguém gostaria de permanecer em tal cidade tão condenada por Deus, não é? Então, finalmente Lucy e Natsu teriam paz, poderiam continuar a viver suas vidas, se amarem, constituírem uma família, serem felizes juntos sem mais sofrimento ou julgamento. Um sonho. Realmente um sonho. Porém, não poderiam contar com o silêncio dos ratos. Os ratos que presenciaram a noite sangrenta, os que fugiram com o rabo entre as pernas, os que juraram silêncio. Poderiam os ratos manterem sua palavra? Não. Não poderiam. Assim como uma praga, as noticias sobre o “Massacre de Magnólia” e a “Ira do Demônio” foram se espalhando pelas aldeias vizinhas, sendo compartilhadas pelas bocas repletas de dentes podres de vilões¹ e viajantes assustados. Não tardara a tais rumores caírem nos ouvidos daqueles que carregam um ódio cego e amor por sangue e destruição de qualquer criatura julgada ser ligada ao submundo, a Santa Inquisição Fioreana. As penas variam desde confisco de bens e perda de liberdade, até a pena de morte, muitas vezes na fogueira. Não hesitam em condenar e queimar hereges e “feiticeiras”. Os tribunais da Inquisição não eram permanentes, sendo instalados quando surgia algum caso de heresia e eram depois desfeitos. Não passavam de abutres. Abutres que foram atraídos pela praga, seduzidos pelo cheiro de morte.
E então, iniciou-se a caçada.
Tropas foram enviadas à região de Magnólia com o objetivo de capturar e executar a bruxa, isso, é claro, após enviar o Demônio de volta ao inferno. Centenas, não, milhares de soldados portando espadas afiadas banhadas em água benta, determinados a derrubar cada árvore e revirar cada pedra apenas pelo prazer e pretensão de livrar o mundo de tais criaturas imundas em nome da Santa Igreja.
Natsu não pode esconder o dor que sentira ao ouvir o grito horrorizado de sua esposa, agora grávida de seis meses, ajoelhada no chão com lágrimas escorrendo incontrolavelmente dos olhos desesperados, assistindo a floresta que vivera por tantos anos, a floresta que fora seu lar, ser desfeita em chamas.
O pobre casal não tivera escolha. Não fora lhes dada chance.
Os poderes Demoníacos de Dragneel encontravam-se enfraquecidos, ele estava gradativamente tornando-se humano. Não havia como enfrentar tantos soldados.
Não haviam alternativas. Então, eles correram para longe. Após semanas de agonia, abrigaram-se na Cidade de Crocus, que a pouco não passava de uma aglomeração de burgos, mas por ser uma importante rota comercial, crescera consideravelmente. A cidade era grande, Natsu e Lucy aprenderam que, em lugares pequenos, as notícias e fofocas se espalham mais rápido, o mesmo não acontece com tanta intensidade em lugares maiores.
Ao contrário de Magnólia, Crocus abrigava uma população gentil em sua maioria, pessoas que acolheram o casal ferido.
Lucy, que não aguentava mais fugir, lançou um olhar suplicante para seu marido, que apenas sorriu-lhe amorosamente. Sim, eles iriam ficar, decididos a viverem como qualquer outro morador comum, é claro, sem nunca deixar ninguém saber sobre os estudos de Lucy ou a verdadeira natureza de Natsu. Para todos, eles eram apenas um casal fugindo de cobradores de impostos. Afinal, ninguém questionou essa versão quando contada.
Os Dragneel passaram a viver pacificamente.
Natsu conseguira um trabalho no campo, plantando e colhendo grãos, que tinham sua metade tomada como propriedade do Rei, e sua outra metade vendida no mercado por Lucy, que, secretamente continuara sua pesquisa sobre ervas medicinais para o desenvolvimento de medicamentos, após mostrar os benefícios de tais descobertas para algumas pessoas da cidade, passou, também, a vender tais remédios, porém, de forma sigilosa, já que muitos ainda a julgariam como bruxa se soubessem de algo.
O tempo se passou, e em uma noite quente e chuvosa, nascera o fruto do amor entre a Cientista de o Demônio. Uma linda menina chamada Nashi².
A chegada da pequena Nashi transformara os dias do casal em um poço da mais pura felicidade. Os dois definitivamente poderiam ser considerados pais-coruja, não hesitando em mimar a encher de amor o bebê recém-nascido.
Porém, tudo isso não passara de uma calmaria antes da tempestade.
E os abutres, mais uma vez, foram atraídos pelo cheiro de morte.
Uma morte que logo viria a acontecer.
Notas de rodapé:
1– Na época do Feudalismo, o vilão era um descendente de camponeses livres, que, assim, poderia deixar o feudo se o quisesse. Tal como os servos, os vilões deviam aos senhores o pagamento da talha e a corveia. No Portugal medieval, assim como nessa fanfic, o termo "vilão" referia-se a um cidadão de uma cidade, vila ou concelho, não pertencendo à nobreza. Os vilões com condições econômicas e sociais mais elevadas, ascendiam a cavaleiros-vilãos, sendo obrigados a possuir armas e cavalos, para combater como cavaleiros na hoste do Rei.
2- Em uma entrevista, fora feita uma pergunta a Hiro Mashima referente ao futuro amoroso dos personagens Natsu e Lucy, e se eles teriam um filho juntos. Mashima respondeu que seria uma menina com a junção dos nomes dos pais. Na= Natsu / Shi= Por causa do modo como se pronuncia Lucy – “Rüshi”.
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