Hinata
29 Cruzados
Notas iniciais
Kurenai não tinha a mínima noção de tempo ou espaço, continuava sentada da mesma forma em que Tsunade a colocou e por falar na loira, a mulher trazia um copo de água, que fora oferecido à ela.
O ato, serviu como um despertador, para que ela conseguisse manter seu raciocínio em uma linha e voltar a se concentrar a sua volta. Aceitou o copo de água, mesmo não tendo vontade, porém, ao sentir o líquido em sua garganta, percebeu que precisava.
Discorreu suas orbes avermelhadas, até encontrar as pérolas analíticas em sua direção. Desde que entraram na sala da Senju, ele não disse absolutamente nada, estava parado em um canto do ambiente, completamente imóvel e silencioso. A Yuuhi chegou até a se esquecer da presença dele, todavia, era inevitável prolongar aquela situação. O pior de tudo, não sabia quais eram as intenções do homem e nem imaginava o que passava pela cabeça dele. Se fosse há alguns anos atrás, provavelmente, iria ficar ruborizada, mas agora conseguia controlar bem, embora se sentisse constrangida pelo surto que teve minutos antes.
O Hyuuga permanecia calado, não queria assustar a mulher ou complicar mais ainda a situação. Seu anseio era muito claro para ele, decidiu que iria resolver todos os problemas e não estava disposto a dificultar sua missão criando novos. Aliás, queria recuperar o tempo perdido. Estudava as feições femininas, quando ela finalmente se pronunciou, surpreendendo o homem:
— Por que você não me deixou ir atrás da minha filha? — Kurenai deu início ao diálogo.
— Porque ela precisa de tempo para digerir tudo — respondeu com propriedade.
— Você fala como se a conhecesse — a morena sentiu uma mistura irracional de medo e ciúmes — você não a conhece — completou ferina.
— Tem razão — não escondeu a tristeza — mas me colocando no lugar dela, eu faria o mesmo, me afastaria e tentaria me recompor — ele se lembrou que fez exatamente aquilo, quando encontrou as joias de sua mãe, no quarto de Kurenai.
Hiashi poderia jurar que a Yuuhi também se recordou da ocasião, por conta do olhar distante dela.
— O que você quer, Hiashi? — o tom dela era cansado, como se estivesse tentando se conformar com o ocorrido, ainda assim, arredio.
Notando a posição defensiva que a professora tomava, o moreno decidiu esclarecer as coisas:
— Eu não vim aqui para te culpar ou fazer acusações, já passei da idade de ser impulsivo e me deixar levar pelo calor das emoções, não resolveria nada — tomou um ar — só quero entender tudo que aconteceu e solucionar de uma vez por todas, os nossos problemas.
Kurenai o encarava num impasse, todavia, Tsunade adentrou o local e a professora se deu conta de que nem havia percebido a saída da mais velha.
— Eu só preciso de uns papéis — a loira informou. Contudo, fora detida pela Yuuhi.
— Não, Tsunade-sama! A senhora já fez demais por mim. Não vou atrapalhar seu trabalho — ela se levantou e pegou sua bolsa, que Shizune havia trazido.
— Bom, se é assim — a Senju olhou de sua amiga para o Hyuuga — não se preocupe com o trabalho, tire o resto do dia de folga. Já pedi à Shizune, que comunicasse a sua ausência.
Kurenai a abraçou e sussurrou um “obrigada”, que significava muito mais do que agradecer aquela ação em específico. E fora retribuída com um “se cuide”, igualmente murmurado.
Não foi necessário dizer, quando ela saiu, o homem a seguiu. Fora constrangedor para ambos, todo o caminho foi feito em silêncio, exceto quando ela dava instruções de qual destino ele tinha que seguir até chegarem no caminho desejado. Claro que houve um momento embaraçoso, a professora se recusou ficar no mesmo veículo que ele, preferia ir de táxi. Porém, se convenceu de que tudo terminaria mais rápido se estivessem juntos.
A escola era perto de casa, então minutos depois, eles estacionaram em frente ao simpático prédio. Dali em diante, fora um misto de emoções para ambos.
Para Kurenai, seu lar representava seu presente, era a prova materializada de que havia superar seus obstáculos e refazer sua vida. Enquanto Hiashi representava seu passado, sua antiga vida e todas as lembranças boas ou ruins. Portanto, essas duas épocas de sua vida se chocando, causava sensações que ela não sabia explicar. Aliás, desde que encontrou o homem, não conseguia distinguir seus sentimentos, parecia mais um sonho do que realidade.
O Hyuuga por sua vez, analisou o apartamento, era simples, mas bonito e aconchegante, podia enxergar cada pedaço de Kurenai na decoração, era a cara dela. Fora naquele lugar em que a mulher viveu e sua filha foi criada. Sentiu um aperto no coração, como seria se eles estivessem juntos, vivendo ali mesmo? Pior ainda, e se Tsunade Senju não tivesse ajudado Kurenai? Ele pôde concluir isso, com o levantamento que o detetive fez: o primeiro registro de ligação entre as duas mulheres fora no nascimento de sua filha, que nasceu no Hospital Senju, depois Kurenai passou a viver naquele imóvel que pertencia à Saturobi Hiruzen, ex-professor de Tsunade e por fim, Kurenai se graduou e passou a trabalhar no complexo da família Senju.
— Sente — o convite dela, o despertou de seus pensamentos.
O homem acatou, eles estavam lado a lado.
— Por que, Hiashi? Depois de tanto tempo você veio me procurar, eu não entendo — ela questionou.
Ele suspirou, pensando qual era a melhor forma de começar a contar aquela história.
— A Rin me contou o que houve, ela colocou as jóias da minha mãe no seu quarto, para incriminá-la.
Para ser sincera, Kurenai não se sentia tão surpresa assim. Hoje, ela continuava com sua essência bondosa, porém, era uma mulher madura e experiente, não se deixava ludibriar com facilidade. Levando em consideração sua vivência e até mesmo a opinião de Tsunade, a Yuuhi pôde constatar que a Nohara a influenciou a ir embora, em vez de ajudá-la a provar sua inocência, chegou até a imaginar que Rin mentiu e continuava gostando do primo e usou toda a confusão para afastá-la. Mas nunca pensou mais do que isso, seu caráter não permitia acusar alguém de algo, sem poder provar. Porém, ter certeza de que ela desceu tão baixo para prejudicá-la, algumas lacunas faziam sentido agora.
— Ela fingiu ser sua amiga e pediu para que você mantivesse segredo, não é? — ele enxergou a expressão genuína de surpresa, que tomou o rosto dela — enquanto isso, sempre que Rin tinha oportunidade, ela dizia coisa ruins de você, para mim.
— Eu ainda não consigo entender, se ela foi capaz disso tudo, por que iria confessar o que fez? — a mulher indagou.
Hiashi tinha ciência de que em algum momento, teria que contar toda verdade. Só não imaginava que seria tão difícil.
— Eu só peço que você me escute e não tire conclusões precipitadas — recebeu um aceno positivo em resposta — ela só confessou seus atos, porque sabia que iria morrer e morreu naquele mesmo dia. Mas não se engane, não houve arrependimento, ela só o fez com um tipo de vingança, para me atormentar.
— Então vocês ainda mantinham contato — o interrompeu, pensando que embora Rin tenha feito coisas terríveis, não desejava a sua morte.
— Ela era minha esposa — decidiu dizer de uma vez e acabou capturando a atenção da professora, que fitava o horizonte e levou seus olhos para face masculina — se lembra de quando eu achei as jóias no seu quarto? — sua pergunta foi retórica, era óbvio que ela não se esqueceu, assim como ele — eu saí, dei uma volta para poder respirar, acho que fiquei por volta de uma hora, até voltar. Eu estava disposto a ter outra conversa com você, mas para minha surpresa, havia uma confusão instalada na casa, já pela entrada, eu pude ver uma ambulância e acabei sendo avisado que meu pai tinha morrido. Nós não tínhamos a melhor relação do mundo e nem éramos tão próximos, porém, ainda sim, ele era meu pai. E aquilo me abalou mais do que eu poderia imaginar.
Quando olhou para mulher que tinha os olhos fechados e a respiração acelerada, se deu conta de que não havia contado a ela, uma parte tão importante.
— Kurenai, não fique assim — num ato impulsivo, tocou a mão feminina, que estava no colo dela — você não teve culpa de nada, Rin trocou os remédios do meu pai e fez você pensar que a culpa fosse sua, independente de receber a sua visita, ele morreria de qualquer forma.
— Meu Deus! Como ela pôde ser tão cruel? — deixou uma lágrima escorrer pelo rosto. A morte do senhor Hoshi, se tornou um tormento para Yuuhi, ela se sentia culpada e responsável pelo que aconteceu ao senhor. E descobrir que foi parte de um plano ardil, embrulhava o estômago pensar que uma pessoa perdeu a vida por um motivo torpe.
— Eu me fiz essa pergunta, nunca acreditei que uma pessoa é totalmente boa ou totalmente má, mas Rin provou que não havia nada de bom nela. Mas eu preciso continuar a te explicar, não quero mais que haja mal entendidos entre nós. Só no dia posterior, eu me dei conta de que você não estava mais na casa, que tinha virado uma grande bagunça. Eu estava despedaçado, frustrado e com raiva, mas acredite, não houve um dia que eu não pensasse em você ou sentisse a sua falta. Eu mandei Rin de volta para casa dela e só me casei com ela, muito tempo depois. Precisava de uma esposa, precisava deixar herdeiros. E aquele foi o meu maior erro, achar que Rin era a melhor opção. Nunca a amei, era apenas conveniência e ela também não me amou, ela amava a posição de esposa de um homem importante. Nada mais.
Hiashi sentiu o calor se esvair, quando a mulher afastou suas mãos, ele nem percebeu que continuavam juntas.
— Apesar da intenção de me fazer sofrer, ela acabou ajudando contando tudo e quando disse que nós tínhamos um filho, eu fiquei desesperado, precisava te encontrar e graças ao detetive, eu consegui.
— O que você pretende? — a morena se levantou. Era óbvio que Hiashi iria reconstruir sua vida, no entanto, receber a informação de que ele se casou, incomodava mais do que queria admitir — é impossível mudar o passado e recuperar o tempo perdido. A única coisa que me importa é a minha filha e como ela vai reagir a isso tudo. A Hina sempre quis saber quem era o pai dela, no entanto, eu nunca contei. Por medo de relembrar feridas desagradáveis, por medo dela me odiar. Se ela quiser que você esteja na vida dela, eu não poderei ser contra.
— É tudo que eu mais quero, poder fazer parte da vida da minha filha. Você tem razão quando diz que não é possível mudar o passado, todavia, temos o poder de construir o futuro. Eu quero saber do que ela gosta, do que a desagrada e incomodada. E também conquistar o seu afeto. Você não tem noção da felicidade que eu senti ao saber que escolheu o nome da minha mãe.
— Eu gostei do nome e também achei que combinava — ela queria acabar com aquela conversa, era muito desconfortável.
— Concordo, ela se parece tanto com a minha mãe, foi uma bela homenagem — comentou saudoso.
A mulher lhe deu as costas e entrou pelo corredor, sem saber o que fazer, o homem continuou ali, não iria seguí-la, pois não queria invadir seu espaço. Tudo que não precisava era assustá-la ou irritá-la. Sem demoras, ela voltou para sala, com um saquinho preto nas mãos e ofereceu. Curioso, tomou o objeto, abrindo abrindo para saber do que se tratava. Sentiu seu coração acelerar, ao constatar do que se tratava. Era o anel que havia dado, quando a pediu em casamento.
— Você o guardou — expressou admirado.
— Sim, ele estava comigo quando eu fui embora da mansão Hyuuga — a morena se remexeu desconfortável — não foi proposital levá-lo, eu não percebi, senão teria deixado para trás.
— Ele é seu e eu não me arrependo de ter te dado — pela primeira vez, o homem se mostrou ofendido pela posição defensiva dela, apesar de ser compreensível.
Mas não iria desistir fácil, portanto, caminhou até ela, ficando bem próximo. Ousado, segurou a delicada mão feminina entre suas mãos, pela segunda vez naquele dia. Se pudesse, não a soltaria jamais e diria o que tinha vontade de falar, que continuava a amando, entretanto, não se sentia no direito de externar aquilo e também tinha consciência de que não era o momento certo.
— É seu — colocou na palma da mão dela — todas as ofensas que eu proferi contra você, naquele dia, foram ditas da boca para fora. Mesmo num momento de raiva, eu tinha plena consciência de que não eram verdadeiras.
Kurenai fechou os olhos haviam tantas coisas que ela sentia precisava se acalmar.
— Por favor, vai embora — seu tom não era rude, mas suplicante — foram informações demais por hoje, eu realmente preciso ficar sozinha.
O Hyuuga acenou e se encaminhou para porta, enquanto Kurenai o fitava ir. Ela tomou um susto ao ouvir seu celular tocar, o pegou dentro da bolsa que estava no sofá. Apesar do número ser desconhecido, atendeu:
— Quem fala? — questionou — Naruto! — espantada, ouviu instruções do jovem que tinha tanta afeição e que não via há tempos.
Encerrou a ligação e correu para porta, por sorte, o homem ainda estava passando pelo corredor.
— Hiashi, espere! — gritou para que ele ouvisse e fora atendida prontamente.
….
Sua vida estava cada dia mais vazia e monótona, na verdade, há algum tempo vinha se sentindo assim. Entretanto, nos últimos dias, começou a se sentir mais incomodado do que nunca. Ele tinha tudo que qualquer homem sonhava: tinha status, era inteligente e excelente profissional, além de ser casado.
Mas então, por que Itachi não se sentia satisfeito? A sensação era de viver numa mentira, não havia espontaneidade, nunca houve. O Uchiha sempre planejou sua vida nos mínimos detalhes, nada fora do lugar, tudo se sucedeu como ele tinha desejado. E mesmo assim, a sensação de amargor estava presente, para mostrar que ele não era feliz.
Seu casamento estava cada dia mais frio e distante, Hinata se fechou no mundo dela e ele no seu próprio mundo. Não tinha mais vontade de ficar em casa, cada dia chegava mais tarde, preferia ficar no escritório fazendo trabalhos que não eram necessários e o pior de tudo: não se importava e sabia que Hinata também não. Aliás, tinha certeza que ela ficava aliviada quando estavam longe, assim como ele. Pois a casa em que viviam, tinha se tornado um ambiente pesado e claustrofóbico.
Poderia até pensar que era uma crise conjugal natural e passageira, todavia, em seu âmago, não queria resolver essa situação e mais uma vez, tinha consciência de que a esposa se sentia da mesma forma que ele, ambos se evitavam e não se sentiam mal com isso. Eles tiveram amizade, sexo, companheirismo, contudo, naquele nível de relacionamento em que estavam, esses quesitos já não eram suficientes. Faltava algo.
Porém, os dois estavam empurrando e por enquanto, ele não queria se preocupar com aquilo, porque se cruzasse a “linha”, teria que admitir que cometeu um erro. Poderia não parecer, mas Itachi era orgulhoso demais, apesar de suas boas características, ainda era um Uchiha.
Já outro lado da sua mente, estava ansioso, hoje sua secretária finalmente voltaria das férias, que pareceram durar uma eternidade. Era egoísta de sua parte, contudo se arrependeu por ter dado as benditas semanas de descanso à ela. Itachi descobriu que não conseguia viver sem Yugito, nenhuma das substitutas solicitadas por ele, puderam ocupar o lugar da Nii. Nenhuma delas tinham a presença agradável, nenhuma o conhecia tão bem, nenhuma possuía a mesma sintonia ou tinha a eficiência da loira. O Uchiha agradecia imensamente por tê-la contrato e se dependesse dele, jamais a deixaria embora.
Os dias de trabalho já não eram divertidos como antes, a presença tímida e dedicada da Nii, faziam toda diferença e ocupava um espaço importante.
Quase tomou um susto, quando um furacão adentrou sua sala.
— E aí, tudo bem? — foi cumprimentado, animadamente.
— Acho que sim. Eu é que pergunto: você está bem? chegar tão cedo na empresa e ainda de bom humor — espremeu os olhos — não é do seu feitio, Shisui — debochou.
— E qual o problema de chegar cedo no trabalho? — se fez de ofendido.
— Nenhum, desde que seja logo você, que quer me matar todas as vezes que eu peço para, justamente, você venha mais cedo.
— Pense que eu considerei seu pedido e enfim aceitei — o mais velho foi, igualmente, irônico.
Shisui não perderia por nada a primeira reação de Itachi ao ver “sua criação”. Por isso estava ali, senão continuaria dormindo. Não queria que o primo desconfiasse de nada, todavia, era difícil não soltar alguma piada relacionada à situação que iria se desenrolar mais tarde.
E ele estava convencido que havia acertado no ponto certo e no momento certo. Logo, havia segurança de sua parte de que tudo aconteceria como tinha imaginado que seria.
Sem cerimônias, sentou na cadeira em frente a mesa do melhor amigo, que lia alguma coisa e rabiscava de vez em quando.
— O que foi? — Itachi perguntou direto.
— Nada — usou seu tom mais desinteressado — só pensei que poderia te ajudar em algo, eu soube que você dispensou todas as substitutas, deve ter trabalho sobrando.
É verdade — não iria entrar em detalhes e nem tocar no nome de Yugito, pois não queria dar abertura para as piadinhas idiotas do primo ou pior, ter que ouví-lo dando conselhos amorosos — análise o documento — direcionou algumas folhas para o outro homem.
Eles estavam lá há uns bons minutos, quando ouviu batidas na porta:
— Entre — permitiu, sem tirar os olhos da atividade que fazia.
— Senhor, perdão pelo pequeno atraso — estava nervosa, mas tentava transparecer normalidade.
Ao ouvir a voz tão característica, Itachi rapidamente levantou a cabeça para fitar sua secretária, ficou perplexo ao notar a aparência da mulher, não só isso, mas era possível perceber a mudança de postura, ela parecia mais solar e confiante. Não podia negar, estava muito bonita, não que ela já não fosse, o moreno sempre admirou a beleza de sua secretária, só nunca disse à ela, pois aquele era um ambiente profissional e não queria que a Nii interpretasse como um assédio, conduta desrespeitosa por parte dele.
— Uau, Yugito! Você está maravilhosa — Shisui gracejou — e pela cara de bobo do nosso presidente, ele também pensa assim.
— Obrigada, eu acho — disse sem saber o que responder.
— Cala boca! — Itachi rosnou para o amigo.
— Posso me juntar? — ela indagou, olhando para mesa cheia de documentos.
— É claro, Yugito — Shisui se manifestou, sem deixar que Itachi dissesse algo — Sente aqui — se levantou e pegou o braço feminino, para que ela pudesse fazê-lo — agora que sua competente secretária chegou, não há necessidade da minha presença.
O homem se foi e a loira lia alguns dos papéis, para se situar, quando enfim seu chefe se pronunciou:
— Você fez falta — emitiu singelo e verdadeiro. Itachi percebeu que não falava apenas em âmbito profissional, no entanto, decidiu omitir aquela parte.
— Eu também senti falta do trabalho, pode ser cansativo, mas me completa — a Nii sorriu.
Ele sorriu de volta e constatou que o sorriso dela, era o mais bonito e genuíno que já teve o prazer de ver.
Yugito estava muito nervosa antes de poder finalmente encontrar seu chefe. Contudo, agora consegui driblar esse sentimento com mais destreza, fazendo com que não se retraisse tanto, como fazia antigamente, podendo ser mais espontânea. Ela deveria agradecer Shisui pelo que fez, à primeira vista, Gai e Lee poderiam parecer desmiolados. Todavia, se mostraram muito sábios e lhe ajudaram em relação sua autoestima. Sua mudança física não era nada comparada à interna. Tanto é que pai e filho apenas soltaram seu cabelo, hidratando e cortando as pontas. Usava pouquíssima maquiagem e seu guarda-roupas continuava discreto, porém valorizava seu corpo. O mais importante, foi enxergar que ela era sim uma mulher bonita, que apenas se escondia. Anteriormente, pensava que era inferior e nunca atingiria o mesmo nível de mulheres como a senhora Uchiha. E, de fato, ela jamais seria como Hinata. Ela era Nii Yugito, a melhor versão dela mesma.
Acerca de Itachi, a tal “cara de bobo” que Shisui se referia, era verídica. Seu amado a fitava de maneira diferente, continuava carinhoso, mas havia uma admiração a mais. Não seria hipócrita de fingir que seu ego não estava se satisfazendo. Em contrapartida, queria que o homem gostasse dela por sua essência e não pelo exterior. Em outros tempos, a deixaria arrasada, não agora. Ficava um pouco magoada, mas não desapontada. Não era algo que iria derrubá-la. Já não idealizava o Uchiha como um príncipe encantado.Amor próprio era tudo. Além do mais, sua mudança foi feita para o bem estar dela e não para servir de tentativa de “conquistar seu chefe”.
O restante do tempo passou sem grandes eventos, até o horário do almoço, em que Shisui entrou na sala, sem avisar, como sempre:
— Quer almoçar comigo, Yugito — propôs, galante. Estava na hora de apimentar o jogo e ele era mestre naquela arte.
— É claro, por que não? — aceitou de bom grado, seria uma ótima oportunidade de agradecê-lo.
Alheia, não percebeu o leve arquear da sobrancelha de seu chefe. Um pequeno gesto que significa muito.
….
Ele não estava bem, não dormia bem e não parava de pensar nela por um segundo. Como conseguiria se esquecer do olhar triste e decepcionado, que ele mesmo causou? Tinha todos os motivos para odiá-la e sentir prazer ao machucá-la. Então, por que não se sentia satisfeito? No fundo, ele sabia todas as respostas, porém era tão assustador, que preferia se fazer de desentendido.
Antes, o Uzumaki era uma pessoa transparente, demonstrava seus sentimentos com a mesma facilidade de respirar, no entanto, agora precisava guardar o que sentia, pois aquele era o pilar que sustentava seus objetivos e o mantinha são. Sentia falta do tempo em que sua maior preocupação era comer ramen quente e seu objetivo conquistar sua amada. Tinha inveja do seu eu do passado, feliz em meio à ignorância do ocorrido com os pais. Entendia o motivo do avô ter escondido a verdade, deu a oportunidade do neto ter uma vida tranquila.
Percebendo sua inquietação, Shion sugeriu a tentar se distrair um pouco. Seguindo o conselho da mulher, estava em um lugar que gostava de frequentava no passado, o Ichiraku com quem, justamente, o apresentou ao local: Konohamaru. Era a primeira vez que se viam fisicamente em anos, pois assim como Sasuke, o Uzumaki fez questão de manter contato por mensagens ou via Skype. Ele queria fazer parte do crescimento do garoto e nem perder o laço que tinham.
Eles estavam no segundo prato de ramem de porco e Naruto poderia dizer que estava mais delicioso do que nunca e o Saturobi falava animado, parecia ligado a alguma tomada. E Naruto se sentia bem em sua companhia, pois fazia se lembrar dele mesmo, sem modos e um tanto inconveniente, mas ingênuo e prestativo. Uma sensação nostálgica boa.
— Ei, Chefe — o moreno continuava o chamando pelo mesmo apelido — você está ouvindo o que eu estou falando?
— Ah, claro! — disfarçou, não queria que o adolescente pensasse que ele fazia pouco caso do que contava.
— Então… é… bem… — Konohamaru soltou um riso forçado e nervoso — eu queria dar uma festa pra galera e bem…. Eu não queria que fosse na casa do vovô… eu pensei no seu apartamento — o mais novo quase sussurrou a última parte.
— Pegue a chave com o seu avô — Naruto sorriu pelo constrangimento bobo do menino.
Não fazia mal nenhum que Konohamaru desse alguma utilidade ao imóvel, que o loiro continuava pagando o aluguel até hoje. O velho Hiruzen lhe garantiu que ninguém entrava ali e tudo permanecia intacto, da mesma forma que ele deixou. Por que ele ainda mantinha o local? Talvez porque representava uma época importante de sua vida e ele não tinha coragem de cortar a ligação com o lugar em que foi tão feliz.
Retirou algumas notas da carteira e se levantou.
— É melhor você ir para casa. Seu avô não vai gostar, se você demorar demais.
— É verdade, Chefe. Tudo que eu não preciso, é que o velho me deixe de castigo e eu não vou poder me encontrar com a galera — ele acenou para Naruto e saiu correndo como um louco.
O loiro por sua vez, iria atravessar a rua, quando alguém chamou sua atenção. A mulher andava meio desnorteada e se sentou no banco, na praça. Ele tentou lutar, entretanto, suas pernas andavam em direção à ela.
Hinata nem imaginou para onde estava indo, só precisava andar e tentar pôr a cabeça no lugar. Mas estava sendo tão difícil, sentia que iria desmoronar a qualquer momento. Ela tinha os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. A azulada viu uma sombra se aproximando e logo depois, pernas acompanhando. Levantou a fronte. Era só o que faltava! Respirou juntando um pouco que lhe restava de força.
— Você deve estar adorando me ver assim — comentou sarcástica — olha só, Naruto, se você veio para me ofender, é melhor ir embora, porque eu não estou com paciência hoje.
O loiro ficou estarrecido ao notar o estado frágil em que a perolada se encontrava. Ele logo se adiantou.
— Não! Eu só estava no Ichiraku quando te vi e precisava falar com você — se explicou.
As pérolas, enfim, estudaram o local. Logo atrás dela, estava o trailer de ramen. Por Deus! Foi ali, naquela praça, que eles se beijaram pela primeira vez. Ela perambulou e parou justo naquele lugar e para completar, encontrou o maldito Uzumaki.
— Escuta, eu não deveria ter te tratado daquela forma — ele suspirou e fechou as orbes, até abrí-las e fitá-la intensamente — eu não parei um instante de pensar no que aconteceu.
Não sabia o que houve, todavia, de alguma forma, não tinham barreiras entre eles. Os dois estavam desarmados. E o loiro começava a pensar que uma força maior, sempre fazia com que os dois se encontrassem. E logo ele viu que as lindas pérolas se inundaram e expulsaram uma quantidade grande de lágrimas. Naruto percebeu que aquela mulher o tinha nas mãos, pois detestava vê-la chorando e era capaz de fazer tudo, para que ela parasse.
— Por favor, não chore por minha culpa — instintivamente, levou suas mãos ao rosto femininos e secou as lágrimas dela.
— Não é por você que eu estou chorando — comentou com a voz trêmula — não dessa vez — ressaltou — é só que…
A mulher se deu conta do que estava prestes a acontecer. Parecia surreal demais, uma grande reviravolta inesperada. Iria desabafar com Naruto, depois de tudo que aconteceu entre eles. Era louco e inacreditável.
— Fale — ele incentivou, quase carinhoso e se sentou ao seu lado.
— Eu… eu fui ao trabalho da minha mãe e a vi com um homem — suspirou — ele tinha os olhos como o meu e eu nunca vi ninguém com os mesmo olhos. Então, ele… — não teve coragem de dizer.
Naruto pôde sentir um estalo no cérebro, ligando uma coisa a outra. Além de uma lembrança que queria tomar conta de seus pensamentos, contudo, não era o momento.
— Eu sempre quis saber quem ele era, mas agora que estou diante disso, não sei como agir.
— No fundo nós sempre sabemos o que fazer, só precisamos juntar coragem o suficiente para fazer — a frase que para o Uzumaki preferiu, serviu para ambos e não apenas naquela circunstância.
— Obrigada — agradeceu, após alguns minutos de silêncio — eu preciso falar com a minha mãe, mas…
— Deixe isso comigo — sacou seu celular do bolso — ela continua com o mesmo número? — recebeu um aceno em confirmação e digitou os números no aparelho. Tocou algumas vezes, até ser atendido — Kurenai-san, sou eu, o Naruto...
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