Hinata
28 O Passado de Kurenai
Notas iniciais
Ele poderia aparentar ser um homem frio e altivo, entretanto, por baixo de toda rigidez, existia um homem triste e cansado da vida vazia que levava. Não importava se ele era Hyuuga Hiashi, dono da mineradora Byakugan, a maior do continente asiático ou ser um dos homens mais ricos do mundo; se ele pudesse, trocaria toda fortuna e poder que exercia, para voltar no tempo e mudar o seu presente.
Por outro lado, se as coisas não acontecessem da forma como haviam sucedido, provavelmente, sua filha Hanabi não existiria. E por mais que ele fosse negligente com a menina e não desse a devida atenção, ela era parte dele e a amava, mesmo não sabendo demonstrar afeto da forma mais correta, ele admitia.
O moreno suspirou, tirou da gaveta de sua mesa, uma foto já antiga. Tocou com a ponta dos dedos a imagem de uma jovem morena de olhos castanhos-avermelhados. Não sabia o que tinha acontecido com ela, se estava bem ou viva. Só de pensar daquela forma, seu coração calejado se apertou. Como se arrependia do que tinha feito e de como havia tratado o primeiro e único amor de sua vida. Fechou os olhos, não se importava de ser flagrado, ele dividia seu tempo entre a empresa ou no escritório em casa, onde estava no momento e sabia que ninguém entraria ali, sem ser anunciado. Uma ordem dele próprio, que era acatada por todos os moradores da casa.
Formou a imagem de sua amada na cabeça, exatamente como ela era e foi impossível não se lembrar da primeira vez que a viu.
Ela já estava trabalhando na casa dos Hyuuga, há cerca de três meses. Kurenai queria ser professora, mas em suas condições, era apenas um sonho distante. Além do mais, perdeu os pais cedo e teve que contar apenas com ela para se sustentar e ser seu próprio esteio. Com sorte, ela teve ajuda da senhora Chiyo, uma conhecida de seus pais, a idosa era governanta dos Hyuuga há décadas e conseguiu aquele emprego para a Yuuhi.
Sua função era obedecer as ordens da governanta que consistia, na maioria das vezes, limpar alguma área da casa ou ajudar na cozinha. Logo, pegou o ritmo da casa, que era muito tranquilo, o senhor Hoshi, era viúvo e vivia sozinho, era solitário, ranzinza e lhe dava medo. Ela fazia de tudo para evitar estar no mesmo ambiente que ele, o que infelizmente não poderia ser evitado, em ocasiões em que a senhora Chiyo a pedia para levar as refeições ou remédios para ele .O trabalho era árduo, todavia, a morena não reclamava, sempre tentava extrair o melhor em cada momento e também pensava que tudo poderia ser pior. Era uma otimista, afinal.
Através da governanta, descobriu que o dono da casa tinha dois filhos: Hiashi e Hizashi, eram gêmeos. Aquilo surpreendeu a jovem, pois apesar dos meses que estava ali, nunca viu nenhum dos filhos visitar o pai. A senhora Chiyo lhe explicou que o filho mais velho, Hiashi, morava no exterior. Já o mais novo, Hizashi, era casado e morava na capital.
No entanto, hoje, a governanta havia lhe informado que o filho mais velho do senhor Hoshi, voltaria para casa e incumbiu a jovem, a tarefa de limpar o quarto dele. Kurenai se sentia estranhamente ansiosa. Para falar a verdade, seria a primeira vez que frequentaria aquela ala da mansão. Também estava feliz pela prova de confiança que recebera da senhora Chiyo, pretendia executar função da melhor forma possível.
Entrou no ambiente, o local era impessoal e neutro, mais parecia um quarto de hóspedes, do que do filho do senhor Hoshi. Mas a governanta havia garantido que aquele era o quarto do herdeiro. O ambiente era amplo, tons escuros como cinza e preto, dominavam a decoração. Os móveis estavam cobertos com uma camada considerável de poeira, denunciando a falta de limpeza, porém, primeiro, Kurenai decidiu aspirar o pó do carpete. Estava suada, todavia, tentava fazer do serviço algo divertido, cantarolava uma melodia baixinho e movia os quadris levemente, sem perceber. Depois tratou de trocar os lençóis da cama e por último, começou a lustrar os móveis com dedicação, passou pela estante abarrotada de livros, uma escrivaninha e perto fim, os criados-mudos.
Então, algo lhe chamou atenção, um porta-retrato, havia uma mulher belíssima, a pele branca contrastava com as madeixas azuladas e incomuns olhos perolados. Encantada com a foto, não se conteve e a pegou, curiosa, queria descobrir de quem se tratava. Não custava nada retirar a imagem do objeto que a prendia, para checar o verso, quem sabe assim, tinha alguma dedicatória. Sua intuição estava quase correta, não era de fato uma saudação, mas sim um nome: Hyuuga Hinata.
— Quem é você? — a morena ouviu uma voz desconhecida.
Com o susto, deixou o porta-retrato cair e se espatifar em vários pedaços. O que ela tinha feito? Desesperada, tentou recolher os cacos e acabou cortando o dedo, superficialmente.
Ela viu que o homem se colocou à sua frente, elevou o queixo e finalmente o fitou, não era possível saber o que o homem pensava, sua expressão era impassível. Percebeu que ele possuía olhos perolados, da mesma forma que o senhor Hoshi e a mulher da foto. Sentiu que o olhar perolado a analisava minuciosamente, ela sentiu uma sensação estranha e desconhecida. Os olhos dele vagaram para suas mãos e ela optou por se levantar, pois sua posição anterior, era deveras constrangedora.
O homem tirou o objeto de suas mãos.
— Como se atreve… — murmurou — saia! — ordenou ríspido.
— Me desculpe! E-eu não tive a intenção — aquela situação era tão vexatória.
Hiashi identificou receio, vergonha e medo, nos olhos castanhos-avermelhados. Porém, repetiu o que havia dito:
— Saia!
E ela praticamente correu para fora do local. Não podia perder aquele emprego, na certa, o homem exigiria que ela fosse despedida. Por que tinha que ser tão curiosa? Seu serviço era apenas limpar o quarto, não deveria ter feito mais que isso. Jamais poderia imaginar que o filho do patrão, chegaria tão rápido. O homem deveria estar pensando o quanto ela era ridícula e enxerida. O que deveria fazer? Não tinha coragem de dizer a governanta o que houve, só lhe restava aguardar o pior.
Hiashi fechou a porta do recinto, percebeu que os utensílios de limpeza, ainda continuavam ali, mas não importava, depois pediria para algum empregado retirar. Por falar nisso, aquela menina, aparentemente, alguns anos mais jovem do que ele, certamente, era uma serviçal. Ela havia conseguido irritá-lo mais ainda do que ele já estava. Era muito atrevimento bisbilhotar o retrato de sua mãe, era algo tão íntimo para ele, que sentia como se ela estivesse invadido seu espaço pessoal. Sinceramente, odiava aquilo.
Ele chegaria no dia seguinte, contudo, conseguiu se adiantar, pois um dos passageiros do voo anterior, desistiu da viagem. Sua vontade de chegar logo, lhe rendeu uma experiência terrível, o local era desconfortável para um homem de seu tamanho, fora o atendimento péssimo. Resultando em dores nas costas e pernas, fora a dor que irradiava pela cabeça até o pescoço. Tudo contribuindo para o seu péssimo humor e falta de paciência.
Porém, o pior não era o físico e sim os problemas interiores que ele tinha. Por ser o filho mais velho, era o herdeiro do Império de sua família e praticamente toda a responsabilidade estava sob seus ombros, a vida inteira fora uma cobrança exacerbada e o pior de tudo, sentia como se todos os seus atos eram feitos por simples e pura obrigação. Por vezes, não se sentia vivo de fato, apenas existia e agia no automático. Para as pessoas à sua volta, poderia ser interpretado como um sujeito frio e distante, mas ele estava longe de ser indiferente. Para se afastar daquele ciclo vicioso, resolveu estudar no exterior, aprimorar seus conhecimentos. Entretanto, era ciente que, num dado momento, tinha que voltar para o mesmo círculo e assumir todo o fardo de uma vez e era isso que ele iria fazer: cumprir seu papel. Por mais que fosse uma tortura.
O Hyuuga apenas deitou o corpo cansado na cama, que não deitava há anos e tentou afastar toda irritação para enfim se entregar ao sono.
Hiashi sorriu nostálgico com primeira interação não tão amigável com Kurenai. Naquele ponto, ele jamais poderia imaginar o que a mulher significaria em sua vida. Era o começo de uma história intensa. Então, voltando a realidade, ouviu batidas na porta, guardou a foto que tinha em mãos e deu permissão para quem quer que fosse, entrasse.
— Perdão, senhor — a empregada se desculpou, pois sabia que o patrão detestava ser interrompido — mas a sua esposa deseja vê-lo.
….
Kurenai acordou sentindo o ar diferente, como se algo fosse acontecer. Tentou afastar a sensação, aquilo era fruto de sua imaginação fértil, queria se convencer disso. Ela continuava morando no mesmo lugar, apesar dos protestos da filha, que insistia que a mãe deveria morar com ela, no conforto da mansão em que vivia com o marido. Mas a professora se navegava, não queria usufruir do dinheiro do genro e também preferia manter sua vida simples e pacata, além da sua privacidade. Sendo assim, passava no máximo as férias ou datas comemorativas na casa de Hinata.
Era claro que não amenizava a saudade de sua menina, visto que elas viveram, quase toda vida, juntas. Por outro lado, sua filha precisava formar a vida dela e ela Kurenai, também deveria seguir com a sua.
Com o pensamento determinado, começou a se arrumar para ir ao trabalho, decidiu usar cabelo preso e para isso, precisava de elásticos para amarrar suas madeixas. Haviam alguns dentro de um de seus criados-mudos, porém, enquanto procurava, acabou encontrando um saquinho, que ela sabia muito bem o que continha: um anel, que não era um simples objeto. Há muito tempo, o guardou no fundo da gaveta e não pegou mais, também não se atreveria a pegá-lo. Todavia, fora inevitável não mergulhar no passado.
As coisas não aconteceram da forma que a Yuuhi imaginou que seriam, já haviam se passado mais de uma semana desde o fatídico encontro com Hiashi e até o momento, continuava no seu emprego. Pelo visto, o homem não disse nada a senhora Chiyo. Se por um lado ela ficava feliz por continuar ali, por outro, o homem deve tê-la achado tão insignificante, que nem se dignou a reclamar dela. E esse pensamento a incomodava levemente. Deveria tirar essa bobagem da cabeça.
Nos poucos dias em que o herdeiro se instalou na casa, ela pôde perceber uma mudança sutil na rotina e até nos empregados. O local parecia estar mais movimentado e cheio. Embora Kurenai evitava a todo custo estar no mesmo ambiente que ele. A morena tinha muita vergonha do que houve. A Yuuhi se esquivava de tarefas como ajudar nas refeições ou limpar a ala em que ficava o quarto de Hiashi e para que a governanta não desconfiasse de nada, ela se tornou mais proativa, dando sugestões para tarefas diferentes do habitual.
Naquele instante, por exemplo, era o horário do almoço e a jovem deu um jeito sair sem ser vista e rumou para outra ala da mansão, que sabia estar vazia. E durante muito tempo de sua vida, ela se questionou se aquela ideia tinha sido um acerto ou um erro, pois tudo mudaria depois daquela ocasião.
Conforme Kurenai andava pelo corredor comprido, mais uma melodia inundava seus ouvidos. Ela seguiu o som, sabia para onde ele iria levá-la: a sala de música. A surpresa foi encontrar, justamente, a pessoa a quem ela evitava. Hiashi estava de costas para ela.
Num primeiro momento, pensou em sair dali, porém, havia algo que a impediu de ir. A Yuuhi fora hipnotizada pela destreza que o Hyuuga deslizava os dedos pelas teclas, transformando os movimentos em música. Ela sempre gostou de música e tinha admiração por quem conseguia criar a arte do som.
Portanto, concluiu que não havia mal em permanecer no local, quieta, depois sairia silenciosamente, dessa forma, o moreno não iria vê-la. No fundo, sabia que era uma grande desculpa para ficar ali.
Se sentia atraída e envolvida pela aura da canção. Fechou os olhos e apreciou, tinha algo a mais, não era uma simples música. Era como se ele estivesse abrindo o próprio coração, havia tristeza e dor.
Foi inevitável não chorar, as lágrimas desciam pelos seus olhos, que continuavam fechados. Então, o som parou, após uma última nota longa. A Yuuhi deveria ter tido mais atenção e saído dali antes, entretanto, acabou se perdendo. Abriu os olhos, o homem a encarava, ainda sentado, não tinha como ter certeza, mas não era difícil imaginar que ele não gostava dela nem um pouco. Antes que o Hyuuga dissesse algo, ela pronunciou:
— S-senhor, me desculpe. Não vou vou atrapalhá-lo — antes que pudesse sair, sentiu um leve aperto em seu braço.
— Espere — ele impediu de sair.
Fazendo com que Kurenai se virasse para ele. Ficou um pouco tonta, jamais esteve tão perto de um homem dessa forma. Fora surpreendida, quando ele levou a mão ao seu rosto e secou os rastros lágrimas com extrema delicadeza.
— Por que você estava chorando? — o tom era suave, diferente da primeira vez em que ouviu a voz dele.
— Estou sendo ridícula, porém foi a coisa mais bonita que eu já vi — respondeu envergonhada.
— Não acho isso — proferiu — você gosta? — apontou para o piano no meio da sala.
— Muito — sorriu ao dizer.
— Venha — o moreno se sentou no em frente ao piano.
Um tanto acanhada, ela o seguiu e sentou ao seu lado.
— Eu não deveria ter falado com você daquele jeito — para a surpresa dela, ele trouxe à tona o acontecimento anterior. O Hyuuga admitia que descontou sua raiva nela, injustamente. Sua reação foi desproporcional à ação dela.
— Não importa, senhor — comentou corada.
— Você é sempre assim? Perdoa as pessoas tão rápido — questionou, retoricamente — vou tocar algo para você, para o seu perdão valer a pena — brincou.
Estava espantada pela faceta diferente que ele mostrava.
Percebendo o olhar dela, Hiashi hesitou, em tocar.
— Quer me dizer algo? Aproveite — incentivou
Kurenai tinha vontade de falar tantas coisas, mas dentre elas, uma se destacava:
— Eu não quero ser invasiva, mas como o senhor aprendeu a tocar? — perguntou.
— Com a minha mãe, ela era pianista profissional. Então, para que nós pudéssemos passar mais tempo juntos, ela começou a dar aulas para mim e para o meu irmão, mas ele não gostava e não levava muito jeito e desistiu. Dessa forma, tocar se tornou uma atividade apenas nossa. Hoje, quando eu toco, me sinto mais próximo dela — confessou. Não havia tristeza, porém saudades sim.
— Ela deve ter sido uma mulher incrível — manifestou admirada — eu gostaria de saber como ela era — sussurrou para si mesma, todavia, pela proximidade, ele ouviu.
— Tem razão, ela era deslumbrante em todos os sentidos. Mas você já a conhece.
— Como? — se espantou — não há retratos dela pela casa.
— Foi uma ordem do meu pai, ele proibiu qualquer imagem dela em lugares que ele possa ver. Entretanto, o retrato do meu quarto não é um desse lugares.
— Hinata — Kurenai gostou de como o nome soou em seus lábios — é muito bonito.
Desde aquele dia, os dois se encontravam quase todos os dias na sala de música ou a noite no jardim, local que o Hyuuga descobriu que a jovem gostava de ficar. Eles partilhavam conversas e lembranças. Os dias se tornaram meses e o inevitável aconteceu. Os dois se apaixonaram.
Para Hiashi fora impossível se manter distante dela, a cada vez descobria algo novo, como a forma que Kurenai cantava e dançava sem perceber ao cumprir suas funções na casa. Mas o que ele mais gostava, era o jeito meigo dela, os olhares curiosos como de uma criança tentando desvendar algo e a personalidade ingênua.
Depois de tanto remoer seus sentimentos, a beijou no jardim e algumas noites mais tarde, fez amor com ela, sob a luz do luar e tendo as estrelas como testemunha.
Como um simples objeto poderia levar sua mente tão longe? Abanou a cabeça e continuou seus afazeres, não queria chegar atrasada ao trabalho.
….
Podia sentir o hálito da morte, no entanto, não iria partir sem antes fazer com que Hiashi pagasse um pouco, queria vê-lo com dor, culpa e remorso. Nunca iria perdoá-lo por amar aquela maldita e nem por todas as poucas vezes em que se deitou com ela, sua esposa e dizia o nome de outra, que ele nunca fez questão de esconder, que sentia falta.
A mulher sentia dores por todo o corpo e apesar de todo o conforto e melhor tratamento que o dinheiro poderia pagar, sua doença generativa não tinha cura, seu corpo destruía a si próprio, era irônico o fato de que sua alma já havia sido corrompida pela própria maldade.
Seu relacionamento com Hiashi era um verdadeiro inferno, eles nunca se deram bem de verdade, nem com a gravidez dela, aliás, culpava a filha como sendo um dos problemas do seu casamento. “se aquela inútil fosse um homem…”, Hanabi deveria ser a herdeira do legado dos Hyuuga, porém Hiashi tinha seu sobrinho Neji como sucessor. Aquele garoto petulante, era outro que ela não suportava e mesmo sob seus protestos, seu marido o trouxe para viver com eles, após o irmão e a cunhada falecerem.
Não tinha tempo disponível para ficar se lembrando de coisas desagradáveis, retirou a máquina de oxigênio que estava sobre seu rosto:
— Peça para algum empregado chamar meu marido — ordenou e tossiu em seguida. Antes que a enfermeira pudesse auxiliá-la — vá agora! — era humilhante receber aquele tipo de ajuda.
Minutos depois, o Hyuuga apareceu no quarto dela, sua expressão séria como sempre:
— O que você quer? — estava cansado demais, para tolerar mais algum surto da esposa.
— Você nem se compadece pela sua mulher doente, nem se esforça para fingir — quem ouvisse, poderia presumir que o homem era o real monstro ali, contudo, ele já estava acostumado com as típicas cenas da mulher.
Deu as costas, prestes a ir embora.
— Espere — o que ela iria confessar, estava longe de arrependimento. Ela riu e tossiu ao mesmo tempo — você é tão patético, até hoje não conseguiu esquecê-la. Sabe o que mais me diverte, é saber que mesmo morrendo, eu deixarei um dano irrecuperável — riu mais uma vez, diante do homem que permanecia quieto — foi tão fácil enganar e tirar aquela idiota do caminho. Aquela empregadinha nojenta era boazinha demais para ter feito algo de errado, é claro que eu estava por trás de tudo.
— O que você quer dizer com isso?
— Ah, Hiashi! Você é mais inteligente, é só pensar.
A família Nohara era uma espécie de ramificação da família Hyuuga. Sendo assim, durante anos, membros dos Hyuugas se casavam com os Noharas, quando um Hyuuga não poderia se casar com outro primo Hyuuga. Obviamente, que aquele hábito, fora diminuindo conforme as gerações. Porém, para Rim nada daquilo importava, ela seria a nova senhora Hyuuga a qualquer custo.
Nunca houve nenhum acerto entre as partes, mas era algo implícito, de que em algum momento, ela e Hiashi se casariam e uniriam mais ainda as famílias, seus pais sempre deixaram claro o apoio à este enlace.
Rin aceitou o fato de Hiashi não parecer estar interessado nela, também aceitou os relacionados que ele que teve, além é claro, dos anos no exterior. Pois, ela sempre teve a certeza de que tudo ocorreria como ela havia planejado. Ela sempre conseguia o que queria e agora não seria diferente. Desde muito pequena, sempre fora geniosa, voluntariosa e obstinada; se queria uma boneca, ela a tinha. Conforme foi crescendo, seus desejos se tornaram maiores, se queria um vestido ou um carro, ela os possuía. Todavia, existia apenas uma única coisa que ela ainda não tinha em mãos: Hiashi.
No momento, tinha as malas prontas, seu destino era a mansão Hyuuga. Estava completamente enraivecida, ao saber, por acaso, que Hiashi já estava no país há meses. Porém, agora resolveria suas pendências de uma vez por todas. Inventaria qualquer desculpa para se hospedar na casa, sempre teve facilidade de usar a arte da dissimulação, de qualquer forma, seria bem acolhida no lar de seus parentes distantes.
Tomaria posse do que lhe pertencia por direito.
Sorriu ao ser deixada pelo táxi, em frente a mansão Hyuuga. Com rapidez, seguiu para entrada, falou pelo interfone e após se identificar, sua entrada fora permitida.
O funcionário responsável por aquele trâmite a levou para o hall de entrada, enquanto buscava suas malas. Ela, é claro, caminhou pelos cômodos, como se a casa a pertencesse, a decoração continuava quase a mesma, exceto por alguns itens. Ela continuou seguindo até que por sorte, deu de cara com Hiashi, ele conversava com uma empregada, levando em consideração o uniforme que ela usava. A forma como Hiashi tocava o braço dela e falava próximo, denotava intimidade. A garota era bem jovem e bonitinha, o típico fetiche de homens como Hiashi. Trincou os dentes, era óbvio que eles tinham algo, todavia, antes de agir, deveria descobrir o máximo de informações, porém, aquilo não diminuía sua ira.
— Hiashi, querido! — surpreendeu ambos e fingiu que não tinha visto nada de suspeito.
— Rin?! — exclamou confuso — o que você faz aqui?
O Hyuuga se lembrava muito bem da prima de segundo grau, desde pequena correndo atrás dele, ela era bastante insuportável e mimada, detestava ser contrariada. Não acreditou no amor que ela confessou sentir, quando haviam entrado na adolescência, para ele, o sentimento dela não passava de um desejo frustrado. Certamente, não tiraria conclusões a respeito dela, levando em consideração os anos que se passaram.
— Eu não posso visitar minha família? — disse com inocência — e que coisa horrível de se fazer, Hiashi. Nem para nos dizer que voltou para casa.
Ele espremeu os olhos por conta do comentário da Nohara.
— Arrume um quarto para mim — ordenou sem se dar o trabalho de olhar para Kurenai.
Porém, a Yuuhi sabia que era direcionado à ela. Antes que Hiashi pudesse retrucar, ela o fitou suplicante e ele acatou. Já haviam conversado sobre isso, por mais que eles tivessem um relacionamento, não iria interferir no trabalho dela, dessa forma, a morena se sentia mais confortável e acreditava ser a conduta correta.
Durante as semanas que se seguiram, Rin analisou todos os dados que pôde coletar e por fim, constatou que Hiashi e aquela empregadinha nojenta tinham um caso. Iria dar um jeito na situação, mas não usaria uma abordagem direta, seria inútil. Agir da forma como ela planejava, seria perfeito e eficaz.
Estava deitada em sua cama, enrolava os cabelos com as pontas dos dedos, então, ouviu batidas na porta. Sua convidada havia chegado.
— Entre — deu permissão animada.
— Com licença, senhora — a Yuuhi entrou no ambiente — precisa de algo? — seria mentira dizer que não estava curiosa, pois a Nohara tinha pedido especificamente, que somente ela a atendesse.
— Ah, por favor! Deixe essa “senhora” para alguma de verdade — discursou com docilidade — sente aqui — apontou para o seu lado.
Um tanto receosa, Kurenai se aproximou e ficou ao lado da outra.
— Sabe, eu estou aqui durante esses dias e estou sentindo um tédio terrível, logo, eu pensei que pelo fato de termos idades próximas, eu presumi que ter a sua companhia seria refrescante. Além do mais, você deve se sentir solitária também.
A Yuuhi estava, genuinamente, contente por Rin ter pensado nela e a mulher tinha razão, embora Chiyo a tratasse bem e sua relação com Hiashi estivesse evoluindo tão bem, ela sentia falta de uma amiga. Notou que sua primeira impressão sobre a Nohara, estava errada.
— É verdade — respondeu, suave.
— Portanto, para selar nossa amizade, irei te contar um pequeno segredo — fitou a Yuuhi e depois que percebeu o jeito interessado dela, continuou — quando eu era pequena, era muito apaixonada pelo Hiashi — viu os olhos avermelhados se arregalaram — calma, não precisa se preocupar — levantou suas mãos em sinal de rendição — eu entendi que era apenas uma fase, um sentimento infantil e bobo.
— Obrigada por compartilhar algo tão íntimo — um tanto atordoada com a informação, Kurenai agradeceu.
— De nada — sorriu — eu percebi que você e ele estão juntos. Fico tão feliz por isso.
O rosto da mais jovem foi coberto por uma coloração vermelha. Ela não teve coragem de encarar a outra.
— Não precisa confirmar nada — tomou as mãos de Kurenai — estou aqui para ser sua amiga, se lembra? Só não conte ao Hiashi, será um segredo só nosso.
A Yuuhi sorriu, agora poderia ter alguém com quem contar.
Naquele mesmo dia, horas mais tarde, Rin procurou por Hiashi. Depois de ter fingido e engolindo sua vontade de vomitar, ao interpretar o papel de amiga da empregada, nada poderia ser mais difícil.
Entrou no quarto dele, sem se anunciar.
— Pensei que você já tivesse ido embora — comentou indiferente.
— Nossa, desse jeito você me ofende — fora sarcástica.
— O que você quer? — Perguntou direto.
— Poxa, eu só queria passar um tempo com o meu priminho — debochou — eu me importo com você, Hiashi. Por isso, me sinto no dever de tentar trazer razão à sua cabeça. Você está se jogando sem paraquedas, neste caso ridículo com aquela menina — seu tom passou de desdém à uma seriedade mordaz. O homem deixou transparecer uma ponta de surpresa e ela completou — por favor, não sei como as pessoas nesta casa ainda não viram o que acontece entre você e ela. Eu te digo mais, ela é a típica mocinha pronta para dar o golpe do baú, te envolvendo numa ingenuidade forçada e aúra de candura.
— Saia! — exigiu sem demonstrar sentimentos.
Apesar dele ter sido indiferente externamente, Rin não se deu por vencida, seu plano continuava acontecendo como havia calculado. Ela conseguiu plantar a semente da desconfiança. E conforme o tempo passava, ganhava cada vez mais a confiança de Kurenai e sempre que tinha oportunidade, lançava sua dose de veneno em Hiashi. Mais dia ou menos dia, iria dar um fim no romance nojento.
Kurenai, por sua vez, estava radiante. Agora tinha uma amiga com quem dividir suas dúvidas e tudo o que acontecia entre ela e Hiashi, sem nem perceber as reais intenções de Rin. Ela só não entendia a implicância boba que o hyuuga tinha com a prima, por outro lado, pôde compreender o pedido de Rin, para que a profundidade da amizade delas, fosse oculto à Hiashi.
E por pensar no seu amado, ele apareceu na cozinha, local que ela estava, após terminar suas obrigações, bebia um copo de água.
Ele apareceu por lá e lhe roubou um beijo.
— Hiashi — ralhou com o Hyuuga — alguém pode nos ver — a Yuuhi tentava ao máximo, manter seu envolvimento discreto e parecia obter êxito, visto que ninguém na casa sabia, com exceção de Rin.
O homem revirou os olhos por aquilo, detestava ter que se esconder, como se estivesse fazendo algo errado. No entanto, ele aguentava, pois sabia que Kurenai preferia assim.
— Em breve nós não precisaremos ocultar nada de ninguém — retrucou enigmático — venha! Eu quero te mostrar uma coisa — segurou a morena pelo braço e a levou para o segundo andar, sem dar tempo dela pedir qualquer esclarecimento.
Ele entrou no ambiente e a Yuuhi curiosa como sempre, o acompanhou logo atrás. O Hyuuga andou até a estante, retirou um compartimento dela, revelando um cofre. Kurenai não entendeu onde ele queria chegar com aquilo. Ficou lado a lado, enquanto o homem digitava a senha e abriu o cofre, ela pôde constatar que havia uma quantidade considerável de dinheiro e duas caixas, uma grande e outra muito menor. Ele retirou a última.
— Eu fui no banco, esta semana — relatou — e trouxe algo de muito valor, não só material, mas sentimental — abriu a caixinha e mostrou um anel, ele era adornado por uma pérola legítima e em volta dela, pequenos diamantes — meu pai contratou um designer, que criou um modelo exclusivo, para presentear minha mãe. Ele é seu agora — ofereceu.
— Hiashi… — murmurou — eu não posso aceitar.
— Por quê? Se você não gostou, eu posso te dar outro.
— Não é nada disso, ele é lindo, mas é algo que faz parte da história da sua família.
— Kurenai, você não entendeu? É justamente por isso, que eu o escolhi. Eu te amo e quero te dar algo especial, além disso, você vai fazer parte desta família — justificou.
Ela deixou uma lágrima escorrer pelo rosto, a emocionava saber a profundidade dos sentimentos dele.
— Não chore, meu amor — secou as bochechas molhadas e a beijou. Colocou o anel no dedo feminino, havia ficado um pouco largo, nada que um ajuste não desse jeito.
No dia seguinte, Kurenai relatou todo o ocorrido, com o máximo de detalhes, para Rin. Só a Nohara sabia o quanto era insuportável ter que ouvir aquela historinha melosa e ridícula, o quanto era difícil manter o sorriso e a falsa alegria. Porém, a situação tinha um lado bom, um plano começava a se formar em sua cabeça maquiavélica, embora arriscado e complicado, era melhor do que nada. E se desse certo, praticamente, iria eliminar a empregadinha à sua frente.
A Nohara conhecia a casa como a palma de sua mão e principalmente, o quarto de Hiashi, pois já havia virado de ponta a cabeça, por conta de um surto de raiva, assim que o Hyuuga se mudou para o exterior. Sendo assim, já conhecia a existência do cofre que Kurenai mencionou. Parecia que o destino, finalmente, conspirava ao seu favor.
Contatou um velho conhecido, que sempre prestava serviço aos seus pais, o homem era dono de uma empresa de segurança, especialista em vigilância e alarmes. Ele indicou um de seus funcionários, um jovem de aparência duvidosa, no entanto, o mais velho garantia a competência e experiência do outro para aquele tipo de serviço. Agendou uma visita dias depois, para o horário em que Hiashi estaria na empresa, enquanto pediu a Kurenai que fosse a tinturaria levar algumas de suas roupas.
O homem provou sua habilidade ao conseguir abrir o cofre, o sorriso de Rin era maligno, ela sabia exatamente o que pegar: a caixa maior, quando visualizou o conteúdo, confirmou suas suspeitas de que se tratava do restante do conjunto: colar, brincos e pulseira.
Agora era só ter paciência e esperar o momento certo para assistir na primeira fila, a trama que criou, tomar vida.
Semanas depois, Hiashi havia decidido que enfim se uniria à Kurenai. No entanto, queria um ambiente especial e romântico, para pedir sua mão em casamento. Alugou um restaurante inteiro, comprou um belo vestido para que ela usasse e por fim, iria completar com o restante das joias de sua mãe. Contudo, para o seu espanto, ao abrir o cofre, não encontrou vestígio do que procurava.
Aquilo não era possível, retirou tudo que havia do local e mesmo assim, não tinha nada ali. Então, a voz venenosa de Rin, infectou sua mente “ela não é confiável”, “essa menina é uma sonsa, só quer o seu dinheiro”. Não queria acreditar, entretanto, apenas Kurenai sabia da existência daquele cofre e também das jóias que ele trouxe para casa.
Angustiado e tentando tirar tudo a limpo, rumou ao quarto da Yuuhi, na área dos empregados. Seus passos eram pesados e sua expressão séria.
— Hiashi, o que faz aqui, querido? — a morena perguntou, assim que o viu entrar em seu quarto. Kurenai percebeu que algo estava errado, quando fora completamente ignorada por ele e para o seu horror, vasculhou seu guarda roupa.
— Hiashi, o que você está fazendo? — protestou, porém fora ignorada, mais uma vez.
Ele logo passou para a cômoda e quando abriu a terceira gaveta, encontrou o que procurava. Aquilo que temia, se concretizou. Pegou a caixa e as jóias continuavam intactas.
— Por quê? — olhou para ela.
A jovem tinha os olhos arrecadados, um tanto sem reação.
— Eu não sei como isso foi parar aí.
— Essa é a sua explicação? Você quer que eu acredite nisso? — jogou a caixa no chão, enraivecido.
— Eu juro que não sei — respondeu assustada.
— Você foi a única a quem eu mostrei, você estava ao meu lado, quando eu digitei a senha — doía externar sua conclusão — eu teria lhe dado, se você pedisse, aliás, minha intenção era te dar.
— Por favor, acredite em mim — a Yuuhi chorava copiosamente — eu te amo.
— Você não tem esse direito… — estava despedaçado — de se fazer de vítima, quando não passa de uma golpista ordinária — Hiashi saiu sem rumo, precisava ficar longe de tudo, necessitava de respirar ar puro.
Kurenai correu ao encontro de Rin e abraçou a mais velha, quando a encontrou.
— Rin, você precisa me ajudar. O Hiashi acha que eu roubei as jóias da sua mãe, mas não é verdade. Ele.. ele me odeia e eu não posso suportar.
A Nohara avaliou se iria ou não tripudiar na empregadinha, contudo, sua perversidade falou mais alto e ela continuou jogando com a outra.
— Como assim, querida? Você precisa se acalmar — massageou as costas da Yuuhi.
— E agora? O que eu vou fazer? E-eu estou grávida, estava esperando o momento mais oportuno para dizer ao Hiashi — sua voz saiu abafada por conta do abraço.
Rin sentiu a fúria queimar em seu âmago, afastou Kurenai com certa violência.
— Vá para o seu quarto, eu te encontro lá e nós daremos um jeito nisso — ordenou.
A mais jovem obedeceu inconsolável.
Depois de um tempo considerável, Rin apareceu. Tomou as mãos de Kurenai.
— Eu acho que sei o que fazer — a Yuuhi a fitou esperançosa — acredito que você deva contar para o tio Hoshi o que houve. Eu já conversei com ele, por alto, apenas para prepará-lo.
— Eu não sei se devo — comentou incerta.
— Esse não é o momento para se acovardar. Você precisa pensar neste bebê — a Nohara apelou para o instinto materno e pareceu surtir efeito.
— Tudo bem — kurenai respondeu perdida, nem sabia o que estava fazendo, apenas caminhava com Rin ao seu lado. A mais velha deu passagem para que a morena entrasse no quarto.
Ela respirou, mantinha os olhos no chão, sem coragem de fitar o patrão.
— S-senhor Hoshi, perdão. Eu não deveria incomodá-lo, mas estou desesperada e o senhor deve ser minha única esperança.
— Menina… — murmurou fraco, deitado na cama. Se Kurenai levantasse seu olhos, perceberia como o homem suava anormalmente.
Ela continuou, não ouvia nada que não fosse sua mente prestes a explodir.
— Eu não sei como dizer isso… eu e seu filho, nós nos relacionamos. Eu o amo e ele também me ama, pelo menos amava — suspirou triste — mas ele pensa que eu fiz algo que não tenho culpa e.. bem… estou grávida — foi difícil dizer, não sabia qual seria a reação do mais velho e logo levantou os olhos.
O senhor Hyuuga estava pálido, suando e tremendo.
— Senhor! — ela correu ao seu auxílio — Rin! — gritou e a Nohara, que estava do lado de fora, entrou no local.
— O que você fez? — seu tom tinha resquícios de acusação. Se aproximou do leito e tocou no velho — ele não tem pulso.
Kurenai tinha os olhos inchados.
— C-como? Chame um médico, Rin!
— Não! Você precisa sair daqui agora — arrastou ela pelo corredor, até o seu quarto. Lá, pegou qualquer bolsa e despejou um punhado de roupas, também retirou uma quantia considerável de dinheiro e colocou na sacola — olhe bem para mim, aqui não há mais lugar para você. É melhor reconstruir sua vida em outro lugar. Agora vá!
Kurenai se sentia tão perdida e fora de si, tudo aconteceu como um grande borrão, que ela queria acreditar ser apenas um pesadelo, enquanto era levada por Rin, para fora da mansão.
Nohara Rin sempre conseguia o que queriam afinal!
— Eu só tive que adiantar meus planos, pois é claro que em algum momento, eu iria me livrar do titio, ele estava entre você e o controle total do Império Hyuuga. Foi muito simples trocar os remédios dele e o mais divertido de tudo, foi aquela idiota ter acreditando que era culpada e foi muito mais fácil influenciá-la a ir embora — ria escandalosamente.
Hiashi processava tudo que a mulher estava confessando, num momento de pura loucura. Ele se recordava de ter saído de casa para pensar e quando voltou, havia uma confusão na casa e uma ambulância. A governanta da casa é quem lhe contou chorosa o que houve, seu pai tinha morrido. E depois de um tempo considerável, é que ele percebeu que Kurenai havia sumido e nunca mais voltou. Aquela época de sua vida fora nebulosa, viveu nas trevas e para se reerguer, resolveu assumir o legado de sua família e acabou se casando com Rin, como ela sempre quis. Foi o seu maior erro.
— Mas não pense que eu sou tão má, querido — agora iria dar o golpe de misericórdia — eu fico pensando no que aconteceu com Kurenai e o bastardo que ela carregava na barriga — o Hyuuga finalmente, saiu do torpor e arregalou os olhos com a revelação — imagina o que ela passou, grávida e desamparada. Será que ela e a criança sobreviveram? — seu tom era de falsa preocupação.
Hiashi saiu do quarto e a deixou sozinha, se ele a odiasse ou demonstrasse raiva, faria com Rin vencesse.
— Tio, não se preocupe, vou tomar todas as providências do funeral de Rin — seu sobrinho Neji falou com ele, o retirando de seus pensamentos.
— Eu sei que vai. Escute, filho, vou precisar que você tome conta de tudo por aqui — sabia que podia contar com Neji, o jovem promissor, sempre colocando a família acima de tudo.
— O senhor vai viajar?
— Provavelmente, sim — confirmou.
— Vai levar a Hanabi? Talvez faça bem à menina. Apesar da Rin ser péssima — o mais jovem não escondia o repúdio — ela ainda era a mãe.
— Eu ainda não sei — precisava resolver muitas coisas, não queria envolver a filha naquela confusão.
— Tio, o senhor não precisa me dizer nada, se não quiser. Mas eu estou confuso.
— Rin me confessou coisas terríveis sobre o passado — o mais velho contou sobre o ocorrido, sob o olhar chocado do sobrinho.
— E como o senhor vai achar essa mulher, eu não quero desanimá-lo, porém será difícil.
— Eu sei, por isso pretendo contratar quantos detetives forem necessários. Só me darei por satisfeito, quando souber o que aconteceu com ela e com…. Meu filho.
….
E lá estava Hiashi, parado em frente ao colégio, em que o detetive descobriu que Kurenai trabalhava. O deixava mais tranquilo saber que a mulher conseguiu reconstruir a vida, tinha segurança. Contudo, não poderia negar o nervosismo que persistia em seu âmago.
Ele não teve problemas para entrar no local, visto que alegou que iria matricular a filha na instituição. Caminhou até a área da direção da escola, conforme fora instruído.
E então a viu, distraída mexendo em alguns papéis. Continuava tão linda, seu coração palpitou. Porém, não quis perder tempo e depois de tantos anos, disse seu nome em voz alta:
— Kurenai! — ele se aproximava.
A Yuuhi pensou que estava num sonho ou tendo alucinações, deixou com que a pasta que segurava, escorregasse pelo chão. Não soube quanto tempo se passou, o homem também parecia não saber o que dizer. Ela não conseguia se expressar e para piorar tudo, sua Hinata se materializou como mágica, pedindo explicações. Aquilo só poderia ser um sonho, não era possível. A professora fitou a filha que trocava um olhar significativo com o homem e depois voltou as orbes para mãe. Kurenai não conseguiu distinguir o que sua Hinata pensava, porém era nítida a confusão. A mais jovem começou a se distanciar.
— Filha! Espere! — berrou, mas a Uchiha nem sequer olhou para trás. Quando ela tentou seguí-la, sentiu um aperto no braço — me solta! O que você pensa que está fazendo aqui! Me solte! A minha filha vai me odiar — esperneou desesperada.
— Nós precisamos conversar — e falou pela segunda vez.
— Não! Me solte! — mas não surtiu efeito.
Ouvindo a gritaria e reconhecendo a voz de Kurenai, Tsunade saiu de sua sala e se deparou com a seguinte cena: sua amiga descontrolada como nunca viu, sendo amparada por um homem que nunca conheceu pessoalmente, no entanto, sabia quem era.
— Tsunade-sama! Me ajude! Ela vai me odiar! — a Yuuhi rosnou.
— Traga ela para minha sala, o corredor não é o lugar apropriado — pediu ao homem, que lhe atendeu.
A loira suspirou, seria um dia longo.
Ainda muito perturbada pela sucessão de acontecimentos catastróficos, Kurenai tomou uma decisão: Konoha não tinha mais nada a oferecer, Rin tinha razão, ela precisava deixar o passado para trás. Pelo bem de seu bebê, tocou o ventre. Estava sozinha e com medo, mas aquela criança era seu fio de esperança.
Comprou uma passagem para capital, a adaptação fora muito difícil, não conhecia ninguém e a cidade era um agitada e um tanto perigosa. Ela conseguiu um quarto pequeno e também um emprego como garçonete, em uma espelunca qualquer, nunca teve preguiça de trabalhar. O salário era pouco, porém dava para se manter. O grande problema, fora o avanço de sua gravidez, sendo impossível de esconder, ela acabou sendo demitida e não conseguiu mais qualquer serviço. O pior de tudo, fora quando o dono do quarto, em que ela estava instalada, exigiu o imóvel de volta, por falta de pagamento. Não importou o quanto ela implorou, ele não se compadeceu com o seu estado.
Agora, andava sem rumo, usando uma bolsa com seus poucos pertences. Ela segurava o ventre avantajado, o protegendo inconscientemente, naquela manhã fria de Dezembro, suas lágrimas se misturavam as gotas de chuva que começaram a cair. Desde o dia anterior, sentia pontadas na barriga e após o episódio desagradável em que fora expulsa do teto que a abrigava nos últimos meses.
A dor se intensificou e ela teve que sentar em um banco, fechou os olhos e rezou para quem quer fosse e também pedia perdão ao seu bebê. Então, não soube quanto tempo passou, até sentir um aperto delicado em seu ombro, abriu os olhos e se deparou com uma mulher loira, mais velha que ela. Kurenai mal sabia naquele momento, que a desconhecida à sua frente, teria um papel fundamental em sua vida. Lhe ajudaria a se reerguer, sem ter qualquer obrigação ou intenções escusas.
Senju Tsunade não acredita em destino, porém, a situação era uma coincidência feliz. Ela passava pela rua com seu carro, estava indo a caminho do hospital Senju, para resolver alguns problemas, quando o sinal do trânsito fechou, num rompante, deixou seus olhos cor de mel deslizarem para o lado. Seu instinto, logo falou mais rápido, ao avista uma mulher grávida em meio a chuva que caía.
— Você está bem? — questionou, genuinamente, preocupada.
Não foi preciso que ela respondesse, só a expressão denunciava. Com a experiência da Senju, era óbvio que a gestante passava mal. Podia analisar que se tratava de uma menina jovem, pela barriga, poderia supor que estava no último trimestre.
— Venha — estendeu a mão para que ela se apoiasse — vou levá-la ao hospital.
Kurenai não tinha o que perder, acuada, aceitou a ajuda. Ao levantar, gemeu de dor.
— Qual o seu nome? — Tsunade questionou, enquanto levava a jovem ao carro.
— Kurenai, Yuuhi Kurenai — respondeu.
— Kurenai, eu sou médica e para sua sorte, obstetra — sua voz demonstrava firmeza e segurança — preciso que você me responda algumas perguntas, está bem? — vendo ela acenar com a cabeça, continuou — quantos anos você tem?
— 17 — respondeu envergonhada.
A loira acomodava a jovem no carro:
— Quantos meses sua gestação tem? Sabe o sexo do bebê?
— Talvez nove, eu não sei exatamente. Não sei o sexo — seu olhar era triste, doía tanto o fato de sua gravidez ter sido tão negligenciada, todos os dias tinha medo que a falta de acompanhamento médico, pudesse fazer algum mal ao seu filho — doutora, por favor, eu suplico, salve o meu bebê — chorou.
— Querida, eu juro que farei de tudo ao meu alcance — para acalmá-la, tentou distraí-la — você tem alguém para lhe fazer companhia?
— Não, eu sou sozinha — gemeu pela dor, o intervalo de tempo, estava diminuindo.
— Respire e solte o ar devagar — a Senju instruiu e a jovem acatou — me fale um pouco sobre você.
Mesmo tímida e com dor, Kurenai decidiu que era mínimo que poderia fazer, já que a mulher a ajudava.
— Minha vida não tem nada de interessante. Eu nasci e passei a maior parte da minha vida em Konoha, perdi meus pais cedo, tive que trabalhar. Até que minha vida mudou, quando a senhora Chiyo, uma conhecida, me deu a chance de trabalhar na casa em que ela é governanta — sentiu tristeza ao se lembrar da senhora que a acolheu, no calor do momento, foi embora sem nem se despedir — e então, eu conheci o filho do meu patrão, nós nos apaixonamos e bem, o resultado a senhora pode ver aqui — olhou para barriga.
Tsunade ouvia com atenção, mesmo dirigindo.
— E ele te rejeitou quando soube da sua gravidez? — ela não a recriminava, na verdade, demonstrava compreensão.
— Não, eu não tive nem tempo de dar a notícia ao Hiashi. Ele me deu um anel — puxou a corrente no pescoço, mostrando a peça — gemeu novamente, pela contração, estava mais forte dessa vez — eu juro que não sei como as outras joias da mãe dele, apareceram nas minhas coisas, ele as encontrou e me disse coisas terríveis.
— E você foi embora depois disso?
— Não, antes, minha amiga Rin, prima do Hiashi, achou melhor que eu contasse ao senhor Hoshi, só que ele começou a passar mal, quando eu disse que estava grávida — choramingou — eu não deveria ter dito, foi minha culpa a sua morte.
— E a sua amiga? — olhando para aquela menina, podia notar o quanto ela era ingênua, um exemplo disso, era ter aceitado, sem pestanejar, a ajuda de uma estranha, mesmo a Senju tendo boas intenções, não era muito esperto confiar tanto nas pessoas.
— Ela achou melhor que eu fosse embora da mansão.
Tsunade apertou os olhos em desconfiança.
— Ela te deu a ideia de falar com o homem e depois te jogou para fora, como se você fosse culpada de algo? Me deixe adivinhar: ela sabia sobre sua gravidez. Seria mais útil te aconselhar a falar com Hiashi, não?
— Bem… eu não havia pensado por esse lado e... — soltou um grito pela dor.
As duas não conversaram mais, Tsunade chegou ao hospital e deu ordens para que preparassem um leito para ela e também usou uma série de termos técnicos que Kurenai não entendia. A Yuuhi recebeu o melhor tratamento possível. Apesar da dor e da segurança que a médica passava, foi inevitável não pensar em Hiashi. Como seria se ele estivesse ao seu lado num momento tão especial e importante.
Foram horas, até que enfim ouviu um choro alto e estridente. Porém, antes que pudesse ver o seu bebê, apagou. Não soube quanto tempo ficou inconsciente, mas quando acordou, não estava mais na sala de cirurgia, já estava num quarto.
— Que bom, que você acordou. Sua filha é uma criança forte e saudável, apesar das condições precárias da sua gestação — comentou satisfeita.
Há anos a mulher não fazia mais partos e nem se dedicava ao hospital, deixava sob os cuidados dos profissionais em quem confiava, ela se dedicava mais a escola e a faculdade fundadas pelo avô. Apenas casos extraordinários lhe motivaram a voltar a fazê-los: o neto de Jiraya, há mais de dois meses atrás e instantes antes, a menininha.
— É uma menina? — sorriu e sentiu uma felicidade tão grande e então, ficou séria. A realidade bateu com força na Yuuhi, Tsunade percebeu a mudança brusca — doutora, eu não tenho como pagar o que fez por mim, não tenho nem onde ir. Mas eu posso trabalhar de graça, faço o que a senhora quiser.
— Menina, não se preocupe com isso — era óbvio que a loira não a deixaria desamparada, a mulher já estava pensando sobre isso.
Seria fácil conseguir moradia para a jovem, falaria com seu ex-professor Hiruzen, tinha certeza que o homem teria algum apartamento sobrando. Tempos depois, a loira ainda custeou toda formação acadêmica e ainda empregou Kurenai, que só se deu por satisfeita, após conseguir pagar tudo que devia à Senju.
— Sua única prioridade, no momento, é a sua filha. Deixe que do resto, eu tome conta.
Uma enfermeira entrou no quarto, com um embrulho nas mãos, ela se aproximou de Kurenai e colocou em seus braços.
Era a coisa mais linda que já viu na vida, tão pequena e delicada, tinha até medo de quebrar, pela primeira vez em muito tempo, suas lágrimas foram de pura alegria e tudo que aconteceu no passado, parecia tão insignificante perante aquele minúsculo ser. Seu coração se encheu de amor e força.
Suas mão tocou fiapos azulados, a pele muito branca e as mãozinhas e quando enfim, sua filha abriu as orbes, revelando duas pérolas:
— Minha Hinata — sussurrou, carinhosamente.
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