Hold my Heart
6 A supressão de um herege
Notas iniciais

Cidade de Crocus, Fiore. X21X8X441
Pés cansados faziam caminho pelo imenso campo, seu dono não parecia fazer esforço ao transportar o pesado saco de sementes nas costas, mesmo tendo que acordar 5h da manhã para dar início à labuta. A colheita de cevada e trigo está atrasada. Há muito que se fazer. Não se sabe exatamente o que está afetando as plantações. Pudera ser a péssima qualidade dos grãos, a carência de ferramentas adequadas para o trabalho ou alguma punição do Senhor? Uma incógnita. Porém, não se preocupou em saber a resposta para tal, ao invés disso, apenas limpa algumas gotas de suor que dimanavam do couro cabeludo por entre os fios de cor incomum com a manga da blusa. Deixa o saco cair pelos ombros até atingir o chão, fazendo um som abafado ao colidir contra a terra úmida. Inspira o ar gélido, contemplando o céu nublado e a densa camada de nevoa que cerca as arvores ali perto. Uma típica manhã nos campos de Crocrus.
Um sorriso fazia cocegas nos lábios do Demônio, entretanto, tal sorriso não alcançava seu olhar aguçado pela ansiedade que se fazia presente no estômago desde o dia precedente. Resolvera ignorar, porém o nó na garganta não o permitia seguir com os afazeres normalmente. Analisou os arredores novamente, observando a imutável paisagem campestre, existia algo de diferente no ar esta manhã, uma atmosfera cafifenta, quase obscura, como aglomerações de nuvens negras antes de uma tormenta. Não, deve ser apenas imaginação, uma fantasia da mente, não havia nada com que se preocupar. Natsu sacode a cabeça a fim de voltar à realidade, deixando, mais uma vez, os pensamentos sombrios de lado.
Mas o campesino de cabelos salmão não era o único inquieto, notava-se uma agitação geral nas redondezas, desde os campos até a cidade.
Estreitou os olhos ao avistar, ao longe, homens de armadura prateada montados a cavalo adentrando os portões de Crocus. Já vira armaduras semelhantes antes. Não. Não poderia ser. Carruagens também seguiam os cavaleiros montados.
“Oe, Bauer!” Chamou atenção do amigo Wat Bauer, um homem de estatura média e barba esbranquiçada, que parou de arar a terra ao som de seu nome sendo pronunciado. “O que, Dragneel?” Perguntou aproximando-se, parando ao lado.
“O que está havendo ali?” Franziu o cenho, o olhar fixo nos muros da cidade, levando Wat a virar na mesma direção.
“Um tribunal...” Respondeu o velho.
“Um tribunal? Do que vo-”
“Um tribunal da Inquisição.” Completou com a expressão séria. O tempo não fora gentil com Bauer, marcando seu rosto por linhas que aprofundavam sua carranca.
Quase como uma reação imediata, as mãos de Natsu fecharam-se em punhos. A respiração parecia mais pesada.
“Por que estariam formando um tribunal em Crocus?” Questiona. O nervosismo em sua voz contrastando com o semblante ameaçador.
Não.
“Não faço ideia, garoto, mas se um tribunal é formado isso só pode significar que existe um réu a ser julgado, não?” Balbucia, voltando ao trabalho.
Não.
“O que isso significa?” Virou a cabeça para encarar o velho, a pergunta soando de forma mais desesperada que o desejado.
Não.
“A supressão de um herege.” Respondeu com a voz grave, olhando no fundo dos olhos arregalados de Dragneel.
Não.
O tremor nas mãos não mais poderia ser disfarçado. A respiração antes pesada agora assumia um ritmo descompassado. O nó na garganta começara a doer e o estômago revirava-se apenas em ponderar a possibilidade de... Não! Isso é ridículo, não há motivos para se preocupar, nunca nos achariam. Jamais a achariam. Lucy está bem... Sim, ela está bem, deve estar alimentando Nashi... Sim... Sua pequena Nashi. Seguras, ambas estão seguras.
“Deixe de devaneios garoto, volte ao trabalho ou morreremos de fome no próximo inverno, Deus sabe o que se passa na cabeça daquele homem louco...” Resmungou, despertando Natsu possivelmente pela vigésima vez na alvorada.
Merda.
Bauer tinha razão, todos dependiam da colheita. Tentou contrafazer-se com uma gargalhada ao ouvi-lo chamar o Senhor das terras de homem louco, concordando plenamente.
“Pare de me encher, velhote.” Resmungou, abaixando-se para apanhar outro saco, olhando uma ultima vez para as muralhas da cidade.
“Está tudo bem... Está tudo bem...” Repetiu para si mesmo.
Não vou perdê-la de novo... Está tudo bem.
E pela primeira vez, o Grande Rei Demônio Dragneel ignorou seus instintos. Instintos esses que incontáveis vezes salvaram sua pele e a vida de Lucy.
Paz.
Fora o que prometera a ela. Manteria sua palavra, por mais que Lucy não recordasse. Há. Como poderia? Fora algo prometido há muito tempo atrás, em outra vida, quando as eras eram distintas. Mas ela continuava a mesma.
Lucy... Está tudo como sempre sonhamos.
Fecha os olhos, a enxurrada de lembranças fazendo-se presente sem consentimento.
“Eu a quero de volta!”
“Sinto muito, ela não mais existe.”
“Que porra você está dizendo? Minha Lucy é forte, não desistiria tão fácil! Ela tem uma família para a qual voltar, ela tem algo pelo que lutar!” Gritou. “Por que ela é minha Lucy... A Lucy quem eu conheço.”
Silêncio.
Um, dois, três passos.
“Acorde, Lucy…” Suplica, erguendo a mão com o intento de tocar seu rosto.
“Não! Não se aproxime, eu já disse que ela se foi!” Afastou-se abruptamente.
Ele não se moveu.
“Então por que está chorando...?”
Arremessou o saco em suas costas no chão, juntando-o ao acervo de outros iguais a ele. Suspirou.
Lucy, eu me pergunto...
Se um dia... Talvez um dia...
Você se lembre.
Prosseguiu com a árdua rotina até o final da tarde, o batente somente acabaria ao escurecer, porém, decidiu voltar para casa mais cedo, já não podendo mais continuar a batalha contra seus instintos, os quais insistiam em alerta-lo de que algo não estava bem.
A casa dos Dragneel não se localizava exatamente na cidade, não era no meio da floresta, como a anterior, apenas em um local mais isolado às proximidades.
Começara o trajeto a passos largos. Pupilas dilatadas em busca de quaisquer sinais de ameaça. Mal percebera que a paisagem ao seu redor não passava de um borrão, ou que começara a correr. Ainda estava no meio do caminho, não era tão veloz quanto antes. Rosnou, correndo com todas as forças que tinha. Definitivamente algo estava acontecendo, não conseguia pensar em nada além de sua esposa e filha. Um brilho dourado poderia ser avistado ao longe, iluminando a clareira escura. Estava ficando mais quente e quanto mais Natsu percorria o caminho de casa mais o brilho aumentava. Por quê?
Arfou quando a única resposta plausível apareceu em sua mente.
Corria contra o tempo.
Não.
Chutou a porta em chamas, não vendo nada além do fogo dentro da casa. Estava dormente, um coração humano jamais poderia alcançar o ritmo frenético das batidas do demônio.
“LUCY! NASHI!” Gritou exasperado, ainda não acreditando no que estava acontecendo.
“LUCY!” Procurou por sua esposa e filha pela casa, não se importando com os danos que as labaredas causavam em sua pele, agora quase humana.
Ofegava, a visão estava turva, o corpo todo tremia.
Quando, repentinamente, um fraco pranto o chamou a atenção.
“NASHI!” Correu em direção à voz do bebê de cinco meses de idade.
Sua filha estava viva, precisava encontra-la.
Abriu um armário e lá, envolta em diversos tecidos, estava ela, chorando descompassadamente, assustada.
“Nashi... Shhh, meu amor, papai está aqui.” Tirou-a o mais rápido que pode de dentro do que restara da casa, agora totalmente consumida pelo fogo.
Estava atônito, mas precisava acalmar a pequena.
Vozes ao longe atraíram sua atenção, poderia ver as silhuetas de duas figuras se aproximando. Adentrou em estado de alerta. Arreganha os dentes, assumindo uma postura protetora, emitindo um grunhido gutural. Não relaxa mesmo ao perceber que tais figuras eram, na verdade, duas senhoras. Sempre as via no mercado, junto a Lucy. Porém, o semblante geralmente calmo das duas agora era substituído por olhares de horror e lágrimas.
“Dragneel! Oh, Deus!” Uma gritou exasperada.
“Lucy, eles a levar-” Começou a segunda, mas não pode terminar, já que no próximo segundo, estava com o pescoço envolto no aperto impiedoso de ferro das mãos do Demônio. Ela cravava as unhas em seu braço na inútil tentativa de se soltar, mas ele apenas a olhava insanamente, ainda carregando o bebê no braço livre.
“Quem a levou?” Rosna.
“A in-inquisição a levou” Respondeu a primeira, notando que a segunda não conseguiria pronunciar uma palavra. “Ela está na cidade... Será uma execução... Por bruxaria.”
Soltou o pescoço da pobre senhora, já inconsciente, entregando o bebê sonolento nos braços da outra, que o encarava horrorizada. “Por favor... Cuide dela até que eu retorne.” E correu em velocidade atroz em direção à cidade.
Não enxergava nada além de vermelho.
Não ouvia nada além de um zumbido ensurdecedor.
Apenas sentia uma coisa.
Medo.
O mais puro e toxico medo correndo por suas veias, impedindo-o de respirar.
Após o medo, a culpa fazia-se presente em cada centímetro de seu ser, fazendo-o sentir a dor de engolir mil agulhas ¹.
Tudo o que acontecera em seguida não se passava um borrão.
Lembrava-se de ouvi-la gritando, avocando seu nome. Ele foi sua direção, havia muitas pessoas ao redor, tentava acha-la, seguia sua voz. O som de choro atingia seus ouvidos com a precisão de uma lamina afiada, gelando o sangue.
Escuridão.
Lembrava-se de vê-la atada a um tronco no meio da praça principal, mesmo entre as chamas ainda podia ver o rosto dela. Não havia mais choro. Não havia mais gritos. Alguém o golpeara na cabeça... Estava no chão. Um líquido carmesim ofuscava a visão e apesar disso ainda conseguira ler os lábios de sua amada em meio aos lumes.
Eu amo você.
Escuridão.
Abriu os olhos e por alguma razão tudo que viu foi escarlate, a paisagem ainda embaçada. Estava sozinho em meio à praça.
Aturdido. Dormente. Atônito. Não conseguia raciocinar. Não controlava seus movimentos.
Apenas se arrastou como um animal ferido, ignorando os cadáveres ao redor e o cheiro fétido que emanava deles, até o corpo esturricado amarrado junto ao toco de madeira carbonizada. Soltou as cordas, tossindo com as cinzas que persistiam em entrar em seu nariz. Embalou o cadáver desfigurado nos braços, sendo o mais cuidadoso o possível ao envolver o corpo de sua amada, sentindo os restos de pele descascarem ao mais leve toque. Sons incompreensíveis fugiam pela garganta, como se tivesse perdido o dom da fala. Ele percorreu os dedos pelo o que já fora um rosto, não havia mais cabelo, o que sobrara da pele estava fundida a músculos e ossos. Ele esperava que ainda assim ela abrisse os olhos, que fosse tudo mentira. Que ele estivesse tendo mais um de seus terríveis pesadelos.
E então, impiedosa e cruel, a realidade o abateu.
Naquela noite, até no inferno os gritos de agonia do Grande Rei Demônio Dragneel puderam ser ouvidos.
Um coração novamente despedaçado.
E pela segunda vez, Natsu Dragneel testemunhou Lucy Heartfilia morrer diante de seus olhos.
E pela segunda vez... Não conseguira salva-la.
Não. Talvez ainda não fosse tarde demais.
Um demônio normal seria imediatamente enviado de volta ao inferno com a morte de seu mestre, que significa quebra imediata no contrato, porém, Dragneel permaneceu lá, isso por que seu contrato com Heartfilia era um laço² inquebrável, atado por uma promessa, implicando que não poderia ser quebrado com algo tão ordinário como morte.
“Lucy... Lucy, meu amor, vai ficar tudo bem, eu prometo.” Ainda com o corpo alinhado nos braços, inclinou-se sobre ele, olhando para o rosto irreconhecível de Lucy, aproximando suas faces. As lágrimas que brotavam, descontroladas, eram imediatamente absorvidas pela pele seca em todos os cantos em que a atingia. Por mais que olhasse para uma carcaça, seu olhar ainda debelava amor e devoção.
Pressionou os lábios juntos. Não sentiu nojo ou receio. Apenas desespero.
Fecha os olhos.
Não irei perdê-la outra vez.
Um beijo. Um sopro de vida. Não. Não um sopro de vida comum, mas sim um puro sopro de energia vital demoníaca. Uma energia que nunca verdadeiramente pertenceu a ele. Afinal de contas, estava apenas devolvendo-a para sua dona.
Notou um vazio tomar conta de seus braços, e ao abrir os olhos, não havia mais nada. O corpo de Lucy desaparecera, deixando-o com os demais cadáveres anônimos ao redor.
Nunca se sentira tão exausto. Estava além de ofegante. Algo semelhante a um rosnado escapava de sua garganta a cada respiração. Sentia um peso em suas costas que não experimentava há eras.
O peso da humanidade.
Era humano, enfim.
Notas de rodapé:
1-Referência ao ritual de promessas Japonês. "Yubikiri genman, uso tsuitara hari senbon nomasu. Yubi kitta!" 「♪ 指切りげんまん。嘘ついたら 針千本 飲~ます。 指切った!」 "Promessa do dedo mindinho: se você mentir, te farei engolir mil agulhas e cortarei o seu dedo".
2-Referência ao fio vermelho do destino, uma lenda chinesa. De acordo com este mito, os deuses amarram uma corda vermelha invisível ao redor dos tornozelos dos homens e mulheres que estão destinados a ser a alma gêmea um do outro. "Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se independentemente do tempo, lugar ou circunstância o fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá partir."
「Próximo–Prologus.」
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