Hino do Duran

1 Primeiro Capítulo


“Se vives nas sombras, freqüentas porões. Se tramas assaltos ou revoluções. A lei te procura amanhã de manhã com seu faro de dobermann.... Se pensas que burlas as normas penais. Insuflas, agitas e gritas demais. A lei logo vai te abraçar, infrator...” Hino do Duran – Chico Buarque.

- Olha companheiro, não é muito, mas tinham alguns policiais na minha cola e eu tive que despista-los, se trouxesse muita coisa comigo seria suspeito demais. – falou Lisa pondo alguns pães sobre a mesa suja.
- A companheira apesar de muito amiga do presidente...
- Estudamos juntos e só. Coma. Temos um assalto mais tarde, a militância pode estar atrasando a revolução brasileira, mas está valendo à pena pra mostrar que estamos aqui.
Era mais uma noite em que sairiam sem saber se voltavam, o Presidente House, General Gregory House, afundava a economia, mandava prender e torturar cada dia mais estudantes, a censura fechava em média 10 jornais por dia nas grandes capitais.

Palácio da República, Brasília.
17 horas 35 minutos.
5 horas para o assalto.


- O último delatou que hoje tem planos para um assalto em São Paulo. Aciono o Dói-códi ou a polícia militar?
Esse era o emprego mais detestável, e ela jurava para si mesma que iria ajudar a militância, mas para isso precisava criar confiança, precisava ser forte. Não acreditava em Deus no entanto, levava um crucifixo para impressionar os conservadores, assim ela era sempre zeladora dos bons costumes além de uma das secretárias que trabalhavam por debaixo dos panos para o presidente.
- Eu estou ficando entediado com eles, bote a tropa de choque nas ruas.
- Mas pra quê tanto? São apenas 10 militantes.
- Isso sim é um mistério, como uma mulher com um coração de criança sonhadora e mimada como você Alisson Cameron, pode trabalhar nos porões da ditadura?

Ela olhava para o chão rezando coisas decoradas a um Deus em que não acreditava, ele podia acusá-la de ser do partido comunista, nem disso precisava, era só ele dizer que era pra ela ser torturada e pronto.
- Vamos nos divertir então, mande 18 policiais militares e 2 agentes do Dói-códi.
Ela confirmou com a cabeça e sem mais saiu pela porta de onde havia entrado.

Local desconhecido, São Paulo.
20 horas e 14 minutos.
2 horas para o assalto.


James lavava o rosto e as mãos, depois que a jovem Remy tinha sido liberta todas as noites ele ajudava a trocar as ataduras, por mais que não conseguissem limpas, faziam o máximo para não infectar.
Ela tinha queimaduras por todo o corpo, um dos olhos ninguém sabia se voltaria a ver, demorou muito tempo para que ela permitisse que ele chegasse perto dela sem seu corpo debater-se em medo, por proteção, trauma de tudo o que ocorreu nos piores dois meses de sua vida.
- A gente precisa fazer alguma coisa.
- Já vamos fazer James, vamos assaltar um grande ponto da burguesia. – respondeu guardando um número enorme de bolinhas de gude numa bolsa de retalhos que sua avó havia feito.
- Deve ser possível fazer algo MAIS. Não somos mais crianças que pra chamar a atenção dos pais choramos, precisamos lutar, temos braço, temos boca...
- E temos uma saúde a zelar, deixe os ataques diretos aos grandes do partido, nós não somos ninguém.
A discussão morreu com um gemido de dor vindo de um dos cantos do porão.
- Remy? – falou Lisa correndo em direção à menina.
- Eu ouvi dois agentes conversando, General House vem para São Paulo para visitar as instalações da instituição em dois dias, pelas minhas contas já que... Eu perdi um pouco a noção do tempo, não... Não tenho certeza.

- Viu? Ela sabe, ela me entendeu. –gritou apontando num tom animador não comum em pessoas que fogem da polícia.
- Você quer seqüestrar o General House? – ela parou, o silêncio respondeu, ela mordeu o lábio inferior – Certifique-se do dia, os companheiros chegarão daqui a pouco, eles não irão desobedecer uma ordem minha. — Ele sorriu.
Apesar de não ser do grande escalão, ela não era pequena no partido nem ele, aquele pequeno grupo a tinha como líder revolucionária apesar de Wilson ser muito mais vezes à frente da voz do povo.