Herói Acidental
1 O que te faz ir além?
Notas iniciais
Kylie sentia seu coração disparado. O cheiro de seu próprio sangue entrava por suas narinas. A dor lacerante do enorme corte da sua barriga era incessante, sugando a força da heroína. Suas pernas já fraquejavam, cansada de correr com aquele ferimento. Uma abertura no meio do abdome, não muito profunda, mas ainda sim capaz de derrubar a morena. Já sem aguentar cinco passos mais, ela encostou-se a uma árvore, para checar o ferimento. Usava a trapo que restara de sua camisa como uma toalha para estancar o sangue, porém sem ser muito efetivo. Ela olhou para o céu noturno, vendo a imensidão das estrelas. Ia morrer. Com certeza, ia morrer. Podia ter vivido bem e tranquilamente, trabalhando como uma pessoa comum. Devia ter entregado a carta ao real destinatário, seu primo Marcos. Mas... Por que não entregou?
~Dois meses antes~
Novamente, Kylie estava com dor de cabeça. Passou o fim de semana todo cuidando de uma amiga após o término do namoro. Não dormiu praticamente nada nas últimas duas noites e, pra piorar, tinha que aguentar seu primo babaca como chefe. O trabalho como secretária de um narcisista, com um pensamento de que todas as mulheres tinham que se submeter a ele por ser o “Mais Lindo De Todos” enojava a jovem adulta. Mas, na falta de empregos que o país se encontrava, era uma das poucas opções, além de ter um bom salário. Era o suficiente pra viver longe da família enquanto fazia sua faculdade.
O remédio não faria efeito, pelo menos não enquanto Marcos estivesse falando sobre sua incrível pessoa o tempo inteiro, ao invés de simplesmente pedir o que devia para ela. Suas unhas riscavam a mesa, deixando pequenos sulcos que se esculpiam pouco a pouco. A outra tamborilava na base do notebook, esperando ele terminar sua conclusão para poder fazer seu trabalho. A mensagem era simples. Podia ser transmitida em vinte e poucas palavras. Apenas dissesse “Preciso que você faça uma atualização geral enquanto eu estiver fora. O cara da TI ainda não foi contratado e, já que você sabe sobre essas coisas, deve conseguir mexer no servidor. À proposito, terá um bônus no seu salário por isso”.
Ótimo. Além de organizar e-mails, agendas, telefonemas e tudo mais, agora tinha que atualizar o servidor inteiro da empresa. Pelo visto sua dor de cabeça não passaria tão cedo. Sem muito o que fazer, ela arrastou a cadeira para trás, buscou o telefone de serviço e seu notebook e andou á caminho do elevador, deixando o “atendimento a distância” que ela criou ligado em cima da mesa. O mecanismo era bem simples, uma câmera ligada 24 horas num computador, onde uma tela era exibida na direção contrária. Abrindo o software de vídeo-chamadas ela poderia monitorar a entrada todo o tempo.
Enquanto esperava o elevador, bufou uma vez. Outra. Respirou fundo, tentando acalmar sua cabeça. Tinha que concentrar e fazer o mais rápido possível, pra poder se livrar disso. Mas... Nunca tinha acessado o servidor. Não sabia do sistema usado, nem da última atualização feita... Isso poderia demorar horas. Ela chutou o chão, quando a porta se abriu. Não estava no andar correto. Claro, o carteiro da empresa. Tinha que entregar cartas diariamente em todos os andares o dia todo, além de enviar as cartas que pediam. Quando a viu, o garoto de aparência latina, recém-formado, com sua barba mal feita, abriu um sorriso, reclinando a cabeça num cumprimento.
— Oi Ky! – Fazia questão de chama-la assim, mesmo sabendo o quanto a irritava. Era uma das incríveis maneiras que encontrava para esconder sua paixonite pouco óbvia, que só a garota não via. – Tenho uma carta para o Chefe. Poderia entregar para ele mais tarde? Já que eu teria que te entregar de todo jeito. – Ele vasculhou o fichário que tinha debaixo do braço e puxou um envelope amarelo, oferecendo para Kylie. – Isso é ultra urgente, pelo que diz o a escrita na frente.
Ela o tomou em mãos, examinando. Era um envelope grande até. Mas extremamente leve. Tinha um volume maior numa parte, o que ela achou estranho, mas decidiu relevar. Se era um pacote pro seu chefe, era sua função saber o que continha antes de abrir, do contrário não estaria fazendo sua função. Ela apenas colocou o embrulho junto do notebook sob o braço e agradeceu, saindo logo em seguida do elevador, já que finalmente estava em seu andar.
— A merda do Marcos deve ter recebido outros daqueles fotoshots que ele compra e manda para cá, pra mulher não descobrir.
Ela abriu uma porta no meio do corredor, menor que as normais feitas para salas separadas. Era a sala do servidor. Apesar da porta pequena, a sala era enorme. Utilizava-se e uma luz azul, para evitar gerar calor, assim como o ar condicionado ligado 24 horas. Ela puxou a cadeira que dava à mesa onde a administração central estava ligada e sentou-se ali. Pressionou o botão de ligar do monitor. Estalou seus dedos e tocou o teclado. Rapidamente, ela criou uma janela avisando que o servidor ficaria fora por algumas horas, que foi exibida em todos os computadores, antes de desativar a rede aberta. Agora eram somente ela, o servidor, um envelope estranho e horas e mais horas a fio, para fazer o trabalho de alguém que devia ser contratado para isso mas não foi. “Que ótimo” Pensou, iniciando seu trabalho.
—-- x ---
E realmente, foram horas e horas, Já eram quase 11 da noite quando terminou seu serviço. Ficara 9 horas simplesmente fazendo o trabalho de outrem. Por fim, ela reabilitou o modo aberto do servidor e desligou a tela, puxando seu notebook novamente para debaixo do braço, já saindo da cadeira. Sua visão pegou o amarelo da carta no canto. Se esquecera completamente de checar o conteúdo. “Tanto faz” pensou, apenas pegando o pacote e saindo da sala, se certificando de fechar bem a porta. Apenas alguns poucos funcionários noturnos se mantinham à essa hora, então provavelmente ninguém notaria ela ali. Porém, entrando no elevador, ela notou que ainda tinha alguém que a conhecia. Exato. Luan, o carteiro, ainda estava lá. Tinha outro pacote, dessa vez para Kylie, e fizera questão de esperar somente para entrega-lo. Recebeu o envelope, um preto com seu nome escrito em uma belíssima letra em cor branca, brilhante. Juntou-o ao amarelo, se dirigindo aos armários onde os funcionários mais baixos guardavam suas coisas. Abriu o que tinha seu nome puxando a mochila com repartição de aljava, onde colocou o notebook e os envelopes, e o arco, que prendeu paralelo às alças da mochila. Com certeza ela achava estranho andar com um arco no meio da cidade, mas era a paixão dela, além de ser a única arma que saberia usar caso precisasse. Assim pronta, ela colocou o celular no aleatório e iniciou sua playlist para corrida, já que teria que fazer uma até em casa. Por sorte, o som do fone era da música “Trough fire and flames”, da banda Dragonforce. Ela saiu pela porta principal e começou a sua corrida. Era uma distância média de 5 km até sua casa, o que levaria uma meia hora. O tempo voava correndo com suas músicas. Ela sequer percebia o que estava ao seu redor, até que um homem enorme atrapalhou seu caminho, esbarrando nela. Obviamente fora de propósito, e o homem parecia ter más intenções, então ela só se levantou, pediu desculpas e voltou a correr. Agora com os fones desplugados, ela podia ouvir os passos pesados seguindo-a. Teria de escapar. Ela se jogou subitamente num beco onde sabia que conseguiria escapar, acelerando logo que saiu do campo de visão. No fundo tinha uma curva à esquerda, e um paredão feito de pedras, que deixavam um relevo enorme no muro. Ela apoiou-se numa pedra mais acima com a mão e se puxou, iniciando uma escalada. Poderia escapar facilmente, já que conhecia bem o local, e já fugira de assaltos antes. Quando olhou para baixo, conferindo se o brutamonte ficou preso sem poder escalar, teve uma surpresa: ele era ainda mais habilidoso que ela. Ela então armou seu arco, puxando uma flecha. Deixou com que o cabo deslizasse sobre seu dedo, mantendo a mira firme. Seria uma flechada forte, já que, junto dela, havia a gravidade a seu favor. Quando a corda soltou seu estalo de quando volta ao normal, Kylie voltou a correr, sem se importar com o que acontecera. A adrenalina fazia com que corresse ainda mais rápido. O ar gelado ardia seus pulmões no corpo aquecido. Andar por cima de muros não era fácil, mas era uma habilidade que facilitava a vida de todo bom arqueiro. A morena parou na ponta do muro. Não poderia correr mais por cima, teria de voltar para as ruas. Ela olhou em volta. As luzes estavam falhando, mas podia ver duas silhuetas seguindo apreçadas na direção dela. Kylie saltou do muro, aterrissando com uma cambalhota e voltando a correr. Se esqueceu completamente do computador na mochila, que provavelmente teria se quebrado. Deu um impulso na direção oposta aos que vinham, voltando a correr. Seria realmente uma boa ir para sua própria casa? Provavelmente não. Ela podia tentar ir a um hotel, mas não parecia bom também. Lembrou-se então de uma coisa: sua melhor amiga, Laura, era dona de um casarão enorme em um condomínio fechado, com alta segurança, e ela tinha a chave para a casa. Era o plano perfeito. Só tinha que fugir dos dois que seguiam ela e... Do brutamonte, que apareceu fechando a rua, com a flecha ainda cravada em seu olho. Ele não parecia nada feliz com aquilo.
Novamente, ela armou o arco. Teria de acertar na testa agora. Caminhava mais devagar, mas poderia correr. Em questão de dois segundos, ela parou, prendeu a respiração, mirou, soltou a flecha e voltou a correr, torcendo que derrubasse o enorme homem que bloqueava. E, pra sua sorte, derrubou. Um acerto bem no meio da garganta, e o homem caiu de joelhos. Ela pulou por cima dele, usando suas costas como um impulso, e entrou em um beco à direita, correndo. O caminho era estreito, mas ainda conseguia correr por ele. Era complexo, mas não impossível de se acertar o caminho, assim como ela o fez. Avistando o condomínio, deu um último disparo, acelerando até o portão. Parou na cabine do porteiro, que era conhecido dela, explicando sobre ter sido seguida, e sobre visitar Laura. Ele apenas concordou com um aceno, avisando no rádio para se manterem mais atentos. Agora Kylie estava mais tranquila. Ela chegou na porta de Laura, batendo na campainha duas vezes antes de entrar. O suor ainda pingava em sua testa. Laura a observou entrando, com uma colher de sorvete na boca e seu clássico pijama de ursinhos. Ela apontou para o banheiro, mesmo que Kylie já soubesse, num olhar de “precisa de ajuda?”, enquanto a morena respondeu com um aceno negativo, jogando a mochila no chão, junto com arco, e jogando suas roupas pelos cantos. Não podia nem queria fazer muita coisa, então ela apenas tomou um banho rápido, afim de limpar o suor, deitou no colo de sua melhor amiga, e adormeceu, prometendo contar toda a história no dia seguinte.
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