Hinata
18 Revelações
Notas iniciais
— E como as coisas têm passado? — ele iniciou o diálogo questionando interessado, mesmo aparentado o contrário.
— Por aqui, tudo bem — a voz do homem soou do outro lado da tela — eu já pedi para que te enviassem os relatórios desse mês.
— E o que mais? — sobre os relatórios, há pouco havia recebido por email. Contudo, conhecia o outro muito bem para saber que ele queria falar mais do que disse.
— Tsc — estalou a língua do céu da boca, como estava acostumado a fazer — eu só acho estranho o vovô não ter feito nada à respeito. Para todos os efeitos, você “abandonou” a presidência, está do outro lado do mundo e para completar, praticamente deixou eu, “o irresponsável” no lugar — o mais jovem fez aspas com os dedos.
O moreno tinha total convicção no que havia acabado de verbalizar e por isso um gosto amargo tomou sua boca. Por mais que tivesse conquistado a confiança de sua equipe de trabalho, para as outras pessoas em geral e principalmente o avô, continuava sendo subestimado, o mesmo tolo de sempre.
— Não seja ingênuo, irmãozinho tolo — o tom dele foi um tanto desdenhoso — Uchiha Madara sempre está tramando alguma coisa, ele pode até aparentar estar calmo ou quieto. Tenho certeza que ele está sendo muito bem informado sobre tudo. E por fim, o “vovô” confia em seu “netinho” mais velho, ele sabe que eu jamais colocaria a empresa em risco, e você também deveria saber e acreditar mais em si mesmo. Pois eu confio em você e não tenho me decepcionado.
Itachi suspirou, por baixo de toda arrogância e postura característica dos Uchiha, existia ainda aquele menino inseguro, e para variar, se sentia culpado porque foi culpa da sua proteção, acabou deixando o irmão se sentir inferior ou menos capacitado que ele. O mais velho tinha um senso de responsabilidade tão grande com o irmão, após as mortes dos pais havia prometido cuidar do menor, mas às vezes, sentia como se houvesse falhado miseravelmente, mesmo tendo uma vozinha bem irritante no fundo da mente dizendo que ele não tinha tanta culpa como pensava, além do irmão ter idade o suficiente para ser dono de suas próprias decisões e escolhas. Feliz ou infelizmente, sua parte sensata, que quase sempre ganhava, na maioria das vezes perdia quando se tratava do irmão.
Sasuke por sua vez, preferiu olhar para qualquer canto da sala do que para o seu notebook. Odiava quando Itachi o fazia parecer um menino bobo, odiava a parte que se satisfez ao ouvir do irmão que não tinha se decepcionado. Pois assim, ele se sentia o mesmo menininho idiota que queria toda atenção o irmão para si.
Por outro lado, os dilemas de ambos os irmãos, era tão pequena comparada a atual situação dos dois. A relação que durante anos se manteve afastada e fragilizada por uma sucessão de mal entendidos, estava muito melhor. Itachi e Sasuke nunca estiveram tão próximos, mesmo estando tão afastados. Um verdadeiro paradoxo, que por ironia do destino, se desenrolou entre os irmãos Uchiha.
— Continue — a voz grave do mais velho retirou o outro de seus devaneios. Ao perceber o rosto, quase sempre inexpressivo, com uma leve careta de confusão, tratou de esclarecer — diga todo o resto que tem vontade — o moreno sabia que ainda tinham mais coisas que o outro não externou.
— Você ainda pensa na Hinata? — nem mesmo Sasuke sabia o porquê de indagar seu irmão sobre o assunto.
O mais novo não diria a Itachi nada repeito da Yuuhi, se tinha algo que o moreno não fazia, era se meter na vida dos outros, mesmo esse alguém sendo seu irmão. Além do mais, Hinata era sua amiga e o próprio loiro irritante, não se comportaria como um fofoqueiro. Todos eram adultos e sabiam muito bem as consequências de seus atos. Ele mais do que ninguém, entendia bem isso.
— Para falar a verdade, é bastante difícil ter algum tempo para pensar em algo além do trabalho — o mais velho sorriu como se lembrasse de algo — mas eu tenho sim, pensado no futuro… — foi enigmático, no entanto, mudou de assunto — é sobre a Sakura? — Itachi deduziu que o irmão queria falar o seu relacionamento com a rosada, pois do jeito que era orgulhoso, não saberia iniciar o assunto tão diretamente, típico do seu irmãozinho tolo.
Sasuke sentia mais raiva pelo perspicácia do outro Uchiha. Parecia que o conhecia melhor do que ele mesmo. De fato, algo em relação à Sakura o incomodava, todavia, nem tinha a intenção de conversar sobre isso com seu irmão. Agora tentava se lembrar se havia dado algum indício, porém não; Itachi era mesmo um desgraçado que o conhecia de verdade.
— Pode falar, Sasuke — tornou a repetir — além de infernizarem, irmãos mais velhos também servem para dar conselhos — fez um comentário com um toque de humor para descontrair.
— Tsc — o mais novo estalou a língua no céu da boca, mais uma vez. Mas que droga! Iria mesmo fazer o que o outro estava sugerindo — Bem, tenho percebido coisas estranhas — e novamente seu olhar vagou para qualquer lugar.
— “Coisas estranhas”? — o mais velho franziu o cenho.
— A Sakura tem estado dispersa, sem muito interesse — foi vergonhoso ter que admitir aquilo, porém estava lhe incomodado.
— Ah! Então era isso? — Itachi desdenhou — já não era sem tempo disso acontecer, eu não sei como a Sakura aguentou por tanto tempo seu jeito de tratá-la. E nem adianta fazer essa cara, você sabe muito bem que é verdade. Olha Sasuke, se você realmente quer manter esse relacionamento, lute por ele — aconselhou sabiamente, no entanto, não poderia perder a oportunidade de brincar com seu irmão — senão é capaz de ser trocado por outro.
— Ah, Itachi! Vai se foder! — um Sasuke completamente irado o responder mal criado, além de ter cortado a transmissão.
O mais velho gargalhou com a atitude dele.
— Ei, que milagre, está rindo do quê? — Shisui perguntou ao adentrar a sala do primo, sem bater na porta, como de costume.
— Do Sasuke. Acredita, eu conselheiro amoroso — ele riu mais uma vez.
— O pirralho tem que aprender a tratar uma mulher — “e você também precisa de conselhos, no caso, um pequeno empurrão” pensou diabólico — mas mudando de assunto, eu vim aqui para te convidar para curtir um pouco. Itachi, você não tem nem trinta e parece um velho, um pouquinho de diversão não faz mal a ninguém.
O que Shisui falava era verdade, o primo havia passado quase todo o ano trabalhando, as marcas de expressão estavam mais acentuadas, sem falar nas visíveis olheiras. Claro, todo o momento de trabalho árduo tinha dado grandes resultados. Bem no fundo, o orgulho de Shisui, que era menor que dos outros Uchihas, estava um pouco ferido. Ele se sentia levemente frustrado por não ter gerenciado tão bem a filial na Terra da Rainha. Entretanto, o que falava mais alto, era o fato de ter seu melhor amigo ali junto dele, como nos velhos tempos.
— Se eu recusar não vai adiantar nada, não é mesmo? — apertou suas ônix.
E lá estava ele, num pub em Londres. Shisui até o momento não havia dado as caras, em outra circunstância, poderia até ficar irritado pelo atraso do primo, no entanto, o mesmo tinha razão quando lhe disse que precisava relaxar. Ele admitia para si mesmo, estava cansado. Nada mais justo do que deixar as responsabilidades e sensatez, adormecidas por enquanto. O moreno já tinha parado de contar desde o terceiro copo de cerveja tipicamente inglesa.
Yugito não teve tempo nem de negar, quando viu, já estava sendo arrastada para fora de seu quarto de hotel. Ela tinha acabado sua refeição e só queria descansar de mais um dia de trabalho. A Nii continuava a mesma secretária fiel e competente, a mesma mulher insegura e apaixonada, porém totalmente desacreditada de que poderia ser retribuída algum dia.
Foi completamente surpreendida no momento em que o primo de seu chefe praticamente invadiu seu quarto e lhe disse que Itachi precisava dela, sem dar mais explicações. A loira apenas voltou a calçar suas sapatilhas e foi praticamente carregada para fora.
Agora o carro do moreno de fios curtos estava parado em frente a um grande bar, pelo visto, muito movimentado.
— Vamos lá, Yugito — Shisui pediu.
— Senhor, eu não entendi. Itachi-sama está fechando algum negócio? Mas ele não me disse nada, isso é muito estranho — refletiu.
— Eu sou do tipo direto, então serei bem sincero: quero te ajudar e consequentemente o meu primo. Eu sei que você gosta dele.
A Nii ficou completamente ruborizada, sem reação; estava tão envergonhada. Era tão óbvio assim? Será que o próprio Itachi sabia? Seu estômago queimava com a possibilidade.
— Shisui-san, e-eu… — gaguejou.
— Tudo bem, não precisa dizer nada. E não se preocupe, o Itachi não desconfia de nada, esse é o problema, não desconfia nem dos próprios sentimentos que tem por você.
— Me desculpe, mas é ridículo — doía dizer, mas preferia não se iludir — Itachi-sama não nutre nenhum sentimento de natureza romântica por mim, no máximo amizade.
— Você é tão cega quanto ele, além do mais se menosprezando desse jeito — murmurou a última parte, que ainda sim foi ouvida pela Nii — quer saber, esquece isso — o moreno saiu do carro, deu a volta e abriu a porta do carona — o importante é você ir lá — segurou a mão da mulher e sem dificuldade a tirou do carro. Praticamente a carregou até a entrada no estabelecimento — procure o Itachi enquanto eu estaciono o carro num lugar adequado — e a largou ali se nem olhar para trás.
Depois dessa, nunca colocaria em cheque a “persuasão” de Uchiha Shisui.
Um pouco acanhada por não estar num lugar que frequentaria, a Nii esquadrinhou o local, pessoas bebiam sentadas à mesa ou dançando, todos alegres e com sorrisos nos rostos. Mas não foi tão difícil encontrar um moreno com rabo de cavalo baixo, sentado no bar do pub. Ele tinha um porte elegante e áurea forte que o destacava dos demais.
Caminhou até ele, desviando das pessoas.
— Itachi-sama — seu tom era mais alto que o normal, para que sobressaísse à música do ambiente. Tocou timidamente o ombro dele.
— Yugito? — soluçou e apertou os olhos para ter certeza. A visão estava um pouco embaçada, os olhos estavam levemente vermelhos, indicando uma boa quantidade de álcool ingerida.
— Sim, senhor — respondeu percebendo o estado do homem, nunca havia visto o Uchiha dessa maneira.
— O Shisui insistiu para que eu viesse aqui, mas até agora não apareceu — soluçou mais uma vez, antes de se levantar e se desequilibrar, sendo amparado por sua secretária. Riu com isso.
— Senhor! — ela olhou para entrada do lugar na intenção de achar Shisui, porém não havia sinal dele, na certa deve ter ido embora, os deixando “sozinhos” — eu acho melhor sairmos daqui.
O Uchiha não ofereceu resistência, com certa dificuldade conseguiu colocá-lo num taxi. Não sabia de onde tinha tirado tanta força para servir de apoio ao homem grande e forte, no elevador foi mais fácil, agradeceu internamente por não haver ninguém ali. Ao chegar no andar desejado, tratou de abrir a porta da suíte do chefe, ela já tinha pego a chave enquanto ainda estavam no taxi.
Itachi estava maia solto do que de costume, ria à toa por causa do álcool. Para falar a verdade, havia muitos anos que não ficava realmente bêbado. Adentrou cambaleante, sentiu as mãos pequenas em seu braço lhe dando apoio. Ele girou ficando muito próximo da mulher.
Yugito prendeu o fôlego por estar tão perto do amado, ao ponto de sentir a respiração dele em sua face.
O Uchiha a fitava intensamente, estava sério quando levou as mãos o óculos dela retirando e o jogou na cama, que estava perto. Depois levou as mãos aos fios loiro-acinzentados, puxou o coque soltando os cabelos dela.
— Você é tão linda — acariciou o rosto feminino antes de tomar os lábios rosados.
Yugito mal poderia acreditar no que estava acontecendo, por mais que sua consciência gritasse que ele não estava em seu juízo perfeito e ela depois iria se martirizar por estar se aproveitando, mas no momento sentia os braços másculos em torno de sua cintura e os lábios com gosto de bebida álcoolica que a estava deixando embriagada, não pelo álcool em si, mas pela emoção do momento.
Itachi se sentou na cama trazendo a Nii junto, ele nem raciocinava direito, apenas seguia um instinto primitivo, como se seu corpo o guiasse, como se aquilo fosse o certo a se fazer. Contudo, seu pensamento foi ficando cada vez mais longe até não se dar mais conta de nada.
O momento sublime, no qual Yugito sempre sonhou, foi interrompido ao sentir o corpo do chefe tombar para o lado e quebrar o contato. E por Deus! Voltar a realidade doeu como se tivesse caído de um prédio. Deveria tê-lo impedido de continuar, as lágrimas caíram sem seu consentimento, agora deveria torcer para que ele não se lembrasse.
Pegou seu óculos, não poderia se deixar levar por sonhos bobos e românticos, pois não era mais uma garotinha. Porém, a dor continuava lhe machucando ao sair daquele quarto.
Itachi acordou extremamente irritado consigo mesmo e com o primo pela ideia idiota. Sua cabeça doía, nem se lembrava de como foi parar em seu quarto, o desgraçado deve tê-lo levado. Apenas se lembrava de uma boa sensação, mas ao forçar sua memória, sentiu uma pontada e desistiu.
Ficou deitado por um bom tempo e havia tomado uma decisão, a filial já tinha se recuperado muito bem, não precisava mais de sua presença ali.
….
Era uma manhã de sábado, quando, depois de meses, voltou a pisar ali. Andou tranquilamente pelo simpático prédio de seu ex-professor, subiu até o andar desejado, carregava apenas uma bolsa de viagem, visto que não ficaria por muito tempo. Sacou sua chave para abrir a porta, por fim, caminhou pelo apartamento que não havia nem sinal de seu morador, na certa, deveria esta dormindo. Por isso, largou sua pequena bagagem no sofá e foi para o quarto, onde o moleque deveria estar.
Abriu a porta sem cerimônias:
— Ei, moleque… — gritou para acordá-lo, todavia interrompeu sua própria fala, ao notar qual situação que se desenrolava. Abriu um sorriso digno de seu apelido “carinhoso” dado pelo neto.
Naruto havia acabado de acordar, tinha um braço abaixo do seu travesseiro e o outro por cima da cintura de Hinata. Era muito bom poder acordar todas as manhãs junto dela e ter sua amada em seus braços, ele se descobriu um tanto egoísta e possessivo acerca disso e não abria mão de dormir com a namorada.
Namorada.
Ainda ficava bobo todas as vezes que pensava na palavra. Mal podia acreditar que havia conseguido alcançar o coração de sua pérola. A felicidade era tão grande que nem cabia em si mesmo, por isso estava ainda mais alegre e sorridente, se sentia um sortudo que poderia tocar o céu com as mãos. Sua determinação e perseverança estavam maiores ainda.
Tinha força para lutar contra qualquer obstáculo e problemas diários, tão comuns no cotidiano. Porém, no atual momento, não havia nada melhor do que estar com sua pérola.
Por se tratar de um final de semana, não precisava se levantar tão cedo, sendo assim, continuaria aproveitando a manhã. Colou mais ainda seu corpo no menor, fazendo seu encostar nas costas femininas, além de enfiar seu rosto aspirando a doce fragrância que o cabelo azulado emanava. Não satisfeito passou a dar beijinhos carinhosos no pescoço alvo, sabia que ela estava acordada, pela forma como respirava.
Hinata tinha as orbes fechadas, mas aproveitava o contato com o loiro mais lindo e maravilhoso que já tinha conhecido. Sorriu ao sentir os lábios quente em sua pele, causando arrepios. Manhosa, pela forma cheia de mimos que era tratada, ronronou e mexeu o corpo. No entanto, tomou um susto que fez seu coração bater rápido com um grito, acabou no mesmo instante abrindo seus olhos, um pouco desfocados pela claridade.
— Seu Velho Tarado — Naruto pulou da cama, se se importar com a nudez, ao ouvir a voz do avô — Sai daqui — se irritou ao ver a forma como Jiraya olhava para a Yuuhi, mandou um travesseiro na direção dele que desviou e saiu do quarto, não sem antes respondê-lo.
— É assim que trata o vovô? — a risada dele ecoou pelo corredor.
Passado alguns minutos, já compostos, o jovem casal estava na sala com o homem mais velho.
— Foi um prazer conhecê-lo, Jiraya-sama — Hinata cumprimentou mais corada que o normal, pelo momento constrangedor de pouco tempo atrás.
— O prazer foi meu, Hina-chan — deu um beijo nas costas da mão pequena — e para você, é apenas Jiraya ou vovó, se preferir.
A jovem riu:
— Eu vou deixá-los à sós. Ah! Leve seu avô para o café da manhã, minha mãe vai gostar de conhecer o Jiraya — deu um selinho nos lábios do Uzumaki, antes de sair.
— Huhu, eu sou um sábio mesmo, moleque — riu — você já deve ter usado todo o “pacote” que eu deixei.
O loiro revirou os olhos.
— E não me decepcionou, está no sangue do Namikaze, apreciarem — sinalizou seios grandes com as mãos em frente ao peito.
— Olha lá como fala, Hina-chan é minha namorada — fez um bico infantil — você só pensa nessas coisas, ela é muito mais que só isso — repetiu o gesto do avô.
O mais velho via o brilho nas safiras do neto, o mesmo que viu nas safiras tão iguais do filho, quando lhe disse que estava apaixonado por uma menina da escola. Ainda mais depois de ver o colar que deu ao filho e posteriormente, seu neto havia recebido, adornando o pescoço da bela jovem. Conhecia Naruto bem o suficiente, para saber que ele jamais daria aquele objeto com valor sentimental tão grande para qualquer uma. Afinal, era uma representação do amor entre seus pais. Seu neto era extremamente inteligente e perspicaz, se havia escolhido a jovem, foi porque era a pessoa certa.
Controlou a emoção, pois a morte de Minato e Kushina ainda doía da mesma forma, apesar de ter se passado tantos anos. Eles não puderam ver o filhos passar por tantas coisas importantes, respirou fundo para não demonstrar toda indignação e ódio que sentia, aquele não era o momento. O mais importante era saber que o neto estava apaixonado, então se concentrou nisso.
— Ah, sim. Eu gostei muito dela, tenho que agradecer à Hina-chan, por aturar o idiota do meu neto.
Antes que Naruto pudesse retrucar, foi surpreendido com um abraço do avô, que logo foi retribuído. O engraçado era o fato de que há alguns anos atrás, conseguia pegá-lo no colo e agora tinha quase a mesma altura, mesmo Jiraya sendo ligeiramente mais alto com seus 1,90m.
Apesar da relação um tanto peculiar, eles se amavam e sentiam falta um do outro, visto que viveram anos apenas na companhia do outro, além do mais, eram os únicos parentes de sangue vivos. Jiraya acabou sendo o segundo pai e Naruto um segundo filho.
Mas o contato carinhoso foi quebrado logo, pois não fazia o feitio daquela relação. Então Naruto fitou a bolsa do avô:
— Quanto tempo você vai ficar, Velho Tarado? — o homem a sua frente não permanecia muito tempo no mesmo lugar, então pressupôs que o mesmo estaria apenas de passagem.
— Acredito que nós partiremos em poucos dias — viu a expressão confusa estampada no rosto do jovem, pelo “nós” — Naruto, é claro que eu tive saudades, mas esse não foi o único motivo que me trouxe aqui. Você virá comigo.
— Como? A faculdade, eu tenho aulas — disse desconsertado.
— Não se preocupe, eu me resolvo com a Tsunade — tentou acalmá-lo — você não prejudicará seus estudos.
— Mas… eu tenho uma rotina, uma vida — seu tom foi reflexivo — eu tenho amigos, eu tenho uma namorada e uma casa, um lar. Eu não quero largar isso tudo que eu tenho, não é como antes, que eu te seguia. Eu não quero me separar da Hina-chan — afirmou com convicção.
O escritor respirou fundo, seria mais difícil do que pensava,entretanto era necessário:
— Moleque, não é como se você fosse embora para sempre. Eu mais do que ninguém, quero te ver feliz e sei que aqui, você está feliz, aqui é seu novo lar. Mas é apenas por um tempo, nós precisamos ir para Konoha, para o seu antigo lar. Não é como se fossemos para o outro lado no mundo.
O loiro abaixou os olhos, Konoha foi onde nasceu e viveu com seus pais, até o dia de suas mortes.
— Você sempre quis saber o porquê de nos mudarmos sempre, não é mesmo? — voltou a ganhar atenção do neto e sabia que tinha tocado num ponto crucial.
Naruto sempre tinha suspeitado de que Jiraya lhe escondia as coisas, constantes mudanças, telefonemas estranhos. Perguntara, todavia nunca obteve respostas, que julgara satisfatórias. Essa seria a chance de finalmente saber das coisas.
— Eu preciso pensar e conversar com a Hina-chan — seu estômago roncou — e comer.
Tanto Hinata quanto Kurenai se divertiam com as histórias que Jiraya sobre suas aventuras desde a juventude aos tempos atuais. O homem era eloquente e muito carismático.
— Ah, mas estou adorando passar esse tempo com vocês duas. O Naruto tem sorte por tê-las como companhia. E Kurenai-san, se eu não soubesse que são mãe e filha, pensaria que eram irmãs — disse galante enquanto beijava as costas da mão da morena.
— Kurenai-san, por favor, não leve a sério — coçou a nuca levemente constrangido — esse velho louco.
— Tudo bem, o elogio me fez bem — a mulher foi educada como sempre.
Há muito tempo a professora não se sentia tão calma, obviamente ainda existiam seu fantasmas do passado, contudo, seu estado de espírito era graças a felicidade que sua filha emanava. E como mãe, se sua menina estivesse feliz, ela também estava. Claro, Hinata nunca mais seria como antes, após tudo que aconteceu em sua vida, além ter amadurecido, era normal. A Yuuhi mais velha ainda conseguia enxergar a força da filha e toda sua altivez, que estavam sendo camufladas pelos sentimentos que sentia pelo Uzumaki. Para Kurenai, era visível toda esperança, doçura e amor que as orbes peroladas mostravam, e isso aquecia seu coração. Seria eternamente grata à Naruto por isso, havia acolhido o loiro como um filho, por também ter se sensibilizado com a história dele. Portanto, havia adorado ter conhecido seu avô, um homem um tanto “excêntrico”, mas evidentemente boa pessoa.
A refeição transcorreu com amenidades, vez ou outra, o loiro e o escritor discutiam, mas nada preocupante ou sério. Apenas parecia ser normal para os dois viveram assim, pois logo voltavam a conversar como se nada tivesse acontecido, tirando boas risadas das duas Yuuhis.
Após terminarem de se alimentarem, Jiraya alegou estar cansado por causa da viagem e se retirou. Kurenai também precisava fazer algumas compras, sendo assim, o jovem casal acabou ficando à sós.
O loiro e a azulada estavam sentados lado a lado no confortável sofá. Hinata tinha percebido que algo havia acontecido, porque Naruto estava diferente desde que ficaram sozinhos. Ele não lhe beijava, não lhe acariciava e muito menos olhava, fitava o carpete no chão como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
— O que houve, Naruto-kun? — até ela se surpreendia com o quão doce poderia ser com o Uzumaki.
O rapaz ouviu a voz que tanto amava lhe dirigindo uma pergunta, também sentiu uma pequena mão tocando seu ombro. Ele sempre foi muito transparente, então era óbvio que sua namorada percebesse. O loiro não sabia como começar, na verdade estava bastante dividido, por um lado não queria se separar da azulada, por outro queria saber tudo que o avô lhe escondia, pois tinha certeza de que era importante.
— O Velho Tarado — levantou seus olhos e fitou o rosto de porcelana — ele quer que eu vá para Konoha, disse que irá me contar o que tanto esconde de mim. E eu tenho certeza que é importante, ainda mais por ele insistir nessa viagem para Konoha, eu já te disse, foi onde eu nasci e vivi com meus pais. Então eu tenho quase certeza que é relacionado à eles.
Hinata não esboçava reação, contudo, por dentro teve uma vontade louca de gritar para que ele não fosse, no entanto se controlou, não poderia agir assim. Como o próprio Naruto lhe disse, era importante para ele, poderia ter a ver com seus pais, poderia ser uma chance de conhecer mais de seus pais. Ser uma cretina egoísta, estava fora de questão. Ela mesma se pudesse ter uma oportunidade de conhecer seu pai, agarraria com todas suas forças e tinha certeza que o Uzumaki estaria do seu lado lhe apoiando como fez desde que entrou em sua vida. Ele tinha sido tão forte e paciente, então ser compreensiva era o mínimo que ela poderia fazer para tentar agradecê-lo por tudo.
— Eu não quero me separar de você — Naruto sussurrou colando suas testas.
— Eu sei, também não quero — ela murmurou de volta — mas você tem que fazer o que deve ser feito.
— Eu já disse que te amo? — o loiro segurou o rosto dela entre as mãos.
— Deixa eu ver — suas orbes peroladas fitaram o teto como se estivesse tentando lembrar — hoje, não.
— Pois eu te amo — colou a boca na dela. Beijá-la era tão incrível, tão certo. Não sabia como ficaria afastado da Yuuhi.
— Eu também te amo — Hinata retribuiu enquanto se deitava no sofá trazendo o amado consigo.
Os dois aproveitaram a companhia um do outro, o máximo que puderam, pelo dias que se seguiram. No entanto, foi impossível adiar a despedida, por mais que quisessem. Lee e Gai fizeram um escândalo, Lee agarrou o Uzumaki, arrancando gargalhas de todos presentes. Konohamaru por sua vez, quis saber se ele voltaria, o menino ainda tentava se fazer de forte, pois segundo ele “homens não choram”, mas seus olhos aguados lhe desmentiam, também pudera, já considera o loiro um irmão mais velho. Kurenai lhe deu um abraço maternal e desejou boa sorte e o loiro agradecia internamente por poder experimentar, mesmo sendo pouco, de ter uma mãe.
Naruto descobriu que odiava despedidas, era difícil e machucava.
Por fim, estava Hinata mais afastada dos outros, quando ele se aproximou, soube o motivo e detestou. Ela chorava, contida é claro. Os olhos avermelhados e marejados. O rapaz limpou a única lágrima que teimara em escapar. Não houveram palavras, pois o mar e a lua diziam tudo, tantos sentimentos, nítidos para ambos. Eles se fitavam para guardar cada detalhe na memória. O Uzumaki deu um beijo apaixonado que foi retribuído com igual fervor e por último, um selinho casto na testa como um gesto de carinho.
E assim ele se foi. O que nem Naruto e Hinata sabiam, era que a partir daquele momento, seus caminhos seriam diferentes.
....
Nunca imaginou que pudesse sentir tanta falta assim dele, se pudesse voltar no tempo, não seria tão altruísta e exigiria que ele ficasse. Sentia tanta falta dos fios loiros bagunçados que tinha o hábito de acariciar, das safiras sinceras que lhe encantavam, do sorriso alegre que lhe aquecia, dos braços fortes que lhe davam segurança. Era humilhante ter que admitir, mas Naruto tinha roubado grande parte do seu coração, ele era muito mais importante do que pensou que fosse.
A Yuuhi estava mais introspectiva e todos tinham percebido, quando não estava na faculdade, passava grande parte do tempo no apartamento do namorado, onde se encontrava no momento.
Ali, se relembrava de todos os acontecimentos importantes de seu relacionamento. Apertou a pedra verde do colar que ganhou dele. Fazia um pouco mais de um mês que ele havia partido, só tinham se falado no dia seguinte à partida dele, e isso lhe preocupava de certa maneira.
O enjoo forte abateu sobre a jovem que correu para o banheiro o mais rápido possível e despejou o pouco que havia conseguido comer no almoço, dentro do privada. A sensação era horrível, porém estava se tornando corriqueira, visto que em seu estado era normal.
Levantou e deu descarga, depois lavou a boca para tirar aquele gosto amargo.
Sim, estava grávida.
Descobriu há poucas semanas atrás, seu ciclo sempre muito pontual havia atrasado por duas semanas, além de sentir mais cansada e dos frequentes enjoos. Sempre se cuidaram, quase sempre, na verdade se lembrava da única vez que não usaram proteção. Não era idiota, apenas uma vez bastava para que um bebê fosse feito. No meio de tanto desejo e paixão, tinham sido irresponsáveis. Olhou para o box, onde havia sido o “local do crime”.
Voltou até a sala, onde em cima da mesa de centro, se encontrava o exame de sangue que fez apenas para tirar qualquer dúvida. Havia pego o exame naquele dia e resolveu guardá-lo na pequena estante onde ficavam alguns livros.
Queria que Naruto fosse o primeiro a saber, entretanto a “coisa loira” não cooperava, pois não entrava em contato. Por hora, ninguém desconfiava.
Tentava imaginar como o loiro reagiria ao saber que seria pai. O sorriso foi inevitável, tinha certeza que o loiro amaria e seria um “babão”. Mesmo sendo tão jovens, eles eram unidos pelo amor e a vontade de terem uma família completa e agora teriam essa chance. Estava tão sentimental ultimamente, pelo menos teria a gravidez para justificar. Riu. Nunca se imaginou mãe. Talvez agora pudesse entender um pouco mais de Kurenai. Havia insegurança e medo, claro, aquilo era uma responsabilidade enorme. E foi inevitável pensar em como ficaria com a barriga grande.
Tocou no ventre ainda liso, aquilo era tão estranho, mas já sentia que amava imensamente e tinha um forte instinto de proteção, por aquela coisinha que se desenvolvia dentro dela.
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