Hoje lembrei do teu amor | Drarry.
3 A mágoa que ficou para trás.
Notas iniciais
A lembrança seguinte não trouxe nenhum sorriso.
Draco aparatou dentro da casa de Harry no fim de um dia particularmente ruim.
Estava exausto.
Fazia quatro meses que assumira o cargo de medibruxo-chefe no St. Mungus e, apesar de ter trabalhado mais do que qualquer pessoa para chegar até ali, ainda recebia olhares desconfiados pelos corredores.
Alguns sequer tentavam disfarçar.
Malfoy.
Comensal.
Filho de Lúcio Malfoy.
A guerra tinha acabado.
As consequências, não.
Quando entrou na sala, Harry estava sentado no sofá.
Assim que percebeu sua presença, dobrou alguma coisa rapidamente e tentou escondê-la atrás das costas.
Draco parou.
— O que é isso?
Harry levantou-se.
— O quê?
— O que você escondeu?
— Nada.
— Harry.
Harry aproximou-se e passou os braços por seu pescoço.
— O que eu tenho são saudades do meu namorado.
Começou a distribuir pequenos beijos por seu rosto.
Em outro dia, teria funcionado.
Naquele, não.
Draco segurou delicadamente os braços dele e o afastou.
— O jornal.
Harry perdeu o sorriso.
Isso foi suficiente.
Draco levantou uma das almofadas.
O Profeta Diário estava ali.
E a manchete ocupava praticamente toda a primeira página.
AMOR DE VERDADE OU INTERESSE? EX-COMENSAL DA MORTE DRACO MALFOY TERIA UTILIZADO A INFLUÊNCIA DO SALVADOR DO MUNDO BRUXO PARA CONSEGUIR CARGO DE CHEFIA NO ST. MUNGUS
Draco sentiu o estômago afundar.
Leu outra vez.
Depois outra.
— O quê?
Harry se aproximou.
— Draco...
— Eu lutei por essa vaga.
— Eu sei.
— Eu trabalhei por isso!
— Eu sei.
— Passei anos estudando. Trabalhei até de madrugada. Aguentei todo tipo de comentário naquele hospital.
— Eu sei, meu amor.
Harry tentou tocá-lo.
Draco se afastou.
— Então de onde tiraram essa merda?
— Eu não sei.
— Claro.
— Draco, você sabe como o Profeta é.
— Sei.
Andou de um lado para o outro.
A raiva não era apenas do jornal.
Era do hospital.
Da guerra.
Do sobrenome.
Da Marca escondida sob a manga.
De cada pessoa que olhava para ele e parecia enxergar somente aquilo que tinha sido aos dezessete anos.
Harry permaneceu em silêncio.
Talvez devesse ter sido suficiente.
Não foi.
Draco olhou para ele.
E fez a pior pergunta possível.
— Você fez alguma coisa?
Harry franziu a testa.
— O quê?
— Para eu conseguir o cargo.
O silêncio caiu entre os dois.
— Você está perguntando se eu interferi na sua contratação?
A voz de Harry estava baixa.
Draco deveria ter recuado.
Não recuou.
— Você não usou sua influência para me dar nenhum tipo de privilégio, certo?
Harry ficou imóvel.
— Não.
A resposta veio seca.
— Eu nunca falei com ninguém no St. Mungus sobre a sua contratação.
Draco apertou o jornal entre os dedos.
— Certo.
— E sabe o que é pior?
Draco olhou para ele.
Harry já não tentava esconder a mágoa.
— Você realmente precisou perguntar.
— Harry...
— Você realmente acha que eu faria isso pelas suas costas?
— Eu não disse isso.
— Disse exatamente isso.
— Eu só...
Draco passou a mão pelos cabelos.
As palavras saíam antes que ele conseguisse pensar.
— Estou cansado disso!
— Disso o quê?
— De tudo sempre voltar para você! Para Harry Potter! Para o Salvador! Eu consegui aquele cargo sozinho e, ainda assim, basta alguém descobrir que estou com você para eu virar apenas o namorado de Harry Potter!
Harry ficou em silêncio.
Draco percebeu tarde demais.
— Eu sou Draco Malfoy! — completou, ainda tomado pela raiva. — Não quero viver como uma extensão da sua fama.
Os olhos de Harry mudaram.
A raiva continuava ali.
Mas havia outra coisa também.
Mágoa.
Profunda.
— Se é assim que você se sente — respondeu, devagar —, eu não entendo por que ainda está comigo.
Toda a raiva de Draco evaporou.
— Harry...
— Não.
Harry deu um passo para trás.
Draco tentou se aproximar.
Harry se afastou novamente.
— Você está cansado de ser meu namorado? Tudo bem. Mas não coloque em mim a culpa por algo que eu nunca pedi.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi o que você disse.
— Eu estava com raiva.
— E isso melhora alguma coisa?
Draco abriu a boca.
Nada saiu.
Harry respirou fundo.
— Sabe qual é a parte mais absurda? Eu escondi esse jornal porque sabia exatamente o que isso faria com você. Porque sabia quanto você trabalhou. Porque estava preocupado com você.
Draco abaixou os olhos.
— E você olhou para mim e perguntou se eu tinha feito exatamente aquilo de que estavam me acusando.
— Harry...
— Acho melhor você ir embora.
A frase doeu mais do que Draco esperava.
Ele queria explicar.
Queria dizer que não pensava aquilo.
Que estava cansado.
Que tivera medo.
Que o problema nunca fora Harry.
Era ele.
Sempre fora ele.
Seu orgulho.
Sua culpa.
A sensação constante de que, a qualquer momento, alguém perceberia que Draco Malfoy não merecia nada daquilo.
Nem o cargo.
Nem a paz.
Nem Harry.
Mas, diante da expressão ferida do homem que amava, Draco fez aquilo que sempre fazia quando sentia medo.
Fugiu.
Aparatou.
E deixou Harry sozinho.
♦
O gosto metálico trouxe Draco de volta ao presente.
Tinha mordido o lábio com tanta força que sangrava.
Passou a língua pelo pequeno ferimento e olhou para o pergaminho à sua frente.
As lágrimas tinham voltado.
Não tentou contê-las dessa vez.
Depois daquela noite, mandara cartas.
Uma.
Duas.
Cinco.
Dez.
Perdera a conta.
Harry não respondera a nenhuma.
E Draco também não tivera coragem de aparecer diante dele.
Covarde.
Era exatamente isso.
Um covarde.
A pena voltou a deslizar.
"A mágoa ficou. E talvez eu tenha merecido cada segundo dela."
Ele respirou fundo.
"Não sei quanto tempo leva para consertar uma coisa que eu mesmo destruí. Só sei que não quero apagar nada do que vivemos."
Parou.
Olhou para todas as páginas espalhadas diante de si.
As lembranças.
O Beco Diagonal.
A cama.
A lasanha.
O banheiro.
A briga.
Harry.
Sempre Harry.
"Lembrar de você ainda é bom demais."
Draco largou a pena.
Leu tudo desde o começo.
Uma vez.
Duas.
Três.
— Merda.
Levantou-se tão depressa que a cadeira arrastou pelo chão.
Pegou as folhas.
Dobrou-as.
Guardou-as dentro do sobretudo.
Durante seis semanas, enviara corujas porque era mais fácil entregar palavras a distância.
Naquela noite, finalmente, entendeu.
Aquela carta não precisava de uma coruja.
Precisava dele.
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