High Key
9 Vou sorrir só pra ti
Notas iniciais
—Emma-
John Kennedy International Airport – New York — 21h00 — 23 de Dezembro .
—Vamos, garoto. Preparado? — Segurei o carrinho de bagagem com força e me preparei para correr.
Henry estava dentro do carrinho gargalhando.
—VAMOS EMMA! — Ele levantou as mãozinhas.
Comecei a correr empurrando o carrinho pelo aeroporto. As gargalhadas de Henry ecoavam pelo lugar. Varias pessoas nos olhavam, umas com divertimento, outras com incomodo, mas nenhuma delas importava. Henry era como o filho que eu havia perdido.
—EI VOCÊS DOIS! — O grito rouco de Regina interrompeu nossa brincadeira. — Vamos embarcar agora!
Empurrei Henry lentamente até o portão de embarque, onde estavam meu pai, minha mãe, meu irmão mais novo e Regina. A morena, apesar de fechada, se deu muito bem com minha mãe e meu pai. Eles tiveram boas conversas enquanto esperávamos o nosso voo.
—Não sei qual dos dois é mais criança. — Regina falou com desdém.
—Vamos pessoal. — David. — Este será um natal incrível em família, com dois membros novos.
Henry abraçou a perna de meu pai com carinho. Meus pais haviam se apegado muito a ele, assim como ele aos meus pais. Regina observava a tudo calada, mas com um brilho nos olhos.
[...]
Já tinham se passado três horas de viagem, e todos estavam dormindo no avião. A iluminação era baixa e quente para confortar o sono dos passageiros. Acabei sentando junto com Regina e Henry. O garotinho dormia profundamente no assento da janela, eu estava na poltrona do meio ainda acordada, e Regina na poltrona do corredor dormindo. A morena estava com uma máscara de dormir e um suporte para pescoço. Fiquei a olhando por um tempinho antes de resolver iniciar uma leitura. Sua expressão era serena e a sua imagem adormecida era maravilhosa. Tornei a olhar para Henry, que agora havia deixado a cabeça cair para o lado da janela. Segurei sua cabecinha e o arrumei em sua poltrona.
—Ele dorme todo desengonçado como o pai fazia. — A voz doce e rouca da morena quebrou o silêncio. — Você não vai dormir?
—Não consigo. Tenho um certo problema com avião. — Ela se arrumou na poltrona e se espreguiçou.
—Logo você, Swan? — Arqueou as sobrancelhas.
—Como assim logo eu?
—Você viaja tanto, achei que já estivesse acostumada.
—Eu sempre evito avião, quando posso.
O silêncio de antes voltou a instalar-se, só podíamos ouvir nossas respirações.
—É por isso que você não se apega a pessoas? — Regina novamente acabou com o silêncio.
—Han?
—Por causa do que aconteceu com seu filho... — Respirei fundo.
—Sim. — Fechei os olhos numa tentativa de preparar-me para esse assunto. — Eu só estava evitando me amar mais alguém e essa pessoa me decepcionar como Killian o fez, e perder alguém como perdi Rolland. Mas quando eu vi o rostinho de Henry naquela praia na Nova Zelândia, era como se meu filho estivesse lá, sorrindo para mim.
—Entendo. — Ela olhava para as mãos que estavam no colo. — Depois que Daniel morreu e eu descobri que estava grávida, achei que não fosse conseguir.
—Mas conseguiu.
—Consegui...
—Você é uma mulher incrível, Regina. — Olhei-a nos olhos. — Eu te admiro tanto.
Ela desviou o olhar do meu e fixou-o em algum lugar a sua frente.
—Obrigada.
—Porque você não me olha?
—Como?
—Você desvia o olhar do meu toda vez que eu te olho.
—Eu... só...
—Olhe para mim, Regina. — Puxei seu queixo para que ela virasse para mim. — Gosto de pessoas que correspondem verdadeiramente ao meu olhar.
Ok, eu estava ficando maluca.
—Eu só não me sinto completamente confortável com isso. — O rosto da morena ganhou uma cor rosada. — Eu sempre acho que olhares profundos como o seu podem ler minha alma, e eu me sinto exposta. Não sou uma mulher que costuma se sentir assim.
—Deveria, não podemos ser fortes o tempo todo. — Peguei sua mão, que repousava no apoio do assento, e apertei forte.
Ela sequer ousou tirar a sua mão da minha. A morena apenas ficou ali, imóvel.
Com toda certeza eu estava maluca.
[...]
Aeroporto de Paris-Charles de Gaulle, Paris — França — 9h00.
Henry esperava sua bagagem ao meu lado com certa ansiedade.
—Nós vamos para onde agora, Emma?
—Vamos pegar um trem para Marselha e de lá ir para o hotel em Provença.
—WOW AQUELES TRENS LEGAIS?
—Isso mesmo garoto! — Baguncei seus cabelos.
—Emma, podemos comer alguma coisa antes de pegarmos o trem? — Meu irmãozinho, Neal, pediu.
—Claro! Eu conheço uma doceria incrível da minha outra viagem a Paris. — Segurei o ombro dos dois meninos. — Se chama Pierre Hermé e lá tem macarons e chocolates deliciosos.
Os garotos deram um gritinho de vitória e correram animados para junto de meus pais. Neal tinha 7 anos e era bem parecido comigo. Cabelos lisos e bem loiros e olhos extremamente verdes.
—Não encha meu filho de doces, Swan.
—Ah, vamos lá mademoiselle, deixe o garoto ser criança.
—Você vai é mimá-lo.
—Alguém tem que o mimar já que você o assombra, não é mesmo? — Gargalhei e levei um tapa no braço.
—Cala a boca, Swan. — Rimos juntas.
—Olha quem finalmente riu... Viu como estamos progredindo? — Ela sorriu e eu me derreti com ele. — Vamos comer um chocolate, vem Regina.
A morena saiu andando na frente. Aproveitei tal distração e a fotografei andando pela calçada de uma das ruas de Paris, de costas para a câmera. A típica foto romântica. Sorri para mim mesma e a segui.
—Regina-
TGV Paris-Marselha — 12h00
Estava olhando pela janela do trem, vendo os pequenos floquinhos de neve caindo, enquanto um sol brilhava do outro lado das montanhas por onde passávamos, compondo um cenário meio contraditório. Sol e neve. Dois opostos, mas que juntos conseguiram compor a mais bela paisagem que eu já vi. Aquilo me remetia logo a Emma.
Olhei-a sentada no banco da frente com Neal e Henry. Ela os ensinava a tirar fotos com a câmera dela. As duas crianças se divertiam.
Emma e eu somos dois opostos, assim como o sol e a neve. Mesmo assim, aquilo parecia tão certo e tão perfeito. Desde a conversa com Zelena, onde ela me fez perceber que eu estava apaixonada, que eu venho admitindo a mim mesma esse sentimento e reparado mais na loira. Aquele brilho infantil nos olhos. Aqueles verdes hipnotizantes e cheios de sentimentos, que a cada olhar parecem transbordar. Eu a amo.
—É tão bom Emma ter um tempo para nós! — Mary Margaret falou com empolgação. — Conhecer você e Henry fez tão bem a ela.
—Emma fica pouco em casa, não é?
—Quase nunca entra em casa... — David suspirou. — Desde que ela perdeu nosso netinho que ela não consegue parar naquele apartamento.
—Acho que em algum momento do dia ela acaba lembrando dele, lá. — Mary.
Senti o coração arder. Perder um filho deve ser a pior dor que alguém pode ter. Não sei o que seria de mim sem Henry.
Olhei para Emma novamente, e analisei-a. Agora ela tirava fotos da paisagem pela janela. Vestia um casaco de moletom creme, bem larguinho, e por cima uma camisa flanela vermelha, cinza e preta. Uma calça skinny preta marcando suas pernas e uma touca de crochet cinza a deixando extremamente infantil.
Distraí-me tanto, que mal percebi quando a loira me pegou a olhando. Ela sorriu do melhor jeito Emma Swan e tirou uma foto minha.
—Swan! — Tampei o rosto com as mãos.
—As espontâneas são as melhores, Regina. — Ela riu. — O que deu em você?
—Oi?
—Você está me olhando hipnotizada a um bom tempo.
—Eu? Está vendo demais Swan!
—Sei... — Ela sorriu para si e voltou a tirar fotos.
Preciso ter mais cuidado.
[...]
Provença — França — 15h00
A cidade inteira conseguia ser linda. Fiquei completamente apaixonada. Ficamos em uma casa bem típica no interior de Provença. A fachada da casa era na cor creme e as janelas de madeira na cor azul clarinha, e bem nas paredes da frente subiam trepadeiras floridas. Era uma casa pequena, porém muito aconchegante.
Emma saiu após o almoço para fotografar, Mary e David levaram os meninos para conhecer a cidade. Acendi a lareira e sentei na poltrona toda enrolada nas cobertas para me aquecer.
Ouvi a porta abrir e Emma entrar toda molhada por conta da chuva.
—Olha só, deixaram uma trouxinha de Regina para mim. — Aquele sorriso que me amolecia estava em seu rosto.
—Você vai se resfriar Emma, vem para perto da lareira. — Ela obedeceu e se jogou no sofá ao meu lado. — Nada disso, Swan!
—O que? — Ela fez a mesma cara de desentendida que Henry faz quando brigo com ele.
—Você está toda molhada! Tire essa roupa molhada antes de sentar.
—Você gosta de dar ordens, hein! — Fez bico e levantou.
—As vezes acho você tão parecida com Henry nesse aspecto... Em...- Emma começou a tirar as roupas. — O que você pensa que está fazendo?
Senti um frio percorrer minha barriga, quando a vi passando o casaco pela cabeça, dando visão dos seios dentro do sutiã de renda branco. Minha respiração ficou descompassada e meu peito sacudia de tão rápido que meu coração estava. Ela fez o mesmo com a calça, ficando apenas de sutiã e calcinha.
—Emma por deus! Vista-se... — Fechei os olhos com as mãos.
—Apenas te obedeci, sua mandona. — Senti suas mãos geladas segurarem meus pulsos. — Qual é! Você tem tudo que eu tenho, qual o problema?
Ela puxou minhas mãos e tirou dos meus olhos. Olhei diretamente para seus olhos verdes, e ela fez o mesmo. Ficamos nos encarando com a respiração pesada.
—Seus olhos são lindos. — Emma elogiou.
—Os seus também. — Continuamos nos encarando sérias. — Emma...
Ela não respondeu, apenas aproximou lentamente o seu rosto do meu. Nossos lábios roçaram um no outro. A textura era parecida com algodão. Respirei fundo e percebi o que estávamos fazendo.
—Emma... — Virei o rosto. — Para, por favor.
—Desculpa. — Ela afastou e pegou as roupas no chão com certa rapidez.
Sua expressão ficou séria.
—Emma... — Suspirei.
—Não sei o que deu em mim...
Emma sacudiu a cabeça como se espantasse alguma ideia e subiu para o quarto as pressas.
—Óbvio que ela nâo sabe o que deu nela. Como eu sou idiota!
Qualquer esperança que surgiu em mim se esvaiu.
A porta abriu novamente e Henry passou por ela correndo em minha direção.
—Mamãe olha! — Ele mostrou uma florzinha de lavanda. — Peguei para você.
—Obrigada querido! — O abracei e beijei sua testa. — É linda.
—Onde Está Emma? — Mary perguntou.
—Ela está lá em cima.
—Ótimo, vou preparar um lanche para nós. — Mary foi para a cozinha.
—Eu te ajudo. — A segui para a cozinha.
David levou os meninos para jogar vídeo game na sala de tv. Ajudei Mary na cozinha com o lanche lembrando a todo instante do que aconteceu.
—Mary, se você gostasse muito de uma pessoa que não sente o mesmo por você, o que faria? — Ok, eu estava agindo como uma adolescente.
Mary largou tudo o que estava fazendo e olhou-me com um sorriso entusiasmado.
—Como você vai saber se minha filha gosta de você, se não falou isso para ela!
—O que?
—Por favor Regina, está na cara! A forma como você a olha... Eu já estive assim com David, então conheço uma pessoa apaixonada.
Simplesmente não conseguia olhar para ela. O silêncio que tomou conta da cozinha, estava me incomodando.
—Regina... — Mary pousou a mão no meu ombro e afagou. — Fale com ela.
—Mãe. — Emma entrou na cozinha. — Eu preciso sair para tirar mais fotos.
—Tudo bem querida, estamos preparando um lanche. — Mary olhou-me. — Porque você não acompanha Emma, Regina? Eu cuido de tudo por aqui.
—Não acho que Emma iria querer minha companhia enquanto trabalha.
—Deixe de besteira, vá com ela.
—Tudo bem por mim, Regina.
Assenti um pouco tímida e fui.
—Conte para ela! — Mary cochichou em meu ouvido.
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