Hinata
21 Especial: O Bastardo & O Órfão
Notas iniciais
Ele era superior, foi educado para tal. Talvez por isso, sentia tamanha raiva por se deitar com aquela prostituta barata. O moreno tinha um futuro brilhante e promissor pela frente, seu pai estava prestes a morrer, e sendo assim, ele ocuparia o cargo que foi ensinado a tanto almejar: presidente das Industrias Uchiha. Poderia parecer uma crueldade sem tamanho, pois que tipo de filho se importava mais com um cargo do que com o próprio pai? Uchiha Madara, essa era a resposta.
No entanto, era do conhecimento de toda a família, que o próprio senhor Tajima, havia instigado o filho a pensar dessa forma e estava orgulhoso, ao seu modo, é claro. Eles eram como leões: o macho alfa reinava soberano, até que seu filhote já crescido, lhe enfrentava para tomar seu posto. Essa era a natureza, afinal.
O primogênito dos Uchihas, nasceu para ocupar seu lugar de direito; sempre muito disciplinado e inteligente, conhecia aquela empresa como a mão de sua mão e sabia que não havia ninguém melhor do que ele, mais preparado para assumir o posto e disposto a tudo para permanecer no topo.
Até mesmo chegou a se casar, para mostrar que era o líder perfeito, como mandara o figurino. Seu matrimônio, claro, com uma Uchiha, prima de segundo grau. Sua relação longe de ser romântica, na verdade, muito fria de ambas as partes, eles apenas faziam o que tinha de ser feito. Sua jovem esposa, acabou morrendo poucos meses após dar a luz ao seu filho. Seu pequeno Fugaku, o menino tinha apenas dez anos, mas já demonstrava toda a força dos Uchihas, se sentia orgulhoso dele, definitivamente, era a única pessoa que ele se permitia amar.
Mas aquele não era o momento de divagações, portanto se concentrou na sensação de ter seu membro abocanhado. Segura os cabelos da mulher, ditando os movimentos, ela sabia exatamente o que fazer, para lhe dar prazer. Rosnou e serrou os olhos, ao terminar o ato.
Naomi tinha traços tipicamente nipônicos: a pele branca e os cabelos tão negros quanto a noite. Conheceu a mulher, que agora se deitava ao seu lado e acariciava seu peito, há dois anos atrás, numa festa da alta sociedade, onde a mesma era “acompanhante” de um empresário qualquer.
Desde então, contratou os serviços da mulher, ela era diferente da maioria, não falava demais, não usava perfumes enjoativos, não era vulgar e, principalmente, não lhe irritava. Não a amava, longe disso, porém a procurava quando precisava relaxar, no entanto, não gostava da certa relação de “dependência” que criou.
Acabou dormindo sem perceber, enquanto recebia carícias na farta cabeleira negra. Quando acordou, se deu conta de ser manhã, pela luz que iluminava o quarto de hotel. Estranhou o fato de Naomi não estar deitada ao seu lado, de qualquer forma, foi ao banheiro e, definitivamente, se surpreendeu ao ver a mulher ajoelhada em frente ao vazo sanitário, provavelmente despejando todo o jantar da noite passada.
Ela não demorou muito para se recompor, lavando o rosto e a boca.
O Uchiha acompanhou todos os gestos da morena e por fim, a fitou, num misto de curiosidade e conclusão.
— Eu estou grávida — Naomi, calmamente, informou.
De fato, Madara era um homem elegante, másculo e misterioso, além da beleza aristocrática, um conjunto que faria qualquer mulher se apaixonar, e ela não era exceção. A diferença se dava por não ser uma tola que suspirava pelos cantos, a vida que teve, não lhe permitiria ser assim, além do mais, sabia que o homem jamais retribuiria seus sentimentos.
Então foi uma surpresa muito grande descobrir que teria uma criança, primeiro ficou com raiva de si mesma, pela estupidez; depois um pouco preocupada de como a criaria, porém sempre deu um jeito em tudo mesmo. Portanto, teria seu bebê.
Ofegou pelo susto que tomou, ao sentir as mãos masculinas apertarem seus braços e empurá-la até a parede fria do local, a mantendo imobilizada.
Ele estava com muita raiva, raiva de si mesmo pelo descuido, frustrado por perder o controle das coisas, dessa forma. O Uchiha não tinha dúvidas de que a criança, que a mulher esperava, era sua. Pois sabia que nos último dois anos, Naomi só se relacionava com ele, uma exigência do mesmo, já que estava se prestando ao papel de se deitar com uma prostituta, pelo menos só seria tocada por ele. O moreno também tinha consciência de que a mulher não engravidou de propósito e nem era do seu feitio, tentar se aproveitar da situação e usar uma criança como investimento.
Sendo assim, após refletir por breves segundos, a soltou. Fazendo a mulher respirar aliviada.
Como Naomi já esperava, nunca mais viu Madara, desde aquele dia. O homem nem mesmo chegou a conhecer o filho, apesar de mensalmente uma quantia considerável ser depositada em sua conta, para que pudesse ter uma vida confortável com o menino.
Ela não voltou a antiga profissão, contudo, todo dinheiro que o Uchiha mandara era destinada ao seu pequeno, a mulher acabou por trabalhar em um pequeno armazém perto de casa, ela continuava morando num cortiço em mau estado, numa área carente da cidade.
Obito tinha sete anos, amava o menino mais que tudo, como qualquer mãe amaria. Mas havia algo que lhe trazia insegurança e medo, ele não era uma criança como as outras, não chorava, não brincava com outras crianças, muitas vezes fitava o nada por um longo tempo. No entanto, às vezes lhe pegava de surpresa, as atitudes carinhosa que o moreninho tinha consigo, trazendo tranquilidade à mulher.
Numa noite, como qualquer outra, depois de fitar Obito dormir e comparar as semelhanças entre seu filho e o pai, mal sabia Naomi que seria a última vez que iria velar o sono do menino. A mulher desabou na cama, cansada por mais um dia atarefado e cansativo, acabou pegando no sono rapidamente e com um sorriso adornando seus lábios, pois apesar de tudo, gostava da sua vida.
A mulher acabou acordando pelo calor intenso, gritos pelo lado de fora, sua garganta estava tão seca e era difícil respirar, foram precisos alguns segundos e o cheiro forte de fumaça, para que ela pudesse assimilar o que se passava.
Era um incêndio, na certa, provocado pelas ligações clandestinas de eletricidade, ou por algum escapamento, na verdade, tudo era muito precário no local. Porém, nada daquilo era importante no momento, tudo que pensou foi em Obito, precisava salvar seu filho.
Quando abriu a porta do pequeno quarto, o calor das chamas tocaram seu rosto, fitou a porta do quarto do menino, ela precisava ir até lá. Todavia, antes de chegar a metade do percusso, uma das madeiras ruídas que sustentavam o telhado muito antigo caiu sobre o corpo de Naomi.
A dor foi muito forte e antes da inconsciência lhe abraçar, ela viu um mar de chamas e só poderia desejar que o filho ficasse bem.
Ele apagava e acendia o isqueiro, tinha verdadeiro fascínio pelo fogo, desde que se entendia por gente. Abriu um sorriso macabro, enquanto coçava o lado esquerdo do rosto, onde era descoberto pela máscara que cobria o lado deformado da face, que adquiriu pelo incêndio no cortiço fétido e miserável, onde viveu uma boa parte da infância. Sua mãe não havia sobrevivido, o moreno não se lembrava muito dela, apenas de uma voz doce e suave e mãos delicadas acariciando seu cabelo.
— S-senhor Tobi? — chamou a secretária, a jovem exalava medo, ele gostava de causar isso nas outras pessoas — Madara-sama o guarda — a mulher fugiu o mais rápido possível dali, o sorriso daquele homem lhe causava calafrios.
Ele se desencostou da parede, na qual estava apoiado e caminhou até a sala do velho. Pelo tempo que esperou, o mais velho deveria estar em reunião, e claro, apenas depois que todos tivessem saído, o mais novo poderia entrar. Ninguém poderia vê-lo, portanto, geralmente, se encontravam em algum lugar longe dos olhos dos outros. Contudo, se o velho havia marcado um encontro na empresa, poderia concluir que era urgente. Para essas ocasiões, ele vinha por uma entrada particular, que apenas Madara tinha acesso, sendo assim, só pessoas de inteira confiança do presidente das Industrias Uchiha, tinham conhecimento dele.
Claro, já estava acostumado, era a vergonha da família Uchiha, logo, toda e qualquer mancha deveria ser removida sem causar danos, riu por isso. Em pensar, que quando era criança, ainda sonhara em conhecer o pai e depois que o conheceu, queria deixá-lo orgulhoso e ganhar seu afeto. Riu mais uma vez. Patético.
Felizmente, o mascarado sempre se sentiu diferente das outras pessoas, havia um lado, que por outras pessoas poderiam achar doentio e sádico, ele por sua vez, achava muito divertido. Era tão prazeroso causar dor e destruição, amava o medo e gritos de desespero. Por fim, deixou seus devaneios de lado, ao alcançar a bela porta.
Madara retirou os óculos que estava usando para ler um relatório qualquer e acompanhou os passos de Obito, que entrou e se sentou despojadamente à sua frente.
O mais velho se lembrou do dia, para ser mais exato, na madrugada há muitos anos atrás, em que uma vizinha de Naomi, lhe informou o ocorrido. Na verdade, ele já pagava a mulher, para que lhe mantivesse informado sobre todos os passos da ex-prostituta. Foi fácil convencer a senhora pra prestar o serviço, aparentemente, algumas notas são bastante persuasivas com todas as pessoas, ou quase todas elas. Naomi, por exemplo, fazia parte da exceção, mesmo ele enviando uma bela quantia todos os meses, ela gastava apenas com o filho, até mesmo arranjou um trabalho medíocre para abandonar o anterior. Enfim, a senhora fazia um bom trabalho, sendo assim, não perdeu tempo em lhe contar sobre o incêndio e que Naomi não havia sobrevivido e no fundo, Madara se penalizou por isso;esse era o máximo que ele se permitiria demonstrar preocupação com outra pessoa que não fosse seu filho, ah! Fugaku….
A senhora também lhe falou sobre o garoto, que estava internado, sem ter mais ninguém no mundo, Madara foi obrigado a agir, sendo assim, a primeira vez que viu Obito. Um menino franzino, que possuía inegavelmente, algumas características da família Uchiha, apesar de ter um lado do rosto coberto por curativos. Madara sentiu tanta raiva, era repugnante, aquele garoto era tudo que odiava, aquele sangue sujo que manchava seu sangue puro. Porém, ainda assim, tinha certa obrigação por ele, afinal, mesmo que não lhe agradasse, havia uma parte do sangue Uchiha correndo naquelas veias. Por isso, dobrou a quantia que pagava a mulher idosa, para que agora cuidasse daquele ser. Bastardo.
— Mal educado — o Uchiha resmungou com a mesma expressão de desgosto que fazia, ao ter que lidar com Obito.
— Ah, me perdoe, papai — o outro se desculpou sarcasticamente, sabia que Madara detestava ser chamado de pai, por ele. Então, adorava provocá-lo e teve que se controlar para não rir da cara do velho — bem, mas qual foi o motivo desse encontro, ainda mais aqui? Tenho certeza que não foi por saudades — fingiu divagar — ou será que foi pela morte recente do seu precioso filho? Sabe, eu imagino o quanto deve ter sido dolorosos para um pai, perder seu filho de maneira tão repentina, ainda mais numa idade já avança — foi, totalmente, venenoso — ele tinha filhos, não?! Pobres crianças…
— Já chega! — o mais velho espalmou as mãos na mesa, estava farto das gracinhas do mais jovem e de forma alguma, permitiria que ele tripudiasse sobre a morte de seu amado filho, ou se quer se prenunciasse a repeito dos netos. Sabia muito bem que Obito queria irritá-lo e ele sempre conseguia,um dos motivos para que os encontros fossem de rápida duração. Respirou mantendo a calma, não se deixaria ser manipulado e agir conforme o bastardo queria.
— E então? Obito questionou desinteressado, como se nada tivesse acontecido.
— Eu quero que você comece um novo “projeto” — o presidente das Industrias Uchiha, respondeu calmamente — preciso de alguns indivíduos para “persuadirem” algumas pessoas, quando a diplomacia não for o suficiente. Sendo assim, os negócios só irão prosperar.
— Simples — falou como fosse muito fácil e realmente era, para ele.
— Escuta bem, Obito… — o mais velho tentou retomara a fala.
— Tobi. É Tobi — rosnou.
— Tanto faz — perdeu a paciência — eu te dei uma tarefa que é de extrema importância, então ao menos uma vez, seja competente faça algo útil nessa vidinha medíocre.
— Tudo bem, papai — controlou a raiva — não se preocupe, eu já tenho tudo sobre controle — como odiava aquele maldito velho, ainda acabaria com ele com suas próprias mãos, entretanto, ainda não era o momento.
— Assim espero — Madara retrucou áspero. Já teve uma dose muito grande de Obito por apenas um dia, não queria ficar em sua presença por mais tempo, portanto, apontou, com um aceno de cabeça, a saída.
Entendendo o recado, o mais jovem tratou de sair, porque também não fazia a mínima questão de ficar ali. Se acreditasse em Deus, em sua opinião, bobagens; agradeceria aos Céus por ter sido dispensado.
E ela sabia exatamente onde ir e quem procurar, para efetuar os planos do Uchiha.
….
O menino franzino e ruivos de madeixas escorridas, deixou a pequena dispensa, que agora lhe servia como quarto. Andou pelos corredores quase escuros, que se iluminavam com os raios cortando os céus pela madrugada chuvosa. Ele caminhou sorrateiramente, para que ninguém conseguisse pegá-lo, senão receberia um belo castigo no outro dia. Por sorte, chegou no destino desejado, tocou na maçaneta e abriu a porta com o máximo de cuidado.
Após entrar no quarto, fez o mínimo de silêncio para não acordar todas as meninas no quarto e apertou seu ursinho surrado contra o peito magro. Existiam várias camas ocupadas ali, porém ele sabia em qual ir, a terceira do lado esquerdo. Se aproximou do leito, ali havia uma menina igualmente ruiva ressonando baixinho, aparentava ser uns três ou quatro anos mais velha que ele.
— Kushina — a voz infantil, sussurrou perto do ouvido dela, enquanto balançou um dos braços na menina.
Ela acordou rápido, como ele esperava, pois sempre teve o sono leve. A ruiva abriu os olhos e demorou alguns segundos para poder enxergar bem.
— Vem, Nagato — deu espaço para que o menino se deitasse ao lado dela, o pequeno não precisava dizer nada, pois tinha medo de trovões e durante todas as noites de chuva, sempre ia dormir com ela — você só precisa acordar mais cedo, para que ninguém te pegue.
Ele aceno enfaticamente, não queria ficar de castigo de jeito nenhum. Acabou deitando a cabeça no travesseiro e abraçou seu ursinho.
Kushina não dormiu novamente, o abraçou protetoramente, enquanto acariciava os fios ruivos dele, com a outra mão. Amava tanto seu irmãozinho mais novo, sempre o protegeu, até mesmo dos pais, desde muito cedo. A família Uzumaki tinha um histórico de problemas: um pai alcoólatra, o qual os tratava rudemente e uma mãe depressiva e negligente com os filhos. Sendo assim, a menina praticamente criou e deu todo amor ao irmão. Ainda se lembrava das vezes que o pai agredia a mãe e ela se escondia com o irmão, tentando não ouvir os gritos e nem a violência e ainda tentando acalmar o menino que todas as vezes chorava copiosamente por isso. Kushina poderia até não chorar como o irmão, no entanto, doía da mesma forma, talvez mais, pelo fato de não ter quem lhe dissesse que tudo ficaria bem e transmitisse segurança, como ela fazia com Nagato.
Até que um dia, seu pai foi para um bar como sempre, porém sua mãe decidiu ir junto. Por moravam afastados do centro da cidade, o homem tinha um carro bem velho para ir ao trabalho e também servia para frequentar os bares sujos e manter seu vício, todavia conseguia executar seu serviço. Eles deixaram os dois irmãos sozinhos e sumiram por três dias, seu pai, por mais que saísse, voltava todas as vezes tarde da noite. Por isso a ruiva estava preocupada, chegou a pensar que eles tinha os abandonado, entretanto, após esse tempo, uma mulher carinhosa junto de mais dois homens, bateu a porta de sua casa. A menina desesperada imaginando ser os pais, atendeu rapidamente. A mulher lhe disse que era assistente social e seu trabalho era cuidar do vem estar de crianças, quando os pais não poderiam oferecer isso. Ela também informou que seus pais sofreram um acidente de carro e não sobreviveram. Portanto, ela e o irmão, como menores e sem qualquer parente, deveriam ir para um lar adotivo.
Apesar de seus pais estarem longe de serem exemplos de bons pais, ainda assim, eram seu pai e sua mãe. Doeu saber das mortes e que daquele momento em diante, ela e Nagato estavam sós, de fato. Era assustador e ela tinha certeza do que poderia acontecer. Por isso, seu instinto protetor pelo irmão apenas aumentou.
O orfanato em que estavam era só para meninas, contudo por sorte, pela falta de vagas em outras instituições e por Nagato ser pequeno e bem comportado para um menino de sua idade, características que foram determinantes para diretora do orfanato os aceitar. Sim, pois Kushina jamais permitiria se separar do irmão.
A diretora do orfanato era bastante rigorosa, todos deveriam seguir as regras, concluir suas tarefas e manterem uma conduta disciplinada. Caso contrário, seriam punidos. No entanto, em noites chuvosas como aquela, Nagato saía do seu quarto improvisado para dormir junto da irmã, a menina não poderia negar, gostava de poder fazer como nos velhos tempos. As outras meninas com quem dividia o quarto, guardavam o segredo, pois gostavam do menininho, além do mais, existia uma cumplicidade entre todas ela, nunca iriam dedurar as outras. Dessa forma, sempre davam um jeito de não serem descobertos.
E dessa forma, eles viveram por dois anos naquele local. Kushina acabou pegando no sono mais tarde do que queria, felizmente, o dia era um sábado e não precisava acordar tão cedo, mas mesmo assim, não gostou de levantar mais tarde do que estava acostumada. Por esse motivo, obviamente, quando despertou, Nagato já havia saído do quarto. Após fazer sua higiene matinal, foi para o refeitório e assim seguiu fazendo suas tarefas, até sentir falta do irmão, ele sempre vinha ao seu encontro, mas não teve sinal do menino depois que acordou. Então decidiu procurá-lo e antes que pudesse pensar em que lugar ir, um falatório e movimentação chamaram sua atenção e acabou o seguindo.
— Você precisa ir, Nagato — dizia a diretora da instituição de forma bastante persuasiva, ainda mais para um menino tão jovem — se ficar aqui, pode prejudicar não só a sua irmã, mas também todas as outras meninas. Você quer isso?
— Não — ele respondeu e também negou com um aceno de cabeça.
— Que bom, eu sempre soube que você é um bom menino e sabe o certo a se fazer — ela aproveitou que Kushina estava dormindo, pois sabia que seria fácil assim, Nagato não se oporia, fez tudo para não causa estresse desnecessário.
— Ir aonde? Fazer o que? — Kushina apareceu no local onde se desenrolava a cena: a diretora, seu irmão e mais algumas meninas curiosas em frente a porta de entrada da instituição.
— O Nagato ficou aqui durante dois, por falta de vagas em outros abrigos, eu permiti que ele ficasse, porém agora surgiu uma vaga para um internato de meninos e…
E como se a situação fosse uma peça de teatro, em que as os acontecimentos eram cronometrados, foram ouvidas batidas no portão de entrada, a mais velha se adiantou e atendeu o mesmo.
— Ah, sim. Entre, chegou no momento certo — acenou para que o homem pegasse o menino.
— Espere! Como assim? Você iria tirar meu irmã daqui, sem que nem pudesse se despedir de mim — a ruiva disse indignada.
— Entenda, ele não pode ficar aqui — a mulher olhou para o homem responsável de levar o menino.
— Você que tem que entender, ele é meu irmão, não podem nos separar — a garota suplicou.
— É por isso que eu não queria que você estivesse aqui, tudo está sendo pior — a diretora mirou a ruiva e depois olho para o homem impaciente — pode levá-lo.
Tudo aconteceu muito rápido.
O homem pegou com força no pulso de Nagato, que estava quieto e sem saber o que fazer, agarrando a mochila em seu ombro magro.
— Não toca no meu irmão — se o homem já estava tratando o menino daquela forma, não queria nem imaginar se ele fosse para o novo abrigo. Não poderia deixar o ruivinho ir, apesar de seu lado racional lhe alertar que não conseguiria fazer nada, seus sentimentos falavam mais alto. O que seria do seu irmão, um menino tão frágil e sensível?
A menina correu e tentou segurar o irmão, todavia, antes que conseguisse, o homem acabou lhe empurrando. Por não esperar o ato e por ser muito mais fraca que ele, acabou caindo e batendo a cabeça no chão.
Aquela foi a última vez que Kushina veria seu amado Nagato. Ela só iria acordar três dias depois e sem nenhum fio de memória. Seu inconsciente, de alguma forma, estava tentando protegê-la das lembranças dolorosas. A diretora do orfanato achou melhor, que tudo terminasse assim. E fez com que todas as meninas mantivessem as bocas fechadas, com a pena de castigo até o último dia que vivessem ali.
O ruivinho estava tão assustado, com toda a confusão que se desenvolvia ali, o homem que lhe prendia, acabou o soltando. E dessa forma, o menino correu para fora do lugar, com todas as forças que tinha. Não conseguiu raciocinar no momento, mas agora se sentia extremamente culpado por ter deixado a irmã, se fechasse os olhos, conseguiria perfeitamente enxergar a imagem de Kushina desmaiada no chão.
Ele não sabia onde estava, já era noite, tinha fome e muito cansaço, por sorte, até aquele instante, ninguém o encontrou. O menino caminhava entre as pessoas, tentando não chamar atenção, entrou em um beco e seus joelhos cederam, encostou as costas na parede e por lá ficou. Nem tinha se dado contar de ter dormido, quando acordou, já era noite e os clarões no céu anunciavam mais uma tempestade.
Estava com tanto medo, os primeiros pingos de chuva caíram, o molhando rapidamente, tentou levantar, mas escorregou e bateu o ombro na caçamba de lixo ao lado, produzindo um estrondo. Suas lágrimas se misturavam com a água da chuva, daria tudo para estar junto de Kushina, num lugar quente, seco e recebendo carinho.
— Quem está aí? — perguntou uma voz masculina.
Nagato se encolheu mais ainda, estava mais assustado do que nunca, decidiu ficar quieto e torceu para quem quer que fosse, ir embora.
— Está vendo?! Não tem ninguém aqui, estou me molhando à toa — a mesma voz disse rabugento.
— Mas é claro que tem — agora podia identificar uma voz feminina — eu vou provar — concluiu teimosa.
— Ei, espere! Pode ser perigoso — gritou.
O ruivo ouviu os passos se aproximando, seria possível ver o suor escorrendo da sua testa, se não fossem os pingos de chuva.
— Eu sabia — surgiu uma menina em sua frente, parecia ter sua idade ou um pouco mais. Ela se agachou ao seu lado e o fitou com aqueles olhos castanhos — eu me chamo Konan e você?
— Nagato — respondeu num fiapo de voz.
— Garota, porque você sempre corre assim? — o outro menino apareceu a sua frente, ele também era ruivo, mas dele tom não era avermelhado como o seu, era um alaranjado.
— Viu, eu não disse que tinha alguma coisa aqui?! — disse vitoriosa, enquanto olhava o para o garoto atrás dela — Nagato, esse aqui é o Yahiko, ele é um pouco chato, mas no fundo, até que é legal.
O menino fitou o outro, ele parecia ser mais velho do que Kushina.
— Tudo bem, você ganhou — falou mau humorado — agora, vamos.
— E deixá-lo aqui? — Yahiko acenou positivamente — Não, ele vai com a gente e já está decidido — Konan pegou uma das mãos de Nagato. Yahiko só poderia pensar que seria mais uma boca para sustentar. Revirou os olhos e acabou aceitando como sempre.
Se passaram muitos anos desde aquele dia e os três criaram um laço forte e resistente. Konan sempre doce e ao mesmo tempo mandona, já havia se transformado numa bela jovem e tingiu os cabelos de azul. Yahiko continuava rabugento e aparentemente frio, porém era muito leal e se importava com o bem estar dos outros dois.
Nagato não era mais o menininho medroso e tímido, tinha se transformado num jovem eloquente, inteligente, com grandes ideias e principalmente, tinha o dom de convencer as pessoas. Resolveu procurar saber sobre a irmã e descobriu que a mesma já tinha se formado e morava com o namorado, também descobriu que a mesma havia perdido a memória, achou melhor assim, pois os mundos dos dois já não eram mais os mesmo, ela estava feliz e bem e isso era o suficiente.
Uma das grandes ideias de Nagato, era abrir um espaço para os meninos e meninas da região, Konan e Yahiko lhe apoiaram como sempre e assim, a Akatsuki nasceu. Ela funcionava nos galpões abandonados que eles tinham domínio. Ali, quem decidia ingressar, aprendia a se defender, tinha teto e comida, o principal era ser fiel e proteger a família.
Porém como nem tudo era perfeito, Hanzõ, o dono daquela parte da cidade, como o mesmo se intitulava, não estava nada feliz com a situação, aquela brincadeirinha estava atrapalhando seus negócios, então o homem propôs um “acordo”, queria conversar com o líder da organização, no caso Nagato. No entanto, Yahiko preferiu ir ele mesmo. E o mais velho conseguia ser mais persistente do que Konan, a garota não queria que ele fosse de jeito nenhum, poderia ser uma emboscada. Entretanto, Yahiko não deu ouvidos.
Ele foi morto por Hanzõ e aquele fato mudou tudo em relação à Nagato. Ele se sentiu tão culpado, foi sua culpa a morte do amigo, foi ele quem convenceu Yahiko de sua ideologia. Era tanta dor que sentia. Dor. Dor. Esse era o único caminho, um ciclo sem fim de dor. E assim, ele matou Hanzõ, a sangue frio e sem remorso.
Uzumaki Nagato não existia mais, existia apenas Pain. A Akatsuki prosperou e tinha Konan ao seu lado, a única pessoa em quem confiava, é claro.
Era incrível como os dias se transformavam em meses e anos rapidamente. E quando se menos espera, as surpresas batem à sua porta, literalmente.
— Pain, tem um homem querendo falar com você — era a voz de Konan, ela ainda o chamava de Nagato, porém no “horário de trabalho”, se mantinha “profissional” — e não me olhe com essa cara, eu não faço a mínima ideia de como ele descobriu onde fica a nossa sede.
— O mande entrar — disse simplesmente.
A mulher abriu a porta novamente e de lá surgiu um homem mascarado, que nunca havia visto na vida sendo segurado por dois dos membros da Akatsuki.
— Ei, calminha, garotos — o moreno debochou, quando os outros lhe soltaram e saíram, com apenas um aceno do líder.
— Olá, eu me chamo Tobi — fez uma reverência exagerada — tenho uma proposta irrecusável, a fazer, Pain.
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