Heroína

1 Um copo de vinho barato


Notas iniciais
Apenas mais uma ideia que me surgiu de repente, e eu tive que escrever, porque, aparentemente, eu nunca me contento em ter só uma fic para focar. Eu gostei desse projeto, porque eu quero abordar diversos assuntos pesados, e intensos, e acredito que será um desafio para mim mesma. Espero que gostem tanto quanto eu, e que me acompanhem. Todos os capítulos que tiverem temas mais delicados VIRÃO COM AVISO, para quem não quiser ler sobre determinado assunto. Eu quero trabalhar realmente fundo com isso, sem estereótipos, o mais profissional que eu puder e conseguir. É um processo de aprendizado, minhas próprias experiências e aquelas que eu conheci, que eu li sobre, então peço que sejam pacientes, porque eu também sou nova nisso. Muito obrigada por quem for me acompanhar nessa jornada, eu me sinto absurdamente grata por cada um. Obrigada. Espero que gostem do primeiro capítulo (ele foi reescrito três vezes, pois é!).
"Ninguém disse que seria fácilÉ uma pena nos separarmosNinguém disse que seria fácilMas também não disseram que seria tão difícilMe leve de volta para o começo" The Scientist, Coldplay

—Capítulo I—

Um copo de vinho barato

Naruto encarava a janela, incomodado com as manchas embaçadas que o impediam de ver o outro lado da rua. Aquele ponto específico do apartamento sempre lhe dera uma visão privilegiada do horizonte esverdeado, dos cumes das colinas, mas agora, não mais – um alto prédio comercial fora construído no terreno oposto, as paredes cinzas e as janelas fumê eram sua única paisagem. Não que fizesse alguma diferença, de qualquer maneira – a chuva torrencial lavava a poeira do lado de fora, mas não permitia que visse nada além de borrões escuros e as pústulas marrons. Com o ambiente todo fechado, nuvens eclipsavam do lado de dentro. Era uma cena deprimente.

Ele entornou o líquido, bebericando pela borda, deixando que o amargor tomasse conta de suas papilas, mas ele sequer fez uma careta quando o sabor quente desceu por sua garganta, caindo em seu estômago vazio sem fazer barulho. Deveria estar se preocupando pelo álcool não estar mais lhe causando tontura, no entanto, seus olhos pesavam, e ele ponderou estar, de fato, tonto demais para sentir qualquer efeito. Girou o copo entre os dedos, fitando as gotas escuras que escorriam pelos cantos, unindo-se ao conteúdo quase se esgotando. Não gostava de beber sozinho – lhe dava a impressão de ser um velho decrépito e solitário –. Porém abriu uma exceção. Uma comemoração singela, dele com sua própria presença. Estava de volta.

Por outro lado, o álcool lhe distraía o suficiente para não olhar para trás e se incomodar com as camadas de poeira que esperavam para ser limpas. Caixas amontoadas no canto, próximas ao balcão, formavam pilhas de trabalho que Naruto estava postergando. Os únicos elementos da mudança que foram tirados de seu estado inerte foram a taça de vidro e a garrafa lacrada, ambos embalados cuidadosamente em plástico-bolha. O líquido estava morno, e a taça translúcida parecia deslocada, mas foi suficiente para fazer com que ele se sentasse no parapeito da janela e admirasse seus próprios pensamentos cansados.

Não se admirou por estar chovendo. Aquela minúscula península esquecida por Deus tinha uma média relativamente alta de dias nublados, mas costumava ser bastante ensolarada, ao menos era como Naruto se lembrava – àquela altura, ele deveria ter percebido que muita coisa mudara. Não estava frio, embora a brisa gélida que o atacou fosse o suficiente para ele puxar o casaco da cintura e jogar sobre os ombros. Não foi preciso ficar exposto por muito tempo, e, quanto mais o elevador subia, mais a atmosfera abafava. Tudo estava diferente, mas seu apartamento continuava o mesmo. Do mesmo jeito que se recordava de tê-lo deixado quando saiu.

Os mesmos lençóis brancos, agora cobertos de poeira. As mesmas paredes manchadas, que um dia ele quis pintar sozinho. O mesmo piso linóleo, que sua mãe insistiu em escolher e agora era a parte elegante de um cenário vergonhosamente deslocado. O mesmo batente claro, que tinha rabiscos e desenhos. Não tinha saído da sala de estar, mas sabia que o quarto guardava os mesmos pôsteres velhos e o mesmo cortinado azul. O banheiro tinha o mesmo box cristalizado e a mesma bancada rachada, que Naruto quebrou um dia, sentando-se sobre ela.

O mesmo apartamento, as mesmas memórias. As lembranças que o perturbavam, e agora o faziam virar o resto do líquido da boca, engolindo sem marinar. Fechou os olhos com força, pondo-se de pé, ignorando os gatilhos que sua mente o forçavam a dar.

Chovia muito, mas deveriam ser quase duas. Naruto não pretendia iniciar a faxina naquele momento, sobretudo com o estômago revirando pelo excesso de bebida e a falta de comida. Puxou as chaves do carro e sua carteira, saindo sem encarar as caixas de papelão uma nova vez. Os demais móveis deveriam ser enviados pelos pais no fim da semana, e ele pretendia ter tudo devidamente organizado até lá, mas, por enquanto, tinha somente um destino em mente.

Desceu pelas escadas, saltando pelos lances despretensiosamente, os olhos fotografando cada canto dos degraus, sendo atacado por memórias que ele não sabia que tinha. Vários rostos invadiram seus olhos, e ele respirou fundo duas vezes, para se acalmar. Já no piso térreo, se perguntou se deveria dirigir alcoolizado. Mas suas mãos já estavam procurando pelas chaves, e ele percebeu que não se importava, realmente.

Se curvou para entrar, ligando o aquecer e agradecendo por não precisar estacionar na rua. Quando saiu da garagem, os limpadores começaram a trabalhar ensandecidamente. Não teria arriscado sair se não conhecesse, como a palma de sua mão, cada ruela e esquina daquela cidade. Não havia semáforos da última vez, mas ele não teve de esperar muito. As ruas estavam quase desertas, e nem mesmo as lojas estavam abertas – era uma quinta-feira. Mas ele também não se surpreendeu com isso.

Distraído, se perguntou se lembrariam dele. Afinal, fazia quase quatro anos. Sua vida foi bombardeada de luzes, cores e sabores, mas, quando questionado sobre um lugar para sossegar, não hesitou em comprar uma passagem de avião de volta para a cidade interiorana onde passou toda sua infância e pré-adolescência. Caso indagassem, por outro lado, os motivos que o levaram de volta, Naruto não saberia responder honestamente – certamente convenceria ser nostalgia, mas seu coração não se apertava por saudades do passado. Ele batia unicamente por ela.

Evitou olhar pelo retrovisor, para não enxergar os próprios olhos em agonia.

Avistou, de longe, a sorveteria mais antiga da cidade, com sua fachada com de rosa e seus toldos listrados. Não havia mesas abertas do lado de fora, mas Naruto conseguia ver o movimento pelo vidro, e a porta se abria e fechava constantemente, e pessoas em guarda-chuvas saíam correndo rua abaixo. Estacionou o carro na parte de trás do estabelecimento, esperando um pouco para sair. Conhecia aquela porta de acesso de outros tempos, e não tinha mudado nada, embora não se lembrasse do grande cesto de lixo acoplado na parede. Mesmo com a chuva, a identificou, com uma capa de chuva ridícula e dois sacos de lixo na mão. Os jogou contra o cesto, parecendo praguejar. Naruto acertou no timing, e sorriu, enviesado.

Puxou seu próprio guarda-chuva, saindo do carro e sentindo as gotas que respingavam contra seu rosto. Os tênis molharem ao pisar em um buraco particularmente fundo, e ele tentou não se irritar. Caminhou até a porta de acesso, esperando não ser enxotado. Quando entrou, no entanto, não conseguiu conter o sorriso, desta vez verdadeiramente alegre. Deixou o guarda-chuva no canto, encarando o velho vestiário, e todas as vezes que a ficou esperando ali. Os armários estavam enferrujados, e os bancos de madeira tinham lascas faltando. Até mesmo o cheiro não mudou nada. Gritos e ordens vieram do outro lado da porta, mas o ambiente era abafado. Naruto colocou as mãos no bolso, fazendo barulho ao andar com o sapato encharcado.

— Mitsashi, finalmente, você está atras-

Parou.

Ela passava um moletom pelos braços, e os olhos estavam baixos quando começou a falar, mas, assim que os ergueu, as palavras se perderam no ar, morrendo, a medida que seu rosto se convertia em uma máscara de pavor. Naruto ainda ria, divertindo-se, mas, por precaução, repassou as manobras de ressuscitação em sua mente. A garota passou do corado ao branco, e depois para o roxo, e para o verde. Seus lábios se abriram, tremendo, embora não emitisse som. Ela passou o moletom, dando passos hesitantes, desviando da banqueta de madeira no caminho, até que estivesse tão perto que Naruto conseguiu distinguir seu perfume cítrico do cheiro de sorvete.

— Naruto? Naruto Uzumaki? – sua voz estava esganiçada, e a chuva que batia no teto de metal a fez parecer mais baixa do que realmente tinha sido. Naruto deu de ombros, totalmente blasé.

— Oi, Sakura.

O cabelo rosa sempre tingido da amiga fazia dela a candidata perfeita para uma sorveteria, emprego de meio-período em que a garota trabalhava desde o ensino médio. Mesmo não precisando, Sakura sempre afirmou trabalhar por hobby, e, depois de tantos anos, era uma veterana na casa, conhecida por todos na cidade, e, eventualmente, parte do perfil do local. O emprego era suficiente para lhe fornecer renda extra, bancar as mordomias que seus pais não forneciam e lhe disponibilizar tempo suficiente para se dedicar aos estudos. Naruto sabia que ela continuava trabalhando no lugar – as coisas mudaram, mas não mudaram realmente.

Sakura estava mais alta, mais velha, mais madura. De vários aspectos, estava mais bonita também. Seus traços infantis se desenvolveram, e, mesmo que seu busto não tivesse sido afortunado, seu rosto era adulto, com o maxilar pronunciado e as maçãs altas. Seus olhos, que sempre foram faiscantes e provocativos, agora o fitavam chocados. Sakura sempre fora sua melhor amiga, por vários motivos, mas, sobretudo, sua personalidade forte, sua capacidade de compreender e aceitar todas as merdas que Naruto fazia.

— E aí, como você es-

Naruto também foi interrompido, mas, desta vez, pelo tapa sonoro desferido contra seu rosto. Sua cabeça se virou, e ele desequilibrou, não indo ao chão por sorte, quando se agarrou ao cabideiro. Voltou, encarando a garota com pura fúria e indignação. O álcool em seu corpo balançou, lhe dando uma súbita tontura, e, onde ela havia atingido, latejava.

Sakura estava com a mão levantada, o encarando com raiva. Naruto não a viu se aproximar, e, definitivamente, não precisava ser lembrado de como sua mão era pesada. Sua bochecha ardia, e o gosto de sangue em sua boca lhe dizia que ele havia mordido o lado interno. Engoliu, com uma careta, e se aproximou, hesitante. Pensou em xingá-la. Pensou em fazer uma cena, em gritar. Mas permaneceu calado. Ele não era hipócrita – tinha merecido aquilo.

— VOCÊ É UM BABACA, UZUMAKI! – foi Sakura quem começou a cena, mas estavam sozinhos. Naruto suspirou, esfregando o rosto, que ainda formigava, e deixou os braços caírem, fitando os olhos verdes raivosos que fuzilavam-no.

Esperou, até que a garota deu um passo vacilante para frente, puxando-o para um abraço desajeitado, envolvendo o tronco largo com os braços, enquanto Naruto sorriu, rodeando-a pelos ombros. Sakura apoiou a cabeça contra seu peito, fungando alto, e o garoto respirou fundo em seu cabelo, o cheiro de tinta queimando suas narinas, mas ele não se importou. Ainda era um bom palmo mais alto, e conseguia apoiar seu queixo contra a cabeça da garota. Permaneceram abraçados, até que a garota afastou-se primeiro, sem soltá-lo. Olhou para cima, com a feição chorosa, e qualquer traço de raiva havia desaparecido.

— Sua direita ainda é de matar. – comentou, divertido, e Sakura riu trêmula.

— Você merecia mais ainda, idiota. – respondeu, choramingando, e fungou, limpando o nariz com as costas da mão livre. Naruto não discutiu. A sorveteria funcionava a todo vapor, e a chuva era barulhenta, embora parecesse ter diminuído.

Afastaram-se, e Sakura pegou sua mochila surrada, jogando o avental dentro dela, e Naruto viu dois chaveiros balançarem. Vacilou. Sakura era uma colecionadora nata de chaveiros, e ele havia presenteado-a com vários. Seus olhos capturaram uma bailarina, já sem parte da perna, que a garota implorara para ele comprar. Era apenas um detalhe – por que deixava-o tão triste?

— Espero que esteja de carro. – Sakura disse, tirando-o do transe, e Naruto assentiu, puxando o guarda-chuva para ambos e tirando as chaves do bolso.

Acompanhou a garota até a porta do passageiro, e não deixou de notar a expressão surpresa que surgiu quando ele indicou o carro certo no estacionamento. Sentiu-se secretamente orgulhoso. O modelo fora escolhido por ele mesmo, um último presente de despedida do pai antes que ele embarcasse em uma viagem de doze horas para o outro lado do país – a generosidade extrema do progenitor era apenas uma das características que Naruto gostaria de aprender.

Entraram, e Sakura jogou a bolsa para trás, puxando a touca do capuz que havia colocado para não molhar o cabelo. Seus olhos esquadrinharam cada milímetro visível, e, somente depois de localizar papéis de bala no carpete e uma embalagem vazia de fast-food ela suavizou. Seu corpo estava todo virado para a direita, e ela parecia cheia de perguntas. Naruto engoliu em seco, mas porque seus olhos eram acusadores.

— Você desapareceu por quatro anos, Naruto. – as acusações, embora verdadeiras, se tornavam mais duras quando ditas por ela – Uma ligação, uma mensagem, uma carta, nada. Eu quase enlouqueci tentando falar com você. Você tem noção que eu pensei que você tinha morrido?! – guinchou, a voz aguda, e Naruto encolheu os ombros – Eu espero realmente que você se sinta como o pedaço de merda que você é, seu imbecil. – praguejou, destilando raiva, e, depois de alguns segundos, suspirou, esfregando a têmpora – Quando você decidiu voltar?

— Esta manhã. – Naruto respondeu, com a voz rouca, tentando não demonstrar que Sakura havia lhe atingido – Voltei para meu velho apartamento. – a rosada assentiu, lembrando-se do lugar que visitara tantas vezes.

— Naruto, o que aconteceu? – Sakura parecia quase desesperada, tentando entender a pergunta fundamental – A noite você estava com a gente, e de manhã tinha ido embora! Não atendeu o celular, não respondeu e-mails. Nem sua avó sabia onde você estava! – sua voz não estava mais afiada, mas magoada. Naruto piscou longamente antes de suspirar.

— Eu sei que fui um idiota. – admitiu – Eu vou contar tudo, eu prometo. Mas, antes, me conta sobre todo mundo! – parte de si queria reduzir as vezes que contaria aquela história para uma, e isso só aconteceria quando reunisse todos os amigos, e a outra parte estava morrendo para saber deles, para saber dela — Como está o Sasuke, o Gaara? Você e a Ino ainda são amigas? Vocês estudam na UK? – deixou que as perguntas escorressem livremente, e, então, refreou, fitando a amiga hesitante – Como está a Hinata?

— Hinata? – Sakura pareceu verdadeiramente surpresa por um instante, até que seu rosto se converteu em uma máscara sombria. Naruto estranhou. Um sentimento desconhecido passou rapidamente pela luz dos olhos verdes da garota, mas desapareceu com a mesma velocidade. Suas sobrancelhas se franziram de uma maneira que não combinava com seu rosto. Por algum motivo, Naruto não gostou daquela expressão. Então, Sakura endireitou a postura, suspirando pesadamente, e seu rosto se voltou para a janela, vendo a chuva escorrer. Naruto só conseguia ver seu perfil, que estava concentrado no vidro escuro – Vamos, eu vou te levar para encontrar o pessoal.

Naruto dirigiu por alguns minutos, e o único barulho no carro era o aquecedor, que fazia ruídos irritantes de tempos em tempos. Sakura não desgrudou os olhos do vidro, mantendo uma expressão pensativa, mas o garoto não soube identificar porque sua feição parecia tão atormentada. Ele não precisou de orientações – o que facilitou a continuidade do silêncio entre eles –. Mesmo que aquele não fosse seu restaurante preferido, saberia chegar até ele. Como em todas as pequenas cidades, os grandes estabelecimentos se concentravam no centro, e todas as ruas desembocavam nele. Virou algumas esquinas, agradecendo quando a chuva deu uma trégua, mantendo apenas o clima cinza.

Surpreendeu-se com a presença de ônibus circular, e, por um instante, quase se perdeu. O restaurante fora aumentado, tomando agora o dobro ou triplo do tamanho original. Apesar disso, a fachada continuava tradicionalmente a mesma, exibindo o logo brilhante e receptivo que levara Naruto a almoçar naquele lugar, tantos anos atrás. Mesmo depois de tanto tempo, nunca comera novamente um ramen com porco tão gostoso.

— Por que uma cidade tão minúscula tem circular? – perguntou, enquanto manobrava o carro na caga perpendicular. Sakura soltou o cinto, fazendo uma careta.

— É mais pela faculdade. Ela fica fora da cidade, e é longe demais para ir andando. É conveniente, mas não é tão funcional quanto parece. Caro demais, horários de menos. – terminou com um bufar, e Naruto riu para si mesmo.

A Universidade de Konoha parecia ser o único atrativo que mantinha os jovens na região, e era consideravelmente grande. Tinha o maior programa de cursos da província, e cerca de cinco mil graduandos estudavam nela. A faculdade fora instalada há poucos anos, e movimentara toda a economia da vila, que concentrou seus investimentos em torno do campus. Fora uma jogada inteligente, e agora comportava mais prédios residenciais e shoppings que a maioria das cidades com o mesmo número ridículo de moradores. Seria na Universidade de Konoha que Naruto estudaria a partir do mês seguinte. Transferiu seu curso já iniciado, e, por sorte, escaparia das grades iniciais, entrando na maioria das matérias avançadas de Artes.

Estacionou e desligou o carro. Saíram, e o tempo parecia firme o bastante para não levarem consigo o guarda-chuva. Sakura andou na frente, empurrando a porta e a mantendo aberta para Naruto entrar. O ambiente continuava quente e aconchegante, mas havia muito mais mesas, e o balcão se estendia por vários metros. Ele se lembrava das mesas com bancos estofados, mas não reconheceu a atendente no caixa.

Ficara realmente feliz quando Sakura disse que os amigos ainda almoçavam uma vez por semana juntos, mantendo viva a tradição que começara ainda quando o garoto morava em Konoha. As vezes, se encontravam mais vezes, quando o horário de todos colaborava. Naruto estava ansioso para reencontrá-los, mas preparou-se psicologicamente para mais socos.

— Desculpa a demora, pessoal. Um idiota me atrasou. – Sakura havia virado e parado, com a mochila nas mãos e o tom divertido.

Naruto apareceu, do seu lado, com seu melhor sorriso, e achou graça nos rostos assustados e chocados que o encararam. Aproveitou o espanto inicial para analisar rapidamente cada um deles. Estavam em cinco ou seis, e tinha um rosto novo, do qual não se recordava. No geral, estavam todos diferentes. Naruto nunca achava a própria aparência madura quando se olhava no espelho, mas todos seus antigos amigos tinham a expressão adulta.

— Naruto? É você mesmo?! – o primeiro que se levantou foi Sasuke, na ponta, andando para um abraço. Naruto rodeou seus ombros, lhe dando tapas fortes nas costas. Sentira falta do melhor amigo, e, entre todos, foi para ele que quase cedeu e contou tudo. Sasuke estava assustadoramente alto, e o cabelo comprido fez cócegas em seu nariz – Seu bastardo! Não acredito! – socou seu braço com força mediana, e Naruto fez uma careta, embora sorrisse.

— Saí, deixa eu conferir! – Gaara empurrou Sasuke, com o sorriso zombeteiro – Se não é o próprio!

Foi puxado para mais um abraço, e passou os próximos minutos passando de braço em braço, cumprimentando a todos, ouvindo uma série de palavrões e apelidos nada carinhosos. Não conseguiria se lembrar, depois, de quantas vezes se desculpou, ou soltou uma risada envergonhada. Quando havia passado por todos, a mesa se normalizou, dando espaço para que ele se sentasse, na ponta, com Sakura ao seu lado e Sasuke a sua frente. Seus olhos não focalizaram em ninguém em específico por mais de alguns segundos, e as mesmas expressões alegres e pasmas o encaravam com expectativa.

— Naruto Uzumaki está de volta! – Gaara parecia realmente feliz, e Naruto sentiu-se aquecer, percebendo o quanto sentira falta do amigo, de todos os amigos – E eu pensando que a semana não poderia piorar. – uma rodada de risos preencheu o espaço.

— Sinto informar, mas dessa vez é permanente. – deu de ombros, sentindo-se automaticamente incluído no grupo, a vontade o suficiente para fazer piadas.

— Você vai estudar na UK? – Sasuke perguntou diretamente para ele, e Naruto assentiu antes de responder.

— Consegui equivalência na maioria das matérias. – comentou casualmente, e houve uma série de comentários avulsos, deixando-o confuso por alguns minutos.

Por mais que estivesse rodeado de rostos conhecidos, sentia falta de alguém. Seus olhos procuravam, famintos, pelo rosto dela, mas não a via em lugar algum. Sentiu a decepção tomar conta de si, e seu corpo sentiu-se fraco. Queria estar plenamente entusiasmado com os amigos, mas não poderia enganar sua própria mente – sem ela, nada daquilo teria sentido. E ainda havia Sakura, que desviara do assunto todo o trajeto, e a expressão misteriosa em seus olhos.

— Algo de errado, Naruto? – foi Ino quem notou primeiro, no extremo oposto, e seus olhos azuis afiados o analisavam atentamente. Naruto deu de ombros, tentando passar por despreocupado.

— Não vi a Hinata ainda, esperava que ela já tivesse chegado.

Como mágica, imediatamente a atmosfera se alterou, tão perceptivelmente que parecia ser palpável. Os risos murcharam, desaparecendo como neblina, e, em lugar, olhares de pesar e respirares desconfortável. Entreolhares cúmplices e bocas retorcidas. Naruto se sentiu incomodado. Notou, acima de tudo, os olhos refletindo o mesmo sentimento que transpassara por Sakura mais cedo. Agora, mais claramente. O que eram aqueles olhos que pareciam sofrer? Era mágoa, ressentimento. O tipo de olhar que não combinava com a situação.

— O que está acontecendo? – perguntou, mas parte de si não queria saber a resposta. Sakura, do seu lado, empertigou-se, como se tivesse que explicar algo demasiado difícil para uma criança.

— Olha, Naruto, a Hinata está um pouco diferente. – pareceu sofrer para acertar a escolha de palavras, e Naruto pensou em um milhão de possibilidades, uma se tornando pior que a outra, e seu coração falhou algumas batidas. Ele começou a suar – Ela está namorando.

Namorando. Hinata estava namorando.

Instantaneamente, soltou o ar ruidosamente, que ele não sabia estar prendendo por tanto tempo. Seus pulmões reclamaram com a pressão, mas ele não sentiu pontadas na cabeça. Seu rosto se converteu em uma expressão aliviada, com a testa sem vincos e a boca curvada em um sorriso casual. Não conseguiria explicar com palavras a sensação de atenuação que percorreu seus membros. Naruto, definitivamente, poderia lidar com um novo namorado. Por um momento, singelo, mas existente, imaginou coisas piores, que não podiam ser revertidas. Mas um rival? Era melhor que ele poderia esperar, afinal.

— Você quase me matou de susto, Sakura. – respondeu, com a voz sarcástica, mas os ombros relaxados – Eu posso lidar com um namorado. Não precisava de todo esse mistério para me dizer como ela está.

— Não, você não entendeu. – Sakura engasgou, procurando desesperadamente por ajuda, mas os outros permaneceram em um silêncio ansioso. Naruto a encarou com confusão – Eu não falo com a Hinata há meses.

A cabeça de Naruto envolveu-se em um quadro branco de peças incompletas. Ele se lembrava, sabia disso – quase tão claramente quanto qualquer outra memória que a envolvia, porque Sakura estava na maioria delas. A mesma Sakura que os apresentou, que fez com que começassem a conversar, e, eventualmente, namorar. A mesma Sakura, que era irritantemente próxima a ela, e que a fazia ficar horas conversando no telefone madrugada a dentro. Ela e Sakura eram melhores amigas, de um jeito perturbador e literal. Naruto estava incompreensivelmente confuso, porque não havia motivo plausível que explicasse meses de um espectro onde uma Sakura e uma Hinata não se falavam.

— Eu estou abismado. – comentou, por fim, as palavras escorrendo lentamente da sua boca, derramando-se como vinho em pano branco. Incômodas de serem vistas, incômodas de serem ouvidas.

— A Sakura continuou tentando depois que a Hinata parou de falar com a gente. – foi Gaara, do outro lado da mesa, quem respondeu, com os dedos retorcidos e os olhos profundos. Naruto voltou-se para ele, encarando-o sem pudor. Gaara também era amigo de Hinata. Tão próximos que cenas de ciúme irrefreável eram comuns em sua rotina. A frase reverberou em sua mente, de maneira oca. Os sons apenas não faziam sentido. Hinata parou de falar com eles? – Faz quase um ano. Nós vemos ela de vez em quando na faculdade, mas não nos falamos mais.

Naruto queria gritar para que parassem de falar, porque o álcool deixara-o embriagado, e seu estômago começou a revirar, enquanto sua cabeça dava pontadas dolorosas na parte da frente. Se ele deitasse e dormisse, ficaria bem. Naruto queria pedir para que o deixassem dormir. Não encontrou as palavras em sua garganta. A abriu e fechou diversas vezes, sem emitir ruído algum. Seus amigos o fitavam, mas não pareciam chocados. Como se aquele fosse um processo que há muito tinham aprendido a passar.

— Eu não... – não conseguiu achar as palavras certas. Parecia que nenhuma delas poderia dizer o que realmente estava pensando – Eu não entendo. – soltou, por fim, com uma lufada de ar sobressalente.

— Eu disse, Hinata está diferente. – Sakura repetiu, com as mãos inquietas sobre a mesa. Ela puxou um canudo, brincando com sua haste flexível, mas seus olhos vagavam – Naruto, o relacionamento dela... eu não sei como explicar. – estava hesitante demais, e sua voz falhava nos agudos nervosos – Não é um relacionamento normal.

— O namorado dela é um babaca, é isso que ele é. – Ino surpreendeu-os, sobressaindo, no canto da mesa. Naruto se virou tão rápido que seu pescoço estralou, tentando compreender o verdadeiro significado daquelas palavras. Ela parecia genuinamente irritada, com a boca rosa trancada e os olhos com rímel cerrados, parecendo como uma barbie furiosa – O quê? Eu só estou dizendo o que nenhum de vocês teve coragem de falar! – se defendeu dos olhares acusadores que recebeu, e Naruto quis pedir que eles parassem, para deixá-la falar – É um maldito abusivo, e a proibiu de falar com os amigos dela. Ele controla a vida dela como bem entende.

Naruto quis rir. Uma gargalhada ficou presa, morrendo já em seus lábios, se transformando em um riso trêmulo. Ele não era o tipo de pessoa que ria em situações inconvenientes – embora tivesse um senso de humor distorcido e peculiar –. Ele sentiu vontade de rir simplesmente porque era hilário. Sua mente, durante vários meses, e, talvez, até mesmo naqueles dias, era como um baú fundo, lotado de pequenos retratos e recortes que muitas vezes não faziam sentido. Naruto costumava mexer naquele baú constantemente, recuperando dele suas lembranças preferidas. Era óbvio que a maioria destas eram compostas pelo mesmo rosto – o rosto dela.

Ele não tinha boa memória, mas, particularmente, se gabava de lembrar de particularidades. Ele se lembrava, tão claramente. Se lembrava, sim. Como um filme colorido, nítido, voraz, que passava rápido. Naruto viu sua silhueta, sua risada, suas mãos se movendo, seus olhos o encarando. Ele viu a liberdade, a graça, a determinação. Naruto sentiu o toque firme, e ouviu as palavras sinceras. Sentiu o perfume forte, e conseguia apalpar os vestidos esvoaçantes, e as blusas pintadas, e as cores alegres, que combinavam tanto com sua personalidade.

Parecia inevitável não se apaixonar perdidamente a cada dia por Hinata Hyuuga.

Naruto sentia paixão, fascinação, respeito por Hinata – um amor tão puro e poderoso que o assustava, e, afinal, talvez tenha sido esse o motivo que o levara para longe. Ela era uma garota em um milhão, peça rara fora do museu. Hinata era poesia – daquelas que se lê aos poucos, porque parece pesada demais para suportar. Hinata era brisa, mas também podia ser ventania, e ele se lembrava de se bagunçar quando era intenso demais. E ela era dela. Hinata era ela, si mesma. Ele sempre se completara, mas ela transbordava. Naruto conhecia poucas mulheres fortes, e Hinata era uma delas. A Hinata que Naruto amava – tão desesperadamente quanto há quatro anos –, a Hinata que Naruto conhecia, jamais entraria em um relacionamento abusivo. A mínima possibilidade o deixava sem ar. Hinata jamais se deixaria controlar por um homem que não apreciasse e que não incentivasse seu próprio jeito de ser. Muitas coisas haviam mudado, mas muitas coisas não. E ele seria capaz de apostar sua vida naquilo. Quando se conhece uma garota como Hinata, quando se é exposto a uma existência tão íntima e tão avassaladora – aquilo mudava a perspectiva de alguém. Mais que amá-la, Naruto nutria um profundo sentimento de gratidão pela garota. Ela não fora feita para ser contida, fora feita para ser acompanhada.

Quando a vontade de rir passou, foi lentamente substituída pela raiva.

Uma fúria gradual, morna, que se instalou em suas entranhas, deixando-o enojado. Subiu por seu estômago, ocupando seus pulmões, seu coração, sua jugular. Até que, ao chegar em sua cabeça, alterada pelo álcool, instalou-se ali, vulnerável. Sua visão, embaçada e falha, localizou pontos de vermelho no ar. Esses pontos cresceram, deixando tudo em tons de rubro. Ele não percebeu quando seu corpo se contraiu, crescendo.

— Naruto. – Sakura sussurrou gentilmente, sobrepondo suas mãos fechadas com as dela, acariciando suavemente. Nem mesmo o toque quente foi capaz de acalmá-lo. Depois de um tempo, soltou-se dele, fechando os olhos com força, tentando pensar racionalmente. Quando falou, sua voz estava estranha, rouquejada e afiada:

— Onde vocês estavam? – soou baixa, e ele tentava se controlar para não tremer. Olhares confusos se voltaram para seu rosto. De repente, seu punho desceu sobre a mesa, balançando seus pés e toda a estrutura. Assustaram-se. Dois clientes se voltaram para eles, mas desviaram rapidamente – MAS QUE MERDA, ONDE VOCÊS ESTAVAM PARA DEIXAR ISSO ACONTECER?!

Sabia que estava sendo vergonhosamente injusto, mas não pensava racionalmente. Estava furioso, porque eles foram incapazes de cuidar de Hinata. Eles permitiram que um babaca qualquer se infiltrasse, a dominasse – eles eram tão culpados quanto.

— É claro que nós não ficamos parados vendo acontecer, idiota. – Sakura o repreendeu, em voz baixa, olhando em volta com aflição, preocupada com os rostos que agora encaravam a mesa. Ninguém se sentiu ofendido. Mantiveram os olhos baixos, admitindo sua própria culpa. Conheciam aquela dor – Eu acabei de dizer que continuei tentando falar com ela depois! Eu tentei, Naruto, mas que droga, eu tentei! – ele respirou fundo, disposto a ouvir. Sakura parecia sincera demais, agoniada demais – Ela não cedeu. – sua voz estava embargada, e Naruto sentiu-se ligeiramente culpado – Ela não sabia no começo. Para ela, era um cara fantástico. Começou aos poucos, e, desde o começo, ele nunca gostou muito de nós. Foi convencendo ela de que queríamos separá-los, e então ela também se afastou. Foi devagar, sabe? Quando percebemos, já estava feito. – seu rosto estava sem cor, e ela não o olhava nos olhos – Hinata nunca foi ingênua, ou indefesa, Naruto. Eu acredito que, em algum momento, ela tenha se dado conta da situação, mas apenas deixou acontecer.

— Você acha que ela deixou acontecer? – sua voz soou mais ríspida do que ele gostaria, e Sakura se encolheu, como se tivesse sido ferida. Naruto não se importou.

— Naruto, era ele quem estava lá quando você não estava. – Ino replicou, a voz baixa, quase amedrontada.

Aquilo serviu para desarmá-lo. Não como se toda a raiva tivesse se esvaído – mais como se seu vigor tivesse sido arrancado subitamente dele. Se tornou uma carcaça vazia, cansada, e agradeceu estar sentado. Seu rosto, outrora convertido em uma carranca, o maxilar rígido, desprendeu-se, e algo em seus olhos se tornou vago. Não foram palavras ditas para magoar ou ferir. Era uma frase simples, dita silenciosamente, com receio. Ino sussurrou, mas foi como se tivesse gritado.

Parecia óbvio demais – de uma maneira certamente irônica – que fosse ele, afinal, o verdadeiro culpado.

Ele não cansaria de estragar sua vida, de novo, e de novo, e de novo?

Pareceram notar sua mudança súbita, porque Gaara fez menção de se levantar, com o rosto preocupado, mas Ino o segurou, balançando a cabeça – ela parecia tão desolada quanto –. Sakura deixou uma lágrima escapar com um soluço, mas a limpou rapidamente. Sasuke o encarou em dor ardente.

— Naruto... – Sakura choramingou, mas Naruto titubeou, pondo-se de pé com dificuldade. Suas pernas rangeram, reclamando do esforço, parecendo moles. Mas ele se segurou.

— Eu vou... eu preciso sair. Eu preciso pensar. – gaguejou, mas sua voz saiu automática. Deu as costas, sem esperar resposta, forçando-se a andar, um passo após o outro.

Suas mãos tremiam, e sua garganta estava raspando para deixar o ar passar para dentro. A porta parecia longe demais, e ele ouviu, de longe, alguém se levantar para seguir. Conseguiu distinguir o impedimento. “Deixa ele, Sakura”. Sim. Agradeceu Sasuke em pensamento, enquanto ganhava a rua, e os tons de cinza que cercaram seu rosto. Era tão diferente do acolhedor amarelo do estabelecimento.

Ponderou estar em choque. Mas seu coração ainda batia, suas mãos ainda suavam, seus pés ainda sentiam as poças de água. Ele estava vivo. Mas não se sentia assim. Honestamente, ele queria entrar em seu carro e jogá-lo contra o primeiro poste que encontrasse. Mas não era dramático, e não era teatral. A única coisa que podia fazer naquele momento era voltar para o próprio apartamento e limpá-lo – algumas partes da sua vida eram mais fáceis de arrumar que outras.

Seus dedos deixaram as chaves escapar duas vezes, tremendo. Apertou o botão de alarme, entrando, sem ligar. Fechou os olhos, recostando no banco de couro. A dor de cabeça amenizou com o silêncio e o escuro. Queria permanecer naquela posição pelo resto do dia. A conversa foi repassada diversas vezes, sem sua permissão, e, a cada nova repetição, as frases ecoavam mais rapidamente, até que foi impossível continuar ouvindo-as. Tornou a abrir os olhos, vidrando-os. Mecanicamente, colocou a chave na ignição e ligou o ar-condicionado. A brisa gelada foi boa.

Abriu as janelas, mesmo com o ar ainda circulando. Dirigiu devagar, com um dos braços para fora. Sentia pontadas nas têmporas, incômodas. Sua mente tentava focar na rua, agora mais movimentada, mas o rosto dela continuava voltando. Criou possibilidades absurdas, inventou situações-fantasia, e se puniu por ser tão ridículo.

Próximo à orla, um cruzamento, aparentemente novo, com semáforos brilhantes. Parou, olhando para o lado, fitando a biblioteca municipal, com sua fachada decrépita e os degraus grafitados. Chegou a se distrair por alguns instantes, encarando os bancos de cimento na frente da escadaria, e um toldo vermelho, apinhado de pessoas. O clima nublado contrastava curiosamente com as cores, e Naruto se surpreendeu com a movimentação no ponto de ônibus.

Ele ainda passeava pelas fachadas, quando seus olhos capturaram uma cena incomum. Ele ficou confuso, porque algo em seu peito pulou, mas ele não a conhecia. Calças escuras e rasgadas, e um coturno que parecia pesado demais. Blusa cavada, branca, mesmo com o tempo instável. Uma bolsa universitária a tiracolo, parecendo surrada. De longe, não podia enxergar os detalhes de seu rosto, mas o cabelo era curto e reto, com uma franja desfiada. A boca se ocupava com um cigarro já pela metade. Era um quadro bagunçado, mas a visão geral era harmoniosa, em tons de preto. Não havia um único ponto de cor, que não fosse a bituca acesa, gritante.

Naruto soube que era uma mulher muito bonita – mas havia dezenas delas a espera do ônibus parado no semáforo de trás. Buscou explicações para si mesmo, até que seus olhos se conectaram. Foi um segundo – tudo aconteceu rápido demais. O sinal verde piscou, e os carros passaram por ele buzinando. O ônibus se aproximava, em velocidade reduzida. Um trovão soou no céu. E seus olhos estavam conectados.

Nada mais importava – a atmosfera estava toda conectada naquele único ponto, naquela mulher. A gravidade era irrelevante, porque ele sentia a atração que o puxava para ela. O ar se tornou rarefeito, porque ele não precisava mais respirar. Sua mente não havia se recuperado do choque de minutos antes, mas, naquele segundo, naquele exato segundo, tudo se iluminou, e ele teve a compreensão completa.

Naruto jamais se esqueceria da sensação de ter aquele par de luas aquecendo toda sua alma.

Era estranho. Nada ao redor dela fazia sentido, a não ser aqueles olhos. Em vez de um quebra-cabeça incompleto, tinha apenas a peça central, e um emaranhado sem sentido em volta. Ele não ficou tempo suficiente para decifrar os inúmeros sentimentos que eles refletiram. Ela jogou a bituca acesa na sarjeta no momento em que o ônibus estacionou, quebrando o contato entre eles. Os carros buzinaram e Naruto arrancou, seguindo em frente, mas sem ver, realmente, para onde ia. Era um estado de torpor curioso, que formigava todos seus membros, mas ele ainda conseguia acelerar.

Quando se afastou, foi como se aquele cigarro tivesse sido apagado em seus ossos. Ele virou a próxima esquina, mentalizando a garrafa de vinho inacabada que ficara sobre o balcão, e a taça de vidro deslocada. Mais tarde, Naruto descobriu que o gosto do álcool não ficava tão bom quando tinha lágrimas misturadas ao sabor.