High Key

20 Just starting to crawl


Notas iniciais
Voltei! Desculpem a demora, eu tive umas semanas bem cheias de trabalho e mal consegui escrever. Quero agradecer a quem tem acompanhado fielmente e comentado, amo vocês ♥ Vamos ao que interessa! Quero que vocês escutem "Say Something - A Great Big World" na parte da despedida. Não me matem por favorzinho. Boa leitura.

—Emma-

Senti duas mãozinhas apertarem minha bochecha. Abri os olhos lentamente, acostumando-me com a claridade.

—Bom dia dorminhoca. — Henry disse com um sorriso.

O garotinho estava sentado ao meu lado na enorme cama de casal, com Maia no colo.

—Bom dia. — Espreguicei-me. — Que horas são?

—Seis da manhã. Tia Ruby deixou Maia aqui e foi trabalhar.

—Henry, você vai se atrasar para a escola. — Pulei da cama e peguei Maia de seu colo. — Ei lindinha, como está? O que está esperando garoto? Vá logo se arrumar.

O garoto correu para o seu quarto. Deixei Maia na cama, distraída com seu ursinho de pelúcia, enquanto me arrumava. Vesti uma calça jeans preta, uma camiseta branca e um blazer marrom. Maia, que brincava com o próprio pé, olhou-me com um sorriso sem dentes.

—Que foi? Gostou? — A neném soltou uma gargalhada gostosa. — Isso deve ser um sim...

Peguei a garotinha e segui para a cozinha para preparar o café da manhã. Tropecei em alguns brinquedos pelo caminho, que causavam um dor considerável. Meu apartamento havia virado uma bagunça desde que comecei a ficar com Henry e Maia. Havia brinquedos pela casa toda e eu não tinha tempo, nem energia de arrumá-la.

Coloquei a garotinha na cadeirinha de alimentação e comecei a preparar as panquecas e chocolate quente que Henry adorava.

—Emma!

—Está quase pronto, Henry. — O menino, agora parecia ter o apetite de um urso.

—Eu preciso fazer a barba e só tem essa lâmina de mulher. — O adolescente levantou a gilete rosa.

—Que barba garoto? — Aproximei-me dele forçando os olhos para enxergar.

—Veja, bem aqui. — Ele apontou para um tufo de pêlos crescendo no canto do rosto.

—Garoto, tem certeza que não são cravos? — Apertei mais os olhos tentando ver qualquer vestígio de barba.

—Não, Emma! — Ele aproximou mais o rosto. — Você está cega.

—Devo estar... mas vamos fazer o seguinte. — Voltei a dar atenção ao café. — Hoje passo no mercado e compro espuma de barbear, uma lâmina que todo homem teria inveja e loção pós barba. O que acha?

—Ótimo! Violet pode não gostar de homens de barba. — Ri.

—Como está indo com Violet?

—Muito bem! Ela topou sair comigo. — Disse convencido.

—Sua mãe irá me matar...

—Emma, você ainda tem esperanças? — A pergunta dele pegou-me de surpresa.

—Como assim? Claro que tenho. — Tentei passar confiança. — Você não tem? Sua mãe é forte, garoto.

—É que... eu já não sei se ela vai acordar mais.

—Ei! — Larguei tudo o que estava fazendo e fui até ele. — Não diga isso. Você precisa ter fé, Henry.

—Mas ela não mostra nenhum estado de melhora, Emma.

—Não é fé se usar os olhos, garoto.

[...]

Deixei Henry no colégio e segui para o mercado com Maia. Era estranho para mim voltar a ter essa rotina e estar rodeada de tanta responsabilidade, mas confesso que estava gostando muito. Claro que as viagens fazem falta, a fotografia faz falta. O máximo de fotografias que eu fazia por dia, eram fotos da Maia ou de pessoas aleatórias na rua. Sim, ainda tenho a mania de carregar a câmera para todos os lugares onde eu vou.

—Ok Maia, vamos ver o que mais preciso pegar. — Olhei para a menina, que estava sentada tranquila na cadeirinha do carrinho de compras e depois olhei para o papel em minha mão. — Cereal para seu primo.

Empurrei o carro até a seção de cereais. Estava acostumando-me a essa vida em família.

—Seria tão incrível ter sua tia de volta, Maia. — Desabafei.

Maia apenas fez um som com a boca e voltou a se concentrar em morder seu próprio pé.

—Isso deve ser gostoso, você vive o fazendo. — Segurei seu pezinho e soltei várias mordidinhas de leve.

A gargalhada da pequena ecoou pelo supermercado. Era tão incrível acompanhar o desenvolvimento desse ser minúsculo assim tão de perto. Em cinco meses de vida, Maia conseguiu fazer com que eu me apaixonasse com tão pouco. Peguei a caixa do cereal preferido de Henry e joguei dentro do carrinho.

—Sua mamãe Ruby pediu que eu comprasse papinha para você. — Disse a Maia. — Vejamos.

Peguei um dos pequenos potes de vidro e levantei-o na frente da pequena.

—Gosta desse sabor? — Ela se remexeu na cadeirinha e continuou me olhando séria. — Acho que não né? Ameixa. Afinal, quem gosta de ameixa?

Dei de ombros e coloquei o vidro no lugar para depois pegar outro.

—Maçã? — Sacudi o pote em sua direção e ela soltou uma gargalhada. — Ótima escolha. Agora vamos, tenho que preparar o almoço pois receberemos visita hoje.

Empurrei o carrinho até uma das filas para passar os produtos e depois que os paguei e coloquei tudo na mala do carro. Estava usando o carro de Regina hoje, afinal, meu fusca não aguentaria levar esse monte de compras. Prendi Maia na cadeirinha atrás e dei partida.

Em poucos minutos já estava subindo com as compras. Nos primeiros dias em que estive cuidando de Maia, fiquei um pouco enrolada com a parte de carregar bolsas e compras, e a neném junto. Não entrava na minha cabeça uma solução para carregar as sacolas e a garotinha, mas Ruby em uma de suas folgas, havia pedido para que eu fosse ao supermercado com ela, e a observando encontrei a melhor forma de carregar um bebê e sacolas. Se chama: Sling.

Já era pouco mais que uma hora da tarde e Maia dormia tranquilamente dentro do moisés enquanto eu cozinhava. Ouvi o barulho da fechadura da porta e vi Henry entrar. O garoto jogou sua mochila no sofá e veio até mim.

—Hum... que cheiro bom. — Depositou um beijo em meu rosto. — Você está melhorando nesse lance de cozinhar.

—O que? Eu sempre cozinhei muito bem garoto! — Fiz uma expressão ofendida.

—Não, de jeito nenhum. Você botou fogo no miojo no primeiro dia que eu vir morar com você!

—Eu estava muito ansiosa aquele dia, tá? — Fiz bico. — Agora pare de me amolar e coloque a mesa. August vem almoçar conosco.

—Eba! -Henry deu um grito em comemoração. — Vou vencê-lo no Call of Duty dessa vez.

—Henry, você sabe que não pode jogar até terminar todos os seus deveres. — Repreendi-o.

—Mas Emma, hoje o August vem aqui e eu prometo que faço o trabalho depois que terminar. — O garoto juntou as mãos numa súplica e olhou-me com aqueles olhos.

Será que um dia eu irei resistir a essa carinha? Teria muito o que aprender com Regina. Se a morena estivesse aqui, com toda certeza ela iria mandá-lo terminar os trabalhos antes de jogar.

—Tudo bem. — Bufei. — Vá por a mesa, pelo menos.

[...]

Henry e August gritavam um com o outro na sala, brigando por algo que aconteceu no jogo. Estava na cozinha lavando a louça com Maia ao meu lado, dentro do carrinho.

—Sabe Maia, você tem sido minha maior companheira ultimamente. — Desabafei. — Henry está crescendo, entrando naquela fase difícil e não quer mais saber de mim.

Olhei para Henry com um enorme sorriso enquanto jogava.

—Ele está cada dia mais parecido com ela. — Maia olhava-me como se realmente me desse atenção. — O olhar, o sorriso e até aquela mania de revirar os olhos. Será que... será que seria mesmo egoísmo deixá-la neste estado? Será que ela está sofrendo muito? Eu prometi a ela que não desistiria, que não a deixaria novamente.

A garotinha colocou a língua para fora e soprou, cuspindo em tudo pela frente.

—Com isso você quer dizer exatamente o que? — Perguntei como se ela entendesse.

Suas bochechinhas ganharam uma tonalidade mais rosada e sua expressão passou a ficar séria. Um ruído veio de sua fralda junto a um cheiro nada agradável.

—Ah, ok. — Sequei as mãos e a peguei no colo. — Quer dizer que você fez caquinha.

Forrei o balcão da cozinha com um cobertor que achei no carrinho e coloquei a pequena deitada. Peguei a fralda descartável, pomada e lenços que estavam no suporte do carrinho e comecei a trocá-la. Mal notei August se aproximando.

—Sabia que as pessoas comem em cima desse balcão? — Ele provocou.

Enrolei a fralda suja e joguei em cima dele. Seus olhos arregalaram-se e ele segurou o pacote evitando o máximo contato.

—Por deus! O que você dá a ela. — Gargalhei. — Que cheiro horrível. Deveria ser considerado uma arma biológica.

—Também me pergunto isso todos os dias. Eu só dou o que as mães dela fazem. — Terminei de vestir a pequena e a peguei no colo.

August se livrou da fralda suja e sentou-se próximo a mim.

—O que decidiram sobre a Regina? — August trouxe a tensão ao ambiente.

Henry que até então jogava videogame, desligou a televisão e se levantou.

—Vou fazer meus trabalhos. — O garoto avisou em tom rude.

O assunto claramente o incomodava. Incomodava a todos nós.

—Eu não sei...

—Desculpe, eu não deveria ter tocado nesse assunto.

—Tudo bem, August.

—Bem, eu sinto muito loira, mas preciso ir. Obrigada pelo almoço, estava mais ou menos. — Ele fez uma feição engraçada.

Soquei seu braço pela brincadeira.

—Eu cozinho muito bem! — Fiz-me de ofendida.

Despedi-me do homem e fui até o quarto do Henry ver como ele estava.

—Tudo bem garoto? — Perguntei ainda da porta.

—Uhum, estou estudando.

—Que tal se nós sairmos para tomar um sorvete? — Sua expressão continuou triste.

—Eu estou sem vontade.

—O que acha de irmos naquela pet shop do centro e comprar aquele cachorrinho que você fica namorando da vitrine?

—Quero a minha mãe.

—Henry... — Fui até ele e sentei-me ao seu lado. — Eu sei que você sente falta dela, e eu também. Mas eu não posso fazer muito para trazê-la de volta. Eu estou aqui com você.

Tentei passar a mão por seus cabelos, mas o menino afastou-se.

—Você não é minha mãe e ela está assim por sua causa. — Henry cuspiu as palavras com grosseria.

Ouvir aquilo foi como uma facada em meu coração. Desde que Regina havia entrado em coma, todos os dias eu me senti culpada e fui até apontada por todos como ser responsável, mas o único que esteve ao meu lado, dizendo-me que não era minha culpa, foi Henry.

Senti minha garganta queimar e as lágrimas caírem com força. Assenti para o garoto e sai do quarto.

[...]

Passei o resto do dia trancada em meu quarto com Maia. Tentei me distrair com a garotinha, mas só conseguia repetir as palavras de Henry em minha mente. De noite, Ruby veio buscar a pequena junto com Zelena. Elas estranharam meu estado, mas não questionaram. Agora era madrugada e eu ainda não consegui dormir. Todas as vezes em que eu fechei meus olhos, a voz de Henry ecoava por minha mente e a imagem dos olhos tristes do garoto. Senti meu corpo inteiro vibrar pelo choro que se apossava de mim. Havia dor, culpa, saudade e mágoa sendo despejados em meu choro.

Fiquei deitada na mesma posição, chorando madrugada a dentro. Deveria ser umas três da manhã quando ouvi a porta do meu quarto ser aberta lentamente.

—Emma? — A voz grossa e arrastada de Henry invadiu o ambiente.

-Oi. — Tentei disfarçar a voz embargada e olhei em sua direção.

Estava bem escuro, e a única coisa que eu enxergava era sua silhueta. O garoto fechou a porta atrás de si e engatinhou pela cama até deitar-se completamente ao meu lado.

—Eu... sinto muito pelo que falei. Você não tem culpa pelo que aconteceu e é sim como uma mãe para mim. Você me desculpa? Não precisa chorar pelo que falei, não era verdade. — O garoto abraçou-me com força.

Senti meu coração transbordar de conforto. Abracei-o de volta.

—Eu te amo, Emma.

—Também te amo, garoto.

—Devemos desligar as máquinas. Ela está sofrendo. — Henry falou entre soluços que indicavam que ele estava chorando.

Apertei-o mais forte em meus braços.

09 de março — 9h00.

Acordei com o braço esquerdo formigando, pelo peso da cabeça de Henry. Adormeci com Henry em meus braços, como fazia com Roland após um pesadelo. De fato, tudo o que ele estava passando era um pesadelo e ele estava sendo forte.

Ouvir Henry falando que ela estava sofrendo, foi o bastante para tocar meu coração e finalmente concordar com a ideia que tanto doía em todos. Tentar colocar em minha mente que eu não estava desistindo dela, e sim deixando-a ir, estava sendo difícil mas já estava fazendo algum efeito. Não seria egoísta dessa vez.

Fiz minha higiene matinal, me vesti e fui preparar o café. Hoje era sábado e todos iríamos ao hospital visitar Regina. O toque da campainha despertou-me de meus pensamentos. Abri a porta e Ruby entrou com Maia no colo, sendo seguida por Zelena.

—Bom dia Swan! Sinto cheiro de panquecas. — Ruby passou por mim com pressa sem nem cumprimentar e sentou ao balcão.

—Bom dia cunhada. — Zelena abraçou-me. — Ignore a Ruby, neguei fazer panquecas para ela.

Soltei uma risada alta, recebendo um sinal feio vindo de Ruby. Era lindo ver como Zelena e Ruby estavam se desenvolvendo. Em pouco tempo as duas haviam assumido uma filha juntas e apesar de serem tão diferentes, uma completava a outra. Desde o casamento de Cora que as duas engataram um romance, que elas não se separaram mais. Quem as observasse interagindo, mesmo que discutindo, conseguia sentir o amor que uma sentia pela outra.

—Zel, vamos desligar os aparelhos. — Soltei.

—Como? — Ruby e Zelena falaram juntas.

—Henry, ele me disse que ela não iria gostar de sofrer. Eu só não quero ser egoísta com ela mais uma vez. Meu egoísmo causou isso tudo, então...

[...]

O bipe dos aparelhos era o único som em meio ao silêncio do leito. Zelena e Cora estavam indo até a sala do Dr. Whale assinar os papéis que acabaria com qualquer chance de ter minha morena de volta. No leito ficamos apenas Henry e eu. O garoto segurava a mão da morena com um forte aperto e olhava para rosto como se estivesse memorizando cada detalhe dela.

Zelena, Cora e Ruby retornaram ao leito e com muita dor olharam-me.

—Está feito, Emma. — Zelena.

—Está na hora de se despedir dela. — Cora.

Ambas se aproximaram do corpo sem qualquer resquício de vida da morena e com um olhar carinhoso começaram a falar suas últimas palavras.

—Você foi incrível, querida. — Cora não controlou o choro. — Eu quero que saiba que eu me arrependo de tudo que causei a você. Perdoe-me minha filha... eu te amo tanto. Graham não pode vir, mas disse que te ama muito, como todos aqui.

Cora beijou a testa de Regina e se afastou.

—Hey Sis. — Zelena, que também chorava, se aproximou com Maia no colo. — Esta manhã sua sobrinha se entreteve com uma foto sua que fica na mesinha ao lado de minha cama. Seu sorriso está tão lindo naquela foto, que ela começou a rir de volta. Foi a imagem mais linda que eu já vi, e no fundo eu pensei que veria a mesa cena pessoalmente. — Ela deu uma pausa para se recompor. — Sentirei tanto sua falta irmã.

Ruby abraçou a ruiva de lado e a levou para fora, para que ela tomasse um ar. Foi a vez de Henry.

—Eu te amo mãe. Nunca vou esquecer de você. — Ele disse calmo e logo após depositou um beijo carinhoso na mão dela. -Emma tem sido uma ótima mãe, ela vai cuidar de mim.

As lágrimas começaram a descer por meu rosto. Chegara o momento que eu tanto temia.

Henry sorriu para mim com carinho e só assim vi as lágrimas calmas em seus olhos. Cora abraçou o neto e tomou sua mão.

—Henry, vamos deixar Emma a sós com Regina um momento.

Novamente o barulho das máquinas era o único som presente na sala. Tomei as mãos da mulher que pensei que teria para a vida e beijei.

—Não consigo acreditar que deixarei você partir assim. — Respirei fundo esperando controlar o choro, mas foi em vão. — Os dias foram tão tristes e difíceis sem você comigo, que eu não consigo sequer pensar no resto da minha vida sem você. Eu esperei meses com a esperança de que você iria acordar para fazer isso, mas já que é uma despedida, eu não quero deixá-la ir sem antes te fazer esse pedido.

Peguei uma caixinha de veludo, que guardei comigo por um longo tempo, e abri exibindo o anel de ouro com uma pequena pedra brilhante em cima.

—Case-se comigo. Case-se comigo, Regina. — Peguei o anel e o coloquei em seu dedo. — Eu paro de viver como uma cigana por ai e nunca mais saio do seu lado. Eu... por favor volta para mim. Eu faço qualquer coisa. Eu te amo tanto. Dê-me algum sinal de que pode me ouvir e eu corro até a sala do doutor e rasgo aqueles papéis.

O nó insistente crescia em minha garganta e o choro não cessava, só se tornava mais intenso. O barulho dos aparelhos ficaram mais altos e percebi que os batimentos da morena estavam aumentando. Senti sua mão, que estava dentro das minhas, fazer um fraco movimento com o dedo.

—Oh Deus! — Gritei. — Enfermeira!

Notas finais
Será que Regina volta? O que acharam da Emma toda empenhada na família agora? Comentem, por favor!