High Key
3 Somewhere weakness is our strength
Notas iniciais
–Emma-
Tongariro Alpine – 12h00
–Não acredito que me submeti a isso. — Regina andava mais a frente com pressa e cara de poucos amigos. — Meus pés estão me matando e ainda estamos na metade do caminho!
–Mãe, Emma te avisou que não era para vir de salto. — Henry ria da mãe.
–Regina, ei! — Tentei para-la, segurando seu braço, mas ela o soltava e continuava andando. — Dá pra esperar?
–Quero chegar logo ao resort.
Henry agora ignorava nós duas e tirava fotos do alto dos alpes vulcânicos, por onde estávamos passando.
–Ei! — Falei mais alto e segurei seu braço com firmeza.
A morena parou e virou-se abruptamente para mim, nos fazendo ficar bem próximas. Senti minha respiração pesar e meu coração ganhar um ritmo acelerado.
–Tire os sapatos. — Disse ignorando minhas alterações.
–O que? — Ela arregalou os olhos. — Ficou maluca? E andar descalça nesse chão, no way!
–Regina! — Sentei-me no chão e comecei a desamarrar minhas botas. — Tire logo esses saltos e coloque minhas botas.
–Com certeza você ficou maluca! — Ela andou apressada me deixando para trás. — Acha mesmo que eu vou enfiar meus pés nesses trapos?
–Oh, por favor pare com a futilidade uma vez na vida. — Rebati grosseiramente. — Abra os olhos e veja onde estamos Regina! Ninguém liga para suas roupas, todos estão aqui para renovar a alma e tentar escapar das futilidades do mundo. Você se dá conta de quantas pessoas passam fome por ai, desejando ter a só metade da quantia que você pagou em suas roupinhas de grife, para comprar alimento? Acorde!
Eu realmente tinha ficado irritada com aquela palhaçada toda dela. A morena parou e virou-se para mim com o semblante sério. Henry olhava-me da mesma forma. Por um momento achei que ela fosse me xingar, me criticar ou até me agredir, mas ela respirou fundo e tirou os saltos de pé mesmo e estendeu a mão para que eu lhe entregasse as botas. Sorri de canto e joguei as botas para ela. Ela as calçou e esperou que eu me levantasse para seguirmos adiante.
–Emma, você vai mesmo fazer mais 4 horas de caminhada, nesse terreno, descalça?
–Sim. — Dei de ombros.
–Mas você vai machucar os pés. — A morena demonstrava uma real preocupação.
–Estou acostumada, já passei por situações piores, acredite. — Fiz pouco caso e continuei a caminhada com eles.
Mantivemos o silêncio durante meia hora de caminhada, até que Regina se pronunciou.
–Você já esteve em muitos lugares? — Ela tinha a voz baixa para que Henry não ouvisse e esboçou um certo remorso pela cena que fez anteriormente.
–Já. — Fui seca.
–Lugares muito ruins, devo pensar... digo, pelo que você me disse, eu deduzi. — Ela falava com receio
–Presenciei cenas e até já estive em situações horríveis. — Olhei para ela séria. — O mundo é tão traiçoeiro quanto é bonito.
–Quais situações? — Ela realmente estava interessada.
–Deixa eu pensar... — Busquei algo no emaranhado da minha memória. — Bom, a pouco mais de 2 anos eu estive na África subsariana em uma expedição para fotografar a cultura africana, mas eu sempre gosto de fotografar outras coisas, sempre tem material bom pra revista. Enfim, eu estive em uma cidade que as condições eram de miséria mesmo. Eu nunca vi nada igual. Crianças definhando de fome e mal cuidadas, não pela mãe, mas pela pobreza.
Ela ouvia atenciosa e vez ou outra assentia para que eu continuasse.
–Sabia que lá morre uma criança por minuto com Malária? Eu passei uns dias fazendo trabalho voluntário em uma instituição médica que era especializada em tratar a malária infantil, simplesmente não me conformava em ver aqueles pequenos morrendo em meus braços, era horrível. Você que é mãe de um garotinho, pode imaginar o quão assombroso é. Depois que eu voltei para New York, peguei todo o dinheiro que consegui com as fotos de lá, doei à instituição e comprei várias cestas básicas e mandei para distribuírem por lá.
–Eu não consigo imaginar uma coisa horrível assim... foi muito bonito o que você fez por eles, Swan. — Ela deu um sorriso singelo, mas que ganhou meu dia.
–Foi, mas eu fiquei sem comer por um tempo... — Gargalhei.
–Quais outros males você já viu ou enfrentou?
–Eu já fui a Síria, fotografar a guerra. Tive que me enfiar no meio do exército, em um bombardeio praticamente todos os soldados que estavam ao meu lado morreram. O barulho da explosão foi tão alto que me deixou tonta e eu não conseguia ouvir mais nada, só ruídos. Achei que fosse morrer. — Ela ouvia com atenção. — Mas consegui algumas fotos muito boas do que restou da guerra e de todo esse sofrimento que ela causou. Eu consegui fazer com que os leitores da revista sentissem tudo o que eu e as pessoas fotografadas estávamos sentindo naquele instante. Quando se vai fotografar, Regina, precisa conhecer o que está fotografando. Entrar na vida da pessoa e naquele cenário com a alma.
Regina demonstrou estar bem impressionada. Mal notamos quando a trilha havia chegado ao fim. Henry comemorou com o bracinhos pro alto e um lindo sorriso no rosto.
–CONSEGUIMOS!! -Ele gritou radiante.
–Sim garoto. — Baguncei seu cabelo com a mão e olhei para Regina.
Algo no olhar dela fez um arrepio passar por todo meu corpo. Era um olhar que me tragava.
–O que acha de almoçar conosco, Swan? — Regina estava parada de frente para mim, com as mãos sobre os ombros do filho, olhando-me com esperança.
Algo me dizia que Regina estava me convidando para o almoço, com intuito de saber mais sobre minhas viagens e minha vida. Modéstia à parte, minha vida era bem interessante mesmo.
–Seu marido não vai se incomodar? Ele pode querer passar um tempo com vocês com privacidade.
–Robin teve que voltar para casa. Ele foi chamado para uma campanha de uma marca de roupas.
–Vamos Emma, por favorzinho? — Henry juntou as mãozinhas e me deu aquele olhar de cachorro pidão e gato sofrido.
–Eu topo!
[...]
–Henry Daniel Mills, você trate de comer esse brócolis ou eu tomo essa sua câmera fotográfica.
Ri baixinho da cena. Henry com um bico do tamanho do mundo fazia drama toda vez que ia botar um pedacinho de brócolis na boca. Regina de forma alguma cedia. Ele finalmente comeu o tal verdinho, fazendo cara de nojo. Passar o dia com eles tinha sido incrível.
Pensando nisso, percebi que não conhecia nada daquelas duas pessoas que me encantaram.
–De onde vocês são? — Interrompi uma nova discussão dos dois por mais um pedaço de brócolis.
–Nós moramos em New York. — Henry respondeu. — Mas mamãe nasceu em Boston.
–E como você se tornou editora-chefe da Vogue?
–Bem, logo que eu terminei a faculdade de publicidade eu comecei a me interessar por moda também, com isso, eu decidi fazer uma segunda graduação de Design de Moda. — Ela brincava com a comida no prato enquanto falava. — Terminei a faculdade de moda em 3 anos e entrei no mercado de trabalho, mas eu nunca deixei minha paixão por publicidade de lado. Decidi que iria trabalhar com ambas as coisas. Iniciei um projeto pessoal de editorial de moda e comecei a enviar como portfólio para editoras de revistas de moda. Em menos de 5 meses, uma revista de moda pequena me chamou para trabalhar com eles. Fiquei por 3 anos nessa revista como diretora de arte, até um evento de moda grande acontecer, e a revista ser chamada para cobrir. Acabaram me dando a oportunidade de sair do escritório e ir para o evento, foi assim que eu conheci a Victoria Smurfit, que na época era a editora-chefe da Vogue, e aproveitei para mostrar meu trabalho a ela. Ela ficou bem impressionada e me contratou para ficar na parte do editorial de moda. E ai eu fui crescendo lá dentro, ganhando respeito, até a Victoria sair.
–Você é incrível. — Acabei dizendo sem pensar.
Percebi o que tinha dito e senti meu rosto corar. Regina parecia ter ficado um pouco tímida também. Regina levantou-se com elegância.
–Precisamos ir, Swan. — Ela olhou para Henry que se levantava cabisbaixo. — Temos que terminar de arrumar as malas, pois estaremos voltando para NY hoje a noite.
Eu me senti estranha com as palavras da morena. Como se algo tivesse acabado de ser tirado de mim. Regina mandou Henry se despedir de mim.
–Adeus Emma! — O garotinho agarrou minhas pernas e as apertou num abraço cheio de tristeza. — Adorei te conhecer.
–Eu também, garoto. — Abaixei à sua altura e depositei um beijo longo em sua testa. — Eu adorei te conhecer também, futuro fotógrafo documentarista.
Henry colocou um papel no bolso da minha camisa e cochichou no meu ouvido "só abra quando estivermos distantes", assenti e baguncei seu cabelo. Regina parou na minha frente, com sua postura impecável e olhou em meus olhos.
–Foi um prazer, Swan. — Ela estendeu a mão. — Desejo tudo de melhor para você.
Apertei sua mão e dei um sorriso fraco.
–Desejo o mesmo, Regina.
–Ah... obrigada, você sabe... por ter me emprestado as botas. — Apenas sorri para ela e a vi se distanciar com o garoto.
[...]
Naquela noite, eu não dormi pensando em Regina e seu garoto. Afinal, o que estava acontecendo comigo? Em nenhuma das minhas viagens eu havia me afeiçoado tanto a alguém, e olha que eu tinha contato com as mais diversas pessoas.
Nunca pensei em constituir uma família, mas depois desses poucos dias com os dois, senti-me vazia pela primeira vez na vida.
Peguei o papel que Henry havia me dado e lembrei do que ele me disse.
"Só abra quando estivermos distantes"
A essa hora, eles provavelmente estariam muito distantes de mim. Abri o pequeno pedaço de papel e sorri ao ler as letrinhas desengonçadas do garoto no papel.
Desisti de pregar os olhos, sentei-me ainda na cama e abri o notebook. Coloquei o cartão de memória da câmera na entrada do notebook e passei as fotos que havia tirado e comecei a editá-las. Iria mandá-las para o editor da revista ditando qual seria usada em casa parte da matéria principal da revista e qual seria a capa.
Sempre escolhia a foto que mais tinha impacto emocional sobre mim para ser a capa. Os editores confiavam totalmente em mim para as escolhas das imagens que seriam usadas na revista. Com os anos trabalhando para eles, acabei conquistando tal confiança de Gold, o editor-chefe.
Terminei todas as edições, escolhi cada foto a dedo como sempre fazia e as enviei, colocando uma pequena observação em forma de pedido no e-mail. Olhei o relógio que marcava alguma hora da madrugada e me deitei com intuito de pegar logo no sono, pois pela manhã eu iria pegar a estrada novamente, dessa vez a caminho de Camboja para passar um mês fazendo fotos dos templos de lá. Camboja é um reino localizado ao sul da Indochina, entre a Tailândia e o Vietnã. Nunca havia ido até lá, então estava animada, o lugar é um pouco desconhecido turisticamente falando, mas é maravilhosamente lindo.
Pensei novamente no primeiro dia que vi a morena e seu garoto. Um sorriso tomou conta do meu rosto e continuou lá mesmo depois de ter adormecido.
–Regina-
New York, 1 semana e 3 dias depois.
–Henry, querido, você vai se atrasar para o colégio e irá me atrasar para o trabalho! — Gritei da sala do meu apartamento, enquanto calçava meus saltos.
–Estou pronto mamãe. — Henry surgiu na sala com um sorriso no rosto e sua mochilinha nas costas.
Arrumei seu agasalho, que praticamente o engolia e fazia com que ele desaparecesse debaixo de tanto pano. Dei um singelo beijo em sua testa e o puxei pela mãozinha.
–Tenham um bom dia! — Robin desejou da cozinha sem tirar os olhos de seu jornal.
Entramos no elevador e apertei o botão do térreo. Henry cantarolava uma música de seus desenhos preferidos, bem distraído ao meu lado. O elevador anunciou que havia chegado ao destino com um toque estridente.
Peguei a mãozinha do meu filho novamente e saímos do elevador.
–Lembre-se de mostrar a agenda para a professora, querido. — Novamente o cobrei.
–Senhora Mills? — O porteiro do prédio chamou.
–Sim?
–Deixaram isso para a Senhora, hoje. — Ele estendeu um retângulo fino embrulhado em um papel plástico.
Peguei o objeto de sua mão e estranhei. Não havia pedido nada.
–Obrigada. — Segui para o estacionamento do prédio.
Assim que avistei o meu Mercedes Classe GLK grafite, apertei o botão que destravava as portas. Henry como sempre fazia, entrou correndo na parte de trás do carro, como sempre fazia. Entrei no carro e joguei o pacote que o porteiro havia de entregado no banco do carona. Henry se debruçou entre os dois bancos da frente, colocando sua cabecinha na cabine do carro.
–Abra mamãe! — Gargalhei.
–Seu pequeno grande fofoqueiro. — Brinquei fazendo cócegas em sua barriga.
Ouvir aquela gargalhada gostosa do meu garoto fazia minha manhã.
Concedi o desejo de Henry, e rasguei o plástico desajeitadamente. Quando percebi o que estava dentro do embrulho o sorriso que antes enchia meu rosto, foi substituído por uma expressão de incredulidade.
Em minhas mãos estava a última edição da revista National Geographic que nem havia saído nas bancas ainda. A imagem que estampava a capa era a foto de Regina e Henry brincando na praia, na Nova Zelândia, logo após aquele primeiro encontro com a loira pervertida que tirava fotos de seu filho. A foto estava com um efeito que a tornava mais viva e emanava a alegria que eles estavam sentindo. Justificada a esquerda em caixa alta com tipos fortes, vinha a frase "Em algum lugar a fraqueza é a nossa força". Claro que aquela frase tinha a ver com a matéria sobre a trilha vulcânica em Nova Zelândia, mas algo me dizia que aquela foto e aquela frase tinham uma indireta da loira.
–Como...ela... — Fiquei sem palavras.
–É de Emma, mamãe! — Henry falou com uma enorme alegria. — Somos nós!
–Como ela achou nosso endereço?
–Eu dei a ela.
–Você o que, mocinho? — Virei-me para ele indignada.
Ele encolheu os ombrinhos e abaixou a cabeça.
–Eu só achei que pudesse vê-la algum dia de novo. — Senti a tristeza em suas palavras.
Ele realmente havia se apegado a loira irritante. Henry era uma criança muito fechada e quase não tinha amigos. Aquilo acabava comigo. Ver nos olhinhos dele que ele não estava tão feliz e estava se sentindo sozinho. Por mais atenção que Robin e eu pudéssemos dar a ele, sentia que faltava algo em seu coraçãozinho.
–Filho, a Emma viaja demais... talvez seja difícil vê-la novamente. — Não quis iludir meu garotinho.
–Mas ela se lembrou da gente e mandou até um bilhete. — Ele apontou para um envelope de papel que caiu de dentro da revista.
Peguei o envelope e o virei. Inúmeros carimbos que nunca havia visto antes, mostrava que a carta percorrera um longo caminho. "Aos cuidados de Henry Mills" estava escrito nela. Abri o envelope e tirei de dentro dele o um papel um tanto quanto sujo. Uma caligrafia perfeita foi exibida, quase pulando do papel de tão orgânicas que eram as letras. Comecei a ler em voz alta.
"Caro Henry Mills,
Não sei daqui a quanto tempo você conseguirá receber esta carta, mas espero que seja em breve e que entreguem junto com a revista. Pedi ao meu editor que enviasse a primeira cópia da revista para ser o primeiro a ver a capa. E que você consiga sentir, através dessa foto, o mesmo que eu consegui sentir ao ver você e sua mãe. Escolhi ela como capa porque quando estava lá, naquela praia, tirando fotos suas, senti emanar de você uma força inigualável. Fez-me sentir viva. Na mesma hora o título da matéria veio em minha mente. Antes eu não queria ter qualquer apego por ninguém, principalmente por conta da minha profissão. Se me apegasse a alguém, provavelmente sentiria saudades durante as viagens, e a saudade me atrapalharia. Não queria constituir uma família, porque eu já me sentia completa vivendo meu sonho. Família e amigos para mim eram uma fraqueza, até te conhecer. Depois que te conheci, garoto, percebi que estava mais vazia do que um saco de balas na mão de uma criança. Você acabou sendo minha força. Agora, finalmente posso dizer que tenho um amigo. Alguém com quem posso contar, alguém o qual não me importo de sentir saudades e alguém com quem compartilhar minhas aventuras. A partir de hoje, pequeno futuro fotógrafo, eu irei mandar uma carta por semana contando meu novo destino e minhas novas aventuras. Nesse momento eu estou em Banteay Srei, em Camboja, escrevendo esta carta em cima da cabeça de uma estátua. Logo depois irei procurar por relíquias e tesouros perdidos. Gostaria muito que você pudesse estar aqui me ajudando, porque obviamente você já os teria encontrado, já que é mais esperto. Mas prometo que se encontrar alguma relíquia, a levo para você.
Espero te ver em breve,
Emma S.
P.S.: Mande um beijo para aquela sua mãe chata."
Terminei de ler a carta e olhei o rostinho de meu filho. Ele estava radiante e um brilho que nunca vi, surgiu em seu olhar.
–Ela gosta de mim mamãe! Eu sou amigo dela! — Ele pulava no banco de trás comemorando, com sua carta na mão. — Vamos comprar uma caixa grande porque eu quero guardar muito bem as cartas que minha amiga Emma mandar!
"Aquela loira boba", pensei. Um sorriso tomou conta do meu rosto e ao mesmo tempo um medo me dominou. E se a loira desse falsas esperanças de amizade ao meu filho. Ela era uma mulher ocupada e quase nunca parava de viajar.
Emma Swan, porque será que eu tinha a impressão de que você me daria trabalho?
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