Herói Acidental
2 A melhor melhor amiga
Notas iniciais
Kylie acordou sentindo uma sensação estranha. Ela se via num campo de trigos, com o sol morno banhando seu corpo seminu, encoberto apenas por uma toalha branca. À sua frente, de pé, via uma silhueta enegrecida, juntamente com um riso angelical, e a sombra dos longos cabelos da silhueta logo cobriam o rosto da morena. Antes de poder se mover naquela situação, seus olhos se abriram: fora um sonho. Um sonho bem recorrente, na verdade. Já teve aquela mesma visão algumas vezes nos últimos anos. Sabia já ter ouvido aquele riso doce, já ter visto a fluidez de sua juba. Já havia consultado diversos especialistas, e a resposta nunca mudava: sempre era a visão que mostrava o par perfeito dela. Mas... Quem era esse par perfeito? Quando ele viria? Ou ela, no caso... Ela se ajeitou na cama, até perceber que não era uma cama. Por um momento, esqueceu-se de que estava na casa de sua melhor amiga, Laura, que inclusive não se mexeu muito desde Kylie dormiu. O máximo que pareceu ocorrer foi a colher cair da boca da loira e ficar jogada no chão, onde o cachorro lambia. Mentalmente, a Martins agradeceu ter uma amiga tão boa. Levantou-se com cuidado para não acorda-la e começou, com bastante cuidado para não fazer barulho, a arrumar a casa.
~x~
Quando a loira acordou, Kylie já havia arrumado praticamente tudo. As roupas dela, antes suadas, estavam agora secando no varal. A bagunça de sorvetes, doces e lencinhos espalhados por Laura fora limpa. A louça fora lavada, e o almoço já estava sendo pronto. A loira deu um sorriso, abraçando a amiga por trás e dando-lhe um beijo na bochecha, obtendo logo uma resposta:
— Bom dia, bela adormecida. Dormiu bem com sua colher de sorvete?
— Dormi sim, cachinhos. Valeu por arrumar a casa. Agora... O que aconteceu ontem pra você vir aqui naquele estado? Correu uma maratona na muralha da China?
— A história é bem mais cruel.... Eu fui seguida. Quando saí do trabalho, um homem enorme correu atrás de mim. Fiz a nossa rota de fuga, mas ele tinha capangas, e ainda conseguiu me acompanhar. E eu... meio que matei ele...
— VOCÊ O QUE? – O grito foi ouvido mais longe que se imaginava. Os olhos azuis se arregalaram e ela soltou os braços, abrindo a boca, pasma.
— É... Aconteceu. Eu tinha opções de arriscar ser raptado, bater nele, que você sabe, não faço, ou usar o arco. E acabei acertando no pescoço...
— Então você quase foi raptada, matou um cara... Mais alguma coisa pra esconder?
— Mais uma, na verdade. Recebi um envelope ultra confidencial pro Marquinhos, e parece ser importante, mas eu ainda não abri...
— Bora abrir essa merda então fia, tá esperando o que?
Laura tinha razão, Kylie sabia disso. Ela terminou de fritar o bife e colocou um pano de prato por cima, saindo da cozinha. Caminhou nervosa até sua mochila e puxou de lá o envelope amarelo. Ainda lacrado. Ela respirou fundo e abriu o envelope. Independente do que tivesse ali, era o motivo pelo qual ela foi perseguida. Rodando o pacote, caíram em sua mão um bilhete, um maço de dinheiro e um celular. Começou lendo o bilhete.
“Para as mãos exclusivas de Martins.
Caro contatado(a), espero que compreenda o motivo desse convite. Igualmente as outras ocasiões, nós da OME viemos aqui convidá-lo(a) a participar de nosso programa de treino. O senhor é um jovem de grande potencial, com habilidades além da compreensão humana comum. Tudo que pode, como pessoa, fazer, será aqui melhorado e corretamente preparado, para que possa, por fim, utilizar a seu critério o uso de suas habilidades.
— ASS: Petrus Kioruski,
QG da OME”
A morena coçou a cabeça, sem compreender corretamente a escrita. Dobrou a carta e jogou-a no sofá. Decidiu então ligar o celular. A tela piscou em branco, com um logo escrito “OME” no centro, e iniciou um vídeo automaticamente. No vídeo, foram explicadas todas as lacunas: O que era a OME, o que se fazia por lá, onde era a organização, como você deveria chegar, e, por último mas não menos importante, a questão de comunicação. Por ser algo de escala global, com certeza haviam pessoas de dezenas de países, o que dificultaria a comunicação. Porém, o primeiro projeto desenvolvido na chegada é a multi-linguagem. Laura encarou Kylie, espantada. Deu um longo suspiro, antes de retomar a conversa:
— Você não devia ter aberto isso... Não vai pra essa porra, né?
Ao mesmo tempo, Kylie abriu um sorrisinho bobo, pensando bem na proposta.
— Você sabe que é meu sonho desde pequena ser uma heroína, e a chance tá nas minhas mãos agora. Eles até mandaram dinheiro pra chegar lá!
— Mas... Kylie... Isso é burrice. Vou avisar pra não fazer cagada depois, ok?
Kylie sorriu. Sabia que, na linguagem da amiga, aquilo significava que ela ajudaria. A morena abriu um sorriso, lascando um beijo nos lábios rosados entre as bochechas pressionadas da loira, algo cotidiano entre as duas. Era bem claro para todos que elas já tiveram um caso, e que algumas coisas se mantiveram. Kylie empurrou a melhor amiga, fazendo ambas se deitarem no sofá, com as pernas cruzadas juntas no centro. Ia fazer uma viagem bem legal, pelo visto.
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