Hinata
31 Reconciliação
Notas iniciais
— Aconteceu alguma coisa? — ouviu a voz curiosa soar, do outro lado da linha.
— Não houve nada, só estou um pouco cansada — enrolou o cabelo com as pontas dos dedos, nervosa.
— Sakura?! — o tom dele mostrava que não iria desistir.
A Haruno suspirou, aquela era a primeira vez em semanas que conseguia ter uma conversa decente com Sai. O pintor estava rodando a Europa com sua nova exposição, enquanto ela trabalhando no hospital, causando dificuldade em conciliar o tempo, para que eles pudessem se falar.
Ela tinha acabado seu turno há poucos minutos e ajeitava suas coisas para poder voltar para casa e então, recebeu a ligação de seu querido amigo. O diálogo se mantinha superficial, como se nada importante tivesse acontecido, pois a rosada omitiu a volta de Sasuke. Não que fosse algum problema de confiança em Sai, ela não disse nada por dois motivos principais: o primeiro era o desconforto em tocar no assunto e o segundo e mais difícil deles; não queria voltar a lembrar do Uchiha, ele não pedia permissão para invadir seus pensamentos. Porém, quando estava trabalhando, se esquecia completamente, ocupando sua mente com os seus pacientes.
Todavia, não pareceu adiantar, porque o pintor desconfiou dela. Não era uma boa mentirosa, afinal.
— É o Sasuke — expôs mais baixo que o necessário, como se fizesse uma confissão.
— Eu imaginava — comentou.
— Não, Sai. Não é da forma que você está imaginando, é literalmente. O Sasuke voltou. O pior é que ele me procurou e disse muitas coisas, coisas que eu sempre quis ouvir.
O pintor não a via, contudo sabia que a expressão de Sakura estava abatida.
— Mas… — ele incentivou.
— Mas eu tenho medo, não sei se posso confiar novamente — apertou seu celular com força — e não é só isso, ele me beijou.
— E como você se sentiu em relação à isso? — o amigo tentava ajudá-la a achar suas respostas.
— Especial, foi único — estava se controlando para não chorar, apesar de suas esmeraldas estarem mais brilhantes pelas lágrimas contidas.
— Então é, exatamente, o que eu imaginei. Sakura, você ainda não se deu conta de como o Sasuke afeta sua vida? E eu não estou me referindo ao que você acabou de me contar. Mas eu quero que você perceba que desde que você se separou dele, isso não impediu que a lembrança do Sasuke, fizesse com que você sabotasse todos os poucos relacionamentos em que você se propôs a ter. Isso sem falar em como você usa o trabalho como escudo, para fingir que está tudo bem.
— E o que você quer que eu faça? — ela estava exaltada, não com o amigo, mas sim porque sabia que ele dizia a verdade.
— Eu não quero nada, você sabe muito bem o que fazer. Porém, eu devo dizer que, se depois de tanto tempo, ele te procurou, talvez o Sasuke se sinta da mesma forma que você; talvez ele tenha amadurecido como você também. E embora você tenha medo, é melhor se arrepender do que fez, do que se arrepender pelo que deixou de fazer. E agora, infelizmente, eu tenho que desligar. Até breve.
Sai desligou sem dar chances para a rosada responder. Ela colocou o casaco sobre os ombros e a bolsa numa das mãos. Ainda tinha o celular na mão esquerda. A Haruno refletiu a respeito do que o amigo disse e ele tinha razão, não poderia mais fingir que nada acontecia. Num rápido impulso, digitou a combinação de número no seu aparelho e em pouquíssimo tempo, fora atendida.
— Sakura! — o Uchiha falou seu nome, parecia tenso e ansioso, como nunca tinha presenciado antes.
— Sim… — ela respirou, tentando reunir coragem — você pode me encontrar na cafeteria perto do hospital? Bem, se não tiver nenhum compromisso — completou.
— É claro. Estarei no local combinado o mais rápido possível.
A Haruno finalmente saiu do hospital e se dirigiu para o local desejado. Ao entrar no estabelecimento, sentou na última mesa, sua favorita que, por sorte, estava desocupada. Fez o pedido de sempre, estava com fome e a comida também serviria controlar um pouco de sua ansiedade.
Já tinha passado da metade de seu prato, quando viu o Uchiha andar em sua direção.
— Boa noite — ele cumprimentou, estava um pouco ofegante, como se tivesse corrido. E, então, se sentou de frente para ela.
— Oi — abandonou seu prato, pois perdeu o interesse na comida, instantaneamente — eu deveria ter te esperado. Quer alguma coisa? — perguntou sem saber o que dizer.
— Não estou com fome — o moreno devolveu.
Sasuke se surpreendeu muito com a ligação da Haruno. Deixou o loft que alugou e todos os projetos que estava criando, para pôr em prática num futuro próximo e seguiu para o local combinado.
Quando a viu sentada e distraída, sentiu uma vontade imensa de beijá-la, porém, não poderia comprometer a nova chance que tinha. Senão, a rosada iria se retrair e afastá-lo como da última vez. E ele passou um bom tempo remoendo e se culpando pela impulsividade que teve.
O Uchiha não tinha a intenção de parecer leviano, no entanto, para ele, era bastante óbvio o motivo de Sakura tê-lo convidado. A Haruno, provavelmente, deve ter pensado melhor e percebido que não deveria ser tão radical em sua decisão. Afinal, por qual outra razão os dois estariam ali, levando em consideração os últimos acontecimentos?
Enfim, aquela era sua oportunidade e estava certo de que não iria desperdiçá-la. Percebendo que Sakura estava quieta por tempo demais e fitava seu prato como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Ele optou por tomar a frente, aliás, em sua concepção, não era mais que sua obrigação, visto que fora ele quem arruinou aquele relacionamento.
— Eu não deveria ter te beijado tão de repente — ganhou a atenção das esmeraldas, após se expressar — abrindo margem para que você interpretasse que eu estava sendo um “idiota narcisista que acha que pode voltar com você como nada tivesse acontecido” — respirou, antes de continuar — mas não é nada disso, eu te beijei porque eu não pude controlar a vontade que eu tive de sentir os seus lábios.
A Haruno apertou os talheres, nervosamente. Parecia surreal ver Sasuke tão comunicativo e falando sem reservas sobre o que sentia. Mas ainda sim, precisava de mais, necessita de segurança.
— E por que você está fazendo tudo isso, me falando essas coisas? — questionou.
— Quando a gente se separou, eu pensei que você se arrependeria e voltaria atrás, mas você não voltou. Então, com todo meu orgulho, eu pensava que poderia te substituir e que você não me faria falta, porém, eu estava completamente enganado. Eu não me dei conta da importância que você tinha na minha vida e só depois de ficar longe e reavaliar minha vida eu me dei conta de que fui um completo idiota e que eu te amo.
— Sasuke… — ela ofegou — você nunca me disse isso — a médica se referia a declaração inédita dele.
Todas as vezes que expressava seu amor por ele, nunca obtinha resposta. Isso a matava e frustrava, até o ponto em que aceitou o humilhante fato de que não era correspondida da mesma maneira. Sentiu seu coração bater tão forte. Era real?
— Eu te amo, sempre amei, você sabe disso — a Haruno sussurrou, pois não queria que a magia daquele momento acabasse — mas se você me decepcionar de novo, eu não sei se poderei me reconstruir mais uma vez.
— Ei — o moreno esticou o tronco sobre a mesa e com facilidade tocou no rosto feminino e secou as lágrimas que escorriam sem parar — eu sei que você tem todos os motivos para sentir receio em se machucar, mas eu prometo que se você me der uma nova chance, eu vou fazer valer a pena e se eu for um idiota, pode me juntar sem dó.
Juntou suas testas e constatando que não fora repelido, interpretou como um sinal positivo, fez o que estava com vontade desde que a viu. Roçou seus lábios finos e frios nos dela e por fim aprofundou o contato. Era incrível como eles se encaixavam perfeitamente.
….
Itachi tinha o computador a sua frente, na tela, o e-mail de um dos sócios. Porém, embora tentasse ler, seu cérebro não conseguia processar as palavras para formar frases coerentes. Pois, seus pensamentos estavam longe dali, mais precisamente na inusitada “amizade” entre sua secretária e seu primo.
Para ser sincero, estava deveras incomodado com o rumo que as coisas estavam tomando. Era óbvio que não tinha ciúmes, contudo, tinha apreço por Yugito e não queria que ela caísse nas garras de Shisui. A Nii era uma boa mulher e merecia alguém que pudesse correspondê-la a altura, alguém que pudesse dar suporte e segurança. Nada que Shisui pudesse oferecer, além de ser seu primo, era seu melhor amigo e justamente por conhecê-lo tão bem, tinha plena consciência de como o outro Uchiha era “volúvel” e “inconsistente”, aqueles eram os melhores eufemismos para descrevê-lo.
Shisui na verdade era um canalha, se aproveitando de sua secretária. Óbvio que desconfiava das intenções do primo em se aproximar da Nii, logo após ela voltar para o trabalho tão diferente em relação aos cuidados com a aparência.
Não que Itachi a achasse feia antes, sempre a considerou uma linda mulher, por fora e por dentro. Mas algo chamava sua atenção agora e não era pela aparência física, porém sim nas atitudes determinadas da loira. Continuava a mesma profissional dedicada e competente, contudo, era percetível nos pequenos detalhes em como ela possuía uma postura mais confiante e decidida. E aquilo o atraía, inconscientemente, como um imã.
Quando, finalmente, desanuviou a mente e resolveu voltar aos seus afazeres, eis que surgiu Shisui e claro, como sempre, sem bater na porta antes de entrar.
O mais velho tinha um sorrisinho adornando os lábios e cantarolava uma melodia animada. Itachi sabia que era proposital, para irritá-lo e estava conseguindo.
— O que você quer? — tratou de perguntar, sem gentileza alguma.
— Nossa, Itachi — Shisui tocou em seu peito, como se estivesse ofendido — você precisa comer algum doce para dar jeito nessa amargura.
Ignorando o deboche do primo, questionou mais uma vez:
— Fale logo o que quer?
— É crime querer ter um tempinho com meu primo? Conversar? — respondeu, sem disfarçar seu falso tom de inocência.
Sua fala não era de toda mentira, Shisui, de fato, queria ver Itachi. Só que estava omitindo o motivo. Sua real intenção era sondar se seus esforços estavam surtindo o efeito desejado. Ele percebeu que apenas falar ou tentar aconselhar, como sempre tinha feito, não adiantaria com o primo, pois a teimosia e o orgulho sempre falariam mais alto. E desconfiava que Itachi, mesmo inconscientemente, fazia o contrário do que os outros diziam, apenas para ser do contra. O amigo tinha mais em comum com o velho Madara do que admitiria.
— Já que você quer conversar, que tal começarmos pela Yugito? — manifestou sua indignação — ou você que eu sou idiota, para não saber que existem segundas intenções da sua parte nesses encontros?
— “Esses encontros” são apenas almoços. Não precisa desse ataque de ciúmes, Itachi — Shisui comentou soberbo.
— Então é isso? Agora você quer que eu sinta ciúmes? Por que eu me lembro bem, você sempre que podia, tentava me jogar em cima da Yugito — acusou.
“é quase isso, idiota” Shisui pensou, quase sorriu, contudo agora precisava encenar e ser convincente, por isso, se manteve sério:
— Eu nunca pensei que você fosse tão egocêntrico, o mundo não gira ao seu redor — se fez de ofendido — Itachi, eu já desisti há muito tempo de te fazer enxergar o óbvio. Se eu me aproximei da Yugito, é pelo fato dela ser uma grande pessoa, uma mulher com muitas qualidades, não só as qualidades profissionais — cutucou, sutilmente, o primo.
Itachi se irritou bastante com as insinuações que seu amigo fazia, quase como acusações de que ele conhecia a Nii melhor, pior o “ar” de que sabia de algo que Itachi não sabia. Sem falar na maneira que estava o tratando como um idiota incompetente que não tinha capacidade para entender o básico.
— Escuta aqui, para sua informação não tem nada a ver comigo — queria deixar aquele ponto bem claro — Se eu estou tendo essa conversa com você, é porque eu te conheço e sei como você age. A Yugito não é o tipo de mulher que você se envolve, ela é muito sensível e até mesmo ingênua, pode acabar criando expectativas e acabar se decepcionando. E eu não quero que ela se machuque.
— Você está muito equivocado em relação a ela. Sua secretária é muito forte e perspicaz. Além do mais, você não é pai dela para decidir com quem ela sai ou não — revirou as orbes negras, tão características dos Uchihas e ao mesmo tempo, tão diferentes das orbes de seu primo, enquanto as suas expressavam leveza as dele eram irritadas. Admitia, era divertido jogar daquela forma.
— Ah, claro! Porque você a conhece com propriedade — expressou venenoso — é melhor que nós paremos por aqui — decretou.
— Nisso nós concordamos. É melhor que eu vá, não quero correr o risco de apanhar do meu priminho — debochou, fingindo sentir medo.
— Olha, eu estou mesmo me controlando para não te bater — apertou os punhos e elevou sua voz num tom acima do normal — parece que você quer testar minha paciência.
“ E não é que você acertou, Itachi — riu, diabólico — é isso e muito mais que você merece por ser tão tonto”, pensou, jocoso. Seu plano era um verdadeiro sucesso, o amigo mordeu a isca e estava sendo manipulado sem perceber.
Se ele tinha algum remorso? Nem um pouco, seu primo ainda iria agradecê-lo no futuro. Ele até que se sentia muito orgulhoso, em seu papel de cupido, vale ressaltar, nada convencional.
Antes que Shisui pudesse finalmente, verbalizar uma resposta ao primo, ouvir batidas na porta, anunciando a entrada do motivo daquela discussão: Yugito.
— Com licença — a Nii sentiu o clima tenso anormal entre os dois — eu não sabia que os senhores estavam conversando, não quero atrapalhar. Volto mais tarde.
— Não, nada disso. Não havia momento mais oportuno do que este, já que você é o nosso assunto principal, nada mais justo do que participar — Shisui, comentou.
— Como assim? — a loira apertou os olhos confusa.
— Ah, o Itachi estava fazendo um interrogatório sobre a nossa amizade — se aproximou da Nii, como se fosse confidencializar um segredo importante — ele tem medo que você caia nos meus encantos, cá entre nós, meu priminho está morrendo de ciúmes — riu, sem se controlar, enquanto Yugito se sentia envergonhada.
— Não é nada disso! — Itachi protestou ríspido.
— Jura?! — Shisui, exclamou descrente — Mas agora eu tenho que ir.
Quando os dois ficaram à sóis, Yugito rapidamente levou os papéis que tinha em mãos, até a mesa de seu chefe.
— Senhor, eu preciso de sua assinatura para poder despachar esse documento ainda hoje — Usou seu tom mais formal possível.
O homem lia por alto, não que não confiasse em sua secretária, porém era força do hábito, antes de assinar qualquer coisa.
Enquanto isso, Yugito pensava no que Shisui dizia. Ele, obviamente, estava provocando Itachi, como havia dito para ela que faria. Apesar da Nii estar agradecida pela ajuda em sua mudança, ela deixou claro que preferia que ele não fizesse nada e não levasse o tal plano adiante. Contudo, ao que parecia, o homem não lhe deu ouvidos. Ela não sentia raiva, visto que sabia que o outro, de fato, fazia aquilo tudo por gostar do primo e dela também, mas não significava que aprovava seus métodos e nem sua intenção. De uma forma estranha, já havia se conformado de que jamais teria um relacionamento romântico com Itachi e aquilo já não doía como antes. Talvez ela, finalmente, estava conseguindo seguir em frente.
No entanto, outro lado da sua mente, estava curioso e inquieto, tentando saber o que aconteceu naquela sala, antes da sua entrada. Por isso, avaliava se deveria ou não, entrar no assunto que Shisui tocou. Quando seu chefe terminou de assinar o documento, num impulso, ela questionou:
— Senhor, é verdade o que o Shisui disse?
Itachi a fitou, não imaginou que ela quisesse falar sobre aquilo.
— Não da forma como ele insinuou. Se eu o questionei, foi porque me importo com você.
— Eu agradeço a preocupação — a mulher sentiu uma raiva se apossar de seu corpo. Em outros tempos, poderia até se sentir feliz com aquilo, todavia não se contentava mais com migalhas. Pois o homem deixou claro que não havia nem uma pontinha de sentimento, era apenas controle. Claro, era típico de seu chefe querer ser o bom moço da história — não quero parecer rude, mas prefiro que o senhor não se meta na minha vida pessoal — ela recolheu os papéis da mesa — com licença.
Itachi tinha a boca aberta. Aconteceu mesmo aquilo? Nunca viu sua secretária daquela forma, aliás, ela nunca falou com ele assim. Era inusitado e estava chocado demais para fazer algo.
….
Talvez solidão fosse a palavra que melhor servia para definir sua curta vida. Por fora, as pessoas poderiam pensar que sua vida era perfeita, uma menina nascida em berço de ouro, provinha de uma família famosa e respeitável, porém só ela sabia o que sentia. Por mais que pudesse ter tudo que a maioria das garotas de sua idade queriam ter, ela só queria fazer parte de uma família normal.
Hanabi desejava possuir qualquer outro sobrenome que não fosse Hyuuga.
Tudo que ela queria era receber afeto e atenção. Poderia parecer normal para alguns, contudo para ela era não. Sua mãe que, supostamente, deveria amá-la, lhe odiava. E aquilo não era suposição de sua parte, sua própria mãe deixou claro que a detestava, dizia com todas as letras. Que era uma inútil e culpada pela ruína de seu casamento. Rin fazia questão de sempre deixar explícito que não gostava da filha e a repudiava.
Foi devastador para Hanabi, ter uma mãe como a sua. A menina nunca em sua vida, mesmo que tentasse vasculhar a mente em busca de uma memória perdida, conseguiu se lembrar se em algum momento recebeu amor daquela mulher.
Sobre seu pai, embora não se comparasse com a crueldade de Rin, também não gostava dela. Apesar do homem defendê-la, quando presenciava os abuso cometidos pela outra adulta, quase nunca estava presente na vida da filha. Hanabi sentia que sua mãe tinha razão e ela não era a filha que seu pai esperava que fosse. Seu progenitor nunca lhe bateu ou levantou a voz, mas ela sentia que ele evitava ficar perto dela. Tinha a impressão que o mais velho era alérgico à sua presença.
Já havia se conformado que sua mãe era incapaz de amar ou ter sentimentos bons, não só em relação à ela, mas a tudo e todos. Por isso, se sentia muito mais magoada com o pai, pois ele sim tinha o poder de acabar com tudo aquilo, ele sim poderia lhe dar afeto e também poderia ter se casado com uma mulher melhor.
Todavia, não era de todo ruim, ainda havia seu primo Neji, a quem considerava um irmão mais velho. Era a pessoa mais próxima que tinha e provavelmente, por quem mais nutria afeição. Ficava grata pelo primo se preocupar tanto com ela, com seu jeito protetor e carinhoso. Contudo, não gostava de alugar demais os ouvidos dele, visto que o mais velho também tinha uma vida e problemas. Trabalhava muito e não queria que ele ficasse mais cansado ainda e talvez pudesse se arrepender de dar tanta atenção à ela, preferia não correr o risco de perder a única pessoa que demonstrava gostar dela.
Em termos de personalidade, a Hyuuga mais jovem demonstrava ser duas pessoas distintas: para a maior parte das pessoas, ela era introspectiva e pouco sociável, mas sempre se mostrava uma menina de temperamento forte, no entanto, reservava seu verdadeiro “eu” extrovertido e brincalhão, para poucas pessoas. Os privilegiados eram Neji, algumas poucas colegas de classe e os empregados da Mansão Hyuuga.
Naquele momento, estava se sentindo péssima com tudo que aconteceu, a morte de Rin, que a afetou mais do que imaginava. Mas o pior de tudo, foi ter sido arrastada para outra cidade, mais precisamente a capital do país. Ter que ficar longe de Neji, longe de casa e de tudo que era familiar. E ainda estava presa naquela suíte, pelo menos era muito grande e havia espaço para que ela não se sentisse claustrofóbica ou enlouquecesse.
Foi quando seu pai adentrou o local e se sentou numa das poltronas que estavam dispostas em frente ao sofá que ela estava. Os dois estavam hospedados no hotel mais luxuoso da cidade e ainda por cima, seu pai alugou a suíte presidencial, que consistia em dois quartos com um banheiro cada, a sala de estar onde estavam e a sacada que possuía uma bela visão da paisagem urbana.
— Me desculpe por deixá-la aqui dentro o dia todo — ele iniciou o diálogo — eu tinha que resolver alguns assuntos muito importantes.
— Você foi ver aquela mulher, Kurenai, não é? — sua pergunta soou mais como uma afirmação. Os notar o olhar surpreso do mais velho, explicou — eu ouvi sua conversa com o Neji.
— Sim, Hanabi. Eu fui encontrá-la — confirmou.
— Eu não sei porque você me trouxe para aqui, agora que você encontrou a mulher que ama e descobriu que tem um filho com ela, vocês podem viver juntos e felizes. Eu prefiro ficar em casa, mas a minha opinião nunca importa — ela não escondeu seu ressentimento.
Hiashi não estava irritado, mas sim triste pelo comentário da filha. Ela tinha razão em se sentir rejeitada daquela maneira, pois ele falhou como pai. Quando estava distante de tudo, porque não suportava mais seu casamento, foi egoísta e acabou abrindo margem para que Hanabi interpretasse que não a queria por perto, quando na verdade, o homem só não sabia lidar com seus sentimentos. Portanto, se fechou para o mundo como um todo, contudo, aquilo afetava sua filha, que não tinha culpa de, absolutamente, nada. O Hyuuga foi omisso, permitiu que Hanabi sofresse, mas estava disposto a mudar tudo.
— Eu queria ter conversado com você antes, te explicado as coisas, na verdade, minha intenção é essa. Não quero que você entenda errado. Depois que sua mãe morreu, acho que nós merecemos iniciar uma vida nova e mudar de cidade, talvez seja um bom começo.
Hanabi ouvia o pai com atenção, tentando processar o que foi dito. Poderia confiar nele? Não queria se decepcionar, porém o mais velho parecia sincero.
— É sério? — perguntou receosa.
Hiashi sorriu, se levantou para ajoelhar de frente para filha mais nova. Tomou as mãos menores com as suas e as acariciou:
— Sim, muito sério. Eu não quero que você se sinta excluída, eu sei que é minha culpa. Eu sei que não fui o pai você precisava que eu fosse. Me desculpe filha, eu te amo e se algum dia eu for reconstruir minha vida, você sempre estará inclusa nela.
A garota chorava e permanecia de cabeça baixa, fitando suas mãos entrelaçadas.
As orbes de Hiashi estavam marejadas, só agora percebia o quão magoada sua menina estava. Doía imaginar tudo que ela teve que suportar sozinha. Nunca mais permitiria que Hanabi sofresse por sua causa.
— Olhe para mim — expressou carinhoso, enquanto levantava o queixo dela — não chore, filha. Você perdoa seu pai?
A mais jovem apenas balançou a cabeça em positivo. E surpreendeu o pai com uma abraço inusitado. O ato em si, valia mais do que mil palavras e era o que eles precisavam naquele momento, demonstrar sentimentos, afinal a vida era curta demais para perder tempo com brigas e mal entendidos com seus entes queridos.
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