High Key
29 Pedra Sepulcral
Notas iniciais

—Emma—
A casa de Nicolas Flamel — Rue de Montmorency, 51 — Marais, Paris.
Tinha a câmera apontando para a fachada antiga e maltratada pelo tempo. Em poucos segundos, eu havia conseguido capturar o máximo de imagens com ângulos diferentes do local.
Observei Regina com seus óculos de leitura, observando com atenção as paredes, enquanto anotava em seu bloquinho algumas coisas. Henry me ajudava a fotografar, com sua câmera (aquela que eu havia dado de presente a ele).
Troquei a lente para uma macro, que me ajudaria a fotografar os detalhes das inscrições nas paredes da casa Flamel.
—Essas gravuras devem ter mais de seiscentos anos. — Comentei animada.
Henry tocava e observava as marcas na pedra, encantado.
—Falou com o rapaz que vai traduzi-las para nós? — Regina perguntou.
—Sim, iremos encontrar com ele, assim que terminarmos de fotografar aqui.
—E onde será o encontro?
—Iremos até o escritório dele.
—Que fica...?
—Bem, vamos dizer que ele gosta de consertar coisas...
[...]
SainteChapelle — Paris.
Entramos na igreja e apenas alguns turistas e alguns membros do presbitério.
—Venham comigo. — Comecei a me esgueirar por entre as pilastras do interior da igreja. — Não façam barulho e nem toquem em nada!
—O que vamos fazer, Emma? — Regina.
—Vamos encontrar a pessoa que vai traduzir esses hieróglifos para nós.
Quando vi a porta que dava acesso as escadas para os andares superiores, rapidamente cruzei, sendo seguida por Henry e Regina. Disparamos escadas acima.
—Nós podíamos estar aqui? — A morena perguntou desconfiada.
—Claro! Temos uma reunião com alguém, aqui...
Assim que disse isso, avistamos uma placa vermelha escrito "proibida a entrada".
—Emma Swan...
—Shhh, amor. Eu sei o que estou fazendo, vamos!
Continuamos subindo bons andares, e quando já estávamos exaustos, chegamos ao topo da torre do relógio. Mais especificamente, na casa das máquinas, como costumavam chamar.
—Olá? — Disse em alto e bom tom. — Tem alguém aqui?
Um barulho de metais caindo e se chocando, foi ouvido. Em seguida, um alçapão de madeira no chão da torre foi aberto, e de lá uma cabeça surgiu.
—Emma? — A voz conhecida se fez presente.
Ele estava com sua lupa de cabeça, que impedia que pudesse nos enxergar. Seu rosto estava coberto de graxa e poeira, assim como suas mãos e suas roupas velhas.
—August... — Sorri quando ele levantou a lupa. — Senti sua falta, amigo!
—AUGUST! — Henry sorria e se movia, animado.
August saiu de dentro do buraco e bateu as mãos pelas roupas, a fim de limpá-las.
—Fico tão contente em ver vocês... — Puxou-me para um abraço cúmplice.
—Nós também estamos, amigo. — Soltou-me, indo em direção a Regina.
—Fico tão contente que que você melhorou Regina...
—Obrigada August. — August a soltou e abraçou Henry de forma infantil. — Não esperava que o "amigo que tem compulsão por consertar coisas e que sabe arcaico" era você...
—Vamos dizer que sou um homem de muitas faces. — Piscou para ela.
—Tio August, o que você tava fazendo nesse buraco?
—Henry, aqui é onde ficam as engrenagens que controlam o relógio dessa capela. Sabe quando essa capela foi construida? — O garoto negou com a cabeça. — Em 1261. E sabe há quantos anos esse relógio não funciona mais? Cerca de 200 anos!
—Wow!
—Pois, é garoto. — Limpou as mãos em um pano já encardido. — Mas e então, onde estão os hieroglifos?
Um rangido agudo ecoou pela torre, e algo parecido com barulho de dobradiças enferrujadas soou.
—Vamos sair daqui antes que o sino toque. — Pegou sua bolsa, colocando suas coisas dentro, de qualquer jeito, e nos empurrando para fora. — Caso contrário, vamos ficar surdos.
Em minutos estávamos na entrada da capela, ouvindo o sino do relógio tocar alto. August olhava para torre com orgulho, enquanto todos que passavam pela rua, com suas expressões incrédulas, pararam para ouvir o relógio que há mais de 200 anos não funcionava.
—Vamos, August... temos muito o que ver. — Puxei meu amigo para um banco de cimento na praça, próxima a capela.
—Tem estrelas e espadas, e eu lembro que já vi isso em algum lugar... — Mostrei as imagens dos hieróglifos pelo visor da câmera. — Onde eu já vi isso?
—A pedra sepulcral no túmulo de Flamel, tem espada e estrela.
—Isso! August, você é um gênio... temos que ir até o tumulo de Flamel.
[...]
Museu de Cluny – Paris.
August falava com uma mulher simpática dentro do museu, pedindo que liberasse nossa entrada, já que o mesmo estava fechado.
—Vamos, ela nos deu meia hora.
Ao chegar na parte do museu onde ficava a pedra sepulcral de Flamel, reiniciamos nossa analise.
—Tem espada, tem estrela e tem chave. — Falei, apontando para a pedra.
—Estrela é amônia. — August disse. — Faz sentido?
—Nenhum... continue. — Pedi.
—Cal, espada é Cal!
—Mas e a chave?, veja a chave...
—Não tem nenhuma chave nos outros outros.
—Nenhuma chave? — Conferi a foto, novamente. – Ok. Pensa Emma, pensa...
—Ele tá levando a chave nas costas, olha. – Regina se manifestou pela primeira vez. – Se está nas costas, não quer dizer que algo está atrás?
Minha mente teve um clarão.
—É isso, Regina! – A beijei com força e animação. – A resposta está atrás da lápide! Preciso ver atrás, August.
—Emma, é uma peça de museu, não podemos mexer... — Antes que ele terminasse de falar, tirei a pedra do suporte onde ela se mantinha e coloquei-a no chão, com a parte de trás virada para cima.
—Não tem anda atrás. — Henry disse desanimado.
—Claro que tem, não percebem? Amônia e Cal. Sulfato de amônia destilado com Cal... — Corri até o carrinho de limpeza que a faixineira havia deixado no local e analisei a composição de cada produto de limpeza ali. — Dois produtos de limpeza básicos misturados, tem essa composição.
Peguei os dois produtos que procurava, e misturei uma pequena quantidade de cada um na tampa.
—Emma, isso é uma peça de museu! — Regina repreendeu quando me viu entornar o produto na parte de trás da lápide.
—Não vai causar dano nenhum. — Com um pano velho, espalhei a mistura por toda parte traseira da pedra. — August, preciso de um fósforo ou isqueiro...
—Fósforo? — Regina estava horrorizada. — Não, não, Emma, sem fósforo!
—Toma. — August me deu uma caixinha com fósforos.
—Emma, isso é um museu, você tá doida? — A morena estava histérica.
Acendi o fósforo e aproximei da superfície molhada com a mistura.
A reação instantânea, fez o fogo se espalhar lentamente por toda parte traseira da lápide, e assim que as chamas apagaram-se, foi possível ver um texto arcaico aparecer.
—Isso, é demais! — Henry estava encantado com tudo.
—Fotografe, Henry. — Pedi. — O que está escrito, August?
—"O abutre lidera o caminho, com a luz mais cintilante num dia sombrio. Sob o céu do paraíso, o que foi perdido deve ser reavido. No meio do caminho, entre o sombrio portal, seu túmulo jaz o fadado casal."
—De baixo do céu noturno ou ao ar livre? — Perguntei, já tentando decifrar o enigma.
—Ou no túmulo. — Regina mais uma vez nos surpreendeu. — Há um céu noturno gravado na lápide.
—Isso, e ai? — Olhei para August.
—"O sombrio portal" — Repetiu.
—Inferno! O portão do inferno!
—Mas isso não esclarece nada! — Regina bufou.
—Antigamente, os alquimistas acreditavam que o número do diabo era 741. Faz sentido que achassem que o inferno estava a 741 pés ou 225 metros abaixo da superfície da terra? — August.
—Então 113 metros abaixo do túmulo de Flamel, é onde está a pedra!
—Esperem ai! — Henry chamou a atenção. — Como vamos descer 113 metros abaixo da terra?
Olhei para August, August me olhou.
—As catacumbas! — Falamos ao mesmo tempo.
—Estamos em Paris, e tem mais de 400km em túneis subterrâneos. — August explicou empolgado.
—Embaixo da cidade de Paris há centenas de quilômetros de túneis. Nesses túneis há canais e reservatórios, prisões, criptas, discotecas e galerias, cofres bancários e mais de 400 km de extensão cheinhos de ossos que possuem mais de dois séculos de existência!
—E tudo começou quando os cemitérios passaram a sofrer com a superlotação. Não tinha mais lugar na cidade para enterrar os mortos, e os corpos eram colocados uns sobre os outros. — August completou.
—Para solucionar o problema... — Continuei. — Em 1785, o Conselho de Estado Francês decidiu construir novos cemitérios na cidade. Porém, isso não resolveu o problema. Os demais cemitérios estavam superlotados. Ou seja, mesmo que os mortos passassem a ser enterrados nos novos cemitérios, ainda assim havia o problema de superlotação nos demais. Um dos casos mais graves aconteceu com o cemitério “desSaints-Innocents”, o mais importante da cidade na época. Em 1780, esse cemitério chegou a um nível de lotação tão grande, que a população que morava ali nos arredores começou a adoecer devido à contaminação provocada na água e solo. Para vocês terem uma ideia, há dados históricos que relatam mais de MIL CORPOS em uma única tumba. Eram 2 metros de cadáveres por tumba! Essa situação acabava resultando em mais mortes e lotando ainda mais os cemitérios. Em 1763 o rei Luiz XV resolveu proibir que qualquer corpo fosse enterrado dentro de Paris e que os corpos excedentes fossem removidos. Mas como a igreja não queria que cemitério algum fosse movido ou perturbado, nada foi feito. Até que em 1780 houve um período de muita chuva no mês de maio, e o peso dos corpos era tão grande que com aquela umidade toda o chão cedeu e causou a queda da parede do mercado Les Halles. Corpos em decomposição e ossos inundaram o local, o que causou ainda mais contaminação. Como a situação já era de calamidade pública, em 1786 surgiu a ideia de esvaziar os cemitérios e mover os corpos para os túneis abandonados da cidade que surgiram no século 13 com a extração de calcário para a construção dos prédios.
—Eles moveram, aproximadamente, 6 milhões de pessoas mortas! — August contou, impressionado.
—Durante a Revolução Francesa os corpos eram colocados diretamente nas catacumbas. Foi só em 1876, com o surgimento de novos cemitérios, que as Catacumbas de Paris pararam de receber corpos. — Expliquei.
—Hoje, apenas 2km de extensão das catacumbas estão abertos para visitação. Quem se arrisca indo ao trajeto proibido é pego pela polícia francesa. — August sorriu malicioso. — E tenho certeza que nós vamos nos arriscar pelo lado proibido.
—Pera ai! — Regina andava de um lado para o outro. — Deixa eu ver se entendi... vocês dois querem se enfiar debaixo da terra no meio de um cemitério com mais de 6 milhões de esqueletos?
—Isso mesmo, gina. — August ria da expressão de nojo e horro da morena.
—Preciso conseguir alguns mapas das catacumbas com Thierry. — Sorri satisfeita. — Vai ser divertido.
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