Hinata
24 Nem Tudo É O Que Parece
Notas iniciais
Tentava se concentrar nos papeis que deveria ler, a informação era crucial para próxima entrevista que faria, porém desde o último encontro com Hinata, Ino não conseguia parar de pensar na conversa que tiveram.
Geniosa do jeito que era, jamais daria o braço à torcer, todavia, no fundo, sabia que a amiga tinha alguma razão no ponto em que havia tocado: seus encontros “casuais” com Gaara. As coisas entre eles fluíram tão naturalmente, que mal se deu conta de todo tempo passaram juntos e o termo “encontro casual”, já não era tão apropriado assim.
Então, eis a questão: o que eles eram, afinal? Lhe assustava imaginar a resposta.
A loira sempre fora corajosa e destemida nas suas atitudes e escolhas, no entanto, quando se estava relacionado a sentimentos, sua postura mudava de figura. Causava arrepios a ideia de se entregar verdadeiramente para alguém, de sua felicidade estar atrelada à outra pessoa, pior, de ser rejeitada, como fora pela própria mãe. Por baixo de toda confiança e ousadia, ainda existia uma menina ressentida, que não queria se magoar mais uma vez.
Não era tão bem resolvida assim, concluiu. Talvez precisasse de um psicanalista, riu pela ideia tola, em sua opinião. Obviamente, não chegaria a tanto, porém não descartava a vontade de resolver toda essa confusão interior. E a Yamaka faria isso, apenas precisava se concentrar no que seu interior dizia.
Apreciava a companhia de Gaara, gostava da personalidade implicante e irritante dele e adorava o fato de apenas ela ter acesso a esse lado descontraído do ruivo, pois sabia que o Sabaku exibia uma fachada fria e sem expressão para as outras pessoas. E principalmente, nada lhe dava mais prazer do que seus “joguinhos adultos”, que consistia em sempre descobrirem formas novas de dar prazer um ao outro, competitivos do jeito que eram, um sempre surpreendia o outro, seja num local inusitado ou criando uma nova fantasia sexual. Sorriu maliciosa, por se lembrar de alguns momentos, no mínimo, “impróprios”.
No fim, concluiu que o ruivo já era uma parte importante de sua vida, seu sorriso se desfez, voltou a sentir medo. E se não se envolvesse mais com o Sabaku? Conseguiria lidar com isso tranquilamente? Faria diferença em sua vida? Se sentiu mal, aquela espécie de fobia ser dependente de outra pessoa. Enquanto as coisas ainda estavam no âmbito de desejo e aventuras, no máximo companheirismo; a Yamanaka podia ter o controle de tudo e se manteria numa posição confortável. Todavia, se essa linha fosse ultrapassada, as coisas poderiam tomar um rumo imprevisível, poderiam machucar seu coração, aquele pensamento havia soado ridiculamente piegas, a loira franziu a testa pela frase proferida mentalmente.
Se deu por vencida, seu cérebro já estava dando voltas e voltas, não chegando em lugar algum. Suspirou, massageando as têmporas e estalando o pescoço por ter ficado muito tempo na mesma posição.
O dia não tinha sido nada produtivo, a loira não conseguiu terminar o que havia programado. Faltava pouco tempo para que seu turno terminasse, decidiu juntar seus pertences e ir embora.
Quanto mais se afastava, mais o barulho, tão habitual, da redação, dava lugar ao silêncio. A Yamanaka atravessava o corredor que dava acesso a recepção da emissora, quando fora surpreendida ao ver que o motivo de seu conflito interno vinha na direção oposta, carregando uma caixa na companhia da nova estagiária, Matsuri. E parecia que estavam se dando bem, aquilo a incomodou profundamente.
O primeiro de tudo: o que Gaara estava fazendo ali? Que ela soubesse, aquele era o dia de folga do Sabaku. E, principalmente, por que aparentava estar sendo simpático? Ele não era assim com ninguém. Talvez estivesse interessado na garota. Claro que a estagiária não tinha nada de especial, era comum e jamais poderia ser comparada com a sua incrível beleza, modéstia à parte. No entanto, Matsuri era nova no local e tinha um jeitinho um tanto inocente, talvez aquilo pudesse ter despertado algum interesse em Gaara.
Ino sentiu a ira tomar seu corpo. Quem aquela cabeça de fósforo pensava que era para descartá-la daquela maneira, sem só menos avisar, pior, trocá-la justamente por alguém que trabalhava no mesmo local que os dois? Experimentou outro tipo de sentimento ruim, era diferente do medo de ser dependente emocionalmente de outra pessoa, que ela sentiu momentos mais cedo. Era mais amargo e incômodo.
Quando finalmente se cruzaram no corredor, Matsuri fez questão de cumprimentá-la:
— Boa noite, senhorita Ino — sua voz exalava admiração.
A Yamanaka não teve estômago para respondê-la e apenas acenou com a cabeça. Gaara lhe lançou um olhar que não fora devolvido.
— Ela parece estranha — a estagiária disse inocentemente, depois que a loira estava a uma distância considerável, e alheia a aura assassina dela.
O Sabaku não disse nada, entretanto, também havia percebido o jeito sério e frio de Ino, não fazia parte da personalidade solar dela. Aquele era o dia de folga dele, não tinha nada de muito interessante para fazer, o tédio acabou o levando a fazer uma profunda análise de si mesmo e de sua vida. O ruivo acabou por tomar uma decisão importante: iria se abrir Mais para o mundo, levar a vida mais leve e principalmente ser mais social. Tudo graças à grande influência de Ino em sua vida.
Já não conseguia se ver mais sem aquela loira gostosa, egocêntrica e petulante, mas também leal e sempre disposta a ajudar os outros. Isso sem falar no sexo, que era incrível, ele provavelmente tinha um sorriso malicioso pelo pensamento. Mas acima de tudo, aquela loira astuta havia lhe ajudado a superar muitos obstáculos na vida, mesmo sem perceber. Ele já não se menosprezava e tinha pensamentos depreciativos como antes, agora achava que merecia sim, uma chance de ser feliz.
Sendo assim, por que não participar a responsável pela grande mudança em sua vida, sobre os próximos passos que queria dar? E de quebra, a “comemoração” entre eles seria deliciosa. Então, fez o caminho tão conhecido à emissora e no momento em que pôs os pés no local, observou a nova estagiária, que não se lembrava o nome, completamente atrapalhada, tentando segurar uma caixa abarrotada de papéis. Se fosse em outra época, nem repararia nela, mas agora, uma parte de si dizia para ajudá-la, seria uma ótima maneira de ser mais sociável e exercitar sua interação com outras pessoas.
E, neste momento, depois de depositar os pertences de Matsuri em uma mesa qualquer, o ruivo estava ali correndo para o estacionamento, afim de encontrar Ino.
Ela estava prestes a dar partida no carro, quando ele bateu na janela, chamando sua atenção:
— Abaixa o vidro, loirinha — falou provocativo, quem sabe assim arrancasse alguma reação dela.
— O que você quer, Gaara? — ela perguntou de má vontade.
— Eu é que pergunto: o que houve com você? — questionou interessado em achar alguma resposta.
— Nada, continuo a mesma de sempre — retrucou sem muita paciência.
— Não mesmo, Ino. Você está toda irritadinha, está de TPM? — expôs a situação.
— Me deixe em paz — aquela havia sido a gota d’água para Yamanaka.
— Não, espera! Me desculpe, eu não queria falar isso. Eu só vim aqui hoje para te ver. Você tem algum tempo livre essa noite?
Então era justamente por ela, que o ruivo estava ali. Logo, aquela historinha ridícula que tinha montado na cabeça, não passava de suposições infundadas. Só poderia estar ficando louca, por criar algo tão sem sentido, ela que sempre fora muito inteligente para entender as coisas. Parecia que seu senso de julgamento estava bastante afetado. Estava com raiva de si mesma, pela cena patética que havia protagonizado, mesmo que Gaara estivesse saindo ou interessado em outra pessoa, ele não lhe devia nada, nunca assumiram compromisso algum. Seus desejos estavam tão confusos, por um lado queria o Sabaku apenas para ela e por outro, tinha medo de se envolver tão intimamente. Um verdadeiro conflito que se desenrolava dentro dela.
— Eu preciso ir, Gaara — o fitou rapidamente antes de informá-lo.
E assim, ela se foi, sem nem mesmo responder o questionamento dele. O ruivo não sabia o que tinha acontecido, para que Ino se comportasse daquela maneira, porém de uma coisa tinha certeza, não deixaria que as coisas continuassem assim e iria descobrir o motivo por trás daquilo.
….
Coçou os olhos, afim de espantar o sono. Acabou soltando um bocejo, se ela achava que a faculdade era cansativa, a residência, então, era exaustiva. Mas bastava olhar para aquelas crianças adoentadas e poder fazê-las melhorar e, às vezes, até conseguir arrancar alguns sorrisos, Sakura sabia que valia à pena no fim. Medicina era a profissão certa e pediatria a área perfeita para ela.
Sua vida, atualmente, se baseava no hospital Senju, a rosada não reclamava, muito pelo contrário, agradecia por isso. Pois, de alguma forma, sentia como se o trabalho preenchesse sua vida. E de um jeito, no mínimo, “diferente”, ela terminava o dia cansada, com fome e mesmo assim, extremamente, realizada e feliz.
Claro que também tinha seus pais, que estavam viajando numa segunda Lua de Mel, continuavam os mesmos loucos e sem noção, todavia, os amava imensamente. Suas amigas, Ino e Hinata, ocupavam um espaço especial em sua vida, apesar do tempo escasso: ela obviamente ocupada com o hospital, Ino com seu trabalho como repórter e Hinata, esta apesar de não trabalhar, tinha muitos compromissos por ser a “Senhora Uchiha”, além do mais, o fato da amiga ser casada, inibia tanto a Haruno quanto a Yamanaka, de estarem frequentemente, com a perolada, como faziam no passado.
E por falar em Hinata, a perolada tinha conseguido o que desejava no final. Se casou com um homem rico, Sakura não palpitava mais sobre isso, porém sabia que no fundo, a amiga não era feliz da forma que pensou que seria. Mas, quem era ela para falar sobre relacionamentos? Sua vida amorosa era um fiasco total. Desde que tomou a decisão de terminar aquela relação falida com Sasuke, até se aventurou algumas vezes, no entanto, todas fracassadas, acabou por perceber que talvez não tivesse nascido para aquilo. Muitos poderiam pensar que a rosada daria certo com Sai, ledo engano, eles não tinham passado da linha da amizade e sinceramente, a Haruno não sentia a menor vontade de se aventurar com o pintor. O enxergava como um amigo muito querido, que havia sido importante para que ela abrisse os olhos, mesmo que indiretamente.
Na saída do Senju, apertou seu casaco contra o corpo, por conta da brisa fria que batia em seu corpo. Seu carro apresentou problemas e desde a última semana, estava no conserto. Por esse motivo, precisava usar um táxi para se locomover, olhou para o Céu e ele estava completamente escuro, a Lua estava escondida pelas nuvens, continuou caminhando na mesma calçada, em direção a área em que os táxis geralmente paravam, a espera de um, acabou não percebendo o homem que vinha ao seu encontro.
— Sakura! — ele gritou para que ouvisse.
Ela, imediatamente, fitou a direção de onde vinha o som, poderiam ter se passado anos, no entanto, conhecia tão bem aquela voz, provavelmente, jamais se esqueceria.
— Sasuke! — fora uma mistura de exclamação e surpresa.
Quanto mais ele se aproximava, mais detalhes ela percebia. O moreno continuava com a mesma altura, praticamente, o rosto belo da mesma forma, as mudanças se mostravam em seu cabelo maior e a barba por fazer, algo que ele jamais permitia acontecer. Porém, aquele Sasuke que estava parado à sua frente, sem dúvidas, não era mais o mesmo de anos atrás. Bem, como a jovem médica chegou aquela constatação? Fácil, nem ela própria, nem ninguém continuava sendo a mesma pessoa depois de tantos anos, pelo menos era aquilo que a rosada esperava.
Apesar de tudo e do tempo, foi impossível a Haruno não sentir seu coração bater diferente, ao sentir as onix lhe perscrutando, assim soube que o Uchiha fazia o mesmo que ela.
A rosada estaria mentindo se dissesse que sabia qual o motivo de Ssuke tê-la procurado, depois de anos fora do país. Obviamente, estava surpresa e curiosa, porém não sabia como iniciar um diálogo com ele. Era, no mínimo, cômico, o fato de ter tido intimidade e agora se sentia um tanto desconfortável e deslocada.
— Oi — ela optou por cumprimentá-lo, esse, pelo menos, era um jeito educado de começar, quem sabe assim, uma conversa com fluidez.
— Oi, me desculpe aparecer assim do nada — Uchiha Sasuke pedindo desculpas, isso sim era surpreendente — eu só precisava falar com você — ele ajeitou uma bolsa de viagem nos ombros.
Só então, ela reparou no acessório:
— Você veio me procurar, eu suponho, logo após chegar no país? — perguntou cética.
— Sim, na verdade, pisei em solo japonês — fitou o relógio no pulso — aproximadamente, uma hora.
— Céus! Você deve estar cansado — a Haruno demonstrou preocupação e serenidade ao mesmo tempo — seja lá o que for, que você quer me dizer, poderia ter esperado até amanhã.
O Uchiha sorriu, claro, nada muito aberto, mas era um sorriso para os padrões Uchiha. Sakura já não era mais a menina louca e obcecada por ele, senão já teria avançado e o coberto de beijos e carinhos desnecessários, constatou. Bem, se por um lado ele gostava, até que não faria mal, se ela o recebesse calorosamente, o mais novo dos Uchihas, não reclamaria.
— Não poderia, não — retrucou, sem ser mal educado.
— Bom, então se é assim — ela franziu o cenho, se o moreno bem se lembrava, a rosada tinha essa expressão quando pensava sobre algo — vem comigo.
O Uchiha a acompanhou sem objeções, atravessaram a rua e andaram uma quadra, até chegarem numa simpática cafeteria. Geralmente, era naquele estabelecimento que a Haruno e os colegas ficavam, nos momentos de descanso.
Ela se sentou numa mesa ao fundo do local e o moreno fez o mesmo, rapidamente, uma garçonete os atendeu.
— Eu quero torta de maçã e um cappuccino simples — a mulher anotou o pedido.
— Quero o mesmo — a intenção dele não era comer, mas sentia fome, portanto, não faria mal fazer companhia a Sakura.
— Como Você sabia como me encontrar? — perguntou intrigada.
— Eu tenho meus contatos — a rosada ergueu uma sobrancelha — eu liguei para o Itachi, que perguntou a Hinata onde Você estava, e ela por sua vez, disse que você estaria, provavelmente, no Hospital Senju.
— Uau! — se mostrou impressionada.
A garçonete voltou, trazendo os pratos pedidos. Eles comeram, até Sakura quebrar o silêncio:
— Por onde você andou, digo, por quais países?
— Índia, África do Sul, Colômbia, Brasil… — é, eu sei, nenhum dos destinos óbvios. Depois que você me chutou….
— Sasuke… — o interrompeu, se sentiu desconfortável, sem saber direito o que dizer.
— Não precisa dizer nada, eu sei que mereci. Me deixe continuar, eu estava sem rumo na vida, sempre estive, para falar a verdade. Sempre tive tudo de mão beijada, nunca precisei me esforçar para nada, não que eu esteja reclamando. Mas, precisava desse tempo para pensar e enxergar a vida de um ângulo novo e me encontrar de verdade. Não que seu seja a melhor pessoa do mundo, essa nunca foi minha pretensão, porém, eu sei que sou alguém um pouco diferente.
“Sabe, eu fui ao aeroporto sem ter ideia de onde ir, só haviam lugares para países da América Latina e África, num primeiro momento, acabei optando pela primeira opção, não tinha nada a perder mesmo. Mas acabou sendo ótimo para mim, poder vivenciar outras culturas, conhecer pessoas que tinham tão pouco e mesmo assim eram muito mais felizes do que eu. Deixar de olhar para o meu próprio umbigo e olhar para os outros, fez com que eu finalmente enxergasse a mim mesmo”
— Tsc — estalou a língua no céu da boca, um hábito que permanecia o mesmo. Seu relato havia soado de forma bem patética, em sua opinião.
Sakura o fitava com extrema admiração, sempre sonhou que algum dia aquilo acontecesse, mas não se atrevia cogitar que poderia se tornar realidade.
— Eu fico extremamente contente por isso — as orbes esmeraldinas cintilavam e seu sorriso era visível — e também fico feliz por saber que você teve vontade de partilhar comigo — limpou os lábios com o guardanapo, após terminar sua refeição.
— Não, espere — o moreno suspirou, era difícil se abrir dessa forma, mesmo que fosse com Sakura, a garota que estava disposta a ouvir — quando decidi voltar, a única coisas que eu tinha em mente, era te ver, eu fui muito injusto com você, um idiota, nunca te mereci, para falar a verdade. Então, eu peço desculpas.
— Sasuke-kun — usou o sufixo carinhoso, que não passou despercebido por ele — eu já te perdoei há muito tempo, você errou e eu também, talvez só não era para ser…. — disse um tanto triste, a rosada o amou tanto e guardou o sentimento lá no fundo, mas era ruim admitir o fracasso, admitir que seus esforços não foram o suficiente.
— Não foi culpa sua — tomou o queixo dela com as mãos — se houve um culpado, esse alguém fui eu.
— Bem, já está tarde — ela interrompeu qualquer coisas que poderia se seguir, por mais que Sasuke tivesse aparecido do nada e dito coisas que ela sempre quis ouvir, não estava disposta a se ludibriar mais uma vez — preciso descansar e você também.
Ela se levantou e deixou uma quantia razoável para pagar.
— Não reclame, eu conviveu, eu pago — se adiantou, antes que o Uchiha reclamasse.
— Ei, posso te ver novamente? — Sasuke perguntou, enquanto a Haruno se afastava.
— Sim — respondeu. Não havia nada de mal, não era mesmo? Eles poderiam se entender como amigos a partir daquele momento.
Sasuke sorriu de lado, agora mais do que nunca tinha certeza do que queria e dessa vez faria dar certo.
….
Hinata permanecia imóvel, como uma boneca sem vida, suas pérolas opacas e sem foco, fitavam o nada. Sentia seu corpo anestesiado, queria que a alma também estivesse.
Ela só queria permanecer sozinha, remoendo e revivendo sua dor, pela vida interrompida de seu bebê, sem ser atrapalhada e interrompida por ninguém, no entanto, seu desejo não fora atendido, pois ouvira o som da maçaneta sendo girada e a porta se abrindo.
A perolada ouviu os passos se aproximando, mas não se deu ao trabalho de olhar, provavelmente, era o médico ou alguma enfermeira.
Ledo engano.
— Olhando assim, nem parece a garota petulante que foi ao meu escritório — a voz grave se fez presente. Apesar de séria, a azulada conseguiu identificar uma nota de desdém.
A Yuuhi, imediatamente se moveu, virou a cabeça pela primeira vez e observou o homem do lado esquerdo do seu leito. Ele mantinha a posição ereta, um verdadeiro aristocrata, segurava a bengala com elegância e usava um terno fino, o rosto marcado pela idade, não deixava dúvidas que fora muito bonito em sua juventude. As onix profundas a encarava com indiferença latente, salvo a reprovação, que fazia questão de demonstrar.
Hinata estava confusa, talvez os remédios causaram algum tipo de alucinação, apertou os olhos:
— Madara-sama? — murmurou, fracamente.
— Nunca pensei que você fosse dificultar tanto assim — ele disse, vagamente.
Aquilo não fazia sentido nenhum para a jovem. O que aquele homem, que vira apenas uma vez na vida, fazia ali? Além do mais, como sabia que ela estava no hospital? E sobre o que ele estava falando? Um grande ponto de interrogação se formou em seu cérebro.
— Me desculpe, mas eu não faço a mínima ideia do motivo que te trouxe aqui — foi direta.
— Meu neto Itachi chegará hoje de viagem, depois de quase um ano longe do lugar que lhe pertence — informou enigmático.
Hinata suspirou, já poderia imaginar do que se tratava.
— Se é sobre o Itachi, eu não tenho mais interesse nele, não precisa se preocupar em ter uma “aproveitadora” tentando fisgar seu neto — proferiu cansada, queria que o homem fosse embora logo.
— Não me interrompa — se manifestou ríspido e autoritário.
Num primeiro momento, a perolada se sentiu intimidada, como se voltasse a ser aquela criança tímida, teve vontade de se encolher. Porém, se deu conta do quão patética era aquela sensação. Quem aquele arrogante pensava que era? Ir atrás dela num hospital (ainda não sabia como ele descobriu aquilo), e querer ditar suas regras. Nem nesse momento insuportavelmente doloroso, não teria paz? Deseja dar uma resposta mal criada, todavia, se controlou, só queria que acabasse rápido, temia que se dissesse algo, aquilo se estenderia.
— Você se acha muito inteligente, não é mesmo? Mas não passa de uma criança amadora — expressou inabalável e deu seguimento ao discurso que pretendia concluir.
“Sabe, eu acredito que exista uma hierarquia na vida e cada pessoa pertence à algum lugar dela, eu por exemplo, pertenço ao topo, nasci para isso — apesar do conteúdo da frase ser, tremendamente egocêntrica, ele soara mais como um ‘sábio’, do que outra coisa — o sobrenome Uchiha, sempre deve estar no topo, assim como Itachi deve estar no topo."
A azulada juntou as sobrancelhas tentando entender onde Madara queria chegar, de uma coisa tinha certeza, o mais velho queria incluí-la nisso, senão, qual o motivo dele estar ali?
“A minha família é o mais importante para mim, é dessa forma que eu fui criado, para manter e protegê-la, meu neto tem o dever de continuar o legado Uchiha, como eu disse anteriormente, Itachi tem que ocupar o lugar que foi do meu avô, do meu pai e meu: o topo.”
— E onde eu me encaixo nisso? — a Yuuhi demonstrou falta de interesse, mas no fundo, seus sentidos estavam alerta, se encontrava apreensiva e sabia que não tinha noção do quanto o velho era poderoso e perigoso.
O mais velho deu um leve repuxar de lábios, aquele deveria ser o máximo que ele esboçava de sorriso.
— Ao contrário do que você pensa, eu não quero que você se afaste do meu neto, quero que continue com ele — comentou.
— Como?! — o homem só poderia estar caduco, era um absurdo o que ele a pedia.
Pelo que ela sempre soube, esse tipo de gente desejava que seus herdeiros se relacionassem como outros herdeiros, pessoas no mesmo nível social. Mesmo na época em que Hinata tinha intenção de fisgar Itachi, tinha certeza que o avô não aprovaria o casal, porém, não seria um empecilho, visto que contava com os desejos de itachi, ele jamais deixaria de fazer o que tinha vontade, por conta de Madara.
— Exatamente o que ouviu. Eu percebi que você tende a entende coisas que não precisam ser ditas, como o fato de não estar no mesmo nível do meu neto — esquadrinhou o rosto e o corpo dela, sem qualquer malícia, mas como se fosse alguém inferior e indigna de sua atenção, franziu o cenho ao notar o estado lastimável em que a garota se encontrava, o cabelo bagunçado e os machucados na testa e no braço — acredite, em outras circunstâncias, jamais faria uma proposta dessas, mas é preciso saber fazer concessões em momentos críticos.
— Eu continuo não entendendo qual utilidade, tenho para os seus planos — comentou cautelosa.
— Itachi é um homem inteligente, forte, sensato, tem pulso firme e espírito de liderança, um herdeiro perfeito, sem dúvidas a pessoa mais apta para sentar na cadeira de presidente das Indústrias Uchiha e tomar posse de todo o legado da família — era impossível não enxergar o orgulho que Madara sentia ao falar sobre o neto.
“Só existe um único “porém”: ele não me ouve e nem confia em mim, ao contrário de você, que consegue influenciá-lo como ninguém. Enquanto ele permanece irredutível e não aceita nada que venha de mim, você o enfeitiçou de tal forma, que no alto da maturidade e sagacidade, não enxergou que você só queria os benefícios que o nome Uchiha tem a oferecer. E em vez de mantê-la apenas para o prazer, resolveu assumir um compromisso. E acredite, minha querida, houveram muitas outras antes de você, tentando a mesma coisa, mas Itachi nunca se deixou levar dessa forma — acrescentou — E para resolver este problema, você seguirá minhas instruções e será meu instrumento para persuadí-lo.”
Hinata estava espantada com o plano do velho, Madara era ardiloso, sem dúvidas, não poderia subestimá-lo. Se essa proposta fosse feita antes de conhecer Naruto, ela não pensaria duas vezes antes de aceitar, entretanto, agora só cobiçava a paz em sua própria dor e quem sabe assim, juntar seus pedaços novamente, não tinha a menor vontade de se envolver no que o patriarca da família Uchiha propunha.
— E quem garante que ele vai querer ter algo comigo mais uma vez? — a azulada discorreu.
— Tenho certeza que você conseguirá reconquistá-lo, ainda hoje, quando ela passar por aquela porta.
— Como ele vai saber que eu estou aqui, o senhor quer que eu ligue? — indagou confusa.
— Não será preciso. Todos têm seu preço, o ser humano é facilmente corruptível e não seria diferente com os funcionários desse hospital, bastou comprar uma recepcionista qualquer, para que desse a informação a Itachi — olhou para o relógio — a essa hora, meu secretário já deve estar esperando meu neto no aeroporto, para que não haja imprevistos.
A jovem estava pasma, o homem havia planejado tudo, milímetro por milímetro. Ela sentia o suor escorrer pela testa, e não tinha nenhuma ligação com o clima do ambiente, mas por estar sendo pressionada para um beco sem saída.
— E se eu recusar? — desafiou, aquela era sua última cartada, embora desconfiasse que não faria Madara desistir, logo ele que se empenhou tanto para conseguir o que tanto intencionava.
— Você terá tudo que tanto cobiçou, tudo que o dinheiro e um sobrenome influente podem comprar, estou te dando de bom grado, como recompensa pelos serviços que virá a prestar para mim — o mais velho argumentava calmo — além do mais, não acho que você seja burra ao me contrariar. Não vai querer se tornar um empecilho no meu caminho…. Duvido muito que deseje ao seu namoradinho, Uzumaki Naruto, tenha o mesmo fim dos pais — bingo!
Hintava não controlou o espanto pelo comentário do mais velho, ele, praticamente, confessou que estava envolvido na morte dos pais de Naruto. Seu coração batia, descompassadamente, contra o peito. Pelo que o loiro tinha lhe confidenciado, seus pais morreram num incêndio, na fábrica da família, o inquérito não havia apontado as causas e o caso acabou sendo arquivado, as autoridades disseram que fora acidental. O pai de Naruto amava carros. Construiu uma montadora de carros. Carros. O principal seguimento das Indústrias Uchiha era o automobilístico. De alguma forma, Minato tinha sido um “empecilho no caminho de Madara”. Seu cérebro trabalhou tão rápido juntando todas as peças e informações, se sentiu tonta. Não podia ser. Não. Sua respiração estava ofegante, nunca sentiu tanto medo assim.
Quando seu deu por si, o homem já se afastava, depois de ter jogado aquela informação, sem delicadeza alguma. Ele se encontrava perto da porta e tocou na maçaneta, quando se virou novamente para jovem.
— Depois de ter falhado em te trazer até mim, Hidan me contou sobre o “breve passado” que tiveram — revelou com doce crueldade — ele está disposto a fazer de tudo, até mesmo reviver o passado, para me provar que não é um incompetente. Por isso, eu sugiro que você aceite minha oferta e não teste minha paciência — e finalmente, deixou o local.
Hinata deixou as lágrimas caírem, ele sabia…. Se sentiu tão humilhada e exposta. Aquilo não tinha como piorar, sinceramente, teve vontade de acabar com a própria vida e a angústia. Porém, Madara poderia fazer mal, não só a Naruto, mas a sua mãe também. Aquele homem foi o responsável pelo assassinato dos pais de Naruto e estava relacionado ao tal Hidan, assassino do seu amigo Kiba e provavelmente, ao outro que havia abusado dela.
Estava perdida. Sozinha. Sem esperança.
.
.
Enquanto fazia o breve trajeto da escada para sala de estar, deixou as lembranças inundarem sua mente e reviveu o fatídico dia que mudou o curso de sua vida. Aquele era seu segredo mais secreto, ninguém poderia saber, ela não poderia desabafar com mais ninguém, já perdeu as contas de quantas vezes se sentiu tentada a contar para mãe ou mesmo para as amigas, entretanto, não poderia colocar a vida de mais ninguém em risco. O peso daquela responsabilidade já afetava seu corpo, nem as doses dos calmantes que seu médico receitava, já eram suficientes.
Seria cômico se não fosse trágico, agora tinha tudo que desejou, mas não se sentia feliz, na verdade, se sentia presa e sufocada numa farsa. Às vezes, parecia que iria enlouquecer, mas pelo menos, conseguia respirar e colocar a cabeça no lugar, afinal, muitas coisas estavam em jogo.
E agora, se o velho maldito lhe procurou, sem dúvidas, queria algo. Ela não se sentia orgulhosa de manipular Itachi, apesar de tudo, o moreno era um ótimo marido e um bom homem.
Quando enfim chegou a sua sala de estar, encontrou Madara sentado em sua cadeira de rodas e atrás dele, Zetsu, seu cão fiel, aquele homem dava calafrios.
O velho, apesar de estar com a saúde debilidade, não perdia altivez e a postura. E por Deus! Hinata desejou que Madara morrece, ao saber que ele esteve doente, dessa forma, boa parte dos seus problemas estariam resolvidos. Mas claro que a vida não iria facilitar nada para ela, e o mesmo continuara vivo.
— Bom dia, Madara-sama — cumprimentou, com falsa educação — aceita tomar um chá ou café?
— Não, obrigado. Serei breve — disse analizando a aparência da atual “senhora Uchiha”, pelo menos estava apresentável.
Não tinha muito o que reclamar da garota, ela havia sido muito útil para os seus objetivos, que foram muito bem sucedidos, seus instintos estavam certos, quando a incluiu neles. Afinal, Madara era um jogador, que planejou cuidadosamente todos os detalhes, tudo se saiu melhor do que o planejado, apesar de conhecer o neto, pois eram mais parecidos do que Itachi queria admitir, não imaginava que ele quisesse firmar compromisso tão rápido assim. Ambos eram metódicos e calculistas, seguiam as metas que traçavam e dificilmente desistiam. No momento em que Itachi havia escolhido Hinata para namorar, sabia ela seria a provavel canditada ao cargo de esposa.
— Então, se me permite perguntar, o que deseja?
— É simples: quero que convença meu neto a aceitar Uzumaki Naruto como sócio — Zetsu, atrás do patrão, sorria como um sádico.
Hinata não esboçou reação, entretanto, por dentro todos os seus temores se concretizaram. A intenção dela era de que Naruto estivesse o mais longe possível, no entanto, aquele velho desgraçado, queria justamente o contrário. Precisava protegê-lo, mas de que forma? Por todos os lados, ele corria perigo. Sentiu a pressão que era tão grande em sua mente, a cabeça já começava a doer novamente.
Não tinha a mínima ideia do que fazer.
Fale com o autor