Hinata
23 Acerto De Contas
Notas iniciais
“Como?” era tudo que, no momento, vinha à sua mente. “Como?”, a simples pergunta ecoava em sua cabeça. Tentava, infantilmente, se apegar a chance de ser apenas uma ilusão ou mais um de seus sonhos. Porém, ainda sentia o calor dos lábios dele pressionados nas costas de sua mão.
Estava tão absorta em seus pensamentos, que mal se deu conta de que já estava sentada à mesa, ao lado do marido; à frente dele, o causador do seu mal estar e por último; à sua frente, uma mulher loira. Se forçasse a memória, a mulher havia se apresentado como Shion, assistente de Uzumaki Naruto.
Tentou se acalmar para não demonstrar nada anormal, pois muitas coisas estavam em jogo… Ela deveria descobrir o máximo de informações possíveis, quem sabe assim, as peças se encaixavam e fizessem mais sentido.
Focou no que era dito:
— Devo admitir que fiquei impressionado com a sua ascensão meteórica — Itachi afirmou.
— Tenho certeza que sim, acredito que vasculhar minha vida, deve ter servido para alguma coisa — sorriu malicioso, enquanto o moreno levantou levemente uma de suas sobrancelhas e retribuiu o sorriso, sem demonstrar abalo — Mas se eu estivesse na sua posição, faria o mesmo — disse com falsa simpatia.
— Gostei da sua perspicácia, Naruto — o Uchiha rebateu bem humorado.
Não que o moreno quisesse se gabar, todavia, era exatamente assim que ele queria que acontecesse: que o Uzumaki soubesse. Enquanto os sócios minoritários queriam investigar o loiro de forma óbvia, Itachi queria testar Naruto de outras formas. Então aproveitou a forma amadora e tola — quase revirou os olhos — dos sócios; para testá-lo, tentar medir a inteligência e qual era o modus operandi do outro. Descobrir a forma como ele agiria sabendo que estava sendo investigado, se ele deixaria ocorrer naturalmente ou tentaria atrapalhar. A conclusão que o Uchiha chegou, foi de que o mais jovem era seguro, esperto e tinha uma excelente equipe.
— Não foi fácil como aparenta, durante esses anos, eu me empenhei totalmente na Rasengan. Claro, também tive um pouco de sorte, por ter pessoas competentes ao meu lado, como a Shion — a fala inabalável dele, ficou levemente macia ao citar o nome da mulher e Hinata percebeu isso, algo dentro dela se contorceu por isso. A perolada também sentiu o olhar de safiras queimar em sua pele, tinha certeza que ele lhe dirigia o olhar, quando retomou a fala — acredito que nós sempre podemos nos reerguer, transformar frustração, raiva e decepção em determinação e foco. Então, quando você pensa que tudo está acabado, você se dá conta de que não adianta se lamentar… — houve uma pausa — deve ser muito chato ficar me ouvindo falar sobre a vida, não?!
A azulada, que brincava com a comida no prato, levantou a cabeça. Só então percebeu que era alvo de três pares de olhos, mas só fitou as safiras que mais pareciam o mar revolto durante a tempestade. Viu a loira tocar o antebraço do Uzumaki e se sentiu muito irritada por isso. O dia não poderia ter sido pior, quando despertou e saiu de sua confortável cama, jamais imaginou reencontrá-lo e passar por essa situação. Se sentia confusa e perdida, ele não poderia entrar em sua vida novamente, dessa forma sem sentido. Era óbvio que aquilo não era consciência! Como ele havia ficado rico? E queria ser sócio logo do Uchiha? E ainda por cima, a intimidade com aquele tal de Shion…
Estava à beira de uma síncope, mas a voz da razão dizia “não estrague tudo, muitas coisas estão em jogo”, sua consciência gritava “se recomponha, muitas coisas estão em jogo”. Ela respirou para limpar os pensamentos e se manter calma. E por fim, respondeu:
— Está enganado, sua vida é intrigante — a perolada foi educada, porém, sua voz saiu menos firme do que queria — eu só preciso ir ao toalete — Itachi não havia dito nada, apenas fitou a esposa como se perguntasse se estava tudo bem, ela por sua vez balançou levemente a cabeça, sinalizando que sim.
Shion lhe tocou levemente, para chamar sua atenção e lhe disse o mais imperceptível possível, para se controlar, mas ele estava muito controlado. Não entendeu o porquê do “conselho”, sabia exatamente como agir, todos aqueles anos lhe ensinaram como camuflar seus reais sentimentos e emoções, aprendeu a ser cínico e dissimulado e por que não um pouco cruel?!
O Uzumaki queria muitas coisas, no entanto, uma delas se destacava em seu peito, como o rugido de um leão: precisava confrontá-la, ouvir frente a frente uma explicação sobre o ocorrido no passado. Passado. Ele sempre o remoía. Todas as lembranças e sentimentos. O loiro sentia também raiva, raiva por se permitir abalar e raiva de sua covardia. Tentava achar alguma justificativa para não tê-la confrontado antes. E se ele tivesse aberto aquela porta, em vez de ter ido embora? Ele que sempre fora determinado e corajoso, havia sido um covarde. Estava tão desiludido e desesperançoso, que não lutou até suas últimas forças. Talvez seu maior erro e das pessoas à sua volta, foram lhe superestimar demais. Ele era atormentado por essa falha e quem sabe estivesse condenado a sempre pensar na vida diferente, que poderia ter tido.
Iria aproveitar aquele momento e fazer o que deveria ter feito há tempos, talvez estivesse sendo imprudente, de forma alguma queria que Uchiha Itachi desconfiasse ou descobrisse sobre seu passado, isso iria atrapalhar todos os seus planos. No entanto, nada o faria mudar de ideia. Não seria covarde dessa vez, estava preparado para aguentar as respostas e mexer nas feridas antigas, pelo menos era nisso que o Uzumaki acreditava.
Então, com muita naturalidade se levantou e segurou seu celular em suas mãos:
— Eu preciso fazer uma ligação — apontou para o aparelho em suas mãos. Shion lhe lançou um olhar de desaprovação, sem dúvida, imaginava o que ele estava prestes a fazer, o Uzumaki por sua vez, retribuiu o olhar demonstrando firmeza em sua decisão.
— Ok — a resposta do moreno foi curta, ele que também fitou seu celular, como se estivesse a espera de algo.
Naruto caminhou contornando o restaurante, pelo lado direito, fazendo parecer que apenas se afastaria para ter privacidade em sua ligação, mas permaneceria do lado de fora. Não entraria pela frente, como Hinata havia feito e ele agradeceu pelo estabelecimento ter entradas nas laterais. O Uzumaki entrou no estabelecimento, não tinha muitas pessoas, principalmente nos fundo do lugar, onde ficava o banheiro, melhor ainda, para não chamar atenção. Ele parecia uma raposa a espreita, pronta para dar o bote em sua pequena presa.
Por fim, ela saiu distraída do banheiro. Naruto tocou seu braço e antes que pudesse gritar pelo susto, ele tapou sua boca, com a mão livre. A mulher tentou se debater, todavia, quando levantou a cabeça e olhou para trás, se deparou com as safiras tão conhecidas, paralisou.
Naruto a conduziu para fora do recinto, por onde ele havia entrado. Daquele ângulo, a bela construção tapava qualquer visão que poderiam ter deles, na entrada principal, na qual ficava a mesa em que estavam, anteriormente.
Eles estavam tão perto um do outro, que fora impossível Hinata não admirar os pequenos detalhes em Naruto. O rosto mais maduro, rendendo traços mais másculos. O cabelo mais curto e alinhado, diferente dos antigos fios rebeldes, que transmitiam um “ar” de menino. E os olhos? As orbes de safira sempre foram o que mais gostava dele, junto ao sorriso. Entretanto, os olhos dele estavam tão duros, raivosos. Mais uma vez notou diferença, doeu ver que as safiras perderam aquele brilho especial, o aconchego. E os sorrisos largos, foram substituídos por uma linha reta nos lábios. Doeu perceber que talvez não conhecesse mais o homem à sua frente, ele era um completo estranho agora. Sentiu como se o tivesse perdido, uma coisa sem sentido, dada as circunstâncias, mas ela não tinha controle sobre o que sentia. Porque no fundo, apesar de todos os anos, a pérola tinha a sensação, de que os sentimentos que teve por Naruto, eram como um lar, um lugar seguro que ela poderia voltar.
— O que você quer? — ela disse baixo.
— O que eu quero? — o loiro repetiu sarcástico.
Não, ela não tinha o direito de se mostrar frágil como uma vítima. Se fosse há alguns anos atrás, já teria se derretido todo, teria a consolado e feito de tudo para arrancar um sorriso dela. Mas agora não, o Uzumaki queria respostas e ele teria. Sabia como a azulada era dissimulada e como era perigoso se deixar levar. Naruto sentiu na própria pele, como aquela mulher tinha o poder de destruir.
— Você ainda pegunta? Eu acredito que você me deve explicações — o Uzumaki foi firme.
A Uchiha olhou ao redor, antes de se pronunciar:
— Fale baixo, alguém pode nos ouvir.
Naruto riu, nem um pouco humorado, seu riso era seco e irônico:
— Ah, sim! Está com medo do seu marido ou que algum conhecido nos veja, você não quer que a imagem de “senhora respeitável da alta sociedade”, que você teve tanto trabalho para criar, seja desfeita. Por que será, que eu não estou surpreso? Mas, saiba que eu não me importo com isso. Eu quero uma explicação e você vai me dar.
A azulada se irritou e mesmo contrariou seu pedido, de que o homem falasse baixo, pois sua voz subiu algumas oitavas:
— E depois de anos, você vem me exigir alguma coisa? E você também não acha que eu mereço explicações? Você sumiu, me prometeu que entraria em contato, eu esperei como uma idota e nada, simplesmente nada.
O loiro ficou sem falas por um momento.
— Eu queria ter falado com você, era o que eu mais queria, por Deus! Mas as circunstâncias não permitiram, foi difícil para mim. E mesmo assim, eu não vejo motivo para você simplesmente se casar com outro, assim tão rápido e do nada.
— Ah, eu entendi. Sabia que isso tudo aqui, não foi coincidência. Você deve ter algum plano, não é?! — ela retrucou — Mas o Itachi não tem nada a ver com o nosso passado. Espero que não tente nada contra ele.
— Claro, você com certeza vai defender seu marido — foi ríspido. Aquele ponto o irrita extremamente. “Marido”, o Uchiha era invejável, teve tudo que o Uzumaki sonhou. Estava tão frustrado, queria machucá-la como ele estava machucado, transformar suas palavras em lâminas — é ele quem te dá status e cobre de luxo, uma egoísta como você que não pensa e não defende os outros, só tiver algum interesse por trás.
“Você não pensa e não defende os outros”, a frase se repetiu em sua cabeça. Não, ela poderia ouvir tudo, menos aquilo. “Se você soubesse…” a mente dela gritou em resposta. Foi o estopim, para que ela se descontrolasse.
— Não fale do que você não sabe! — esmurrou o peito dele — ele esteve comigo, quando eu mais precisei, no momento mais difícil na minha vida.
— Qual momento? Me diga — ele questionou, dessa vez sem agressividade, a voz estava macia, o mais parecido com o seu “eu” do passado.
As orbes de lua manejadas e tristes o desarmou. Sentia que ela diria, que ela iria se abrir. Pela primeira vez, desde que se reencontrarem, eles estavam na mesma sintonia. E por Deus! Naquele momento, o loiro sentiu vontade de beijá-la. Será que os lábios dela continuavam com o mesmo gosto de cereja? Será que continuavam tão macios como antes? Balançou a cabeça afastando o pensamento inoportuno.
— Me diga! — falou mais uma vez.
Ele parecia o seu Naruto, mas muitas coisas estavam em jogo. Ela tinha que ser forte, era necessário. Passou a mão abaixo dos olhos, antes que caísse qualquer lágrima e manchasse seu rosto. Sabia o que tinha que fazer.
— Você quer sua explicação? Eu realmente pensei que te amava, mas depois que ficamos aquele tempo separados, descobri que o que eu sentia não era verdadeiro. E bem, o Itachi surgiu na minha vida novamente. Ele é o homem perfeito para mim, você tem razão. Rico, sobrenome influente, me deu tudo que eu merecia e queria.
Hinata esperava que fosse o suficiente, naqueles poucos minutos que pareciam horas, já se encontrava cansada fisicamente, um reflexo de seu esgotamento emocional.
Naruto não sabia o que pensar. Não sabia se ela falava a verdade ou mentia, estava travando uma batalha interna. Era isso que ele queria ouvir, não era? Então por que não se sentiu aliviado, como pensou que estaria, apenas ficou mais aflito do que antes. O Uzumaki sabia o quando ela era dissimulada e mentirosa, e mesmo assim, em seu âmago sentia que, por poucos segundos, Hinata fora sincera e demonstrara dor e desespero reias. Contudo, como poderia confiar em seus instintos, se eles já o traíram? Como realmente acreditar em Hinata, depois do que ela fez?
Por outro lado, havia algo que não se encaixava, que não fazia sentido, sobre isso não restava dúvidas. Ele iria descobrir… Em meio as divagações, se deu conta que a perolada se preparava para voltar, percebeu que queria ter mais tempo com ela.
— Espera ... — o loiro segurou o pulso feminino delicadamente.
Ela o fitou surpresa, esperando que ele dissesse algo. Porém, nunca saberia o que era, visto que foram interrompidos.
— Algum problema? — a voz masculina e conhecida se fez presente.
Por que ele estava ali? E de onde havia saído? Hinata esquadrinhou o local a sua volta rapidamente e notou um portão de acesso alguns metros de distância. Haviam mais dois portões para entrar no clube, que ficavam longe de onde eles estavam e o primo de seu marido usara aquele. Logo Shisui, que ela soube que sempre torceu contra seu casamento, que sempre parecia procurar alguma falha para condená-la. Nunca se sentiu ameaçada por isso, pois sempre teve segurança em sua relação com Itachi. No entanto, estava preocupada, porque não sabia o que ele tinha visto e escutado, dependendo do que ele presenciou, poderia ser comprometedor. Obviamente, agiu naturalmente, sem demonstrar nada anormal. Olhou para Naruto, que sorria tranquilamente, ele havia aprendido muitas coisas, dentre elas fingir.
— Não, eu apenas estava fazendo uma ligação e encontrei com a senhora Uchiha — o loiro respondeu calmo — Uzumaki Naruto — estendeu a mão.
— Uchiha Shisui — aceitou o cumprimento.
Shisui acordou mais cedo do que queria e sabia que Itachi — não reconheceria seus esforços — iria reclamar pelo seu atraso — mas o que poderia fazer? Não estava acostumado a acordar tão cedo assim… Enfim, há alguns anos, Shisui decidiu deixar a filial em Londres, para ser braço direito do primo na sede principal. Ele ocupou o lugar que Itachi estava planejando para Sasuke, já que o mais novo largou tudo e sumiu pelo mundo. Foram inúmeros fatores que fizeram Shisui voltar para o Japão: o moreno ainda se sentia incompetente para gerir sozinho uma empresa; apesar de ser muito desapegado com quase tudo, sentia falta do país e de sua cultura; todavia, o principal motivo fora o casamento do primo. O moreno teve que engolir essa relação, que já durava alguns anos e se mostrara firme e sólida, no entanto, ele pressentia que isso não terminaria bem. Não que o Uchiha odiasse Hinata, porém não morria de amores por ela. Claro, não poderia culpá-la pela escolha precipitada de Itachi. Apesar de tudo, continuava acreditando que Yugito era a melhor opção, que Itachi claramente nutria sentimentos por ela e a secretária por ele, mas estava tão cego e queria tanto controlar todos os passos da própria vida, que não enxergava a verdade.
Então, o destino parecia estar à favor de Shisui, por pura coincidência, tinha entrado por aquele lado. Avistou uma mulher e um homem conversando, não deu muita atenção, entretanto, conforme se aproximava reconheceu Hinata. Ela iria se afastar, quando o homem loiro segurou seu pulso, não foi um ato violento, na verdade, demonstrara intimidade. Além do mais, podia sentir uma tensão diferente no ar. Por isso, se apressou para saber o que, de fato, acontecia.
O mais velho impôs sua presenta, uma coisa muito fácil, quando se é um Uchiha. Não se convenceu nem um pouco com a explicação do outro homem, todavia, fingiria como o outro. E para deixar as coisa mais interessantes, quando o loiro se apresentou, Shisui concluiu que ele era o possível novo sócio das Indústrias Uchiha. Itachi era seu primo e melhor amigo, ficaria de olhos abertos e tentaria descobrir se havia algo de errado.
— Seria melhor se todos nós fossemos juntos, não? — Naruto sugeriu.
— Você tem razão — o moreno concordou.
O relógio em seu pulso já marcara alguns minutos desde que a esposa e o Uzumaki se retiraram. Itachi tinha muitas coisas na cabeça, dentre elas o misterioso Naruto e a estranheza de Hinata. Ele precisava raciocinar com calma e privacidade — coisas que ele não tinha no momento — para pôr as ideias no lugar.
Apesar de tudo, havia sentido simpatia por Uzumaki Naruto, tinha por ter a mesma idade de seu irmão e parecia um tanto confuso como Sasuke. Não que o loiro demonstrasse, no entanto, por baixo de tanto mistério e confiança, conseguiu enxergar, mesmo que por alguns segundos, angústia e sofrimento. Foi impossível para Itachi não comparar Naruto com Sasuke… Sentia tanta falta do irmão, mas sabia que era o melhor para o Uchiha mais jovem… Por outro lado, também sabia que não poderia misturar as coisas e deixar seu discernimento e avaliação, se basearem e influenciarem nisso.
Ainda havia Hinata, estava atento à ela, desde que chegaram, a azulada permanecia quieta. Geralmente, quando a levava para esses compromissos profissionais, ela sempre esbanjava muita simpatia, sempre conquistava a todos, muitas vezes favorecendo os negócios da empresa. Ela era muito esperta e inteligente, conseguia persuadir a todos, e ele estava incluso, tinha consciência disso. Era a mulher perfeita para ele, não? Porém, hoje estava começando a ficar preocupado, mesmo que ela tivesse lhe garantido que estava bem, por meio de sinais, talvez estivesse se sentindo mal. Talvez, apenas deu a entender que estava bem, para que não ficasse preocupado e atrapalhasse seus negócios. Sem dúvidas, quando estivessem no conforto do lar, conversaria com a esposa.
Suspirou, enquanto lia um email sobre um novo projeto. Estava mais cansado do que nunca, desde que Yugito recebera suas merecidas férias, o trabalho parecia redobrado. Apesar de ter uma secretária no lugar dela, era o como se não tivesse. Ninguém trabalhava tanto, era tão esforçado e dedicado como a Nii. Além do mais, eles formavam uma dupla perfeita, sua secretária lhe conhecia melhor do que qualquer um. No fundo, poderia soar mesquinho, mas se arrependera de ter insistido para que a loira tivesse férias, pois descobriu que a mesma era insubstituível. Sentia falta do convívio e como eles se comunicavam. Se ela estivesse trabalhando, já estaria sentada ao seu lado pontualmente, diferente de Shisui, que se ofereceu para acompanhá-lo, porém estava atrasado.
Engatou uma curta conversa de amenidades com a assistente de Naruto, a moça era muito educada e inteligente, até que junto, Hinata, Naruto e surpreendentemente, Shisui, chegaram juntos.
— Pensei que você não viria — Itachi foi seco.
— Ah, Itachi! Não seja tão rigoroso — Shisui pegou uma cadeira da mesa ao lado e se sentou na cabeceira da mesa — você é tão jovem ainda, precisa se soltar mais — colocou café numa xícara e cortou um pedaço de bolo — deixar que a vida siga seu percurso natural, deixe que o destino se encarregue das coisas — sua fala era falsamente despretensiosa — agora me diga uma coisa, Naruto — sim nós já nos apresentamos, Itachi — você por acaso já conhecia a bela Hinata? — tomou um gole de sua bebida e deu uma mordida na comida, enquanto fitava o Uzumaki.
Naruto sorriu, o Uchiha queria jogar, então ele jogaria.
— Sim, nós fomos vizinhos há alguns anos atrás. Eu não a reconheci logo de vista, foi preciso mais um pouco, na verdade, eu conheci Yuuhi Hinata, a senhora Uchiha é uma pessoa totalmente nova para mim.
— Realmente, o destino se encarrega das coisas — Shisi disse divertido.
Malditos. A mente da perolada gritava, os dois estavam brincando com ela, os dois estavam pressionando. Olhou para Shisui e Naruto, os dois pareciam se divertir. Por fim, fitou o marido, ele aparentava calma e tranquilidade, estava quieto, certamente analisando e pensando em tudo que foi dito. Esperava que as conclusões dele, não estivessem minimamente perto da verdade.
— Como eu não reparei em você antes, qual o seu nome, querida? — Shisui mudou completamente o assunto.
— Shion — a loira respondeu.
….
— Não se preocupe — o Uzumaki revirou os olhos — eu estou bem, tudo está acontecendo como o planejado. Tchau, Velho — Naruto falara com Jiraya, o avô havia ligado para saber como o neto se encontrava, o mais novo é claro, ficara irritado.
A relação deles tinha melhorado consideravelmente, eles se amavam e se respeitavam. O loiro já não tinha raiva do maia velho, contudo, Jiraya daria sua vida para que o neto voltasse a ser o mesmo de antes, essa era a causa da irritação dele. O escritor não entendia, que nada que dissesse ou fizesse, tornaria Naruto o mesmo idiota do passado.
O loiro bufou, estava no apartamento recém comprado, esparramado no sofá da sala, mesmo faltando alguns móveis, o local era incrivelmente bonito e grande, principalmente a vista da cidade à noite.
Ele se levantou e se espreguiçou. Estava cansado, após o café da manhã com os Uchihas, teve uma outra reunião com Toneri, contando passo a passo, todo que se sucedeu. E como se não bastasse, passou o final da tarde e início da noite assinando e revisando contratos da Rasengan.
Abriu uma parte da porta de vidro, que mais parecia uma parede, e andou até a sacada. Sentiu a brisa fria tocar seu peito nu, usava apenas uma calça de moletom. Se apoiou no parapeito, fitou a imensidão azul escuro e as estrelas, porém quem sempre lhe atraia, era Lua. Tão bela e majestosa, a protagonista da noite. Queria evitá-la, mas não conseguia, sem querer admitir, era a forma mais próxima de ficar perto dela.
— Agora eu entendo porque você sempre admira a Lua — a voz de Shion se fez presente.
Naruto havia perdido a noção de quanto tempo ficou ali. A fala da loira lhe despertou, ele olhou para trás da viu, revirou os olhos pelo que ela disse.
— Não precisa ficar bravo, eu trouxe o jantar. Mas você tem certeza que tudo está sob controle?
— Eu não sei de onde você tira essas ideias — o Uzumaki a cortou e voltou para sala.
— Eu tiro de você, eu vi como a olhou hoje. Ela é muito linda, por sinal, além do mais, nem tente negar que aquela ligação, foi pretexto para falar à sós com ela.
— Tudo bem. Ela foi uma pessoa muito importante na minha vida, eu admito que subestimei o passado, é difícil encará-la. Mas eu não a amo mais. É isso que você quer ouvir?
— Eu só quero que seja sincero consigo mesmo, as coisas serão menos difíceis — por mais que ele tentasse negar, sabia que não era verdade.
Shion dava graças aos ceus, pela paixão que à princípio sentia por Naruto, tivesse sido extinguida, sem deixar rastros. Na verdade, tudo não passou de uma confusão de sentimentos da parte dela. A mulher viveu tantos anos convivendo com pessoas frias, sem sentimentos e vendo as atrocidades que os seres humanos podem cometer; que quando pôs os olhos naquele garoto confuso e magoado, mas acima de tudo, bom, foi impossível não se apegar à ele. Hoje, sentia um profundo carinho pelo homem, queria que após tudo aquilo acabar, o loiro pudesse ter uma vida normal e feliz.
— Sabe, apesar de tudo, eu vejo uma tristeza muito grande nela. Tenho certeza que se arrependeu de suas escolhas, se ela pudesse me matar com o olhar, eu já estaria enterrada a uma hora dessas — Shion riu do que disse.
Uma parte de Naruto queria agir como um menino mimado e discordar de Shion, que tudo não passava de impressão dela e Hinata era uma fútil egoísta. Por outro lado, também teve a sensação de enxergar tristeza e principalmente sofrimento nela, e por maia que quisesse negar, aquilo o abalava e desarmava completamente. Tudo que poderia fazer, era não descansar até saber de tudo.
— Vem, agora vamos comer, senão vai esfriar — disse a mulher, mais uma vez o tirando de seus pensamentos.
….
Aquele dia havia sido de intensas emoções, nem se parecia com os dias monótonos, porém confortáveis, que tinha há anos.
Tomou um banho quente, para relaxar os músculos tensos, a perolada precisava dormir e descansar, quem sabe assim sua mente não funcionasse melhor. Estava se sentindo tão pressionada e confusa. Nem tinha ideia do que Naruto pretendia, para completar Shisui atrapalhando sua vida já complicada.
Quando acordou naquela manhã, nunca poderia imaginar o que aconteceria a seguir. O loiro ter entrado em sua vida mais uma vez, sem avisar ou pedir licença, fora um baque muito grande, um furacão em seus sentimentos. Saber que ele estava perto, tão perto, só deixaria as coisas mais difíceis de suportar.
E ainda havia Itachi, desde a manhã, falou apenas o necessário com ela, a deixou em casa e voltou para empresa, até agora não tinha voltado para casa. Era normal que ele ficasse até mais tarde no trabalho, o único problema era saber o que ele pensava sobre o que aconteceu, pois tinha certeza que a cabeça do Uchiha também estava cheia de pensamentos conflitantes como a sua. Ela o conhecia o suficiente para saber disso.
Sua cabeça doía tanto, massageou as têmporas. Ouviu a porta ser aberta, só poderia ser o marido.
Itachi entrara no quarto com o paletó nas mãos junto de sua pasta e a gravata frouxa, estava visivelmente cansado.
— O que houve? — ele questionou, assim que viu a esposa em pé, deixou os objetos numa poltrona e andou até a esposa. Tomou o rosto dela nas mãos e notou a expressão abatida — você está tão pálida.
— Não é nada grave, só estou com dor de cabeça, eu só preciso de um remédio — afirmou, o tranquilizado.
— Tem certeza? — ele insistiu.
— Sim. Já comeu? — foi a vez dela perguntar.
— Já passei pela cozinha, antes de subir. Só preciso de um banho — deu um beijo na testa feminina e foi para o banheiro.
Hinata pegou um comprimido em seu criado mudo e o engoliu, por fim, se sentou encostada na cabeceira da cama. Não tinha tanta noção do tempo, mas sabia que haviam passado bons minutos, visto que viu o marido sair do banheiro com uma toalha enrolada na cintura e adentrar o closet particular dele, pouco tempo depois, ele saiu usando uma calça de moletom e uma camisa de algodão. O moreno apagou a luz, deixando apenas os abajures iluminando o ambiente. E finalmente, se sentou ao seu lado.
— Está melhor? — Itachi quebrou o silêncio.
— Ainda dói um pouco — a cabeça não encomodava tanto, como o desejo de saber o que o marido pensava e faria a respeito. Por isso, decidiu questioná-lo de uma vez — Uzumaki Naruto será sócio da Uchiha?
— Possivelmente sim, só traria pontos positivos para empresa. Mas ainda existem alguns empecilhos — ele afirmou.
— Quais? — perguntou curiosa. Deseja que essa união não se concretizasse, pois teria que estar mais próxima de Naruto, seria um inferno.
— Só preciso conhecê-lo melhor, me diga você que já o conhece — desde que soube dessa informação, não parou de pensar, preferiu ficar longe da esposa e tirar suas conclusões. Perguntou à Shisui o motivo dele ter feito aquilo, o primo alegou que os viu conversando, apenas isso. Poderia haver algo a mais? Ou Shisui estava apenas sendo inconveniente como sempre fora? Mas o fato, era no mínimo curioso, muita coincidência.
Bingo! Hinata sabia que isso o estava incomodando, conhecia Itachi o suficiente para saber, que se algo lhe desagradava, ele não se descontrolada e gritava, apenas seria mais frio e introspectivo. Precisava dar um jeito nisso, antes que ele desconfiasse de algo. “Muitas coisas estão em jogo”, repetiu o mantra mentalmente.
— Nós fomos vizinhos, mas mal tivemos contato, falamos pouquíssimas vezes um com o outro. Se eu, pouco conhecia meu vizinho, posso dizer que não conheço em nada seu futuro sócio — dissimulou, ela era boa naquilo — eu sei que você deve estar se perguntando porque eu não lhe disse, eu não falei nada porque me senti desconfortável de dizer naquele momento, além do mais, minha ligação com Naruto havia sido tão irrelevante, que eu não achei necessário dizer nada.
Itachi sorriu, ela sempre convencia a todos mesmo. Não tinha motivos para desconfiar da esposa, acreditava nela. Acariciou o rosto feminino e tomou seus lábios e depois o pecoço, desceu suas mãos até os ombros e os massageou, escorregou mais ainda as mãos e adentrou a camisola de seda que a esposa usava.
Hinata estava se entregando ao marido, não havia nada de errado naquilo, ele sabia como excitá-la, mas ao ter um lampejo daquelas orbes de safira, foi como se despertasse, afastou as mãos do Uchiha.
— Desculpe, querido. Estou cansada e com dor — justificou. Se deitou de costas para ele.
O moreno demorou alguns segundo para perceber a recusa da esposa, não havia ficado bravo com ela e sim frustrado consigo mesmo.
— Me desculpe você, me esqueci que você não está bem — ele se juntou a ela, uma mão na cintura feminina e a outra acariciando os fios azulados.
Hinata se sentia mal por mentir e por recusar Itachi, não era fácil para ela enganar um homem tão bom quanto ele e por quem tinha estima. Com esses pensamentos, nem se deu conta quando emfim dormiu.
Acordou por causa dos raios de Sol, que penetraram o quarto, se deu conta de que estava sozinha, Itachi provavelmente, já havia ido para o trabalho. Como queria que todo o dia de ontem tivesse sido apenas um pesadelo, todavia, sabia que não. Pelo menos, a dor de cabeça já havia passado.
Se levantou e antes que chegasse ao banheiro, ouviu batidas na porta:
— Senhora? O senhor Uchiha Madara, acabou de chegar e pede para vê-la — a empregada informou.
Que droga! Quando pensou que o dia não poderia ser pior que o anterior, a vida se encarregou de mostrar o contrário. Se havia alguém que a perolada odiava com todas as forças de seu ser, esse alguém era Uchiha Madara.
— Já estou descendo — respondeu irritada. Maldito! Sua mente esbravejou.
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