Hidden In The Crowd
3 Capítulo 3
Notas iniciais
A hora finalmente havia chegada, e Richard estava a dois passos de entregar seu destino às mãos dos hipócritas que pomposamente se nomeavam “Membros”. Todos os seus instintos, e tudo o que ele havia aprendido sob a Camarilla, o diziam para não seguir adiante, que não havia volta neste caminho. Mas que opção ele tinha? Seus irmãos jamais iriam perdoá-lo pelo que havia feito, mesmo que ele dissesse que não havia sido ele, Richard, quem fez aquilo tudo. A Besta havia feito, mas isso não tirava sua responsabilidade.
Ele estava em frente ao local onde Graham havia dito que ele encontraria o Príncipe, e se Graham tivesse cumprido sua parte no acordo, ele estaria sendo esperado. Richard fechou os olhos, em uma prece silenciosa, e deu dois passos. O segurança, um homem de terno que o estava observando, e provavelmente se perguntando o que aquele idiota estaria fazendo parado ali o interceptou, mas o liberou assim que Richard disse seu nome, e que Graham tinha dito pra ele vir.
O cinema em que Richard acabara de entrar deveria ter pelo menos uns 50 anos, a julgar pela arquitetura e pelos cartazes colados na parede, mas era maior que qualquer cinema em que ele já houvesse ido. O corredor terminava em um saguão arredondado, e do lado oposto da entrada ficavam a bilheteria e a lanchonete, dois corredores, à esquerda e à direita levavam para as salas de exibição. Richard pôde perceber alguns ruídos e murmúrios vindos da direita, assim como uma luz no final do corredor, mas o segurança havia dito que ele deveria seguir pela esquerda, o que ele fez apesar de estranhar o fato.
O corredor da esquerda estava escuro, e Richard teve dificuldade em se guiar na escuridão, tropeçando duas vezes no que pareceu serem cordões pra controle das filas. Logo após o segundo tropeção Richard pode ver uma luz direcionada à parede, e percebeu que as grandes portas em frente estavam abertas. Richard também não pode deixar de perceber que alguém estava tentando projetar uma sombra na parede, mas ele não conseguiu discernir a sombra de que. Talvez uma ave, ou alguma criatura esquisita de ficção científica. Provavelmente a segunda opção.
Quando finalmente conseguiu entrar na sala, Richard viu um vulto sentado, apontando a lanterna para o alto. E enquanto se esforçava para tentar discernir quem era essa pessoa, o homem se levantou e apontou a lanterna para o próprio rosto.
— E então? O morcego conseguiu trazê-lo até aqui?
— Que morcego? — Richard respondeu, sem entender do que o homem estava falando.
— O morcego na parede. Eu ouvi você tropeçar, e achei que um morcego pudesse ajudá-lo. — o homem respondeu sorrindo.
Seu sorriso parecia sincero, diferente dos sorrisos cínicos que Richard sempre percebia nos Membros, e embora não se pudesse descrever o homem como bonito, ele era bastante simpático. Seu queixo era largo, quase quadrado, e sua pele era bem marcada. Os olhos e cabelos eram castanhos, sem nada de especial, e o cabelo estava penteado para o lado de um jeito que até Richard sabia não estar nem perto da moda. Richard foi se aproximando, se sentindo à vontade pela primeira vez desde que chegou à cidade, e quando estava a menos de um metro finalmente respondeu, com um sorriso.
— Aquilo não se parecia nem um pouco com um morcego.
O homem gargalhou, o que tomou Richard de surpresa, e quando parou indicou uma das cadeiras para que Richard se sentasse. Quando Richard se sentou, ele se sentou ao seu lado, tentando o melhor possível iluminar ambos os rostos com a lanterna.
— Gostei de você, Richard. De verdade. — o homem dizia enquanto dava um tapinha em seu ombro. — Você é sincero. É algo muito raro de se ver em alguém que vem em busca da aceitação do Príncipe.
— Me desculpe. O senhor é o príncipe? — Richard perguntou, sem conseguir disfarçar a surpresa na voz, o que foi respondido com outra gargalhada do homem.
— Não garoto, um príncipe nunca se encontraria com um recém-chegado em uma sala escura. Eu sou o colete à prova de balas do Príncipe. Meu nome é Randall, eu sou o xerife da cidade. — o homem fez uma pequena pausa, olhando fixamente para Richard, esperando por alguma reação, mas Richard estava muito confuso para ter alguma reação significativa, e então continuou – Minhas ordens são para revistá-lo agora, mas vendo que você é tão sincero, eu vou apenas lhe fazer uma pergunta. E não minta pra mim, porque eu sou praticamente um detector de mentiras imortal. Você está carregando alguma arma, bomba ou qualquer outro artefato que possa ameaçar o nosso estimado Príncipe ou qualquer um dos Membros presentes no Elísio?
Richard ficou boquiaberto, sem entender como responder a uma pergunta tão direta. O que o xerife deveria estar pensando? Ele não tinha uma arma, mas se tivesse ela estaria escondida, e ele não contaria ao xerife sobre ela. Mas se ele era tão bom quanto dizia em detectar mentiras, ele saberia o que Richard estava escondendo e conseguiria descobrir o motivo, então Richard não estaria mais seguro. Ele pensou em quão tolo havia sido vir até a Camarilla, pensava numa forma de fugir dali quando viu que era impossível e respondeu. — Não.
Randall sorriu, relaxando um pouco na cadeira. — Eu tenho uma série de perguntas que eu devo lhe fazer, mas tudo isso é muito tedioso. Porque você simplesmente não me fala mais sobre você, de onde vem e porque veio para nossa cidade? Talvez isso já responda a metade da minha lista.
Richard pensou por alguns instantes nas perguntas do homem e isso o levou a regiões de sua memória que ele não percorria a muito tempo. Esse homem, desconhecido e bastante esquisito, o deixava mais à vontade do que ele havia se sentido desde o seu abraço. Ele começou a se lembrar da sua vida e do motivo que realmente o havia trazido até ali, através de uma longa e imprevista estrada.
— Eu sou Richard, nasci no interior do Texas, uma cidade que você provavelmente nunca ouviu falar. Meu pai e minha mãe eram pessoas simples, tinham um pouco de terra e algumas vacas, mas não o suficiente para terem empregados, então eu e meus irmãos trabalhamos duro desde pequenos. Sair dali nunca havia passado pela minha cabeça, eu achei que, como meu avô havia feito e meu pai provavelmente faria, eu ia morrer naquela fazenda.
O que estragou os planos foi, como é inevitável, uma garota. Ela era quatro anos mais nova que eu e era a garota mais bela que eu havia conhecido. Nós namorávamos escondido, há cerca de 6 meses, quando ela ficou grávida. O pai dela provavelmente ia me matar quando descobrisse, então eu a pedi em casamento. O pai dela tinha dinheiro, e a mãe era uma excelente dona de casa, então ela nunca tinha sequer lavado um prato. Ela sabia como minha família vivia, via as mãos calejadas da minha mãe. Então a vida na fazenda era inaceitável pra ela.
Então nós planejamos que eu iria para uma cidade grande, arrumaria um emprego e antes que o pai dela descobrisse que ela estava grávida eu voltaria para me casar com ela e levá-la pra cidade. Uma semana depois do meu aniversário de 19 anos eu peguei um ônibus pra oeste, pra Califórnia. Mas conseguir um emprego decente não era fácil, principalmente para um rapaz ignorante. Eu consegui alguns trabalhos, mas nada que durasse muito, nada que me desse condições de cuidar de uma mulher e de um filho. Ou de mim mesmo. Eu passava semanas inteiras na rua, e dias com fome, quando não conseguia trabalho. Eu também não tive muito tempo pra me estabelecer, poucos meses depois ela me escreveu uma carta, dizendo que o pai havia descoberto a gravidez, e havia arranjado um viúvo de outra cidade que iria se casar com ela.
Quando eu recebi a notícia eu tive vontade de buscá-la. Nós nos amávamos, então mesmo passando fome juntos nós seríamos felizes, foi o que passou pela minha cabeça. Mas minha sensatez foi maior e eu formulei um novo plano. No meu segundo mês na cidade, eu havia trabalhado em um bar, e lá eu conheci um homem que sempre tinha trabalho para pessoas esforçadas, como ele mesmo dizia. Eu nunca havia aceitado nada dele, porque os trabalhos não eram honestos, eu ia ser pai em breve, e eu sempre pensei que um criminoso não poderia ser um bom pai. Eu comecei a fazer entregas pra ele, o que me dava uma fonte de renda maior e mais estável que qualquer emprego que eu tivesse conseguido antes. O meu primeiro pagamento eu mandei para ela, com instruções para comprar uma passagem e o meu novo endereço. Eu esperei por meses antes de finalmente perceber que ela não viria.
Um tempo depois as coisas se complicaram, tivemos problemas com alguns concorrentes, e eu fiquei desempregado de novo. Mas eu não era mais um rapaz ignorante, e já não tinha mais os mesmos princípios que minha mãe e meu pai haviam me passado. Acontece que um dos meus principais clientes era um rapaz bonito e um pouco afeminado. A maioria dos meus clientes não falava comigo, já que sabiam que eu não tinha mais nenhum produto para eles, mas ele deixou eu passar algumas noites na casa dele. E foi aí que eu descobri que ele era um puto, embora ele preferisse dizer que era um acompanhante. E ele acompanhava homens, mulheres, qualquer coisa, desde que o pagassem. Eu não tinha muitas opções, então comecei a trabalhar com ele. Eu não me orgulhava disso, e sabia que minha família não se orgulharia se soubesse o que eu estava fazendo, por isso eu não entrei mais em contato.
Essa vida durou mais de um ano, e não era de todo ruim, embora eu preferisse clientes mulheres, e elas fossem minoria. Foi numa quinta-feira, que eu já considerava perdida por causa da chuva, que eu tive meu último cliente. Ele não era o tipo de cliente que eu aceitava normalmente, era musculoso e tinha as calças e o sapato bem gastos, mas faltavam dois dias para o pagamento do aluguel, e esperar outro cliente seria perda de tempo e dinheiro naquele dia.
Quando nós chegamos ao motel, que não ficava longe dali, eu comecei a abraçá-lo e acariciá-lo, mas ele não retribuiu. Ele simplesmente me empurrou pra cima da cama, rasgou minha camisa e mordeu meu pescoço. Eu acho que você entende exatamente como eu me senti quando ele mordeu, e logo depois mais três pessoas entraram no quarto, eu só os senti agarrando meus braços, arrancando minha calça, me mordendo. E então era como se eu tivesse saído do meu corpo, e estivesse observando enquanto aqueles quatro monstros sugavam meu sangue. Quando eles terminaram, o musculoso começou a revirar minhas calças, acho que pra pegar o que ele já havia pago, então ele achou uma aliança de ouro, bem maior e mais pesada que as que se vendem hoje em dia. Por um instante eu fiquei com medo por ter sido descoberto, aquela aliança estava no dedo dele quando nós entramos no quarto, mas o que ele poderia fazer? Ele e os amigos já tinham me matado, não é? Mas ele ainda tinha um truque na manga. Ele começou a rir, dizendo algo a seus amigos que eu não conseguia ouvir, então subiu por cima de mim, e então tudo ficou escuro.
Eu não sei por quanto tempo eu desmaiei, mas quando eu recuperei a consciência era eu quem estava mordendo o pulso do homem, sugando vorazmente seu sangue. Isso deveria ter me assustado, mas a fome era grande demais e eu continuei sugando até que os outros, meus “irmãos” como eu descobri depois, me puxaram e me seguraram até que eu me controlasse.
Ele começou a me explicar algo, mas a fome muito grande e eu não consegui prestar atenção ao que ele dizia. Eu os conduzi até o meu lar, onde eles pegaram tudo de valor que encontraram e eu finalmente saciei minha fome. Meu amigo teve uma noite tão fraca quanto a minha, e eu não resisti quando o vi chegar em casa ensopado.
Com ele fora do caminho, nós quatro fizemos uma barricada no banheiro onde passaríamos o dia, enquanto meu senhor me explicava que desde que eu me alimentasse regularmente, como eu havia feito com meu amigo e evitasse a luz do sol eu viveria para sempre.
Na noite seguinte nós vendemos o que havíamos conseguido e partimos, começando a jornada que duraria o resto de nossas “vidas”. Nós seguíamos de cidade em cidade, ficando pouquíssimo tempo em cada uma. Meu senhor não me explicou muito sobre outros vampiros, mas ficou aparente muito rápido que eles não gostavam da nossa presença. Por vezes nós éramos atacados após alguns dias ou semanas em uma cidade, e tínhamos que partir antes que as coisas piorassem, mas muitas vezes nós éramos deixados em paz, mas partíamos em menos de um mês de qualquer maneira.
As palavras de nosso senhor eram lei para nós, e essas eram as únicas leis que seguíamos. Foi difícil me adaptar ao novo estilo de vida no início, mas depois de um tempo eu acho que comecei a gostar disso. Nós pegávamos o que precisávamos, fazíamos o que queríamos, e partíamos antes que as autoridades pudessem nos encontrar, fossem elas mortais ou vampiros.
Eu me tornei próximo de meus irmãos, muito mais próximo do que eu jamais me tornaria de meu senhor, porque eles compartilhavam comigo o fato de terem sido arrancados de suas vidas contra sua vontade só porque fizeram algo que nosso líder considerava divertido ou ousado. E esse era o único motivo, pois nenhum de nós tinha nenhuma semelhança uns com os outros ou com nosso senhor. Eu não passava de um garoto do interior que teve que aprender a se virar na cidade grande, e meus irmãos eram uma adolescente que havia fugido de casa para se livrar de uma família excessivamente religiosa e se arrependia disso todos os dias, um jovem mimado que havia tomado gosto por matar aqueles que não fariam falta a ninguém e um noviço que, enquanto saía de um puteiro, achou que sua fé era o suficiente para protegê-lo do “demônio” que havia resolvido tomar seu sangue. Na verdade eu não suportava os dois, e só tinha um bom relacionamento com a garota. Mas de qualquer forma, você tem que ser próximo de alguém para discutir com ele o tempo todo não é.
Nós viajamos por uns cinco anos, atravessando a américa nesse período. Nós pegávamos caronas com caminhoneiros, e frequentemente recompensávamos os bons samaritanos roubando sua carga e seu sangue. Na metade de nossa viagem nós até conseguimos um escravo, que em troca do nosso sangue cuidava dos nossos corpos durante o dia. Nós passamos por muitas situações em que sobrevivemos por pura sorte mas nem todos foram tão sortudos, e nós perdemos o padre no meio do caminho. Mas o risco fazia parte de nossa jornada, e tudo corria bem até alguns meses atrás...
Richard se calou, com a boca semiaberta e o olhar distante, e isso aguçou a curiosidade de Randall.
— Vamos, continue. O que aconteceu a alguns meses? — Randall disse, com a mão na perna de Richard, tentando confortá-lo.
Richard o olhou, mas não conseguia encontrar as palavras. Nem sabia se devia contar tudo o que havia acontecido a esse desconhecido, por mais compreensivo e amigável que ele fosse. Richard sabia que, se soubesse tudo, Randall o odiaria, e Richard não queria isso, ele queria que o xerife gostasse dele, e permitisse que ele ficasse na cidade, para que pudesse continuar a vê-lo.
— Todos eles estão mortos — Richard balbuciou — e eu sobrevivi por muito pouco. Foi por isso que eu vim para a cidade. As estradas não são seguras para um vampiro solitário. E quando eu me vi sozinho, eu vi o quão cruéis e irresponsáveis nós eramos, e eu decidi que queria algo diferente para mim. O caos em que eu vivi era a escolha de meu senhor, e não a minha. Por favor, me permita ficar na cidade, eu não quero voltar para a estrada. — Lágrimas de sangue escorriam pelas bochechas de Richard, e Randall pode ver, na alma do neófito, o pavor que o mesmo sentia.
Randall pegou um lenço e limpou suas lágrimas, enquanto sorria de forma paternal. — Não se preocupe Richard, você está seguro agora. A Camarilla irá protegê-lo, desde que você respeite nossas leis.
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