Hinata
25 Conselhos
Notas iniciais
Hinata ainda tinha a última visita de Madara martelando em sua cabeça, repetidas vezes. Não conseguia mais se concentrar em nenhuma das suas atividades, apenas tentava achar alguma solução para os seus problemas.
O que poderia fazer? De todas as formas existiam riscos. Por enquanto, não havia tocado no assunto, muito menos tentado persuadir seu marido, para que aceitasse Uzumaki Naruto como sócio. Ela, sinceramente, não tinha estômago para tal. Até porque, Itachi estava inclinado a aceitar a proposta e tinha certeza que o Uchiha fecharia o maldito contrato. O único problema era saber quando. Quanto tempo ainda teria para, quem sabe, pensar em algo? E era nesse ponto que se mostrava seu impasse, pois não tendo Naruto envolvido com as Indústrias Uchiha, Madara poderia tentar alguma coisa, da mesma forma que se o Uzumaki se tornasse um membro da Uchiha, o caminho seria ainda mais fácil para que atentassem contra a vida do loiro. Só de pensar nisso, se sentia mal.
E claro, sendo honesta consigo mesma, não era só na segurança dele que pensava, mas também na vida que levava, seria muito mais difícil do que já era, manter sua farsa e cumprir sua parte do acordo com Madara. Só de pensar que o loiro estava tão perto como há anos não esteve, imaginava a vida que poderia ter construído com ele, era doloroso e frustrante ver que estava muito longe de ser feliz e ter tranquilidade. Tinha vontade de abandonar tudo e correr para os braços acolhedores do Uzumaki, porém, ele já não era mais o mesmo, provavelmente lhe odiava, não se esqueceria jamais da forma como ele a fitou durante o reencontro. As lindas safiras duras e ressentidas.
Não adiantava se martirizar, já havia feito suas escolhas e não poderia voltar atrás, além do mais, era necessário se sacrificar para segurança de todos. Em toda sua vida, nunca teve a intenção de ser altruísta ou ser vista como a heroína, muito pelo contrário, era apenas uma mulher machucada e cheia de defeitos, que não se importava de ser quebrada inúmeras vezes, desde que as pessoas que amava, tivessem a chance de estarem bem. O melhor a se fazer, era afastar esses pensamentos melancólicos, visto que sua saúde mental fragilizada, não precisava se debilitar mais ainda.
— O que houve? — questionou Itachi, lhe tirando de seus devaneios.
Só então, a azulada se deu conta de que estavam na sala de estar esperando o jantar, ambos sentados em cada ponta do confortável sofá, o marido mantinha os olhos sob os papéis que lia, enquanto aguardava uma resposta. Hinata por sua vez, tinha a mão sob o ombro e o cotovelo apoiado no encosto do móvel estofado.
— Não aconteceu nada comigo — tentou parecer o máximo convincente.
Ele, finalmente, fixou suas onix na esposa, antes de retrucar:
— Não minta para mim, você anda muito dispersa — foi firme, porém não rude.
Hinata sabia que sua mente, ultimamente, voava para longe. Entretanto, não cogitava a hipótese do marido confrontá-la sobre isso. Aquilo significava que suas divagações já haviam passado do limite do normal, sem ela nem ter se dado conta. A perolada precisava dar um jeito na situação.
Ela deslizou, perigosamente, pelo comprimento do sofá, retirou a pasta com papéis da mão dele, colocando em cima da mesa de centro e sentou em seu colo. Levou as mãos para o rosto másculo, antes de beijá-lo. Seu movimentos eram mecânicos e sem qualquer espontaneidade.
Itachi percebeu isso, sabia que ela tentava tirar o assunto do foco. Afastou a perolada, apenas o suficiente para que quebrassem o beijo, mas mantivessem o contato visual.
— Hinata, pensa que eu não tenho percebido a quantidade de remédios que você está consumindo? — a pergunta fora retórica.
O Uchiha nunca havia questionado e nem posto Hinata contra parede, nem mesmo quando a reencontrou no hospital ou na Lua de Mel do casal, onde a jovem chorava sem qualquer motivo aparente. Eles respeitavam, acima de tudo, o espaço pessoal e individualidade do outro, um dos motivos essenciais para a relação se manter após seis anos. No entanto, dessa vez, o moreno não enxergava outra alternativa a não ser confrontá-la, visto que a situação já se mostrava insustentável.
— Não é nada. É só impressão sua — usou uma justificativa pífia.
Tentou sair do colo do marido, todavia, ele não permitiu. Segurou seus braços, a expressão do moreno era séria e ele fazia questão de manter seus olhos sobre o dela.
— Você está doente e não quer me contar? — indagou carinhoso, enquanto acariciava o rosto feminino.
— Itachi, por favor… — ela odiava todas as vezes que o moreno demonstrava preocupação, pois sentia a culpa queimá-la por dentro. Era uma tortura.
Por sorte, antes que a situação pudesse se agravar, a azulada fora salva pelo som da campainha. Concluiu ser algum conhecido, porque para conseguir passar pelos seguranças na entrada da propriedade à noite. A jovem, rapidamente, se levantou; sendo observada pelo marido, durante todo trajeto à porta.
De todas as pessoas que poderia imaginar, o homem à sua frente, nem chegou a ser cogitado.
Ele simulou esquadrinhar o lugar, antes de comentar sarcástico:
— O golpe do baú deu certo mesmo, você está muito “bem” — fez aspas com os dedos.
— Já não posso dizer o mesmo de você, querido. Sua aparência, parece de algum usuário de drogas — retrucou ácida.
— Senti sua falta — informou, após a troca de “gentilezas”.
— Eu também senti a sua — a perolada o abraçou.
— Sasuke! — Itachi exclamou, atrás da esposa.
Hinata se soltou dele e deu espaço para o marido. Sorriu ao ver os irmãos Uchiha se abraçando, juntos novamente. Ter o irmão por perto, faria muito bem à Itachi, sabia o quanto ele sofria pela ausência do mais jovem, mesmo não demonstrado; sempre fora protetor. Apesar da relação ter tido momentos um tanto conturbados, havia muito amor e companheirismo envolvido. A azulada se pegou pensando como seria ter um irmão, afastou o pensamento e prestou atenção na cena que se desenrolava sob seus olhos.
— Por que você não me avisou que chegaria hoje? — o mais velho indagou contrariado — eu teria te recebido no aeroporto.
— Eu não quis incomodar, além do mais, eu tinha que fazer algo antes de vir aqui — respondeu um tanto enigmático.
— Eu sou seu irmão, você não me incomodaria, que fique claro. Mas o que seria este “algo antes”? — questionou com a sobrancelha arqueada.
Embora não quisesse ser oportunista naquela situação, a volta de Sasuke fora, extremamente, conveniente com suas necessidades. Pois, Itachi se manteria ocupado com o irmão, não iria se concentrar nela. Pelo menos, era isso que esperava. Parecia que as coisas começavam a se tornar favoráveis para ela.
— Bom, vou deixá-los à sós e providenciar um quarto para você, Sasuke — se despediu, beijando os dois homens no rosto.
Após a saída da mulher, Itachi se voltou para o irmão, esperando uma resposta.
Sasuke entendeu e tratou de replicar:
— Eu fui ver a Sakura — era embaraçoso dizer aquilo, o mais jovem fitava o solo, pois se sentia um tanto envergonhado.
— Então, foi por isso que você me perguntou sobre ela da última vez que nos falamos — o mais velho deu um sorrisinho — eu posso concluir que você já se decidiu no que diz respeito à Sakura.
— Sim — confirmou — escuta, Itachi, eu sei que nao tem nada a ver perguntar isso agora, mas você ama a Hinata?
O mais velho demonstrou um pouco de espanto, sinceramente, não esperava aquele tipo de pergunta, ainda mais com apenas alguns minutos juntos, depois de três anos. Queria saber sobre as descobertas e aventuras de Sasuke, contudo, o que mais poderia representar a relação dos dois, do que ele dar conselhos ao irmão mais novo? Tentaria ajudá-lo, mesmo não sabendo do que se tratava de fato.
— Bom, eu nunca pensei sobre isso, sobre amor — ele refletiu por um breve momento, tentava encontrar as palavras mais adequadas — eu posso dizer que escolhi ter a Hinata na minha vida, gosto da sua companhia, gosto que ela respeite meu espaço individual, gosto da forma como ela se porta diante das situações… e na cama, é incrível — deu um peteleco na testa do irmão, como fazia quando era criança.
— Tsc — Sasuke preferiu não comentar nada, Itachi conseguia ser bastante irritante quando queria, apenas estalou a língua no céu da boca, um velho hábito.
A finalidade de sua pergunta, fora por curiosidade e comparação. Tinha curiosidade de saber como funcionava o casamento do irmão, para falar a verdade, se surpreendeu pela durabilidade. Também precisava ouvir o que Itachi sentia por Hinata, para comparar com seus sentimentos em relação à Sakura, podendo chegar em algum consenso. No entanto, era bem diferente do que ele sentia. Itachi descreveu uma boa amiga, com exceção da parte “cama”. Seu irmão fazia soar tão simples, tão cômodo e de uma coisa Sasuke tinha certeza: o amor não deveria ser tão calmo e pacífico assim, pois os sentimentos eram fortes e muitas vezes incontroláveis, difícil de decifrar.
Antes mesmo que o pudessem continuar conversando, uma mulher surgiu no local, a julgar pelo uniforme e pela postura, concluir ser a empregada:
— Senhor, o jantar já está pronto! — comunicou, polidamente.
— Coloque mais um lugar à mesa e por favor, avise minha esposa — ordenou.
A serviçal acenou positivamente.
— Me avisar o quê? — Hinata descia as escadas.
— Que o jantar já pode ser servido, senhora — a mulher respondeu.
— Então… — a azulada fitou o corredor que dava acesso a sala de jantar e caminhou até lá, sendo seguida pelos homens.
Já instalados ao redor da mesa, a perolada engatou uma conversa com Sasuke:
— Itachi me contou que você foi bastante altruísta durante sua viagem — comentou, despretensiosamente.
— Isso não é nada — revirou os olhos impaciente, se sentia desconfortável falando sobre o assunto. Não queria reconhecimento algum, só fez algo que não custaria nada à ele.
— Como não é nada? Ter custeado todo o tratamento daquela menininha, foi muita coisa — completou, Itachi orgulhoso.
Sasuke já se sentia arrependido de ter contado ao irmão, sobre o episódio. Preferia que mudassem de assunto. Seu desejo foi atendido, a refeição ocorreu sem mais interrupções.
Após terminarem de se alimentar, Itachi se dirigiu para sala de estar, feliz de estar na companhia do irmão mais jovem. Desde a morte dos seus pais, ele se sentia extremamente responsável por Sasuke; às vezes, parecia mais um pai do que irmão. Sabia que estava errado, pois o mais jovem já era adulto e havia amadurecido muito, mesmo assim, era difícil não se sentir dessa forma. Entretanto, nada disso era obstáculo para se deter.
Antes que Hinata pudesse fazer o mesmo caminho que o marido, Sasuke a segurou pelo braço. Ela por sua vez, se virou para ele, esperando que dissesse algo. Percebendo que o moreno parecia numa batalha interna, se demonstrando incomodado e poderia jurar, um tanto tímido, resolveu se adiantar:
— O quê? — questionou, dando a deixa para que ele continuasse.
— Esqueça — tentou encerrar a conversa, que nem havia se iniciado.
Foi a vez da perolada detê-lo, agora queria saber do que se tratava:
— Espere, me diga de uma vez — tentou não transparecer impaciência.
O Uchiha bufou, detestava aquele tipo de situação:
— A Sakura… está disponível — indagou, tentando soar o menos patético possível.
A mulher estava séria e mantinha uma sobrancelha erguida , depois de parecer assimilar a fala dele, sorriu maliciosa:
— Se “disponível” — fez aspas com os dedos — significa solteira, então sim, ela está disponível.
— E aquele pintorzinho — franziu o cenho em desprezo.
Ela riu, quase venenosa:
— Ah, por favor, Sasuke! Parece que nem conhece a Sakura, o pintor era compreensível e amiguinho demais, para despertar interesse dessa natureza. O tipo dela é mais complicado, arrogante e insuportável — fitou o homem, sugestivamente.
O moreno revirou os olhos, no entanto, por dentro, se deu por satisfeito.
Dessa forma, ambos, finalmente, se juntaram à Itachi; que naquele momento, parecia dar instruções a alguém pelo celular. Tanto Hinata, quanto Sasuke se acomodaram no sofá, enquanto o mais velho permanecia em pé, visivelmente irritado. Ele não se demorou muito e encerrou a ligação.
— Algum problema, querido? — perguntou.
— Eu pedi para que um dos advogados da empresa agilizasse, o mais rápido possível, o contrato para que Uzumaki Naruto se torne nosso sócio, o quanto antes — informou.
De repente, toda leveza que a azulada adquiriu pelo presença de Sasuke, se esvaiu, dando lugar a tensão. Nunca poderia ter paz, não era mesmo? Pois a vida sempre se encarregava de lembrá-la de seus problemas.
O que Hinata não percebeu, foi que ela não era a única a se perder em pensamentos, depois de ouvir o nome Naruto. Sasuke tentava compreender a fala do irmão e, apesar de surpreso, tinha tomado uma decisão.
….
Sua manhã se passou tranquilamente. Como todos os dias, Itachi havia ido ao trabalho e Sasuke também tinha saído, não sabia qual o destino do último e não tinha curiosidade de saber.
Preferiu tomar seu desjejum no quarto, era possível ver as sobras do café da manhã, em cima de uma bandeja de prata, posta sobre a cama.
No momento, ela se maquiava, embora não tivesse nenhum compromisso, gostava de se arrumar, pois a acalmava. Além do mais, havia se tornado um hábito. E tudo o que ela mais precisava, atualmente, era relaxar e pôr a mente em ordem. No entanto, por mais que quisesse, não conseguia ter nenhum vislumbre de ideia para intervir nessa união entre a Uchiha e Naruto. Isso fazia um sentimento ruim de impotência florescer, logo junto da frustração. Ela não tinha o que fazer, o maldito Madara havia lhe prendido de tal forma, que não conseguia enxergar saída, às vezes, tinha a súbita vontade de abandonar tudo, contudo, sua lucidez voltava mais forte do que poderia suportar.
Respirou fundo e decidiu fazer o que havia proposto a si mesma: se abster das preocupações, pelo menos, por um instante. A azulada passava rímel nos cílios, quando ouviu baterem na porta de seu quarto.
— Senhora, perdão por interromper — a empregada se desculpou — Sabaku No Gaara deseja vê-la.
A perolada franziu a testa. Gaara? O único que conhecia, era o “ruivo de Ino”. Era, pelo menos, interessante o homem ir em sua casa. Apesar dos anos em que ele já vinha se envolvendo com Ino, nunca tiveram proximidade, no máximo, trocaram algumas palavras por duas ou três vezes.
Movida pelo interesse sem saber do que se tratava, terminou o que fazia e desceu ao andar inferior, rapidamente.
Avistou o ruivo, ele tinha as mãos dentro dos bolsos e batia o pé no chão, em sinal de nervosismo. Ele por sua vez, ao perceber que a mulher estava no mesmo ambiente, parou o que fazia.
— Para ser sincera, estou bastante curiosa acerca da sua visita — informou, Hinata descontraída — a que devo a honra?
— Desculpe aparecer assim do nada, eu sei que nós não temos intimidade, senhora Uchiha…
— Me chame apenas de Hinata, não há necessidade em formalidades — a mulher o cortou.
— Hinata, eu só vim aqui, porque você é a única opção que eu tenho. A Ino não deixa com que eu me aproxime dela, eu estava muito preocupado, pois ela não aparecia na emissora e, se tem algo que ela preza é o trabalho, até minha irmã me contar que ela tirou férias. Eu fui na casa dela, mas ela não me atende, mesmo o porteiro garantindo que a Ino não viajou nem nada do tipo — despejou num só fôlego.
O Sabaku se sentia aflito, ele que sempre fora apático em relação à sentimentos e as pessoas à sua volta, agora demonstrava preocupação com Ino, e o pior, não conseguia controlar. Tudo era culpa daquela loira metida, ela entrou em sua vida sem pedir permissão e se tornou indispensável.
— Se acalme, sim — proferiu e sinalizou para que o ruivo se sentasse junto dela.
O conselho que deu ao outro, também servia para ela, pois algo grave poderia ter acontecido com a amiga, no entanto, após recapitular a última conversa que compartilharam, tinha a ligeira impressão do que poderia se tratar esse “sumiço” de Ino. Entretanto, precisava averiguar, antes de tirar qualquer conclusão precipitada.
— Me responda: aconteceu algo extraordinário, na última vez em que você a viu? — interrogou.
— Bom, justamente, esse é o problema. No nosso último encontro ela estava estranha, se comportou completamente diferente do que sempre foi, estava mais fria e me tratou com indiferença — confidenciou chateado.
— Tem certeza que isso é tudo, não há mais nada? — ela averiguou.
— Não, eu juro que não fiz nada, realmente não sei — respondeu um tanto ofendido e cansado.
— Eu vou tentar resolver isso — Hinata suspirou, de certo modo, aquilo faria com que ela se sentisse útil e preencheria sua mente com algo além dos seus problemas.
— Sério? — questionou esperançoso, Gaara não sabia o que estava acontecendo com ele, agindo por impulso e demonstrando, claramente, seus sentimentos. Mas por hora, só importava o que a mulher diria.
A Uchiha arqueou suas sobrancelhas bem desenhadas, sorriu irônica. O Sabaku a fez se lembrar de Sasuke, por acaso, ela havia se transformado em conselheira amorosa? Ainda precisava se decidir, se estava sendo divertido ou ultrajante.
— Foi para isso que você veio aqui, eu suponho — proferiu sarcástica.
— Me desculpe, eu não deveria incomodá-la com os meus problemas.
— Não peça desculpas, Ino também é problema meu — Hinata tinha plena consciência de que estava sendo negligente com as amigas, essa seria uma ótima oportunidade de dar atenção para elas.
Ela sacou o celular do bolso e discou o número, tudo feito sob as jades atentas:
— Sakura?! … Quando você terá tempo livre? Ótimo, então podemos nos encontrar…. Eu te explico depois. Até logo — encerrou a ligação — resolvido!
O ruivo a fitou sem entender onde queria chegar.
— Nós, eu e a Sakura, vamos fazer uma visitinha a Ino — explicou.
— E se ela não quiser atendê-las, como fez comigo? — perguntou receoso.
— Eu tenho meus meios — respondeu enigmática, piscando.
….
Ele já estava na segunda dose de whisky, fazia tempos que não bebia um de tanta qualidade, apreciava a sensação que o líquido âmbar causava em sua língua.
Degustar a bebida alcoólica, fora a melhor forma que encontrou, para não se irritar com a demora do outro e pela menção em pensamento, o moreno fitou o relógio em seu pulso. Ele estava atrasado há, pelo menos, meia hora do que fora combinado.
Sasuke se ajeitou no banco do bar e continuou experimentando seu whisky. Desde que soube pelo irmão, que Naruto seria sócio de sua família, o moreno não conteve sua inquietação e logo após ficar só, no quarto em que Hinata preparou para ele, fez uma ligação para o loiro. Sem se importar com o horário ou se o outro tinha algum compromisso, exigiu que o encontrasse no dia seguinte.
E, no exato momento, o esperava. O que poderia causar surpresa aos outros, era o fato de Sasuke e Naruto tem mantido contado ao longo dos anos, criando uma espécie de amizade. O Uchiha levou à sério a oferta do Uzumaki de conversarem, quando sentisse necessidade. Além do mais, depois do estado lastimável que o loiro se encontrava no dia do casamento de seu irmão e Hinata, Sasuke se sentiu preocupado, mesmo que nunca admitisse.
Desde então, sempre que podiam, os dois se comunicavam, claro, sem que ninguém sequer imaginasse.
Justamente, após terminar sua bebida, o loiro entrou no bar e se sentou ao seu lado:
— Eu não tive a intenção de demorar, mas surgiu um imprevisto — Naruto se desculpou, sem entrar em detalhes.
— Isso não importa, você já está aqui mesmo — retrucou com desgosto.
— Teme, eu pensei que você seria mais carinhoso comigo, pela necessidade e urgência que demonstrou ontem — o loiro zombou.
— Dobe, eu não estou aqui para piadinhas… — foi cortado.
— Eu sei, marcou esse encontro, porque não se aguentava mais de saudades — sorriu debochado.
Sasuke revirou os olhos e continuou com sua postura séria. Ele queria um esclarecimento. Num outro momento, o moreno teria devolvido as provocações.
— Eu quero saber que história é essa, de que você irá se tornar sócio da Uchiha? — foi direto ao assunto.
De repente, todo o ar descontraído se esvaiu e Naruto sentiu os músculos tensos. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde, Sasuke o confrontaria sobre isso, no entanto, não significava que seria uma tarefa fácil, precisava ser convincente, pois não queria que ninguém atrapalhasse seus planos. Ninguém iria fazê-lo mudar de ideia ou desistir, por mais que gostasse de Sasuke e o considerasse um verdadeiro amigo. Agora ele se encontrava na mesma situação de seu avô e o entendia, por sua decisão de ter escondido a verdade sobre seus pais. O Uzumaki não participou o Uchiha de nenhuma de suas descobertas, um dos motivos era preservar o amigo, por mais que ele não tivesse uma boa relação com Madara, o homem continuava sendo seu avô. O outro motivo, porém, era mais egoísta, não queria que Sasuke ou outra pessoa, soubesse o quanto ele se tornou calculista e vingativo. Se o Naruto de antes era muito sincero, o de hoje omitia muitos fatos e no final, estava sujo.
— É verdade e não tem nada demais, como você deve estar pensando. Eu só quero expandir meus negócios e qualquer pessoa inteligente, faria o mesmo no meu lugar — pronunciou com o máximo de neutralidade.
Sasuke o analisou, enquanto o Uzumaki pedia algo para beber. Sem dúvidas, Naruto não era mais o mesmo idiota que conhecera, a começar pelas roupas, agora usava terno e mesmo nas brincadeiras e momentos descontraídos, o loiro tinha uma postura mais madura e adulta, uma mudança perfeitamente aceitável, considerando os anos que se passaram. Entretanto, aquele otimismo e certa inocência, já não existiam mais e o moreno sabia bem o porquê.
— Ah, por favor! Você acha que eu sou idiota ao ponto de acreditar nisso? — sua pergunta fora, sem dúvidas, retórica — que você, coincidentemente, dentre tantas opções, escolheu a empresa, na qual o presidente, é marido da mulher que você ama?
— Eu já disse, minhas intenções são apenas profissionais — apertou o copo com a mão — e você errou o tempo do verbo, não a amo. Eu amei. E agora eu é que pergunto: você acredita que eu continuaria amando a mulher que me espezinhou, esmagou meus sentimentos e jogou tudo que nós construímos no lixo, para se tornar esposa de um herdeiro com sobrenome poderoso? — cuspiu com desprezo, detestava tocar naquele assunto.
— Ela pode ter fodido com você, mas apesar de toda essa sua pose, eu sei que por dentro, ainda existe aquele idiota que eu conheci. E ele a amava, quando ele falava dela, seus olhos mudavam e tenho certeza que aquele cara continuaria amando, independente de qualquer coisa. E os seus olhos continuam mudando, quando fala dela — o Uchiha concluiu, enquanto se lembrava do que relatou e como aquilo causou inveja e admiração nele.
— E o que você sabe sobre amor? Você tem noção do quão ridículo esse discurso é, vindo de você, logo de você? — o loiro acusou, era só o que lhe faltava, ter que discutir sobre o assunto com o Uchiha.
— Você tem razão — sorriu em escárnio. Nunca fora nenhum conselheiro, apenas tentava mostrar a situação de um ângulo diferente, para quem sabe assim, pudesse ajudar Naruto a enxergar as coisas de uma forma melhor. Mas já que o filho da puta não queria, não seria ele a insistir — Quer saber? Foda-se! O problema é todo seu. A única coisa que eu exijo, é que mantenha meu irmão fora dessa merda, eu posso não gostar de tomar partido e me meter na vida dos outros, mas não quero que Itachi seja prejudicado ou afetado pelas suas ações ou o que você tem em mente — as onix fitavam as safiras, demonstrando toda veracidade do seu discurso.
Sasuke se levantou e deixou algumas notas no balcão. Caminhou até a saída, sem dizer mais nada, pois tudo que era necessário já tinha sido dito, apenas acenou com a cabeça.
Deixando para trás, um Uzumaki silencioso e inexpressivo. Ele se deu conta de que não deveria ter agido daquela forma, no entanto, sempre que tratava dela, perdia o controle de tudo e a razão, era a última coisa que dava ouvidos.
Pediu mais uma bebida, naquela ocasião, seria sua melhor companhia.
….
As duas mulheres estavam lado a lado, em frente a porta do apartamento. A Haruno segurava uma sacola cheia de guloseimas, enquanto a azulada sacava a chave para por na fechadura.
Ao entrarem numa espécie de hall, observaram que o local parecia perfeitamente normal. A decoração, apesar de chamativa, era de muito bom gosto e denunciava um pouco sobre a personalidade da dona.
Elas se dirigiram à esquerda, onde daria para sala de estar. E a busca pela amiga, que mal havia se iniciado, já chegara ao fim, pois encontraram a loira esparramada no sofá, a TV estava ligada em algum filme ou série que Hinata não soube identificar.
Sakura se adiantou e correu até a amiga, sua vocação para medicina como sempre falava alto e levou as mãos para testa da outra, numa clara tentativa de sentir a temperatura.
— Você está se sentindo bem? — a rosada questionou.
Ino retirou a mão da Haruno de sua testa.
— O que vocês estão fazendo aqui, aliás como conseguiram entrar? — loira perguntou surpreendida.
— Se esqueceu que você me deu uma chave reserva, para algum imprevisto? — a azulada balançou o objeto, analisando o estado da amiga, que tinha o nariz avermelhado e cabelo despenteado — você está péssima.
— Saiam daqui — cobriu o rosto, como uma criança birrenta. Apesar do descuido consigo mesma, ainda era uma pessoa muito vaidosa e odiava que vissem daquela forma.
— Você não está em posição de exigir nada, Ino — Sakura reclamou — está de férias e não nos contou, pior, obviamente não está bem e nem procurou suas amigas. Se não fosse o tal Gaara, é bem possível que nós duas ficássemos no escuro. Acima de tudo, nós somos suas amigas.
— O quê? Gaara?! — a Yamanaka se espantou.
— Sim, ele mesmo. Me procurou para pedir ajuda e estava bastante preocupado — informou, Hinata.
— E quem aquele Cabeça de Fósforo pensa que é, para se intrometer na minha vida dessa forma? — bufou contrariada.
— Alguém que se importa com você — a Haruno respondeu.
Antes que Ino pudesse dizer algo, Hinata a empurrou sem delicadeza e se sentou ao seu lado.
— Aí — exclamou — aquele idiota é o culpado de tudo, por isso está preocupado — sua fala fora dramática.
— E o que o que ele fez, para que seja culpado? — inquiriu Sakura, tentando achar a raíz do problema, se juntando às outras duas no sofá.
A Yamanaka abriu a boca, mas não disse nada, pareceu refletir. Ela sabia, que de certo modo, estava sendo injusta ao culpar o Sabaku, sem nem ao menos tentar demonstrar como se sentia, todavia, era complicado se explicar, sem que nem mesmo ela de entendia. Esse fora o motivo de pedir férias a Temari — a tirana, mesmo contrariada, teve que aceitar, pois a Yamanaka tinha férias acumuladas — de qualquer forma, ela acabou se afogando num mar de autopiedade e se esqueceu do foco principal: tentar consertar as coisas, no entanto, fugir parecia muito mais tentador.
— Toma, com um doce fica muito mais fácil — a rosada ofereceu, a barra de chocolate favorita da loira.
— Obrigada — sorriu um pouco triste — na verdade, eu sou o problema — começou, sendo prontamente, ouvida — Sabe, eu protagonizei uma cena patética, imaginei um monte de coisas, só porque vi o Gaara ajudando uma estagiária — suspirou frustrada — e depois que eu me dei conta disso, fiquei com muita raiva de mim e dele também, é claro. Decidi me afastar e pensar sobre tudo que aconteceu.
Hinata que até o momento se mantinha calada, finalmente proferiu:
— “Pensar sobre o que aconteceu” — repetiu — é sério? Você e eu sabemos muito bem o que está acontecendo — fitou a loira, sugestivamente — a Ino que eu conheço é destemida, decidida e não uma covarde, que tenta se esconder. Tenha uma conversa sincera com o Gaara, tenho certeza que ele se sente da mesma forma que você. Eu sei que é difícil demais expor o que nós sentimos, que é difícil deixar nossa vulnerabilidade à mostra, mas é melhor tentar, do que depois se remoer e pensar que vida você poderia ter tido.
Tanto Sakura quanto Ino, se sentiram tocadas.
— Obrigada — a Yamanaka disse a primeira coisa que veio à sua mente. As palavras da amiga fizeram muito sentido para ela.
— Uau! Hina, de nós três, eu nunca imaginei que você faria um discurso como esse — a Haruno comentou orgulhosa.
— Bem, talvez ser tão requisitada por esses caras, me fez ficar inspirada. O Sasuke mesmo, demonstrou estar super interessado na sua vida, principalmente, sobre seu estado civíl — não perdeu a oportunidade de provocar a médica.
— Sério? — a rosada ficou corada. Ela não deveria se sentir assim, não era nada demais.
— Sim. Me parece que ele, finalmente, sabe o que quer. Eu não sei o que você fez, mas continue assim, porque está dando certo — Hinata queria que suas amigas pudessem ter aquele tipo de felicidade, que foi privado dela.
— Ah, eu não fiz nada. O tratei normalmente, ele aparenta estar diferente, mas não quero criar qualquer tipo de ilusão com isso — respondeu.
— Espera aí, o que foi que eu perdi? — Ino gritou animada, nem parecia a mesma de minutos atrás — como assim, Sasuke voltou? Quero saber desse babado completo.
E assim se passou o dia, as três parecia adolescentes colocando todas as novidades em dia e comendo uma grande quantidade de besteiras, em meio aos risos e gargalhadas. Estavam deitadas no carpete macio, Hinata fitava o teto, feliz como há muito tempo não se sentia. Ela sentiu seu celular vibrar, nesse tempo, a loira e a rosada engataram uma conversa animada, a Uchiha se afastou para atender por alguns minutos.
Quando ela voltou, sua felicidade momentânea, já tinha se diluído, a cabeça começava a latejar e a leveza que sentia se evaporou. Ela, claro, já acostumada a esconder, não demonstrou nada.
— Algo importante? — Ino perguntou.
Dessa forma, a perolada ganhou atenção dos olhos azuis e verdes e retrucou como se não fosse nada.
— Era o Itachi, ele me ligou para avisar que daqui a poucos dias, irá oficializar uma sociedade com Uzumaki Naruto.
— Gente, como assim? Naruto, o seu ex? Não é possível, eu só fiquei alguns dias em off e tantas coisas aconteceram — a jornalista tagarelou.
Sakura, instantaneamente, se lembrou da última vez em que viu Naruto. Em silêncio, tentava decidir se manteria dessa forma ou contaria a Hinata o que, de fato, aconteceu. Por fim, optou dizer a verdade a amiga.
— Sabe, no dia do seu casamento com Itachi — a rosada cortou o monólogo de Ino — o Naruto apareceu lá, por coincidência, Sasuke e eu o encontramos. Ele queria falar com você e bem, nós acabamos o ajudando. Se eu me lembro bem, Sasuke o levou até o segundo andar, onde você estava, mas eu não sei o que aconteceu, pois ele voltou pouco tempo depois e foi embora.
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