High Key

25 They don't know your worth


Notas iniciais
Voltei!! Esse capítulo tem várias emoções... E queria dedicá-lo a Brullf ❤

—Emma-

Porto de Sunset Park — Brooklyn — Nova York.

As enormes janelas do galpão industrial proporcionavam a luz perfeita para o ensaio boudoir. A combinação das paredes em concreto armado com a cama de armação metálica escura caia perfeitamente bem contrastando com as modelos vestindo renda. Não foi preciso usar mais do que duas lentes para se fazer um perfeito ensaio. Tudo estava correndo bem.

Regina não saia do meu lado, se mantendo sempre bem concentrada em como eu desenvolvia as poses. Vez ou outra, ela opinava sobre algum detalhe da composição, mas não me contrariava nunca. Ela realmente estava depositando sua confiança em mim, e isso me estimulava mais a fazer meu trabalho melhor.

—Agora quero que posicione o braço abaixo dos seus seios e mantenha-se sentada bem ereta. — O som do obturador fechando e abrindo soou. — Se mantenha assim, só vire levemente o tronco para a janela e olhe para a janela. Isso! Só levante um pouco mais o rosto, querida. Muito bem...

Meu papel ali, além de fotografar, era deixá-las mais confortáveis o possível. Sabia o quanto esse tipo de ensaio era complicado para mulheres com o físico fora do padrão, pelo desconforto de expor seus corpos à mesma sociedade que as julga e as critica.

—Você está se saindo perfeitamente bem com elas, Emma. — Regina comentou num tom de voz que somente eu poderia ouvir. — Confesso que eu colocava fé em você, mas estou me surpreendendo.

—Você escolheu a melhor, Srta. Mills. — Impliquei. — Isso vai sair caro, saiba!

—Tenho plena certeza de que sim. Você não deixaria isso passar.

—De jeito nenhum... sexo com você é bom demais para que eu deixasse passar. — Soltei uma risada contida e voltei minha concentração ao trabalho.

[...]

Levamos a tarde toda no ensaio. Tivemos que correr para aproveitar a luz natural, antes que a escuridão caísse. Usamos somente três modelos, já que as peças não eram muitas. Tentei convencer Regina a se juntar a elas e posar para sua própria revista, ou apenas para minha imaginação. O máximo que consegui foi um forte tapa no braço.

Após terminarmos as fotos, fizemos uma breve entrevista com as modelos, para a matéria da revista.

—Sou Diana, tenho 28 anos, modelo e atriz. Canso de ouvir na rua, num restaurante, nos transportes públicos e até pela minha própria família, que eu 'preciso cuidar da saúde' como se ser gorda fosse algum sinal de que a saúde seja um lixo. Existem tantas pessoas magras que comem tão mal e tem uma saúde péssima. Minha saúde é muito boa, graças a Deus. As pessoas tem que parar de olhar a "gordura" e começar a enxergar as outras coisas que nós temos. Parar de dizer "você tem um rosto lindo, por que não emagrece?". Gorda ou não, meu rosto não muda e talvez eu seja uma mulher feliz sendo gordinha. Por que não aceitam isso?

Regina havia se emocionado enquanto ela falava. Ela tentava controlar as lágrimas, em vão. Afaguei suas costas e lancei um sorriso tímido, para mostrar que eu estava ali com ela.

—Sou Elizabeth, tenho 34 anos e sou modelo plussize. Precisam parar de pensar que alguém é melhor ou pior pelo seu peso. Eu sou humana também! É lindo lutar pela causa gay, contra o racismo, contra o machismo, mas no fim ninguém enxerga a gordofobia. E eu que sou mulher,negra,gayegorda?Quantomaistenhoquelutarparaser aceita?Eu havia me casado com um cara, que vivia insistindo para que eu emagrecesse, e isso me afligia. Ele dizia coisas horríveis sobre mim, que eu era uma leitoa, uma baleia, que nem sabia mais o motivo de estar casado com uma porca. E isso mexeu tanto comigo, que passei a tomar remédios e parar de comer para emagrecer, até ir parar no hospital com uma parada cardíaca. Além de efeitos colaterais aos remédios, como: dependência, insônia, tremores, irritabilidade e até bipolaridade. Percebi que não queria isso para minha vida e mudei completamente a forma de pensar. Hoje eu como sem culpa.

—Meu nome é Bela, tenho 23 anos e sou dançarina e professora de yoga. Quando iniciei minhas aulas de yoga, muitos alunos trocaram a turma com a seguinte justificativa: "Não quero ter aula de yoga com uma professora gorda." — Ela riu para si mesma. — Eu nunca me senti insegura com meu corpo, minha relação com ele sempre foi de satisfação e não entendo como ainda temos pessoas que não aceitam um diferente. Tenho um namorado incrível que me aceita como sou, e ele não é gordo... mas a mãe dele, minha sogra, odeia o fato de que o filho dela "desceu de nível" assim. Quando vamos na casa dela, ela vive me falando "você precisa emagrecer, só faz comida de gordo". Eu acho que tenho problema de visão por não conseguir enxergar o monstro que as pessoas veem em mim. Meu corpo não me incomoda, o que me incomoda são as pessoas se incomodando por mim.

—Ficou incrível meninas. — Olhei para Regina que havia se afastado por estar muito sensível. — Muito obrigada pelo tempo e depoimento de vocês. Gostaria de dizer uma coisa, também... A beleza é algo muito subjetivo... Para a filosofia, existem a beleza sensível e a beleza inteligível. A beleza sensível é tudo o que vemos e tocamos, e a beleza inteligível é a ideia da beleza que temos. Então lembrem-se de que o que importa é a essência. Se alguém não enxergar sua essência, a beleza interior desse alguém não existe.

Saímos do Brooklin já de noite, e nos despedimos das modelos. Regina agradeceu e as convidou para jantar conosco em algum restaurante, mas elas quiseram apenas ir embora.

—Conheço um restaurante maravilhoso no Chelsea, o Lupulo. — Disse enquanto dividia a atenção entre o trânsito e a morena.

—Nunca fui, podemos experimentar.

Ficamos um tempo em silêncio, até a morena o quebrar.

—Foi lindo o que você disse a elas, lá no ensaio. Você é uma pessoa incrível! Agora eu consigo enxergar melhor seu trabalho, como você vê o mundo... é admirável.

—Fico verdadeiramente feliz em ouvir isso, amor. — Sorri para ela em agradecimento.

—Vamos passar na casa da Zel para buscar o Henry. — Pediu.

—Podemos chamar Ruby e ela para irem conosco.

—Zelena está se negando a ir a qualquer restaurante com a Maya. Parece que agora ela está na fase de cuspir a comida. — Gargalhei. — Ela disse que a Ruby vem passando por maus bocados para dar comida a pequena.

—Nunca pensei que veria Ruby como mãe. Chega a ser engraçado.

—E eu não acredito que passei tanto tempo em coma que perdi tudo isso. — Seu olhar era triste.

Tirei uma das mãos do volante, somente para apoia-la em sua coxa, fazendo um carinho de conforto.

—Sinto muito por isso, meu amor. Não imagina como eu me culpo todos os dias por isso.

—Não foi culpa sua Ems. — colocou sua mão sobre a minha e entrelaçou nossos dedos.

O toque foi tão intenso que causou um rebuliço dentro de mim. Algo que eu nunca havia sentido antes. Ela pareceu ter sentido o mesmo.

—Nada acontece por acaso, Emma. Se aconteceu, teve a necessidade de acontecer. O motivo para isso, a gente pode ou não descobrir um dia, mas sempre tem um motivo. — Sorri com carinho e depositei um selinho nos lábios dela.

[PLAY] Lost – Frank Ocean.

Como sempre, a cidade estava um caos. Uma confusão de carros nas ruas iluminadas pelas luzes de faróis e dos enormes arranha céus. O barulho de buzinas e conversas paralelas pelas esquinas...

De certa forma isso me fazia sentir muito bem.

Abri as janelas do carro e senti a brisa fria bater em meu rosto junto dos diversos odores que vinham.

Esse era o prazer de todas as viagens que eu fazia. Sentir a cidade, sentir todas as sensações e emoções que ela proporcionava. E eu me perdia nesses sentimentos.

Demoramos pouco menos do que uma hora e meia para buscar Henry e chegar ao restaurante sugerido por mim. O lugar estava cheio, porém tranquilo. O restaurante tinha uma decoração de material aparente, com madeira e elementos negros, mais parecia uma lanchonete industrial que servia comida fina e cervejas artesanais. No centro havia o bar limitado por uma ilha de madeira, enquanto as mesas se espalhavam ao redor dessa ilha. Os sons de conversa eram abafados por uma música R&B que tocava na altura ideal.

Pegamos uma mesa mais reservada, do outro lado do salão e logo o garçom veio nos atender.

—Eu esperava que aqui fosse uma lanchonete... — Comentou a morena enquanto olhava o cardápio. — Mas tem comida de verdade.

—E o que vão querer?

—Carne De Porco Alentejana e uma taça do melhor Cabernet Sauvignon. — A morena pediu ao garçom.

—Vou querer um Double Stack Burger e uma coca. — Henry pediu animado.

—Mesmo quando tem comida de verdade você prefere comer essas coisas gordurosas e calóricas, Henry Mills. — Regina o repreendeu.

—Mas eu já como comida decente todo dia... — Fez muxoxo.

—E eu vou querer arroz de camarão e uma água tônica com limão, por favor. — Entreguei os dois cardápios para o garçom e olhei para Regina com admiração.

—O que foi? — Sorriu tímida. — Pare de me olhar assim.

—Estou só admirando o que deve ser admirado.

—Vocês duas não vão começar a se beijar e ficar de melação não, né? Não sou obrigado a ver isso...

Peguei a mãe do garoto pelo queixo e a puxei para um beijo apaixonado, só para implicar com ele.

—Ai não, Emma! — Fechou os olhos e tacou um saquinho de sal em meu rosto.

Baguncei os cabelos negros do adolescente, que bufou e se concentrou na tela de seu celular.

—Quando vai começar a definir 'a cara' dessa edição?

—Assim que você terminar de editar as fotos e nos enviar. Mas já comecei a testar os formatos editoriais.

—Eu já até sei qual foto podemos usar de capa.

O resto do jantar foi entre conversas sobre a revista e o ciúmes de Regina com Henry, que pediu dinheiro para ir a um show com a namorada. Óbvio que Regina só concordou depois que ele disse que os pais dela também iriam e que poderiam conversar com a morena antes.

Já era tarde quando chegamos ao prédio de Regina, estacionei o carro na garagem e os levei até a porta do apartamento da morena.

—Bom, já que estão entregues, vou para o meu apartamento.

—Você não vai ficar essa noite?

—Eu já passo tempo demais aqui com vocês, meu apartamento está praticamente abandonado. — Soltei uma risada. — Esse é a casa de vocês, não quero parecer uma invasora.

—Mas está tarde, você está sem seu carro...

—Eu vou pegar um táxi. — Dei um selinho rápido em seus lábios e virei-me para descer as escadas. — Boa noite, amor.

—Emma. — Chamou manhosa.

Parei no lugar que estava e virei-me para ela.

—Então faz dessa tua casa, também. Vem morar com a gente.

Senti minha respiração pesar. Um sopro quente e denso passou por meus lábios.

—Você quer...

—Quero. — Ela deu um sorriso nervoso. — Não é como se fosse algo absurdo, não é? Você já praticamente vive aqui, e esteve com Henry aqui enquanto eu estava em coma... Você mal entra em seu apartamento por causa do seu trabalho.

—Eu larguei meu trabalho Regina.

—Você o que?

—Eu não trabalho mais para a NatGeo, pedi demissão esses dias. Agora eu consegui um emprego que vai me manter aqui com vocês... em uma empresa de publicidade.

—Não! Emma, você ama o que faz e eu não admito isso. — Ela se aproximou de mim com raiva. — Você vai voltar naquela editora amanhã e vai pedir seu trabalho de volta. E vai entrar agora e morar aqui comigo e Henry!

Arregalei os olhos.

—Regina...

—Se for para ter você em tempo integral, mas infeliz, eu não quero!

—Mas...

—Não, nem pense em argumentar. Você uma vez na vida vai fazer o que eu estou pedindo.

—Ok. — Eu estava abismada. — Amanhã ligo para o Gold.

Ela soltou o ar que estava prendendo e pareceu aliviada.

—Obrigada... — Olhou-me com ternura. — Venha para dentro, vamos dormir. — Ofereceu a mão e eu a tomei.

Calmamente ela foi me puxando para dentro, e fomos ganhando o apartamento até chegar ao quarto. Onde deitamos juntas e nos admiramos até pegar no sono.

[...]

Regina

Editora Vogue — Três dias depois.

Entrei na editora com a minha conhecida postura de imponência. O barulho dos saltos em contato com o porcelanato era como um aviso de que a "chefe" chegou. E como sempre, todos corriam até encontrar seus lugares de origem. Eu adorava esse respeito.

Entrei em minha sala e notei que alguém ocupava meu lugar, mas mal consegui ver quem era, pois estava de costas.

—Essa sala é minha, e a cadeira também. — Disse seca.

Soltei minha bolsa na mesa com força e cruzei os braços. A cadeira foi virando lentamente dando total visão a quem estava sentado nela.

—Robbin?

—Oi meu amor... — Ele deu um sorriso cínico.

—O que faz aqui?

—Esses dias resolvi passar na sua casa para te visitar, pois fiquei sabendo que você não estava nada bem. — Ele fez uma falsa expressão de pena. — E vi você e aquela sapatão saindo de casa, e resolvi seguir vocês...

—Você ficou me espionando, Robbin? Isso é crime!

—Cale a boca! — Ele se aproximou com raiva.

—Quem você pensa que é? — Não deixei-me intimidar.

—Sou seu marido!

—Não mais... — Fui até a porta e abri, segurando aberta. -Saia!

—Eu vou sair, Regina. — Ele caminhou até mim e parou com o rosto bem próximo ao meu. — Mas saiba que eu sei que você e Emma estão afrontando o conselho, e eles ficaram cientes disso, pois sou o novo representante do conselho. Você está demitida.

Notas finais
Comentem o que vocês acharam!