High Key

2 Desenhando o mundo com luzes e sombras


Notas iniciais
Mais um capítulo para vocês, este já estava pronto, mas quis esperar um feedback de vocês sobre a fic. Esse ficou bem grande. A música desse capítulo vai ser "Mountain Sound - Of Monsters and Men" Perdoem os erros e boa leitura.

–Emma-

Hahei, Nova Zelândia — Quarta–feira — 09h00

Eu estava deitada na areia, dentro da Cathedral Cove, de olhos fechados. Sentia a brisa soprar e o barulho das ondas que entravam pela "caverna". Ouvi o barulho do riso das pessoas que se divertiam na praia e sorri lembrando da gargalhada que ouvi do garotinho Mills, ontem. Eu havia me afeiçoado tanto ao garoto, só de olhá-lo, que não conseguia esquecer aquele sorriso e aquela felicidade em que ele estava. Eu desejava saber mais sobre ele. Seu nome, sua idade, o que ele mais gostava de fazer. Tirando que as fotos que eu havia feito daquele momento ficaram lindas. Outra coisa que não saia da minha cabeça era aquela mulher morena, que mais parecia uma rainha, em minha frente. Aquele olhar misterioso havia feito uma bagunça na minha cabeça. Senti-me atraída pela imagem dela e a relação com a sua vida. Levantei e fui para meu quarto pegar os equipamentos. Era a hora de começar a trabalhar.

Em menos de 5 minutos eu estava em meu quarto preparando minhas câmeras. Levaria a EOS-1D X com uma teleobjetiva e a EOS 6D com uma macro. Peguei minha mochila de mochileira com o resto de equipamento que poderia precisar, tais como: flash, difusor, tripé, monopé, filtro, protetor...

Segui para fora do meu quarto, e fui para o saguão do resort, onde um ônibus de turismo iria levar os turistas até a Glowworm Grotto, a caverna "céu estrelado" que ficava em Waitomo, a três horas daqui. Não é necessariamente a caverna que brilhava, mas sim os moradores dela. O teto da caverna é coberto de larvas que brilham no escuro. A espécie das larvas é a Arachnocampa luminosa e são únicas dessa região, então essas cavernas atraem muitos turistas. Entrei no ônibus que parecia um tipo de double-decker, só com um andar, e sentei no fundo do ônibus. Ajustei os controles da minha câmera e tirei uma foto da diversidade de pessoas dentro daquela lata de refrigerante ambulante, quando vi pelas lentes, o garotinho de cabelos castanhos entrar correndo e feliz no ônibus.

–Vá devagar, Henry. — A morena que vinha logo atrás do garoto o repreendeu.

Então seu nome era Henry. Henry Mills.

–Eu vou sentar na janela, para ver tudo no caminho mamãe! — Ele estava extremamente empolgado.

Regina sentou e pôs Henry em seu colo. Não pude resistir e tirei algumas fotos dos dois. Um homem de cabelos dourados, olhos azuis e barba por fazer entrou no ônibus e sentou-se ao lado dos dois. Ele não era muito alto, tinha o porte físico de um atleta e sua pele era levemente bronzeada.

–Robin, veja esse ônibus... — Fez cara de nojo. — Não acredito que ficarei 3 horas dentro dessa lata de sardinha.

–Amor, esqueça as regalias e pense somente em aproveitar essa viagem e Henry. — O homem tinha um sotaque irritante.

Bufei para a frescura da morena e voltei a me distrair com minhas fotos.

[...]

Aquele lugar era incrível. Não era muito difícil de surpreender, apesar da bagagem de lugares exóticos e lindos que eu tinha. Eu praticamente não tirava o dedo do botão de disparo da câmera, vez ou outra eu intercalava entre a macro e a teleobjetiva. Em um de meus enquadramentos, vi um casal de velhinhos olhando aquele teto iluminado, com um sorriso e uma expressão de encanto. Eles se mantinham abraçados a todo instante, era a cena perfeita. Percebi que estava com um sorriso enorme enquanto os fotografava. Era contagiante.

–Mas será possível? — Ouvi um voz rouca atrás de mim que fez meus pelos se eriçarem.

Virei e deparei-me com a morena metida Mills.

–Você está seguindo meu filho, pervertida? — Ela estava com a mesma expressão intimidante do dia anterior, abraçada ao seu filho que olhava atento e encantado para o teto da caverna.

–O que? Eu mal vi vocês...

–Ei, que câmera engraçada... — O garotinho se pronunciou. — Ela é grande!

Sorri genuinamente para ele e me agachei para alcançar sua altura, mesmo que fosse difícil com todo aquele peso nas costas, e com as duas câmeras penduradas em meu ombro pela alça.

–Isso é só a lente dela, se chama teleobjetiva. — Eu coloquei a câmera na mão dele enquanto o explicava, apontando cada item. — Ela desencaixa do corpo da câmera, para trocar por outro tipo de lente.

–Wow! Eu adoraria ter uma dessas... e você tem outra diferente! — Ele parecia genuinamente impressionado com aquele objeto tão simples.

–Você precisa se esforçar para ter uma dessas, garoto. Custa bem caro.

–Caro tipo quanto?

–Tipo um carro.

–Nossa! — Ele ficou boquiaberto.

Sorri de lado e baguncei seu cabelo. Olhei de relance para sua mãe e peguei no flagra um sorriso e olhar dóceis. Ela observava calmamente a minha interação com seu filho e ao contrário do que pensei, ela não se opôs.

–Você trabalha com fotos?

–Isso mesmo, garoto. — Fiquei de pé pois minha perna latejava com a posição. — Eu trabalho para a revista NatGeo, documentando pessoas, culturas, lugares, conflitos e etc...

–Deve ser irado!

–E é, mas é preciso ter coragem, para fazer o que eu faço. Muitas vezes tenho que passar por lugares perigosos e lidar com situações péssimas.

–Eu sou corajoso..

–Não duvido disso, por isso vou deixar que você fotografe com ela. — Apontei para a câmera na mão dele e me agachei novamente a sua altura.

–Eu me chamo Henry Daniel Mills. — Ele estendeu sua mãozinha.

–Eu me chamo Emma Swan. — Peguei a minúscula mão e apertei firme.

Expliquei ao garoto onde ficavam os principais botões e expliquei superficialmente como cada um funcionava. Ele assentiu para tudo e fotografou umas três vezes as paredes rochosas da caverna, logo depois me devolveu a câmera e agradeceu.

–A minha trabalha com revista também, Emma.

–Verdade? — Olhei para Regina que agora retornara com a pose de rainha.

–Sou editora-chefe da Vogue. — Ela arqueou uma das sobrancelhas. — Deixa-me admirada saber que a senhorita não me reconheceu.

–O mundo não gira ao seu redor, Mills. — Ela tomou uma expressão de desgosto. — E eu viajo muito, me atendo a problemas maiores tais como pobreza e guerras, não a moda.

–Ora sua... — Ela foi interrompida pela chegada do homem que havia estado com ela e o filho no ônibus mais cedo.

–Querida, algum problema? — Ele olhou-me com simpatia e segurou a cintura de Regina.

–Nem um, amor. — Ela sorriu falsamente para ele. — Essa é a senhorita Swan, amiga de Henry.

–Ela é fotógrafa documentarista Robin! — O garotinho disse empolgado.

–Que legal, carinha!

–Este é meu marido, Robin Outlaw.

Assenti para o homem que também o fez.

–Bom, eu preciso ir, tenho que trabalhar. — Baguncei o cabelo de Henry. — Bom passeio, garoto.

–Vamos nos ver mais vezes Emma?

–Espero que sim, garoto. — Sorri e me afastando deles.

[...]

Hahei, Nova Zelândia — Quinta–feira 05h00

O barulho das ondas batendo na costa me despertou. Abri os olhos lentamente, sentindo a claridade queimar minha retina. Espreguicei-me e sorri pela sensação de acordar naquele lugar maravilhoso. Era outro dia de trabalho e finalmente uma aventura. Hoje iria fazer a Tongariro Alpine Crossing, uma trilha para atravessar três vulcões ativos a pé (um deles sendo o Mount Doom, de O Senhor dos Anéis) durante as próximas oito horas e meia. Era uma trilha que exigia preparo físico, mas eu estava acostumada a esse tipo de coisa. Levantei, arrumei minha mochila e me vesti. Coloquei uma calça jeans modelo "boyfriend", uma regata branca, uma camisa cargo bege de manga comprida por cima (para me proteger do sol), e uma bota Gonew Fênix marrom. Optei por prender meu cabelo em um coque desengonçado, peguei minha enorme mochila de mochileiro, pus nas costas, peguei minhas câmeras e desci para tomar um café reforçado.

Estava sentada terminando meu café, quando ouvi meu nome ser chamado.

–EMMA! — Olhei para trás e vi Henry vir correndo em minha direção com um enorme sorriso.

Ele estava vestido como o verdadeiro Indiana Jones, e tinha uma câmera daquelas infantis pendurada em seu pescoço.

–Ei garoto! — Recebi o abraço do menino e o tirei do chão, o apertando com força e carinho.

–Veja Emma, estou vestido como você... Hoje irei para uma aventura!

–Estou vendo. — O coloquei no chão novamente. — Onde será essa aventura?

–Convenci minha mãe de fazer a Tongariro Alpine Crossing comigo! — Vi que Regina estava vindo em nossa direção.

Ela estava com uma calça skinny preta, uma camisa de manga longa de seda na cor vinho (que estava bem despojada na morena, com os botões do decote desabotoados), uma bota de salto e cano alto preta e um chapéu preto aba grande. Ri da imagem que vi.

–Do que está rindo Swan? — Ela usou uma expressão debochada.

–De você. — Gargalhei mais um pouco.

Ela me olhou com raiva.

–Veja como você se vestiu para uma trilha, Regina! — Apontei para suas roupas.

–Eu disse a ela, Emma. — Henry bufou. — Mas vai convencer ela.

–Eu estou com roupas despojadas, tá!

–Me diga, senhora despojada, como vai fazer uma trilha de 8 horas de salto?

–OITO HORAS? HENRY MILLS VOCÊ ME DISSE QUE SERIA SOMENTE UMA HORA DE TRILHA!

–Sujou garoto, desculpa. — Ri do garoto se escondendo atrás de mim. — Não fique brava com ele, Regina, ele quer se aventurar e não há coisa melhor do que se conectar com a natureza.

–Me nego a andar pelo mato por oito horas. — Ela fechou mais a cara e cruzou os braços.

–Que mato o que, a trilha e por um caminho de vulcões.

Regina olhou boquiaberta para nós.

–NEM PENSAR, EU NÃO VOU, NEM VOCÊ HENRY!

–Ah mamãe! — Ele fez bico e olhou para os pés em derrota.

–Deixe de ser chata, vai ser divertido e eu prometo cuidar dele.

–Não vou deixar meu filho na mão de uma maluca que corre em direção ao perigo. — Ela ajeitou a postura e pigarreou. — Então vou com vocês.

–Pois bem, tratem de se sentarem e reforçarem o café da manhã porque o dia será desgastante. — Olhei para a morena com um sorriso malicioso. — Não prefere se trocar, Regina?

–Não Srta. Swan, estou bem assim. — Se sentou ao lado de Henry na mesa fazendo birra.

–E seu pai, garoto... Robin, não é? Ele não vai conosco?

–Robin não é meu pai, e não quer se queimar no sol para não ficar com a pele manchada. — Henry respondeu e riu.

–Mas que frescura! — Ri com o garoto.

–Para a sua informação, Robin é modelo, não pode ter imperfeições na pele. — Fuzilou-me com o olhar.

Enfiei um pão na boca e ri de novo.

[...]

Iniciamos a trilha às 9 da manhã. Henry andava empolgado na frente com sua câmera, capturando tudo que o impressionava. Não muito diferente dele, vinha andando com Regina, atrás. O silêncio entre nós era constrangedor. Vez ou outra a morena repreendia o garoto por estar muito distante, mas depois o silêncio dominava, novamente.

–Ele não para de falar de você, desde que te conheceu. — A morena quebrou o silêncio. — Ele fica dizendo que quer ser fotógrafo documentarista como você, por isso comprou essa câmera e se vestiu assim.

Senti que minhas bochechas coraram. Meu coração iniciou um ritmo frenético de batidas. Aquilo havia me tocado. Eu estava apegada ao garoto, não podia negar. Sentia uma enorme conexão com ele.

–Ele tem futuro. — Disse o olhando com cara de boba. — Tem um ótimo menino, Regina.

Ela assentiu em agradecimento e sorriu sem vontade.

–Quantos anos ele tem? — Resolvi saber mais sobre o garoto.

–Tem 8 anos, está prestes a fazer nove. — Respondeu suavemente.

–Ele disse lá no café, que Robin não é pai dele...

–Henry é filho de um relacionamento anterior ao de Robin. — Ela passou a mão pela nuca como se quisesse espantar o calor. — O pai dele morreu antes dele nascer.

–Sinto muito. — Ela sorriu carinhosa.

A morena olhou para frente ainda caminhando e percebi que ela observava o filho com um brilho no olhar e um sorriso singelo. Aproveitei o momento para capturar aquela imagem. Algo dentro de mim remexeu com a cena e eu queria queria ter esse momento para sempre, guardado. Um frio passou por minha barriga e eu não sabia explicar o que era.

Ela percebeu a foto.

–Swan! — Sorria timidamente. — Pare de tirar fotos das pessoas de surpresa.

–Ficou linda... Essas são as melhores, porque mostram a real essência da pessoa. — Sorri.

–Como você consegue? Viver como cigana?- A olhei com uma sobrancelha erguida. — Deixar tudo que você ama para trás, sua família, seus amigos ou seu namorado, para viajar por ai, sem rumo e sem previsão para retornar.

–Bom... Eu tento sempre manter o contato com todos que eu amo, por facetime, telefonemas ou até cartas. Eu sinto falta deles, mas isso que eu faço e parte da minha vida, é algo que eu também amo demais. — Ela sorriu.

–Como você soube que amava isso?

–Quando eu fui para a África, em uma área bem miserável. Eu fotografei uma menininha, que deveria ter a idade de Henry, ela era linda...e logo depois que a fotografei, dei a ela um pacote daqueles biscoitos salgados eu vem com 3 unidades, dentro. — Tomei fôlego antes de continuar. — Ela pegou o biscoito e entrou em uma casa de barro bem pobre, mal tinha porta! E dividiu os três biscoitinhos entre ela e os 3 irmãos menores que ela estava cuidando. Aquilo doeu em minha alma. Fotografei aquele momento dos 4 irmãos dividindo o biscoito e percebi que eu amava minha profissão por ter a honra de poder dar olhos a quem não tem. No sentido de conseguir fazer as pessoas verem o que está acontecendo do outro lado do mundo, fora da bolha em que cada um vive e se acomoda. O mundo precisa ter ciência das consequências das guerras, da fome e da miséria. Fotografia não é só fotografar coisas bonitas, não. É uma arte, é bonita, mas como o nome mesmo já diz, é desenhar o mundo com luzes e sombras.

–Eu, nunca pensei desta forma, Emma. — Ela tinha uma expressão suave e fitava profundamente meus olhos. — É lindo, seu trabalho.

–Obrigada. — Sorri.

–Já esteve em alguma guerra?

–Sim. Na Síria. É a coisa mais horrível que existe.

Voltamos a olhar para frente e continuamos a trilha. Por um momento senti aquele silêncio leve e confortável. Regina estava me passando conforto, nesse momento.

Henry gritou algo sobre o chão ser feito de lava vulcânica endurecida, lá da frente, quando Regina se distraiu e o salto da bota dela escorregou em uma parte mais irregular do solo. A morena despencou por uma vala de lava endurecida.

–REGINA! — Praticamente pulei dentro da vala para ajudá-la. — Oh meu deus, você está bem?

Segurei o rosto dela nas mãos e olhei pelo seu corpo para ver se tinha algum ferimento. A morena ficou me encarando com a respiração pesada por bastante tempo, e eu correspondi o olhar a altura. Só acordamos para o mundo, quando Henry desceu para saber da mãe.

–Mamãe, você está bem?

–Estou, meu amor... — Ela levantou usando meu braço de apoio e ficou de pé sem problemas. -Só estou com a sola do pé dolorida de tanto andar.

Ela bateu nas roupas para tirar a poeira.

–Eu disse para mudar a roupa...

–Cale a boca Swan! — Ela pegou a mão do filho e saiu andando apressada.

Essa mulher tinha algum tipo de transtorno bipolar, não era possível!

Balancei a cabeça negativamente com um sorriso de canto, e os segui.

Notas finais
O que acharam? Onde vocês acham que essa aventura vai parar? - Cathedral Cove - http://www.dpbintercambio.com/files/uploads/images/Cathedral-Cove-Beach-nova-zelandia.jpg - Glowworm Grotto - https://elysefeaver.files.wordpress.com/2014/01/20140109-101442.jpg - Tongariro Crossing - https://ezperienza.files.wordpress.com/2013/11/tongariro-crossing.jpg