Hidden In The Crowd
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Richard estava parado, do outro lado da rua, em frente à Drop of Lust pelo segundo dia seguido desde o dia em que entrou e conversou com Graham. Ele ainda não tinha certeza do motivo de estar fazendo isso, mas no dia seguinte à conversa ele procurou pelo ferro-velho algumas coisas que poderia precisar, pegou algumas outras em um hospital no caminho e ficou esperando na frente da boate, sem saber ao certo pelo que. A espera não deu resultado, e ele voltou pra casa quando viu que a boate estava sendo fechada, com tempo suficiente para voltar a pé para o seu abrigo.
A situação parecia estar se repetindo e, mesmo sem saber o que estava esperando, ele estava se cansando disso. Ele pensou se o que ele queria não poderia estar lá dentro, mas a memória das luzes piscando e o som horripilante que se passava por música no local o fizeram desistir da idéia. Talvez eu devesse gastar mais tempo em coisas produtivas, como conseguir um carro, ou umas roupas novas, pensou, mas então viu uma garota com o cabelo espetado saindo de um estacionamento do outro lado da rua. Não, ela está aqui, eu me preocupo com o resto depois.
A garota, a mesma que Dick havia visto na fila da boate quando foi falar com Graham, estava usando botas e uma saia preta, e uma camiseta branca com uma espiral pintada em vermelho. Enquanto ela entrava na boate Richard percebeu que ela não era tão magra quanto havia parecido, embora a mãe de Dick fosse insistir em fazê-la comer alguma coisa caso a conhecesse. Ele riu sozinho por pensar em sua mãe, fazia algum tempo em que ele não se lembrava dela, pelo menos desde o acontecido com sua segunda família. Ele mordeu os lábios, irritado por estar se lembrando daquilo novamente.Nas últimas semanas parecia que nada, nem na vida quanto na não-vida de Dick ocuparia sua mente mais do que aquela maldita semana. Ele então tentou se concentrar em outras coisas, mas não conseguiu mais se esquecer de seus 'irmãos' e do que havia acontecido com eles. Ele continuou tentando, sem sucesso, por algumas horas, mas cada pessoa, cada carro, cada placa que via, o lembrava de seus irmãos, ou de algo que eles haviam feito juntos, e, consequentemente, do que ele havia feito a todos.
Por sorte, seus pensamentos foram atraídos pela garota, que estava saindo da boate. Ele a seguiu até o estacionamento, o mais discretamente possível, se agachando atrás de um carro, a poucos metros da garota, quando ela foi abrir o carro. Ele se concentrou por alguns instantes, e então ela ouviu um barulho, como se algo estivesse batendo dentro do porta-malas. A garota parou olhando, por alguns instantes, e a pancada se repetiu. Ela então deu a volta, abrindo o porta-malas do carro. Elas nunca são muito inteligentes,ele pensou enquanto se aproximava. Antes que ela se desse conta de que não havia nada lá dentro, Richard estava atrás dela, segurando-a contra o seu corpo e colocando um lenço embebido em clorofórmio em seu rosto, sussurrando — Este será o início de uma bela amizade. — Ela se debateu por alguns instantes, e então desmaiou. Ele a apoiou e a colocou delicadamente no porta-malas, pegando as chaves do carro e partindo imediatamente para seu abrigo.
Ele estava “em casa” em menos de meia hora, diferente dos dias anteriores em que teve que fazer o caminho a pé. Eu sabia que tinha que conseguir um carro, agora só faltam algumas roupas. Ele desceu do carro para abrir o portão, e o grande cão que guardava o local veio latindo em sua direção. Richard se agachou, olhando nos olhos do animal, até que o animal parou de latir e ficou o encarando.
- Ei Rex, sou eu, Richard, vem cá.
O cão se aproximou, enquanto Richard passava o braço por um buraco na grade e acariciava o focinho do bicho.
- Eu trouxe uma amiga, mas eu tenho certeza que você vai ser um bom garoto e tomar conta da gente, não é? Agora vai, você tem que vigiar tudo, não é mesmo?
O cão partiu, para continuar sua ronda, e Richard então escalou o portão, saltando do outro lado, onde ele destrancou o cadeado e abriu o portão, para poder entrar com o carro. Ele levou o carro até um canto, onde ele não seria visível a ninguém fora do ferro-velho devido às pilhas de sucata, e não muito distante do baú onde ele passava o dia.
A garota foi levada até o baú, e presa com as correntes que ele havia encontrado no dia anterior e havia prendido em uma barra próxima ao teto. Ele a deixou deitada, em um colchão que ele havia encontrado. O colchão tinha alguns buracos, e com certeza algumas pulgas, mas era mais confortável que a lona na qual Richard se envolvia durante o dia. Ele ficou por algum tempo observando a garota iluminando-a com sua lanterna, e pela primeira vez reparou em sua pele pálida, o queixo fino, os malares um pouco maiores que o ideal; os lábios também eram finos, e pintados de um tom escuro de vermelho. Durante este tempo ele descobriu que a tatuagem que ela tinha no pescoço era uma daquelas cruzes com um laço na ponta, muito comum entre os babacas da nova era.
Por fim ele se cansou de esperar que ela acordasse, se despiu, deixando suas roupas dobradas em um canto, e se envolveu em plástico para passar o dia. Agora a idéia de um caixão revestido de veludo não parece tão estúpida, não é Richard? Ele riu sozinho, pensando em como a não-vida seria boa se fosse como nos filmes. Mas ninguém tinha uma vida tão boa quanto nos filmes, nem os vivos nem os mortos.
O sono finalmente o tomou, e antes de apagar totalmente Richard pensou no que a garota faria quando acordasse, se ele a tinha prendido bem. Mas já era muito tarde pra pensar nisso, e Richard dormiu, sentindo que o sol estava nascendo, mesmo sem poder vê-lo ou sentir seu calor.
Richard acordou na noite seguinte com um som baixo, uma mistura de choro e gemidos. Enquanto ele se desvencilhava de sua embalagem, o som ficava cada vez mais alto e mais claro, e já começava a irritá-lo. Quando ele finalmente se livrou do plástico, o cheiro se tornou mais importante. Richard demorou alguns instantes para perceber o que era aquele fedor, pois era algo com que ele não tinha que conviver todos os dias desde que deixara de ser humano. Ele se ergueu, pegando a lanterna e apontando na direção do som e do odor, e quando a acendeu viu a garota, mais pálida do que no dia anterior, e com os olhos vermelhos e inchados, como se tivesse passado o dia inteiro chorando. Ela balbuciou algo, que ele não entendeu bem, então ele se aproximou mais para ouvi-la, se agachando a seu lado, mas ela se distanciou, se encolhendo o mais longe de Richard que podia alcançar.
- Desculpe, eu não ouvi o que você disse. — Richard disse, sorrindo amigavelmente para sua companheira.
- Quem é você? O que você quer comigo? — a garota repetiu, com uma voz tão fraca que Richard quase não conseguia escutar.
Richard se ergueu, atirando a lanterna ao lado da mulher. — Eu sou Richard. Nós teremos muito tempo para conversar, mas acho que antes você precisa de uma limpeza. — ele disse enquanto pegava suas roupas e começava a se vestir. — É, me desculpe... — ele continuou, um pouco sem-graça. — Eu me esqueci totalmente que vocês passavam por esse tipo de coisa.
Ele terminou de se vestir, e a única resposta que teve foram os prantos da mulher. Ele abriu as portas do baú e saiu, deixando-as encostadas enquanto saía pelos fundos do ferro-velho, já que ficar abrindo o portão no meio da noite poderia atrair atenção indesejada. Só ao chegar na rua que passava uns bons metros atrás do ferro-velho Richard deu voz ao pensamento que estava martelando sua cabeça desde que acordou. — Você tem alguma idéia do que está fazendo, seu idiota?
Richard voltou com um galão de água e alguns panos, que ele conseguiu em um posto de gasolina a uns cinco minutos dali. Assim que ele entrou ele viu a luz se aproximando, mas não teve tempo de reagir antes de sentir a pancada na testa, e o vidro se estilhaçando em seu rosto. Por um instante ele mal pôde controlar a raiva, e arremessou tudo que estava em suas mãos na direção da maldita vagabunda.
- QUEM VOCÊ PENSA QUE É PARA ME ATACAR! — ele gritou, enquanto escancarava as portas do abrigo para que um pouco da claridade da área entrasse. O grito só serviu para que o choro voltasse, mais alto e irritante que antes. Quando ele se virou e a viu tremendo, encolhida em um canto chorando, a fúria foi quase incontrolável e ele só conseguia pensar em drená-la, até que ela parasse de incomodá-lo com aquela maldita frescura.
O choro parou por um instante, mas foi seguido pela voz rouca e fraca da garota. — Porque... porque você me trouxe até... até aqui?
Sem que se desse conta, Richard abriu a boca e exibiu suas presas, os grandes caninos, claramente sobrenaturais. — PORQUE EU SOU UM DEMÔNIO! — ele respondeu gritando — EU VIM LEVAR SUA ALMA PARA O INFERNO, MAS NÃO SEM ANTES FAZÊ-LA SOFRER. E VOCÊ! VOCÊ ACABA DE JOGAR FORA SUA ÚNICA ESPERANÇA. A ÚNICA LUZ QUE IRIA ACOMPANHÁ-LA PELOS PRÓXIMOS DIAS. — Richard começou a rir, uma gargalhada gutural e assustadora, e então saiu do baú, o trancando por fora, deixando sua prisioneira sozinha, acorrentada em meio à escuridão.
Enquanto se afastava do ferro-velho, Richard foi se acalmando, e então começou a pensar e se perguntar: “porque eu a trouxe até aqui?”
Ele voltou algumas horas depois, trazendo uma nova lanterna e roupas limpas, que ele havia “pegado emprestado” no caminho, para sua companheira. Ele abriu o baú com cuidado, atento para não ser atingido por mais nenhuma surpresa, mas dessa vez sua recepção foi menos calorosa que a anterior. A garota estava encolhida no canto, imóvel. Richard correu até ela e verificou que ela ainda estava viva. Ele tocou seu rosto suavemente, e então ela abriu os olhos, voltando a chorar quando o viu.
- Fique calma, Richard disse de forma gentil, fique calma e nada de ruim vai acontecer.
- O que você quer? Porque você me pegou? — a garota voltou a perguntar, ainda chorando.
Richard parou por um momento, olhando no fundo de seus olhos, um pouco sem graça pela única resposta que havia encontrado enquanto caminhava. Finalmente ele se decidiu, falar a verdade não iria mudar o que ele estava fazendo a essa garota, mas era o melhor que ele podia fazer.
- Eu... eu estou sozinho... já a algum tempo. Eu acho que eu só queria companhia.
A garota o olhou, mais assustada que antes, e voltou a chorar. Richard conseguia compreender isso. Ele também iria considerar alguém que sequestra outra pessoa apenas por se sentir solitário completamente louca, e nem ele estava muito certo de que esse não fosse o caso.
- Não se preocupe, tudo vai ficar bem. — Richard disse, secando as lágrimas com a mão. — Você precisa se lavar, e não parece estar em condições de fazer isso sozinha. Você quer que eu te ajude?
A garota continuou chorando, mas não reagiu quando Richard começou a despí-la. Seus seios eram pequenos e delicados, com mamilos rosados. Ela era magra, mas atraente, e os pelos negros em sua virilha contrastavam com sua pele branca. Richard imaginou que isso o deixaria excitado, mas não passou de uma memória, ele sabia bem que um monstro como ele não sentia muitas coisas.
Ele a limpou, de modo delicado e bastante carinhoso, e então a vestiu com as roupas que havia trazido. Ela continuava chorando, mas parecia estar se sentindo melhor. Richard então se sentou a seu lado, e a abraçou, apoiando sua cabeça em seu peito. Ele passou cerca de meia-hora, calado, apenas abraçando a garota e acariciando seu rosto, embora para ele parecesse que poucos minutos haviam se passado. Fazia muito tempo que ele não sentia o calor humano, o calor que os membros de sua família não possuíam, e desejavam tanto.
- Me desculpe, eu acho que não me apresentei. Eu sou Richard, é um prazer conhecê-la. Senhorita?
- Melody. — ela respondeu, com a voz muito fraca. — Você vai me deixar ir embora?
- Melody é um bonito nome. E porque você quer me abandonar tão cedo, Melody? Porque não espera pra me conhecer um pouco melhor. E se não gostar de mim, eu deixo você ir.
Ela novamente o olhou assustada. Richard imaginou que devia estar soando realmente louco dessa maneira.
- Eu sou um nômade. Alguns diriam que vagabundo é mais adequado. Ou era, ainda não tenho muita certeza disso. Mas eu pretendo deixar as estradas pra trás. Você conhece bem esta cidade?
- Eu nasci aqui. É o único lugar que eu realmente conheço.
- Eu acho que você deveria viajar mais. Existem muitas cidades bonitas por aí. Se as coisas não derem certo pra mim aqui, você pode vir comigo, se quiser. Não é tão divertido vagar sozinho pelas estradas. Mas, enquanto eu estou aqui, você pode ser de alguma ajuda, já que conhece tão bem a cidade.
- Eu sou só uma secretária. — ela voltou a chorar, embora sem tanto empenho quanto antes – Não tem nada que eu possa fazer pra te ajudar, só me deixe ir embora, e eu prometo não contar pra ninguém.
- Melody, querida, eu já te disse, você ainda não me conhece bem o suficiente para me dispensar dessa maneira. Vamos fazer um acordo. Você precisa me conhecer melhor, então, me faça uma pergunta, qualquer pergunta, e eu vou te responder.
Ela o olhou por algum tempo, imaginando o que perguntar ao louco que o havia sequestrado, e Richard viu claramente o medo em seus olhos, até que ela os fechou e fez a pergunta.
- Por que você me pegou? Porque a mim?
Richard também pensou por um instante, tentando buscar uma racionalização pelo que havia feito, mas decidiu que a verdade era melhor.
- Eu não faço idéia – ele deu um sorriso enquanto dizia – eu simplesmente fiz, isso acontece às vezes com o nosso povo, agir por impulso, você ainda não viu o pior. E porque não você? Você é uma mulher atraente, e uma companhia muito agradável.
- O que você quis dizer com nosso povo?
- Você pode não acreditar, mas eu sou um vampiro. Um imortal que se alimenta de sangue humano para sobreviver. — ele riu enquanto falava – Eu sei que parece uma mentira idiota, ou uma loucura, mas é a verdade.
- Um... um... vampiro? — ela perguntou com a expressão chocada.
- Sim, um vampiro. — Richard disse, exibindo suas presas, a deixando ainda mais chocada do que antes. — Mas não se preocupe, eu já me alimentei hoje, e não foi pra isso que eu trouxe você aqui.
Essa revelação pareceu deixá-la mais tranquila quanto ao cativeiro, e Richard passou o resto da noite a explicando sobre os vampiros, pelo menos o pouco que ele sabia. A letargia do dia já começava a se aproximar quando ele enfim a perguntou.
- E então, o que vai ser? Você ainda quer ir embora?
Richard pensou que a resposta seria mais rápida, mas ela apenas o encarou por cerca de um minuto, “Ela estará indecisa, ou apenas chocada em saber que eu realmente vou libertá-la?” Ela por fim respondeu, voltando a chorar.
- Sim, eu quero ir embora. Pelo amor de deus, me deixe ir.
Richard imaginou então que ela simplesmente tivesse se esquecido que estava em cativeiro, enquanto se aprofundava nos mistérios vampíricos, e sua calma anterior não era um sinal de que ela estava apreciando sua companhia.
- Tudo bem, mas o dia está amanhecendo, e eu preciso dormir. À noite. Assim que anoitecer eu vou levá-la pra casa, Melody. — ele disse sorrindo, o que não foi retribuído.
Richard então se levantou, começando a se despir e dobrar suas roupas, quando sentiu um toque em suas pernas. Ele se virou e viu Melody, de joelhos ao seu lado.
- Eu estou com fome. Faz mais de um dia que eu não como nada.
Comida. Richard havia se esquecido totalmente disso. Os vampiros tinham sua fome, mais feroz que a de qualquer humano, mas eles não precisavam se alimentar todos os dias. E fazia tanto tempo que Richard não chegava perto de um cheeseburger que ele havia se esquecido totalmente de que isso era uma necessidade dos humanos, enquanto tudo que ele precisava era de sangue. Sangue. Talvez isso bastasse.
Ele subitamente a pegou pelos cabelos, inclinando sua cabeça, enquanto rasgava o próprio pulso com suas presas. Ela voltou a chorar, ainda mais alto, o que tornou mais simples para que ele fizesse seu sangue descer pela garganta de Melody. Ele já havia visto um mortal se alimentar de sangue antes, e tinha ouvido falar de quão rico e poderoso o sangue de um vampiro era, então talvez Melody conseguisse aguentar até a noite seguinte, se alimentando de seu sangue.
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