Hoje lembrei do teu amor | Drarry.
4 Valeu pela vida inteira.
Notas iniciais
Harry estava cansado.
Não apenas naquela noite.
Cansado havia semanas.
Fazia mais de um mês que parecia acordar todos os dias com uma parte dele ainda presa à noite em que Draco tinha ido embora.
Não gostava de admitir isso.
Principalmente porque Hermione havia perguntado várias vezes.
E Harry Potter possuía uma habilidade particularmente irritante de insistir que estava bem justamente quando não estava.
Com um movimento preguiçoso da varinha, murmurou:
— Accio vinho.
A garrafa veio da cozinha, seguida por uma taça.
Harry serviu uma quantidade generosa e olhou para a pilha de pergaminhos sobre a mesa.
Tinha levado trabalho do Ministério para casa.
Não estava com vontade de fazer absolutamente nada.
A primeira batida na porta foi ignorada.
A segunda fez Harry franzir a testa.
Já passava da meia-noite.
Pegou a varinha e caminhou até a entrada.
Abriu a porta com cautela.
E parou.
Draco estava do outro lado.
Durante alguns segundos, Harry simplesmente o encarou.
Mais magro.
Cabelos desalinhados.
Olheiras.
Lindo.
Infelizmente ainda lindo.
— Draco.
— Oi, Harry.
Outro silêncio.
— Posso entrar?
Harry apertou os dedos ao redor da varinha.
— Poderia ter mandado uma coruja.
Draco fechou os olhos por um instante.
Atingido.
Bom.
Harry abriu espaço.
— Entre.
Draco passou por ele.
Os dois seguiram até a sala.
Harry sentou-se na poltrona.
Draco ficou no sofá.
A distância entre os dois parecia maior do que algumas semanas.
— Vinho? — perguntou Harry.
— Não, obrigado.
Silêncio outra vez.
Harry esperou.
Draco respirou fundo.
— Me desculpe.
Harry não respondeu.
— Pelo que eu disse. Por ter desconfiado de você. Por ter ido embora. Por não ter voltado naquela mesma noite.
A voz falhou um pouco.
— E por ter passado seis semanas me escondendo atrás de corujas.
Harry ergueu os olhos.
Draco continuou.
— Eu sei que pedir desculpas não apaga nada.
— Não apaga.
— Eu sei.
Harry apertou os lábios.
Draco colocou a mão dentro do sobretudo.
Por um instante, Harry quase riu.
Claro.
Outra carta.
Draco depositou o pergaminho dobrado sobre a mesa.
Mas não foi embora.
— Dessa vez, sem corujas.
Harry olhou para ele.
Depois para a carta.
Esticou a mão.
Leu lentamente.
Draco escrevera sobre as lembranças.
Sobre o primeiro passeio dos dois pelo Beco Diagonal.
Sobre dormir abraçado a Harry.
Sobre a comida espalhada pela cozinha.
Sobre o espelho embaçado.
Sobre a lasanha ruim.
Harry soltou uma risada involuntária ao ler essa parte.
Depois vieram as outras palavras.
As difíceis.
Draco escrevera sobre medo.
Sobre culpa.
Sobre orgulho.
Sobre a sensação permanente de que Harry acordaria algum dia e perceberia que poderia ter alguém melhor.
E terminara com uma única frase:
"Se ainda existe alguma chance de construirmos alguma coisa depois disso, desta vez eu quero ficar para conversar."
Harry abaixou o pergaminho.
As mãos estavam úmidas.
— Você é um idiota.
Draco assentiu.
— Sei.
— Não. Acho que você não sabe.
Harry levantou-se.
A raiva que guardara durante semanas começou a subir.
— Você perguntou se eu usei meu nome para conseguir aquele cargo para você.
— Eu sei.
— Eu estava escondendo aquele jornal porque estava preocupado com você!
— Eu sei.
— E depois você foi embora.
Draco permaneceu em silêncio.
— E sabe o que aconteceu depois? — Harry continuou. — Eu esperei você voltar.
Draco ergueu os olhos.
— Naquela noite. Eu fiquei sentado naquela sala esperando você aparatar de volta e dizer que tinha sido um completo imbecil.
A garganta de Draco se contraiu.
— Harry...
— Depois esperei no dia seguinte.
Harry riu sem humor.
— Aí chegou uma coruja.
Draco desviou o olhar.
— Depois outra. E outra.
— Eu tive medo.
— Eu também!
A voz de Harry ecoou pela sala.
Os dois ficaram parados.
— Você acha que foi fácil para mim? — continuou Harry, mais baixo. — Você acha que eu não pensei em responder? Pensei. Todos os dias.
— Então por que não respondeu?
Harry riu, incrédulo.
— Porque eu não queria uma carta, Draco!
Silêncio.
— Eu queria você.
Aquilo atingiu Draco com mais força do que qualquer grito.
Harry passou as mãos pelo cabelo.
— Eu não escolhi ser o Menino que Sobreviveu. Não escolhi ter meu nome nos jornais desde que era um bebê. Não escolhi passar a vida inteira sendo observado. E eu entendo que isso também afeta você.
Respirou fundo.
— Mas eu preciso saber que, quando isso ficar difícil, você não vai olhar para mim como se eu fosse o problema.
Draco levantou-se.
— Você não é.
— Naquela noite eu fui.
— Não.
Draco aproximou-se.
Harry não recuou.
— Naquela noite, eu estava com medo e transformei meu medo em raiva. Depois transformei a raiva em culpa. E então fiz o que sei fazer melhor quando acho que vou perder alguma coisa.
— Fugiu.
— Fugi.
Harry cruzou os braços.
— Isso não pode acontecer toda vez.
— Eu sei.
— Eu estou falando sério.
— Eu também.
Draco chegou um pouco mais perto.
— Não posso prometer que nunca vou sentir medo. Nem que nunca vou ser inseguro. Provavelmente continuarei sendo insuportavelmente orgulhoso.
— Isso é garantido.
Draco quase sorriu.
— Mas posso prometer que não vou fugir de você de novo.
Harry o encarou por alguns segundos.
— E sobre o trabalho?
Draco respirou fundo.
— Eu acredito em você.
— Não foi isso que perguntei.
Draco entendeu.
— Não. Eu não acho que você conseguiu aquele cargo para mim.
— Porque eu não consegui.
— Eu sei.
— Você conseguiu.
Draco baixou o olhar.
Harry aproximou-se mais um passo.
— Você trabalhou por aquilo. Você estudou. Você mereceu.
Draco sentiu os olhos arderem.
— Obrigado.
Harry soltou o ar lentamente.
— Ainda estou com raiva.
— Justo.
— Muita.
— Também justo.
— E ainda quero te dar um soco.
Draco arqueou uma sobrancelha.
— Isso parece particularmente grifinório.
Harry tentou não rir.
Falhou.
Draco sorriu.
E talvez tenha sido aquele pequeno sorriso que terminou de quebrar alguma coisa entre eles.
Harry segurou a frente do sobretudo dele.
Draco olhou para sua mão.
Depois para seu rosto.
— Eu senti sua falta — disse Harry.
A voz saiu quase como um sussurro.
Draco fechou os olhos.
— Eu senti sua falta todos os dias.
Harry puxou-o.
O abraço não foi delicado.
Foi apertado.
Urgente.
Draco enterrou o rosto nos cabelos dele e respirou.
Amora.
Merlin.
Ainda era o mesmo cheiro.
Harry escondeu o rosto contra seu pescoço.
Ficaram assim durante muito tempo.
Nenhum dos dois parecia disposto a ser o primeiro a soltar.
Foi Draco quem falou.
— Harry?
— Hum?
— Eu também preciso dizer uma coisa.
Harry afastou-se apenas o suficiente para olhá-lo.
Draco segurou seu rosto entre as mãos.
— Meu maior medo sempre foi não ser suficiente para você.
Harry abriu a boca, mas Draco continuou.
— Eu olho para você e vejo tudo o que você é. Tudo o que fez. Tudo o que representa para as pessoas. E às vezes ainda existe uma parte idiota da minha cabeça dizendo que um dia você vai olhar para mim e enxergar apenas...
Ele respirou.
— Um ex-Comensal da Morte.
Harry segurou seus pulsos.
— Eu sei quem você foi.
Draco ficou imóvel.
— Eu estava lá, lembra?
Uma lágrima escapou antes que Draco pudesse impedi-la.
Harry passou o polegar por sua pele.
— Eu conheço o seu passado. Mas também conheço você.
Aproximou-se.
— O homem que passa horas estudando porque tem pavor de errar um diagnóstico.
Draco soltou uma pequena risada.
— O homem que finge odiar meus amigos e depois pergunta casualmente se Hermione gostou do presente de aniversário.
— Eu nunca perguntei isso.
— Perguntou três vezes.
— Informação falsa.
Harry sorriu.
— Eu conheço você, Draco.
O sorriso desapareceu devagar.
— E amo você.
Draco fechou os olhos.
Encostou a testa na dele.
— Eu te amo.
— Eu sei.
— Arrogante.
— Aprendi com você.
Dessa vez os dois riram.
Draco começou a distribuir pequenos beijos pelo rosto de Harry.
Na testa.
Na bochecha.
Na ponta do nariz.
Harry tentou escapar.
— Draco, isso faz cócegas!
— Problema seu.
— Para!
— Não.
— Malfoy!
Harry ria tanto que mal conseguia protestar.
E Draco percebeu, de repente, que aquele era o som de que mais sentira falta.
Parou.
Continuou segurando o rosto dele.
Harry recuperou o fôlego.
— O quê?
Draco o encarava com uma expressão estranha.
— Não quero perder isso de novo.
Harry ficou sério.
— Então não perca.
— Não vou.
Draco hesitou.
Durante algumas semanas, imaginara aquele momento de dezenas de maneiras diferentes.
Em quase todas elas, havia um discurso preparado.
Na realidade, nenhuma das frases parecia suficiente.
— Eu quero uma vida com você.
Harry não disse nada.
— Não estou falando de esquecer o que aconteceu hoje e fingir que está tudo resolvido. Eu sei que não está.
Harry o observava em silêncio.
— Estou falando de amanhã. E depois. E depois.
Draco sorriu de leve.
— Quero acordar com você reclamando que eu roubei o cobertor. Quero comer sua lasanha péssima.
— Minha lasanha não é péssima.
— Harry.
— Continue.
— Quero ir ao Beco Diagonal segurando sua mão. Quero discutir sobre Quadribol. Quero reclamar dos seus amigos. Quero envelhecer reclamando dos seus amigos.
Harry começou a sorrir.
— Você está muito fixado nessa parte.
— É importante.
— Evidentemente.
Draco respirou fundo.
— Quero tudo isso.
Harry passou os braços por seu pescoço.
— Parece bastante trabalhoso.
— Horrível.
— E mesmo assim você quer?
Draco olhou nos olhos dele.
— Mais do que qualquer coisa.
Harry puxou seu rosto para perto.
— Então fique.
Draco não perguntou duas vezes.
Beijou-o.
Devagar dessa vez.
Sem urgência.
Sem desespero.
Como se tivessem todo o tempo do mundo.
E, pela primeira vez em semanas, Draco acreditou que talvez tivessem.
♦
Meses depois, Harry encontrou a mesma carta guardada em uma gaveta.
O pergaminho já estava um pouco amassado nas bordas.
— Você ainda tem isso?
Draco olhou por cima do livro que lia.
— Evidentemente.
Harry sentou-se ao lado dele.
— Pensei que tivesse jogado fora.
Draco pareceu genuinamente ofendido.
— Foi a melhor carta que já escrevi.
— Foi a única carta sua que eu realmente li.
— Você poderia ter mencionado isso antes de eu mandar outras quinze.
Harry riu.
— Dezessete.
Draco arregalou os olhos.
— Você contou?
— Talvez.
Harry abriu novamente o pergaminho.
No fim da última página havia uma frase acrescentada posteriormente, em uma tinta ligeiramente diferente.
Ele lembrava perfeitamente do dia em que Draco a escrevera.
"Valeu pela vida inteira."
Abaixo dela, havia outra caligrafia.
A de Harry.
"Ainda não. Temos muito tempo pela frente."
Draco fechou o livro.
— O que está fazendo?
Harry dobrou cuidadosamente a carta.
— Lembrando.
— De quê?
Harry olhou para ele.
Sorriu.
— De coisas que eu nunca esqueci.
Fale com o autor