Notas iniciais
Então, obrigada pelos comentários e queria deixar dito, que graças a esse capítulo eu to enlouquecida ouvindo música árabe. Vamo lá...

–Emma-

Bam Airport, Irã — 11h00

A mesma roupa, a mesma mochila, as mesmas coisas. Nunca havia ficado tanto tempo direto com as mesmas peças de roupa. Para piorar aquele calor horroroso estava de volta e eu, além de cheirar a frango de tão suada, estava cheirando a camelo. Diferente do Cairo, do lado de fora do aeroporto, só existia areia, pedras destroçadas e uma arquitetura que deu a impressão de que estava nascendo da areia. Era lindo. Estava tão cansada, que resolvi não seguir minhas próprias regras, e alugar um carro.

Fui até uma agência próxima ao aeroporto que as pessoas pareciam estar alugando automóveis. Claro que eu não entendia nada de árabe, então segui minha intuição.

–Bom dia, gostaria de alugar um carro. — Pedi ao senhor barbudo que estava atendendo.

Ele gritou algumas palavras em árabe.

–Desculpe, eu não entendo. — Ok, ia ser mais difícil do que eu havia imaginado. — Eu preciso de um c-a-r-r-o. — Falei pausadamente.

O homem ainda tagarelava alto na sua língua, mas desta vez ele fez um sinal com a mão para que eu o seguisse. Ele me levou até um tipo de pasto com vários camelos.

Yakhudh. — Ele pegou um dos camelos e me entregou a corda de condução.

–O que? Camelo? Não, eu quero um carro! — Ele ainda gritava e fazia gestos com impaciência.

Jamal.

PELO AMOR DE DEUS ALGUEM ME AJUDA AQUI... — Gritei olhando ao meu redor com esperança e desespero. — Eu não entendo nada do que ele me fala.

Desisti irritada com a gritaria do homem, e peguei o bendito camelo. Paguei-o com muito desgosto, montei no animal e segui para minha excursão. Usei o Hijab que ganhei no Egito para me proteger do sol forte que queimava minha pele.

[...]

A noite estava tomando conta do céu e agora as areias do Irã refletiam a luz da lua. O que antes era um calor infernal, se tornou um grande frio. Aquele clima desértico estava me destruindo. Cheguei ao centro da cidade de Bam e a rua estava deserta, só se ouviam o uivo do vento e uma música animada a uma certa distância. Respirei fundo e desci do camelo, que não demorou muito e soltou um ruído antes de me lamber a face.

–Droga, Frederico! — Sim, dei nome ao camelo, afinal, eu havia criado laços com ele. — Já disse para não me lamber.

O camelo soltou um gemido em resposta. Peguei as rédeas do camelo e fui caminhando devagar e sem rumo, o puxando junto.

–Sabe Frederico, estou com saudades do garoto. — Suspirei. — As vezes eu me pego imaginando como seria se ele estivesse vivendo as aventuras comigo.

Frederico bufou e começou a ruminar.

–E droga, eu também não consigo tirar aquela mãe chata dele da cabeça. — Paramos em frente a um casebre de areia, que era de onde vinha a música animada.

Agora podia-se ouvir os gritos de uns homens. Parecia uma festa. Uma placa enorme brilhava no alto da estrutura, com algo escrito em árabe.

–Acho que isso é um bar, Frederico. — O camelo soltou um novo ruído como se falasse mesmo comigo. — Estou precisando mesmo de uma bebida, meu amigo.

Amarrei o animal em um poste próximo ao casebre e entrei no local. Uma luz fraca e aconchegante iluminava o local, deixando-o mais convidativo. Apesar de sua simplicidade exterior, por dentro era como um salão de um palácio. Cortinas vermelhas e diversos itens decorativos de ouro e esmeralda estavam espalhados pelo lugar. Andei até onde parecia ser o bar e olhei o cardápio, que de preferência estava em árabe. Fechei os olhos e apontei na sorte a que iria pedir.

Doogh. - Tentei pronunciar o nome da bebida para o garçom.

O Homenzinho com um enorme bigode saiu e começou o preparo da bebida. Olhei em volta e os homens curtiam a música que tocava. Gritavam e dançavam estranhamente. Estranhei não ter nenhuma mulher no bar e percebi que volta e meia olhavam-me com estranheza. Eu sabia que nesse país as mulheres não tinham nenhum tipo de direito. Mas eu não era de lá, não precisava seguir suas regras machistas.

O garçom voltou com a bebida e me entregou. Olhei-a com um certo nojo. Aquele líquido espesso branco, com pedaços de folha picotadas por dentro. Que diabos era aquilo. O homenzinho que me atendeu voltou com um prato de comida.

Kebab, para acompanhar. — Finalmente alguém que fala a minha língua!

Agradeci ao homem e tomei um pouco da bebida estranha. Aquela bebida desceu com dificuldade e quando chegou ao meu estômago, na mesma hora fez que ia voltar. Era difícil definir o sabor daquilo, mas a textura parecia com o cuspe dos camelos. Oh, eu espero que não seja!

–Que diabos vocês colocam nessa bebida? E não tem alcool.

–No Irã, bebida alcoólica ser proibida. Doogh é feito de iogurte, sal, menta, poejo e rodelas de pepino.

Aquilo me enjoou mais ainda.

–Meu deus, você tem uma água? Acho que vou vomitar. — O homem riu e colocou água em um copo para mim.

–Coma, vai disfarçar o gosto. — Obedeci e realmente ajudou.

–Então... que tipo de bar é este que não tem bebida?

–Isto é uma casa onde mulheres dançar para os homens.

–Oi? Tipo uma boate de strip? — Ele assentiu se divertindo com minhas derrotas cada vez maiores. — Por isso estão me olhando torto...

–Mulheres geralmente não vem aqui, as de nosso país são proibidas. A n ser é claro, as que dançam.

Nesse instante o ambiente se fez escuro e regado de luzes vermelhas e douradas. Os homens se sentaram em um canto onde haviam diversas almofadas e uma música árabe e bem sensual começou.

–Vamos ver o show. — O garçom me chamou e me levou com ele. — Chamo-me Khaled Abdel.

–Emma Swan. — Sorri para meu novo amigo.

Sentei bem na fileira da frente, ganhando uma clara visão das tais dançarinas. Eram duas mulheres com corpos maravilhosos e o mexiam de forma habilidosa e quase impossível. Ok, confesso que estava vazando um pouco de água da minha boca. Completamente hipnotizada pelas dançarinas, levei o visor da câmera para o olho direito e as capturei. Diversas fotos incríveis daquela dança. E a música que ecoava pelo salão, entrava em nossos corpos pedindo para que eles se mexessem. Era uma sensação quase que incontrolável.

Uma das mulheres se aproximou de mim e começou a rebolar e fazer movimentos bem sugestivos para mim. Corei imediatamente.

–Oi, querida! — Cutuquei a bunda da mulher que rebolava em minha cara, de costas para mim. — Pode me dar licença...

Ela ignorou meu pedido e continuou quase me fazendo engolir sua bunda.

–Moça, pode por favor me dar licença? — Ela sorriu sensualmente. — Eu nem queria estar aqui, só queria uma bebida para esquecer a saudade...

Em vão. Eu estava falando para o nada. Resolvi ficar parada com cara de desgosto, levando bundada no rosto. Sim, ela é sim uma bela moça, mas sabe quando você sente que algo está faltando, e apesar de não saber o que, isso te torna uma pessoa meio entediada. Em todas as minhas viagens eu sempre aproveitei o lugar. Aquela sensação de liberdade, de poder viver e respirar mais leve. Mas agora eu estava me sentindo presa, me sentia pesada como se algo tivesse sido levado de mim. O nó estava presente em minha garganta.

–Regina-

New York, um mês depois.

As coisas na revista estavam cada vez mais corridas. Era semana de um importante desfile de moda em NY e a revista iria cobrir online. Eu estava em meu escritório preparando tudo para a cobertura, mal notei Henry entrando animado. Ele entrou saltitante, deixou sua mochila no chão e se jogou na cadeira que ficava de frente para a minha.

–Veja mamãe! Chegaram as cartas de Emma. — Ele levantou os envelopes surrados. — Dessa vez vieram duas.

–Querido, podemos lê-las depois? A mamãe está tão ocupada.

–Mas mãe eu esperei por elas por tantos dias. — Ele fez bico e olhou-me com cara de gato carente.

Como resistir aquela carinha? Não resiste.

–Ok, senta aqui. — Puxei ele para sentar em meu colo e peguei as cartas de sua mão.

Uma estava endereçada a Regina Mills e a outra ao Henry, como de costume. Na bordo do envelope da de Henry tinha escrito em letras miúdas: "me leia primeiro". Abri o envelope e comecei a ler.

"Caro Henry,

Mal posso medir o tamanho de minha saudade por você. Sinto-o todos os dias ao meu lado, fotografando junto comigo. Espero poder compartilhar meus momentos com você, algum dia. Mas vamos ao que interessa... a viagem ao Irã! Primeiramente, fui para Bam. E gostaria de dizer que só estou viva agora graças ao meu grande amigo Khaled Abdel. Acontece que em meu primeiro dia, tentei alugar um carro já que estava exausta, mas como não falava um nada em árabe, no lugar do carro, consegui um camelo que se apaixonou perdidamente por mim. Nessa viagem me senti tão sozinha que acabei me apegando ao bicho. Dei a ele o nome de Frederico. Bati um bom papo com meu amigão Fred, mas ainda assim aquele vazio que eu senti persistia. Daí resolvi que iria tentar me divertir e quem sabe eu me animava um pouco. Entrei num casebre de areia que tocava uma música árabe bem animada dentro, com o intuito de dançar e beber algo. Foi tudo por água abaixo, eu bebi um maldito suco de iogurte salgado que parecia cuspe de camelo e ainda sobre bullying porque eu era a única mulher dentro daquele lugar. Khaled me explicou que lá as mulheres não tinham nenhum tipo de direito, nem de dirigir. Um país extremamente machista. Como se não bastasse ter tomado aquele suco podre, descobri , também, que aquele lugar não era um bar ou uma festa. Era um tipo de Cabaret árabe. Senti-me deslocada, mas acabei achando interessante fotografar aquele tipo de coisa. Sentei-me para assistir ao show de dança do ventre, e recebi uma sensual dança de uma das mulheres (eu até te contaria mais, porém sei que sua mãe está lendo com você e deve estar uma fera por ter que te explicar o que é um cabaret). Enfim, resolvi que aquelas mulheres dançando era uma cena legal para fotografar. Não entendi muito bem o que aconteceu que os homens que estavam lá ficaram revoltados quando eu tirei a foto. eles levantaram gritando coisas que eu não entendia e as dançarinas foram correndo para o camarim, enquanto os homens faziam um grande alvoroço. Um deles apontou uma arma para mim e eu entrei em pânico e comecei a gritar "EU AMO O ISLAMISMO". Um deles pareceu compreender e fez o cara que apontava a arma, a abaixar. Quando pensei em ficar aliviada, eles enrolaram em minha cintura um cinturão com 4 bananas de dinamite caseiras. Garoto, entrei novamente em desespero e comecei a gritar para tirarem aquilo de mim. Eles queriam me explodir para que meus pedacinhos pudessem ir para o "céu" ter minhas 20 virgens. Para o meu alívio, meu amigo Khaled, falou algo para eles, que os convenceu. Saí de lá as pressas e acabei convencendo Khaled a me ensinar o básico de árabe. Bam é uma cidade bonita, mas é perigosa e entediante. Minha segunda visita por lá, foi a Chabahar. Lá sim, era um lugar maravilhoso, e de certa forma me deixou menos pesada. Chabahar ficava ao litoral do Irã. Comecei meu passeio pela Ramin Beach, uma praia com areia vermelha como o barro. Passei um tempo lá sentindo a brisa, fotografando o mar e ouvindo as ondas. Isso fez com que eu me lembrasse do porquê de amar tanto esse trabalho. Depois passei em Lipar, um lugar que continha uma rodovia enorme e deserta, no meio de montanhas áridas e um lago. Olhei para aquela rodovia, ela olhou para mim e tive a ideia de fazer algo bem louco. Arrumei um tipo de carrinho rolimã e o fiz de skate. Botei debaixo dos pés e desci aquela rodovia com velocidade. Foi algo libertador. Minha terceira e última parada, foi em Qeshm. Uma ilha a qual nós só conseguimos chegar de barca. Como uma boa Emma "Desastrada" Swan, tive a ideia de jerico de subir na grade da proa da barca para fotografar uma Caravela linda que estava de passagem, e acabei me desequilibrando e caindo dentro da água. Para a minha sorte, a mochila que estava usando era a prova d'água e não molhou as outras duas câmeras que estavam dentro dela, mas a que eu estava segurando morreu na mesma hora. Chorei calada pela minha perda que provavelmente custaria uns bons 40 mil reais. Fiquei tão frustrada que quase fiquei boiando lá dentro do mar para sempre, mas uma bóia lançada pelo piloto da balsa, que acertou direto na minha cara, estragou meus planos. Qeshm era um lugar magnífico! Cheio de cavernas e praias lindas. Entrei em uma caverna que tinhas bracinhos saindo do teto (claro que não eram bracinhos de verdade, ó pareciam bracinhos). Bom, garoto, o Irã não foi muito atrativo nem divertido (na verdade foi até meio desastroso), mas tem seus pontos bons. Fico por aqui com esta carta. Espero que goste das fotos que te mandei. Nos vemos em breve.

Com carinho,

Emma S."

Terminei de ler a carta rindo bastante com meu filho. A cada dia, Emma conseguia me cativar mais mesmo que por cartas. Peguei as fotos que ela havia mandado dentro do envelope. A primeira era a foto de Emma, com a mesma roupa que usava no Egito, com um enorme e feliz sorriso, abraçada com um camelo que parecia sorrir também. Olhei o verso da foto e estava escrito: "Frederico e eu". Henry e eu rimos. Peguei a outra foto e era Emma numa caverna, que tinham varias raízes saindo do teto, fazendo uma pose engraçada. Atrás tinha gravado: "A caverna dos bracinhos".

–Vamos, agora abra a sua mamãe! — Ele fez uma expressão meio curiosa. — E o que é Cabaret?

–Um lugar onde você nunca poderá entrar! — Falei com irritação.

Não com irritação por Henry ter perguntado, mas por Emma ter falado sobre tal coisa. Abri minha carta com pressa. O mesmo tipo de papel com a mesma caligrafia estava em minha mão, dessa vez dirigia-se a mim, o que me causou um tipo de alvoroço dentro do peito.

" Cara Regina Mills,

Pensei que essa viagem para o Irã fosse me fazer sentir como sempre me sentia, indo a lugares perigosos e exóticos. Mas dessa vez eu só consegui me sentir vazia e sozinha, como se um pedaço de mim estivesse faltando. Não. Como se um pedaço de mim estivesse distante e a saudade tão grande, que não cabia em meu peito. Tive muito tempo para pensar nessa viagem. Na verdade, eu só o fiz. E percebi que não podia mais viver assim, afastando todos que me fazem bem só pelo medo da distância me destruir por dentro. Eu me apeguei pela primeira vez por pessoas desconhecidas e adivinha? Foi ótimo! Henry é acabou se tornando para mim tão parte da minha felicidade quanto meu trabalho. E de alguma forma esse sentimento está sempre atrelado a você, também, mulher mimada. Então resolvi vir por meio desta, pedir consentimento para tê-los em minha vida e entrar na vida de vocês. Sei que você deve ter medo da distância também, mas eu não posso mais viver assim, sozinha. Olhe pela janela de seu escritório, para o outro lado da calçada. E caso me deixe entrar em suas vidas, basta assentir positivamente.

Com carinho,

Emma S."

Larguei o papel em cima da mesa e fez o que foi pedido pela loira, na carta. Henry fez o mesmo. Quando olhamos para fora, do outro lado da calçada, lá estava ela. De pé, encostada em um poste, com sua lente apontada para nós. Ela abaixou a câmera dando visão de seu rosto e sorriu. Dentro de mim um calor subiu como nunca havia sentido antes. Sorri de volta e assenti positivamente.

–Sim Emma Swan... — Murmurei para mim. — Entre em nossas vidas e faça seu estrago.

Notas finais
Quem quer Emma Swan entrando na vida, também levanta a mão! Soidfhviudfh (