High Key
22 I know i'll fall in love with you, baby
Notas iniciais
—Emma-
05 de abril
Restaurante Sjávargrillið — Reykjavik — Islândia — 13h20.
"Somos poeira das estrelas."
Já ouvi tal frase de Carl Sagan diversas vezes durante a vida, mas o peso e a profundidade de tal frase acabaram se perdendo.
Richard Dawkins diz que a realidade é mágica. Não mágica no sentido sobrenatural da coisa, mas no sentido real. A realidade é extraordinária, impressionante, majestosa e poderosa. A realidade tem um toque divino, mas digo isso sem vontade nenhuma de cair aos pés de algum desses deuses criados a nossa imagem e semelhança.
Deus é o universo.
Ao olhar uma estrela em seu equilíbrio, transformando hidrogênio em hélio, estamos entendendo como a natureza divina se comunica com suas partes, e mesmo ao focarmos um microscópio para melhor observar as menores porções de realidade, ainda estamos olhando para Deus.
Somos poeiras cósmicas. Um pequeno pedaço de algo imensamente maior.
Seria, tudo o que estava acontecendo, obra do universo?
Karma.
Regina não se lembrar era um castigo do destino pela forma que eu a deixei.
E essa culpa?
O barulho de talheres caindo me despertou dos devaneios. Cutuquei o filé de peixe grelhado que estava em meu prato com o garfo, sem a mínima vontade de comer. Não aguentava mais a comer peixe ou carne de baleia, estava sentindo falta do enorme hot dog que vende no Central Park.
Hoje seria meu último dia na capital e eu pegaria um avião para os fiordes islandeses, mais especificamente Hornstrandir, para fotografar a noite banhada pelo verde da Aurora Boreal.
Islândia é realmente um país muito lindo e mágico. Andar pelas suas rotas é como estar cada vez mais vivo. Como se a qualquer momento o povo escondido, que eles costumam chamar de huldufólk, fosse aparecer para te dar as boas vindas ou pregar-lhe alguma de suas peças. Em toda parte de Reykjavik em que eu parava para conversar com algum nativo, ouvia histórias sobre Elfos, Duendes, Trolls, Gnomos e diversos outros seres sobrenaturais. E em Hornstrandir eu sabia que tais lendas folclóricas eram mais fortes.
Senti o celular vibrando em meu bolso, indicando uma mensagem. Peguei o aparelho e logo vi que tal mensagem vinha de Regina. Senti um instantâneo cafuné no coração, que causou uma sensação de vida por todo o meu corpo.
Regina: Ei, como você está? Henry não teve notícias suas e ficou preocupado.
Um sorriso bobo surgiu em meu rosto enquanto eu respondia a mensagem.
Swan: Está tudo bem. Estive um pouco ocupada e acabei esquecendo de dar notícias. Como você está? E Henry?
Regina: Estou melhor, tive alta hoje e já voltei para casa. E Henry está ótimo, apenas me largando para sair com uma sirigaita qualquer.
Gargalhei alto de sua mensagem. Ela poderia ter perdido a memória, mas o ciúmes de seu Henry ainda estava lá.
Swan: Mesmo?? Nossa, isso é ótimo Regina! Você continua a mesma ciumenta... Haha!
Regina: Não ria Swan! Henry teve notas péssimas nos testes por ficar pensando nessa garota. Acredita que ele passou a noite anterior a aula de álgebra tendo DR com a menina, e no dia seguinte a professora dele perguntou a resposta de uma equação e uma aluna respondeu errado. Henry se intrometeu e disse que ela estava errada, a professora perguntou por qual motivo e ele respondeu: "Ela é mulher!"
O garçom trouxe a conta que eu havia pedido e eu paguei, deixando o restaurante o mais rápido possível. Fiz sinal para o primeiro táxi que passou e segui para o aeroporto.
Swan: Ele de certa forma tem razão, nós somos loucas.
Regina: Ele precisa ter mais respeito e concentração. Tirei o celular dele por tempo indeterminado, não quero esta usurpadora de papo com ele.
Swan: Estou me divertindo com sua possessividade com Henry... Estava sentindo falta disso. Agora eu preciso ir, irei pegar um avião para Hornstrandir (imagine minha dificuldade de pronunciar as coisas nesse país).
Regina: Tudo bem.
Regina: Emma... Cuidado. Sentimos sua falta.
Swan: Por que você se importou em contar sobre como Henry anda e saber sobre mim?
Regina: Por que ele é seu filho também e você não tem que pagar por algo que não é sua culpa. Eu estava sendo rude, desculpe.
Meu coração errou um batida e por um momento pude o sentir subir até minha garganta. Ouvir (ou no caso ler) de Regina que ela não me culpava pelo ocorrido, mexeu com tudo dentro de mim. Causou um verdadeiro emaranhado de sentimentos que eu mal conseguia controlar.
Swan: Tente não matar a menina até eu voltar. Quero ver de perto sua fúria.
—Senhora? — O motorista do táxi chamou. — Chegamos.
Com as mãos trêmulas, peguei a carteira de forma desajeitada e tirei algumas notas e o entreguei, lhe deixando uma boa gorjeta em agrado.
—Atrasada, Swan! — Uma voz conhecida soou.
A mulher de cabelos ruivos e cheios sorria com vida em minha direção. Ela vestia roupas confortáveis e aventureiras, assim como as minhas.
—Merida! — Cumprimentei-a com um abraço apertado.
Merida e eu nos conhecemos em uma de minhas viagens ao Alaska, quando eu cai em uma gruta de gelo e não conseguia de forma alguma sair, a ruiva, que passava pelo local no momento, me ajudou de bom grado. Quando questionei o que ela fazia no meio de uma geleira, a mulher respondeu que era bióloga e estava estudando ursos polares. Com o tempo que passamos juntas no Alaska, descobri que ela tinha um teco-teco e que era Islandesa.
No momento que eu soube que iria para a Islândia, liguei para Merida pedindo que ela me ajudasse.
—Que saudade! — Apertei-a em meus braços. — Obrigada, Mer.
—De nada, querida! Agora vamos, não podemos perder tempo. — Merida puxou-me pela mão em direção a área privada do aeroporto.
Fomos para uma pista de pouso menor, onde um monomotor Cessna172 estava estacionado. Merida pulou para dentro do avião e eu a segui com um pouco apreensiva. Lembrava-me bem da nossa última viagem neste avião, pois a ruiva era uma completa louca pilotando.
—Bote o cinto, loira. — A ruiva pediu com um sorriso animado.
[PLAY] Slow Life – Of Monsters And Men
O ronco falho do motor do avião soou e senti meu corpo todo tremer em contato com o banco. Em poucos minutos estávamos ganhando altura, e aquela cosquinha na barriga já estava presente.
—E então loira, conte-me as novidades. — Ela abaixou um pouco o fone de comunicação.
—Bem, desde que nos vimos da última vez tenho muitas novidades. Para ser mais direta, eu sou tipo uma mãe agora. — Cocei a nuca sem jeito.
—Mãe? Sério? Quem diria... E mesmo assim não conseguiu ficar longe do trabalho.
—Na verdade estou voltando a ativa agora. Fiquei afastada por um tempo cuidando da minha... hm... namorada, eu acho. — Parei para pensar o que Regina e eu éramos.
Não havia ocorrido um pedido de namoro, mas eu já me sentia sua de alguma forma...mesmo com tudo o que vem acontecendo.
—Espera... Emma Swan namorando? Wow! Agora você me surpreendeu.
—Ei, eu te falei antes que tenho um filho agora. Você realmente se surpreendeu mais com o fato de que eu estou em um relacionamento e não que eu seja mãe?
—Nossa você realmente mudou. — Merida virou o rosto para mim com um daqueles seus enormes sorrisos. — Fico muito feliz que você finalmente se encontrou, Emma. Não vejo mais a mulher perdida que eu via em você. — Sorri tímida.
Passei minha atenção para a paisagem abaixo de nós. Era mais mágico e vivo do que nunca. Peguei meu celular e tirei algumas fotos da paisagem e de Merida pilotando para enviar a Henry e Regina.
Não demorou muito e nós chegamos a Hornstrandir. Como era um lugar totalmente envolvido pela natureza, sem qualquer resquício de urbanização, fizemos o pouso em meio a uma clareira próxima ao local onde iríamos acampar. Desci do monomotor encantada (mais uma vez) com a beleza e energia que o país emana.
—Vamos armar logo o acampamento para ficarmos livres para visitar. — A ruiva sugeriu já pegando as mochilas no avião.
Concordei e a segui para ajudar. Antes que pudesse me distrair com o trabalho, senti o celular vibrar. Era uma mensagem de Henry.
Garoto: Sinto sua falta D:
Swan: Estarei voltando amanhã pela manhã, meu garoto. Como estão as coisas?
Empurrei o celular para dentro do bolso, sentindo a brisa cálida da tarde. O cheiro de terra úmida e de minério recém surgido de alguma erupção vulcânica.
Aquela era minha vida.
Aquilo me fazia sentir viva. Fazia com que eu sentisse que estava fazendo parte do mundo, e não apenas existindo.
Respirei fundo e resolvi distrair minha mente ajudando Merida com o acampamento.
A habilidade da ruiva com a montagem era de encher os olhos. Enquanto ela encaixava cada detalhe no seu lugar, ia me explicando a importância de cada um.
—Vejo que não está muito animada. — Merida comentou. — Islândia não é um de seus lugares dos sonhos?
—É sim, mas... Fico preocupada com as coisas em casa. Fico pensando em tudo, todos os problemas. — Respirei fundo. — Pensando nos "e se". E claro, sendo devorada pelos meus arrependimentos. Sabe, dá uma angústia tão forte esse sentimento de culpa.
—Sobre o que afinal você está desabafando? Tipo, eu entendo bem e quero tentar te dar algum conselho ou ajudar de alguma forma, mesmo que eu seja um desastre nisso. — Ela arregalou os olhos assustada consigo mesma.
Senti que havia exposto pensamentos demais e resolvi mudar de assunto.
—O que são essas casinhas vermelhas e espalhadas pela montanha?
—Oh, são casinhas para os Elfos. Aqui na Islândia os povos élficos são os mais numerosos. E eles gostam de construir suas casas dentro de rochas em meio aos penhascos. É muito importante para eles proteger suas casas, pois se humanos entrarem em suas casas nunca mais saem do mundo escondido. Não toque, enm chegue muito perto, eles ficam muito bravos e são muito perigosos.
—Como eles são?
—São como os humanos, mas são muito pequenos e causam muita confusão. Alguns são tão pequenos que vivem dentro de flores. E eles são serem muito belos, mas não se engane. As mulheres élficas costumam se misturar mais em meio aos humanos por serem um pouco mais altas. Elas geralmente aparecem querendo ajudar mulheres com problemas no parto, mas de noite roubam bebês humanos e substituem por bebês elfos. Todas as noites as mães devem fazer um sinal da cruz em cima e embaixo dos bebês depois de colocá-los no berço.
—Nos EUA, Elfos são apenas lendas.
—Pois lá nenhum elfo conseguiria viver. Em meio aquele caos urbano. E eles precisam de terras novas, como as nossas para usufruírem da natureza. As terras lá são muito antigas.
—Como assim?
—Olhe ao seu redor Emma. Sinta o cheiro, veja as cores. É tudo muito real e mágico ao mesmo tempo. Diga-me se lá tem isso? — Dei um sorriso de lado concordando. — Foi o que pensei.
—Acha que os elfos vão ficar bravos se eu fotografar algumas de suas casas?
—Tente, mas não os subestime. Pode ser que quando dormir, sua câmera não esteja mais em sua bolsa. — Sorriu sapeca.
Aproximei-me de um conjunto de três pequeninas casas em meio ao penhasco. Continham diversos ossos de baleias jogados próximos a elas.
—Peço a licença de vocês para fotografar suas belas casas. — Disse baixo enquanto me agachava, procurando o ângulo ideal.
Era incrível como em cada lugar em que eu visito, a cultura de tal povo passa a fazer parte de minha cerne. As maldições do Egito, os serem místicos islandeses, os mitos gregos e romanos, os deuses hindus... Eu acreditava em todos eles, em tudo.
O problema dos preconceituosos, é a viseira que a sociedade coloca sobre nosso olhos quando nascemos. Se tirarmos essa viseira, enxergamos um mundo encantador e magnífico na verdade do outro.
Sou mulher de muitas verdades. Não é hipocrisia, é a minha verdade.
—Venha Emma, vamos andar um pouco pelo vilarejo. Tenho que te levar para conhecer alguns amigos que podem te contar muito sobre a cultura islandesa antes de conseguirmos ver a aurora.
—Regina-
[PLAY] Cry Baby — The Neighbourhood
New York – 19h20.
Estava sentada no sofá da sala, vendo algumas fotos de Henry quando bebê. Mamãe conversou com o médico antes de voltar para sua casa, e ele disse que poderia ajudar a me lembrar de algo.
A chuva caia forte lá fora, e Henry estava em seu quarto enfiado naquele videogame. Zelena já deveria estar em seu apartamento com Ruby e Maia. Ela insistiu em ficar comigo, mas eu garanti que estava bem com Henry.
Era tudo muito frustrante. O sentimento materno estava em mim, e eu podia senti-lo cada dia mais forte, mas sequer uma lembrança de Henry quando bebê, eu tinha. Era como se eu tivesse perdido toda a vida de meu filho.
Passei algumas fotos até chegar em um bolo de envelopes surrados unidos por um elástico. Todas estavam datadas de períodos recentes, endereçadas a Henry e somente uma a mim. Dentro continham várias fotos cartas escritas a mão por alguém de uma caligrafia muito bonita.
—Quem ainda envia cartas?
Comecei lendo as cartas nas ordens cronológicas.
Emma Swan.
Comecei a ler a primeira carta, e uma chuva de flashes de imagens intercaladas começaram a surgir na minha mente.
"Esse sentimento está sempre atrelado a você"
"Henry te tem como uma outra mãe, Emma. Ele te idolatra, praticamente."
"Eu te amo, Emma Swan."
Eu a amo.
Eu lembro de Emma Swan.
Ouvi o toque do meu celular indicando a chegada de uma mensagem. Desbloqueei a tela e o nome "Emma Swan" apareceu na tela.
Swan: Estou deitada na grama, vendo a Aurora Boreal enquanto minha mente só consegue vagar sobre você. Tão linda e perfeita quanto a Aurora Boreal. Sei que pode te assustar mas não pude resistir.
Regina: Eu tenho essa sensação de ansiedade, mas ela vai embora por um minuto quando estou com você. Eu lembro de quem você é Emma. Você é a pessoa que eu amo.
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