High Key

18 Tornamo-nos ecos, mas ecos desaparecem


Notas iniciais
Gente, esse e o capítulo bombástico tão esperado. Como tinha muita coisa a retratar, acabou ficando com 5 fucking mil palavras, mas eu juro que vale a pena ler... A música que vai acompanhar perfeitamente o capítulo, e que me ajudou a escrever tudo foi "Silhouette - Aquilo".

—Regina-

O calor dos raios de sol no meu rosto, me despertaram. Pisquei algumas vezes me acostumando com a claridade. Espreguicei-me e virei para o lado onde Emma dormiu na noite passada, e a cama estava vazia. Olhei ao redor do quarto esperando encontrá-la, mas nem suas coisas estavam mais lá.

—Emma? — Chamei alto.

Pulei da cama com certo desespero e corri para o banheiro, procurando pela loira. Nada. Voltei ao quarto e reparei que havia dois envelopes em cima da mesa que, anteriormente, estavam as coisas profissionais de Emma. Peguei os envelopes e abri o menor. Dentro tinha um papel bem dobrado que revelou uma caligrafia perfeita, que eu conhecia muito bem.

"Querida Regina,

Sinto muito por deixá-la desta forma. Sei que é a forma mais covarde de partir, mas nunca fui uma pessoa corajosa se tratando de sentimentos. Os dias ao seu lado foram os melhores da minha vida. Você conseguiu fazer o que ninguém tinha feito antes, além de Roland. Fez com que eu acreditasse no amor, e serei eternamente grata por isso. Mas continuo sendo a mesma bagunça de sempre, e isso nunca irá mudar. Fugir sempre foi o que soube fazer de melhor, e é isso que estou fazendo novamente. Você e Henry são pessoas incríveis e como você mesma já disse, eu não tenho o direito de entrar na vida de vocês e bagunça-la desta forma. Ambos merecem o melhor e eu não posso dar-lhes isso. Essa dor que estou sentindo, nunca irá passar, mas a que você está sentindo ao ler esta carta, vai passar logo. Eu prometo. Irei acompanhá-los de longe, e tenho certeza que verei Henry sendo um ótimo fotógrafo e me representando muito bem. E você, sendo uma lenda na diretoria da Vogue. Espero que um dia entenda meus motivos para tal, e que nunca duvide de meu amor por você e nem de nada que eu tenha dito sobre meus sentimentos por ti. Irei amá-la para sempre.

Com amor,

E.S."

Uma gota incolor pingou de meus olhos e encontrou o papel, misturando-se com a tinta que formulava palavras as quais eu não queria acreditar. Deixei a carta de lado e abri o envelope maior. Nele, estavam as fotos do casamento de Cora e Graham.

—Droga, Emma! — Praguejei em meio ao choro.

A primeira foto era uma que Zelena havia tirado no casamento de nós três, Emma, Henry e eu. Nós sorriamos como crianças enquanto espremíamos Henry em um abraço. O choro ficou mais intenso e minha mente me sabotou mais ainda, trazendo à tona a memória da gargalhada da loira. Virei a foto e reconheci novamente a caligrafia de Emma.

"It’s only been a moment. It’s only been a lifetime"

Senti como se meu coração estivesse sendo esmagado, e um nó tivesse sido dado em minha garganta. Com um estouro de adrenalina, saí as pressas em direção ao quarto que Zelena ocupava. Abri a porta com força e invadi o lugar.

—Zelena! — Chamei em meio ao choro.

—Regina? — Zelena praticamente pulou da cama.

Só então vi que a ruiva não estava sozinha. Ruby estava deitada em sua cama apenas de roupas íntimas.

—Desculpem, eu... — Nem isso eu conseguia processar. — Emma foi embora.

—Oi? — Ruby perguntou.

—Ela me deixou.

—Emma não faria isso... — Zelena riu descrente.

Mostrei a carta em minhas mãos. Zelena pegou o papel e leu em voz alta para que Ruby também ouvisse, e foi uma tortura ouvir as palavras de Emma novamente.

—Emma continua idiota! — Ruby.

—Precisamos voltar para NY, ela deve ter voltado pra casa.

—Eu a conheço a bastante tempo, e ela sempre usa o trabalho para espairecer. — Ruby falou enquanto vestia suas roupas. — Ela deve ter viajado para bem longe.

Lembrei-me do e-mail que havia ignorado noite passada. Líbia. Seria para lá que ela teria ido?

[...]

New York – 09 de Fevereiro – 15h00.

Henry durante todo voo havia perguntando de Emma. Foi difícil o ouvir chamando-a e não poder demonstrar fraqueza para meu filho. Zelena, como boa irmã, ficou do meu lado o tempo todo. Os demônios que atormentavam Emma, eram muitos, essa era a única realidade que ela enxergava e isso a destruía. Eu entendia sua insegurança de certa forma.

Assim que chegamos em NY, fui até a casa dos Swan ver Mary e David. Expliquei tudo o que aconteceu aos dois, que me contaram que a loira no início de seus dias com eles fazia a mesma coisa. Pedi que eles ficassem com Henry para que eu fosse até a revista ver como estava tudo, já que fiquei fora por um longo período. Antes que Zelena e eu fossemos para a revista, Mary pediu que eu não desistisse tão fácil de sua filha.

"Eu nunca desistiria dela."

Foi só o que eu disse antes de sair do apartamento.

Chegando na editora, Zelena foi para seu setor e eu fui para minha sala. Ao abrir a porta, tive uma enorme surpresa.

—Robin? O que faz aqui? — Olhei-o com cara de poucos amigos.

—Vim te ver meu amor.

—Não me chame assim, não sou seu amor.

—Costumava ser. — O homem levantou e pôs-se a andar de um lado para o outro. — Quem diria que Regina Mills abandonaria a editora para viver a vida de cigana com uma paixonite.

—Saia da minha sala. — Gritei. — Minha vida não te interessa, faço o que bem entendo.

—Claro que me interessa, meu amor. — Robin aproximou-se e tocou meu rosto. — Só vim lembrar-lhe que você ainda é minha esposa, legalmente falando. E o que será que a juíza diria se eu pedisse a guarda de Henry por minha esposa estar tendo um caso extraconjugal que a esteja tirando até de sua responsabilidades, tais como o trabalho.

—Você não tem esse direito! Você não é pai dele.

—Mas eu o criei.

—SAIA, ROBIN! E NÃO VOLTE MAIS PARA ME ATORMENTAR COM SUAS AMEAÇAS. — Estava nervosa e completamente descontrolada.

O homem deu um sorriso cínico e foi em direção a porta.

—Até logo, querida.

Joguei meu corpo em minha cadeira e bati as mãos na mesa com raiva. Não bastava tudo que eu estava passando com Emma, ainda surge mais isso para me atormentar. Respirei fundo e passei as mãos pelo rosto, tentando espantar o estresse para começar a ler toda a papelada burocrática que estava acumulada.

Após alguns minutos assinando contratos e mais contratos, resolvi tentar a sorte e liguei para Emma. O toque de chamada ecoou várias vezes antes de cair na caixa postal. Tentei mais uma vez e nada.

Levantei e fui até o outro lado da sala, liguei o pequeno aparelho de som que eu tinha esperando que Bach me relaxasse para que eu pudesse trabalhar em paz.

[...]

Já haviam se passado horas desde que comecei a trabalhar, e de certa forma, havia conseguido me distrair. Já estava anoitecendo e os funcionários começavam a se preparar para ir embora.

—Sis! — Zelena entrou na sala com pressa. — Mary tentou te ligar, onde está seu celular?

—Está aqui, mas não tocou. — Peguei o aparelho. — A bateria acabou, droga.

—Ela disse que Emma ligou e falou com Henry.

—E o que ela disse?

—Mary disse que Henry ficou cabisbaixo e disse que a amiga dele não ia mais voltar, Mary está desesperada.

—Zelena, você está no comando agora! — Comecei a juntar minhas coisas e peguei minha bolsa para sair.

—Como?

—Você me substitui aqui na editora, eu irei para a Líbia.

-O que você vai fazer na Líbia, Regina?

—Emma foi para lá. — Saí da sala com a ruiva me seguindo.

—Você ficou louca? Lá é perigoso!

—Eu vou ficar bem, Sis. Cuide de tudo, confio em você. — Depositei um beijo em sua testa e corri para fora.

Entrei em meu Mercedes Classe C Coupé grafite e acelerei em direção ao apartamento dos Swan. Não demorou mais que trinta minutos e eu já estava estacionando em frente ao prédio. O tempo que levou até que eu subisse até o andar, com aqueles saltos, pareceu uma eternidade. Não havia motivos para estar com pressa, nem havia comprado a passagem ainda. Mas eu estava com pressa de encontrar a loira, nem que tivesse que rodar o país inteiro. Era a primeira vez na vida que eu não seguia um plano, mas eu tenho um objetivo: encontrá-la.

—Mary, David! — Bati à porta com pressa.

—Regina, o que houve? — A mais velha deu passagem para que eu entrasse. — Henry está dormindo.

—Eu vou atrás de Emma. Eu sei onde ela está. — Corri até a cama que Henry dormia. — Pode ficar mais um tempo com ele?

—Claro, mas...

—Henry... — Chamei meu filho com um sussurro, passando a mão pelos seus cabelos negros.

Ele lentamente abriu os olhinhos e sorriu. Piscou algumas vezes antes de tocar meu rosto com sua mão.

—Mãe.

—Oi meu amor. — Sorri. — Mamãe só veio avisar que você ficará mais uns dias com a tia Zel e com Mary e David, tá?

—Você vai buscar a Emma?

—Vou.

—Que bom. — Ele sorriu fraco antes de ser vencido pelo sono.

Depositei um beijo carinhoso na testa dele e tentei aspirar o máximo do cheiro de seus cabelos.

—Obrigada por cuidar tão bem dele. — Agradeci a mais velha e caminhamos até a porta.

—Ele é como um neto para mim. — Mary abraçou-me com força. — Tome cuidado.

[...]

—Emma-

Aldyafa RestaurantTripoli, Líbia.

O calor parecia sair de todos os lugares, qualquer objeto comum que estivesse medindo pelo menos 28 graus, eu colocava colado ao rosto para me refrescar. Nunca iria me acostumar com o clima desses países africanos. O restaurante tinha um ambiente agradável. As paredes tingidas na cor vermelho sangue e pastel. Enormes arcos entre um espaço e outro recebiam as pessoas. Tecidos enfeitados de dourado ornamentava todas as mesas de madeira fina. Peguei meu celular e abri, mais uma vez, a foto em que estávamos Henry, Regina e eu.

Droga, eu iria sentir falta deles.

—Deseja algo Senhorita? — Garçom.

—Olha, você fala minha língua. — Sorri simpática.

—Recebemos muitos diplomatas americanos nesse restaurante.

—Entendi.

—O que vai querer?

—Quero uma porção de Tabule e uma fatia de Kibe assado. — O garçom anotou. — Comi isso uma vez quando estive no Irã.

O homem apenas continuou sério e pediu licença para se retirar.

—Esses árabes não são nada simpáticos. — Disse a mim mesma.

Mantive-me atenta a um artigo sobre os confrontos que estão ocorrendo no país. Geralmente eu pesquiso sobre a realidade do país que eu visito, antes da viagem. Como eu adiantei a viagem, não tive tempo para tal. Pensei novamente no motivo... Regina.

Tentaria a todo custo não pensar na morena durante essa viagem. Era doloroso demais deixá-la desta forma, mas havia outra opção? Havia. Sempre há opção, mas eu sou covarde demais para escolher a outra.

O garçom voltou com meu pedido e preparou a mesa. Tabule, nada mais era do que uma salada de trigo e vegetais, mas com um sabor inigualável. Prendi os cabelos em um coque desajeitado e iniciei as garfadas.

—Emma Swan? — Uma voz masculina surgiu atrás de mim. — Desculpe incomodá-la, mas eu conheço seu trabalho na NatGeo.

O homem era alto e tinha um aspecto aventureiro. Cabelos castanhos bagunçados, barba por fazer, belos olhos azuis e vestia uma jaqueta de couro marrom e calça jeans surrada.

—August Booth. — Ele limpou a mão na calça antes de estendê-la para me cumprimentar. — Sou fotógrafo da revista LIFE.

—Um enorme prazer conhecer um colega de profissão. — Aceitei o cumprimento. — Sente-se, vamos comer.

Passamos bastante tempo conversando amenidades e coisas sobre a nossa profissão. August era um rapaz muito simpático e carismático. Era alguém com quem eu gostaria de trabalhar em parceria, pois seria uma agradável companhia.

—Em qual hotel você está, Swan?

An-Naher Hotel. — Fiz uma careta pela péssima pronúncia do árabe.

—Estou bem próximo a você, mas não adianta que eu não sei nem o nome do hotel. — Rimos.

—Bem, eu preciso ir. Preciso descansar e preparar minhas câmeras.

—Foi um prazer Emma.

—Digo o mesmo August.

Separei-me do rapaz e segui em direção ao meu hotel. O clima continuava me torturando, conseguia ver o calor sendo transmitido para o ambiente, das superfícies dos objetos na rua. A roupa que eu vestia não ajudava nem um pouco, mas pelo menos me protegia do sol. Estava vestindo uma calça larga de cadarço marrom, uma camiseta preta e minhas inseparáveis botas de viagem. Claro, que eu não poderia esquecer da minha câmera pendurada no ombro.

Não demorou para que eu chegasse no hotel. Corri para meu quarto, na esperança de relaxar um pouco antes de encontrar com o general do exército líbio.

[...]

Peguei um táxi e segui até o centro de Tripoli, onde ficava o quartel militar do exército líbio. Eles iriam iniciar uma operação de combate a um grupo islâmico conhecido como "Amanhecer Líbio". A verdade era que o governo atual, chamado de Tobruk, é leal ao exército comandado pelo general Khalil Hanif e até ganha apoio dos EUA nos confrontos. E a realidade do país são as guerras que ocorrem diariamente. Elas só acontecem pela disputa de poder entre as milícias, o governo e o grupo islâmico. O combate mais intenso foi em 2014, quando Hanif criou a "Operação Dignidade" contra grupos armados de milícias.

É uma briga pelo poder, onde a população paga com a vida. Incontáveis números de inocentes morrem por conta dessa guerra, e essa é uma realidade triste, que eu preciso mostrar para o mundo. Não que alguém pudesse mudar alguma coisa no país, mas pelo menos algo mudaria dentro de si.

O táxi me deixou na rua Al Hara Alkabir, em frente ao quartel. O portão de acesso parecia o de um castelo. Deduzi ser para uma segurança maior devido aos grupos extremistas rivais. Dois dos cabos que vigiavam a entrada vieram me identificar e eu mostrei meu crachá da revista. Fui revistada de forma que seria considerada bem rude nos EUA e entrei. O general recebeu-me com certa frieza, mas deu-me a atenção necessária e respondeu a todas as perguntas que fiz. Pelo que havia me explicado (e eu consegui entender), a operação visava aniquilar o grupo islâmico que tentava a todo custo tomar o poder líbio. Tal operação tinha total apoio dos parlamentaristas líbios. O movimento iria começar hoje, mas ele não conseguia afirmar se teriam algum confronto pesado com o grupo, por isso, eu não teria trabalho até que um confronto se formasse.

Resolvi dar uma volta pelas redondezas para fotografar a rotina urbana do lugar. Carros indo e vindo com muita pressa, entre eles um ou outro era caminhão ou Jeep militar. Depois de um tempo andando, avistei o litoral e resolvi relaxar um pouco por lá. Sentei-me na areia e fiquei observando as famílias que aproveitavam o dia ensolarado, mas o que mais me chamava a atenção, eram as mulheres até mesmo na água tendo que usar Burca. Fotografei uma delas que nadava coberta da cabeça aos pés, literalmente. Alguns homens me encaravam pervertidamente, como se eu estivesse despida.

Em minha visita ao Irã, explicaram que a mulher com a canela de fora já era vista pelos homens como indecente. Particularmente, achava um absurdo tratarem as mulheres de tal forma, mas a realidade de cada país é diferente. Existem crenças e costumes que talvez nunca entenderemos. São experiências de mundo e ideologias que cada um escolhe e devemos respeitá-las. Meu pensamento voltou-se à Regina, que se encaixava perfeitamente nessa reflexão. Tão diferente de mim, que mesmo com todos os meus traumas, ainda se manteve firme em seu sentimento. Nada a assustava em mim.

Será que a escolha certa foi fugir?

Agora era tarde para pensar nisso. Regina não iria querer me ver novamente.

—Deus, ela deve estar xingando os quatro ventos agora! — Falei sozinha e ri imaginando a morena.

Eu praticamente conseguia vê-la em minha frente falando: "Swan, você só pode ser louca! Acha que pode sair da nossa vida a hora que quiser sem me dar satisfação? Pois saiba que não."

Bem a cara dela.

Ainda faria questão de vir atrás de mim para dizer isso, onde quer que eu estivesse. Seria cômico se não fosse um pouco trágico.

—Emma Swan! — Assustei-me.

—August, você quer me matar? — O homem soltou uma gargalhada gostosa e sentou-se ao meu lado na areia. — Como me encontrou? Está me seguindo?

—Talvez... — Arregalei os olhos e ele riu. — Não! Eu estava correndo um pouco para manter a forma. E você?

—Estava refletindo um pouco sobre a vida.

—Eu percebi. Parecia até uma escultura, não piscava nem nada. — Empurrei-o. — Sério! Vim até aqui para apreciar.

—Palhaço.

—Mas o que tanto refletia?

—Sobre uma pessoa que eu deixei.

—Um rapaz?

—Não! — Fiz cara de nojo. — Não estaria sofrendo por rapazes.

—Por que a deixou?

—Por não ser boa o bastante.

—Que isso, Emma! Aposto que você é perfeita para ela.

—Como tem tanta certeza?

—Pois se não fosse, não a deixaria.

Concordei com a cabeça e ficamos um tempo em silêncio, olhando o mar mediterrâneo banhando os grãos da areia. A noite já estava chegando e a temperatura começara a esfriar.

—Por que não liga para ela? — August rompeu o silêncio.

O som de sua voz reverberou dentro de minha cabeça.

—E-eu não sei... Acho que não conseguiria.

—Bom, você que sabe. — Ele se levantou e bateu nas pernas para tirar o excesso de areia. — Vou indo, tenho uma reunião via Skype com o editor da revista. Até logo Emma.

—Até, amigo!

[...]

Eram cinco da manhã e eu ainda estava me revirando na cama. Eu estava extremamente cansada, mas o sono desapareceu. O pior momento das nossas vidas, é quando temos algo nos atormentando e esse "algo" resolve povoar a mente quando você deita a cabeça no travesseiro para dormir. Depois daí, vai madrugada à dentro.

Peguei meu celular para ver a hora e vi algumas ligações perdidas de Regina. Apenas ignorei as ligações, e logo ouvi a voz de August mandando eu ligar para a morena dentro da minha cabeça. Seis da manhã e eu nem havia pregado os olhos...

Um estrondo balançou todas as janelas do meu quarto. Levantei-me num pulo, sem entender o que estava acontecendo. Outro estrondo e tudo voltou a tremer.

—O que diabos está acontecendo? — Disse a mim mesma.

Troquei minhas roupas rapidamente, peguei minha mochila, câmera e desci. No saguão do hotel, alguns hóspedes procuravam entender, assim como eu, o que estava causando todo aquele barulho. Olhei para a porta de entrada e lá fora, as pessoas corriam e vários carros do exército líbio passavam correndo.

—Um bombardeio? — Outra explosão e desta vez mais forte e mais perto.

Corri para fora do hotel e mais à frente, o caminhão que carregava a tropa acabara de ser atingido por uma granada. Gritos de agonia e terror ecoavam por todos os lados. Levei alguns segundos para processar tudo aquilo e lentamente fui entrando em modo profissional, onde não existia medo ou fraqueza.

Aproximei-me um pouco mais do carro destroçado e fotografei. Senti um puxão na beira da minha calça e quando olhei para baixo, vi um dos militares se arrastando por socorro. Nesse momento, diversos homens com Hijab cobrindo os rostos, apareceram correndo, armados com fuzis de guerra e atirando em todos os soldados líbios.

Puxei o homem abaixo de mim pelos braços até que ficássemos em um local protegido dos tiros (atrás de um carro). Claro que se um dos integrantes do grupo islâmico me encontrasse ajudando o soldado, eu seria fuzilada.

—Emma Swan, lembre-se de fazer um seguro de vida quando voltar para NY. — Ri da minha própria desgraça.

O homem que eu havia ajudado tinha um sangramento muito grande no abdômen e metade de uma de suas pernas havia sido explodida. Ele gritava de dor.

—Calma, vou chamar ajuda. — Ele ainda gritava e segurava meu braço com desespero.

Com as mãos, pressionei o ferimento do abdômen com força para tentar estancar o sangramento mas estava sendo em vão já que o sangramento da perna estava incontrolável. Minhas mãos tremiam ensanguentadas. O homem começou a desfalecer e eu entrei em pânico.

—Acorda, por favor! — Dei tapinhas em seu rosto e depois voltei a pressionar o ferimento.

Senti algo frio tocar minha nuca e suspeitava o que seria. Fechei os olhos e levantei as mãos me rendendo. Fui puxada para ficar de pé e fiquei frente a frente com o meu agressor. O homem usava um Hijab preto que cobria todo seu rosto, deixando apenas os olhos desforrados. Ele apontou o fuzil para meu rosto e gritou algo em árabe. Respirei fundo tentando me acalmar para que meu corpo reagisse certo. Estava claro q ele ia me matar e eu precisava reagir.

—Você só pode estar louca Emma. — Sussurrei para mim.

Esperei o homem se distrair e em um movimento único, segurei o cano do fuzil e desviei-o de meu corpo para o caso dele atirar, não ser atingida, e chutei sua genital. Imediatamente o homem abaixou-se sentindo a dor do chute e soltou a arma. Peguei o fuzil e dei uma coronhada no rosto do terrorista, que desmaiou. Foi a minha oportunidade de sair dali. Voltei até o soldado ferido, mas o mesmo havia perdido a vida.

Com muita pena, deixei o corpo dele lá, corri para próximo da tropa líbia e montei na traseira de um Humvee que protegia os soldados. Mostrei a credencial da revista que andava comigo a um dos militares e eles me mantiveram protegida.

Do blindado eu tinha total visão do confronto. O grupo islâmico era completamente descontrolado, atiravam em todos que entravam em seu caminho.

O tiroteio durou o dia todo, e eu estava exausta com minhas roupas ensanguentadas. Para o final da tarde, as tropas seguiram para a Rua Marconi onde ficava o hotel mais luxuoso e conhecido de Tripoli, o Corinthia Hotel Tripoli. Tal hotel hospedava grande parte dos diplomatas que a ONU mandava para discutir sobre a segurança nacional, e o grupo islâmico ter seguido para esta área preocupou o general.

Ao chegar em frente ao hotel, tivemos que subir em um prédio que ficava de frente para o hotel, para nos proteger da grande quantidade de granadas que estavam sendo lançadas. Subi correndo uma carreira de escadas, bem atrás de mais três militares. As explosões estavam me deixando desnorteada, tudo que eu via era fumaça e poeira de destruição. Do andar que estávamos, eu tinha total visão da rua e conseguia ótimas fotos do confronto lá. Quando estava prestes a fotografar uma cena, vi uma granada vir em nossa direção. A única coisa que deu tempo de fazer, foi correr para longe da janela e me esconder atrás de algum móvel do cômodo. O estrondo foi enorme. Senti meus ouvidos doerem e logo em seguida, o líquido quente escorrendo de dentro deles. Ainda atordoada com a explosão, olhei ao meu redor e vi a sala em que estávamos totalmente destruída, e parte da parede da janela destruída, nos deixando totalmente desprotegidos. Toquei meu ouvido com a mão e vi meus dedos ensanguentados. O zunido dentro do meu ouvido não me deixava ouvir nada. Fiquei ali parada sem acreditar em tudo, vendo os corpos de alguns homens que me acompanhavam jogados no chão, completamente sem vida. O único que havia sobrevivido gritava algo que eu não conseguia ouvir, ele fazia gestos em minha frente, pedindo para que eu fosse embora dali com ele. Eu havia ficado surda? O pânico tomou conta de mim.

Com a ajuda do soldado, levantei-me devagar e peguei minha câmera do chão. Por sorte, somente o filtro da lente havia quebrado, mas a mesma estava toda empoeirada. Desci do andar em que estávamos e fui para a rua, onde tudo estava um verdadeiro caos. O zunido ainda estava presente em meu ouvido e nada mais eu conseguia ouvir, nem o barulho dos tiros. Minhas roupas estavam encharcadas de sangue. Senti o chão tremer abaixo de mim, e uma explosão abafada. Olhei em meio a poeira e vi que eles haviam bombardeado a entrada do hotel Corinthia. Era o que o general temia.

—Regina-

Corinthia Hotel TripoliTripoli, Líbia.

Havia chegado na capital da Líbia a pouco mais que doze horas e Emma havia ignorado todas as minhas ligações. No início da manhã acordei com uns barulhos de tiro longe e tive que me controlar para não entrar em desespero. Sabia que Emma estava no meio de todo o confronto fotografando, e eu apenas rezava para que a loira estivesse bem, apesar de não ser uma pessoa religiosa.

As ordens do dia foram para que os hóspedes não saíssem de dentro do hotel até o confronto acabar. Sendo aquele o hotel mais luxuoso da cidade, maior parte de seus hóspedes eram pessoas de alto escalão, dentre eles, diplomatas e grandes empresários. Por tal motivo, escolhi-o para me hospedar. Eu esperava que um hotel que abrigava diplomatas teria uma enorme segurança. De certa forma tinha.

Já era fim da tarde e os tiros e explosões estavam cada vez mais próximos, e confesso que estava aterrorizada. Nunca havia vivido algo parecido, e tal coisa me fez ficar na cama o dia todo. Tentei relaxar e dormir até que tudo acabasse. Minhas pálpebras já estavam pesando e eu sentia o sono me dominar, até que um estrondo enorme que fez o chão e as paredes sacudirem. Pulei da cama atordoada e corri para fora do quarto. O corredor do meu andar estava cheio de hóspedes assustados correndo para a escada. Eu não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, mas claramente estavam evacuando o hotel. Larguei meu quarto com tudo meu dentro e fiz o mesmo. Corri o mais rápido que pude pelos degraus da escada. O salto que eu usava já fora arrancado de meus pés para facilitar a corrida. Os lances de escada pareciam ser intermináveis, o que era compreensivo já que eu estava no décimo andar.

Quando eu e mais um grupo de hóspedes estávamos nos aproximando do lance de escadas que dava acesso ao hall do hotel, uma nuvem de poeira nos cegou. Uma gritaria sem tamanho começou, e percebi que muitos subiam correndo as escadas tentando fugir de algo. Antes que pudesse ter a chance de correr de volta os andares acima, senti um puxão forte em meus cabelos. Praticamente fui arrastada pelos cabelos, escada abaixo.

Gritei por ajuda. Gritei como nunca gritei antes, mas foi em vão.

Nada conseguia ver em meio aquela poeira acinzentada. Sabia que estava sendo arrastada para fora do hotel, por conta da claridade que estava cada vez mais próxima. A mão que me puxava pelos cabelos, agora segurava meu braço com força. Palavras em árabe espalhavam-se por meus ouvidos. Quando finalmente meus olhos encontraram a luz, pude enxergar. O hotel havia sido bombardeado e assim como eu, inúmeros hóspedes haviam sido capturados por homens muito bem armados, com panos cobrindo os seus rostos.

O homem que havia me capturado, agora segurava-me pelo pescoço e apontava sua arma para meu abdômen.

—Por favor, me solte, por favor... — Supliquei aos prantos.

Meu corpo inteiro tremia sem controle. Sentia que minhas pernas iriam me levar de encontro ao chão a qualquer momento, de tão fracas.

Os homens do grupo que haviam me capturado, gritavam palavras em árabe para um esquadrão do exército líbio que estava parado em nossa frente. O exército tomava todas as precauções para que os homens não atirassem contra os reféns.

No alto de um dos carros do exército, vi uma lente apontada para mim. Seus cabelos loiros amarrados em um coque desengonçado, do jeito que eu amava. Era ela.

—Emma. — Tentei gritar, mas o braço do homem estava impedindo qualquer som de sair. — Emma.

A loira abaixou a câmera e pude ver suas roupas completamente sujas de poeira e sangue. O canto de seu rosto tinha uma enorme linha de sangue que descia de seus ouvidos. Ela estaria machucada?

—Emma. — Gritei mais forte e dessa vez o som saiu mais forte.

Um dos homens veio até mim e deu um soco forte em meu rosto. Tossi com força e senti o gosto de ferro contaminar minha boca, e cuspi o líquido vermelho para fora.

—Regina? — Ouvi de longe.

Ela tinha me ouvido.

—Emma. — Chamei quase que em um sussurro.

—Parem! — Emma desceu correndo do carro que estava e correu para a linha de frente da tropa, sendo impedida de correr até mim por um dos soldados.

—Soltem ela, por favor! — Ela gritou. — Ela não tem nada a ver com isso.

O líder do grupo que havia me capturado sorriu diabólico observando a cena que a loira fazia, e caminhou lentamente até mim. Em forma de provocação, o homem acariciou meu rosto antes de soltar um tapa forte. Senti minha bochecha queimar com o encontro da mão do homem.

—NÃO! — Emma gritava e chorava desesperada enquanto os soldados tentavam a controlar. — Soltem-na, por favor.

Os olhos dela encontraram os meus, e nesse momento eu soube o que ela quis me dizer. Ela me amava.

Senti um calafrio passar por todo meu corpo quando o mesmo homem que havia me dado o tapa, pegou seu fuzil e o mirou em mim.

—Não, por favor, não. — Emma chorava como nunca a vi chorar antes.

Eu diria a Emma que a amava, mas não era preciso, ela sabia. O som cortante do tiro sendo disparado foi ouvido e eu não senti nada. Senti os braços que me seguravam soltarem-me e meu corpo se chocou contra o chão. Senti uma tontura e comecei a ver pontos pretos. Emma gritava descontroladamente, mas eu não a ouvia mais. A loira se debatia nos braços dos soldados, tentando vir até mim. Senti meu corpo suando frio e as imagens começaram a escurecer, até que eu não via nada além da escuridão.

Notas finais
Eita porra! E agora? Regina levou o tiro ou não? O que será que Emma vai fazer para ajudar a morena, já que o grupo islâmico não tem dó de matar? NÃO ME MATEM POR FAVOR KKK. Comentem o que acham que irá rolar e quem sabe me estimule a postar mais rápido. Quem sabe, também, eu mande algum spoiler no grupo do whatsapp, hein! hahah Obrigada a todos que acompanham e é sempre bom ter um feedback para saber se estou agradando vocês. Até o próximo capítulo!