Heroína
2 Mentiras convincentes que você conta para dormir
Notas iniciais
“Você se foi e eu tenho que ficar
Chapada o tempo todo
Para te deixar de fora da minha mente
Chapada o tempo todo
Para esquecer que eu sinto sua falta”
— Habits (Stay High), Tove Lo
—Capítulo II–
Mentiras convincentes que você conta para dormir
Hinata abriu a porta com uma das mãos, enquanto a outra se ocupava em arrancar aqueles sapatos apertados de seus pés. Ela deu um chute para fechar, mantendo-se em uma só perna, para desamarrar os cadarços endurecidos pela chuva. A bolsa que estava em seu ombro escorregou para seu antebraço, a desequilibrando momentaneamente. Pôs-se de pé. Pegou a bolsa pela alça, retirando seus livros de dentro e depositando em cima da bancada, que alcançou sem precisar andar muito. Em dias como aquele, se irritava por tudo ser perto demais naquele apartamento. Junto demais. Pequeno demais. Sufocante demais.
Jogou a bolsa em cima dos livros desajeitadamente empilhados, porque ela estava sem paciência. O maço de cigarros escorregou, quase como um convite pecaminoso – ela os fitou por alguns segundos, mais do que deveria. Mas resistiu. Já havia fumado dois no ponto de ônibus, e mais um, rapidamente, enquanto andava as duas quadras até seu prédio. Mais um pouco e ficaria sem até o fim da semana – ela se recusaria a pedir dinheiro para os pais.
Hinata suspirou, apoiando a cabeça contra os braços por um momento, abaixando a cabeça e curvando todo o corpo contra o granito. Respirou fundo, mesmo que não estivesse tremendo mais. Durante todo o trajeto, tentou convencer sua própria mente que ela estava alucinando – tinha que admitir que aquela seria uma explicação aceitável –. De qualquer maneira, imaginação ou não, aqueles olhos azuis vidrados ainda a atormentavam.
Endireitou-se, sentindo raiva mais uma vez. Com dois passos, suas mãos alcançaram a geladeira, e, em um movimento brusco, abriu e puxou uma cerveja da prateleira de baixo. Não se importava que ainda fossem quatro da tarde. Ela não aguentaria mais um segundo sóbria. Abriu a tampinha, a jogando no cesto de lixo que sempre ficava aberto em cima da pia, não importava quantas vezes o fechasse. Suas meias molhadas estavam lhe causando calafrios, e ela se virou para ir até o quarto. Não conseguiria escapar de um banho, mas o adiaria o quanto pudesse.
O corredor estava escuro, mas Hinata gostava assim, para não ver a tinta descascando no teto. Era um bom apartamento, e a mobília era nova – ela se orgulhava de ter comprado os sofás, a geladeira, a televisão de tela plana que ficava em cima da estante usada que reaproveitou de seu antigo quarto. A sala de estar era o cômodo que mais gostava de estar. Em partes, porque era uma lembrança constante de seu próprio esforço. Em outras, porque quase sempre ficava sozinha assistindo séries baixas demais, porque o som alto ecoava entre as paredes finas. De qualquer maneira, tudo era perto demais naquele lugar, mas ainda havia um corredor sem lâmpada, com as falhas que o tempo não poupou de lhes dar.
Parou no meio do caminho, na frente do espelho de moldura sofisticada, grande o suficiente para mostrar toda sua silhueta acima da cintura. Era inevitável não parar nele sempre que passava, especialmente quando seu estado de espírito estava tão agitado. Gostava de se manter calma, e, nesses momentos, não ligava para a própria aparência. Mas em dias como aquele – quando sentia-se energizada e ansiosa –, era impossível não parar. Antes de captar os próprios olhos, gostava de admirar as bordas elegantes do espelho. Hinata gostava da sua posição naquela casa, mas gostava de onde ele ficava na antiga também. Um outro tempo, mas os detalhes dourados das margens arredondadas ainda eram os mesmos.
Inevitavelmente, voltou-se para seu rosto, analisando minuciosamente cada detalhe daquela expressão cansada. Ela não se reconhecia mais, há algum tempo. A primeira observação que fez foram os fios rebeldes que incomodavam seus olhos. Preciso cortar o cabelo, pensou, cansada. Não gostava de perder tempo com futilidades como aquela, mas, um pouco maior, e Kiba começaria a notar.
Um novo suspiro. O reflexo imitou, e a imagem se converteu em uma mulher muito mais velha do que realmente era. A cerveja em sua mão escorria gotículas, intocada, mas apetitosa. Hinata fez um bico, que duplicou à sua frente. Ela gostava da forma que o corte estava tomando, apesar da franja excessivamente grande, os fios começavam a repicar para todos os lados, quase atingindo seus ombros. Hinata costumava gostar deles longos e lisos. Quando ventava, bagunçava, mas era fácil penteá-los. Fitas ficavam bonitas, e tiaras, e tranças elaboradas que fazia em si mesma quando estava entediada. Mas agora Hinata não usava mais fitas, ou tiaras, ou tranças, mesmo que vivesse eternamente entediada. Hinata não usava mais o cabelo longo, porque Kiba lhe dissera uma vez, há muito tempo, que ele os preferia curtos e retos, porque ela ficava mais bonita. Então Hinata os mantinha curtos desde então.
Hinata preferia o cabelo grande, mas Kiba o preferia curto, e Hinata preferia sua paz. Aquela era a primeira semana que passavam sem nenhuma discussão, e não seria ela a quebrar a frágil atmosfera de tranquilidade que os envolvia. O que a lembrou de algo, e ela deixou o espelho para trás, voltando a andar em passos arrastados – saiu antes que pudesse encarar os próprios olhos e tivesse de lidar com a agonia acusatória que residia neles –. Apesar disso, não precisou de muito para notar as olheiras cada vez mais profundas e o rosto cada vez mais fino. Hinata costumava ser bonita no passado, mas aquilo também acabara. Por fim, agendou mentalmente o cabeleireiro para depois do trabalho, e esqueceu-se completamente daquele assunto.
Entrou no banheiro de fora, que estava com a porta aberta e os tapetes limpos. Apesar de usar a suíte, preferia guardar seus remédios no banheiro de visitas, para não ter que lidar com explicações ou permissões. Puxou a caixinha laranja e virou duas pílulas em suas mãos. Percebeu que estavam acabando, mas aquilo não era problema – os pais de Kiba serem convenientemente farmacêuticos era apenas uma das inúmeras vantagens que a acompanhavam. Jogou os comprimidos na boca, e entornou um gole generoso de cerveja, sentindo-os descer pela garganta, arranhando. Não deveria tomar remédio para dor de cabeça com álcool, mas ela não ligava, realmente. Quanto mais rápido ficasse dopada, mais fácil seria.
Era uma rotina religiosa chegar e se drogar – não da maneira literal, ela jamais faria isso de tarde –. Mas pílulas e cerveja eram seu porto seguro, e a sensação de reconforto que a abraçava era bem-aceita quando ela se deitava na poltrona confortável, no canto mais escuro do quarto. Bebeu mais um gole, a cevada amarga contornando seus lábios, mas ela não fez uma careta. Também já havia passado daquela fase. Fechou os olhos por alguns segundos, mas logo os abriu, rapidamente, como se tivesse levado um choque. Resmungou, porque nem ao menos podia cochilar em paz. De olhos fechados, era mais fácil mentalizar aqueles olhos, aquele rosto.
Infelizmente, ainda não tinham inventado um comprimido que curasse um coração partido.
Se tivessem, Hinata certamente teria vendido sua alma para tê-lo. Em vez disso, se afundou um pouco por dia em si mesma, passando a depender de analgésicos para dormir, e para acordar. E para trabalhar. E para viver. Ela tinha uma extensa coleção dos mais diversos remédios, desde dor de cabeça, enjoo, calmantes, antibióticos que nunca precisaria usar mas gostava de ter. Remédio para dormir. Faixas pretas. Era a porra de uma viciada de merda. Queria que fossem só os comprimidos.
Mais um gole de cerveja. Aquela altura, estava quente e aguada, mas ela não se importou. Deixou-se navegar, a deriva, enquanto seu corpo amolecia, e ela agradeceu por começar a se sentir zonza demais para protestar consigo mesma por qualquer coisa. Ela só queria um minuto de serenidade.
Saiu atrasada do trabalho, e teve que pegar o ônibus mais tarde do que pretendia. Parada no ponto de ônibus, a chuva tinha dado uma trégua, então ela pensou que, pelo menos, a balança estava equilibrada, e o dia poderia até mesmo terminar bem. Hinata puxou um cigarro, e ele acabou rápido demais. Esperou, cruzou e descruzou os braços. Puxou outro. Tinha acabado de acender e dar uma tragada profunda quando semáforo se fechou. Ela avistou o ônibus na outra esquina, e deu mais uma tragada, satisfeita. O clima estava cinza, e poucos carros pararam naquela avenida. Um deles se destacava. Um maldito modelo preto, caro demais, grande demais, o que a fez amaldiçoar os ricos por um momento, praguejando em sua mente. Então, as janelas estavam abertas, e ela o viu.
Preferiu não tê-lo feito.
Foram poucos segundos. Hinata estava ciente de que o semáforo tornara a abrir, e que o ônibus se aproximava. Ela tinha consciência da bituca queimando entre seus dedos. Das pessoas ao seu redor, das nuvens que ameaçavam se desmanchar a qualquer momento. Mas, por um instante, por um pequeno instante, tudo que ela viu foi ele. Os olhos azuis. Ela costumava nadar entre eles, mergulhar, relaxar. Mas, depois de um tempo, ela passou a se afogar. Era aquele mesmo azul oceano que a encarava agora, esquadrinhando-a. Quando se chocaram, não houve reações. Foi bem rápido – o suficiente para que um lado racional lhe fizesse acordar. O ônibus parou, o cigarro apagou, e ela subiu. E foi embora.
Por mais que tivesse construído uma base sólida de paciência e autopreservação, os sentimentos de inquietude e asfixia a acompanharam para casa, e se alojaram em seu coração, sem sua permissão ou consentimento. Apenas se instalaram, ali permanecendo, até que, por fim, sua mente estampasse aqueles olhos tão fortemente que era impossível continuar ignorando.
Entorpecida, se deixou analisar a situação de um ângulo razoável. A expressão dele foi, no mínimo, curiosa. Sem se deixar afundar em seus olhos, ela visualizou seu rosto, paralisado de choque, e conseguiu sorrir jubilosa. Nada substituiria a satisfação de vê-lo boquiaberto, ao reencontrar seu passado, e perceber que ela não era mais a mesma. Hinata não era mais a mesma, e ela não se permitira sofrer como antes. Ela trancaria aqueles sentimentos novamente, porque ela era forte, e ela não se importava.
Hinata não se importava que seu coração remendado jamais tivesse sido consertado. Os cacos estavam unidos com fita crepe, e estava tudo bem. Enquanto permanecessem colados, ele jamais a afetaria.
A garota terminou a cerveja, já esquecida, e uma gota escorreu pelo canto. Ela não limpou, deixando que sujasse sua blusa. O cheiro ficou impregnado, mas aquele era seu perfume natural. Por mais que lavasse, nunca saía. No entanto, nunca descobriria se era cerveja, ou desespero. Talvez os dois.
Ela queria dormir. Dormir bastante. Há tempos não tinha uma boa noite de sono, e duvidava que conseguiria nos próximos dias. Ainda tinha muitos calmantes e Tylenol, mas Hinata queria dormir um sono de sonhos, e não um sono pesado. Seus olhos estavam fechados há algum tempo já, quando sua mão afrouxou, e a garrafa escapou de seus dedos, caindo no chão de madeira com um baque alto. Hinata despertou, colocando-se de pé em um segundo. Desorientada, esfregou a têmpora. Perderia hora daquele jeito, e precisava fazer o jantar.
Sentindo-se exausta, abaixou e pegou a garrafa, voltando para a cozinha. O sol começara a se por, mas não havia uma janela decente para que pudesse ver. A varanda permanecia sempre fechada, coberta com as cortinas escuras pesadas. Hinata sentia falta de ir à varanda, sentir o vento. Ela ainda pensava nas brisas frescas da primavera quando descartou a garrafa no engradado vazio que mantinha na área de serviço. Quando completasse, poderia comprar outro, mas não demoraria muito mais. Voltou, analisando o ambiente limpo. Ela o deixara impecável antes de sair de manhã, e sentia culpa de sujar tudo para cozinhar. Gostava de cozinhar, mas odiava limpar tudo depois. Limpeza foi apenas uma das características odiosas que ela adquirira com o tempo – no início, sentia-se suja, e tomava diversos banhos por dia. Mas começou a piorar, e estendeu-se para todos os cômodos.
Tirou uma massa pré-cozida da geladeira, devidamente abastecida, e outra cerveja. Sua visão estava distorcida, e ela se sentiu contente. Seu estado de espírito já começara a descartar os pensamentos desnecessários, e Hinata passou a flutuar. Era mais fácil daquele jeito. Ligou o fogo para uma panela com água fervendo, e jogou a massa dentro, para aquecer enquanto ela preparava o molho. Macarronada era sempre um bom prato quando queria que a noite continuasse tranquila. Arriscou assoviar uma música qualquer enquanto a carne refogava com os legumes. O cheiro estava bom, e não demorou para tomar conta de todo o apartamento.
Enquanto esperava, Hinata puxou o celular e arrastou para desbloquear. Não demorou os olhos no papel de parede – uma foto dela e Kiba em um dia na praia. Eles sorriam, mas Hinata se lembrava de não estar feliz. Não sabia porque deixava aquela foto. Talvez preguiça de mudar. Desistiu de pensar, e entrou em seu Facebook. Kiba não gostava que ela tivesse rede social, mas precisava, por conta do seu emprego, e aproveitava para manter algumas amizades, mesmo que não falasse, ou publicasse. Rolou pelo feed, entediada, e os sorrisos a deixaram enjoada. Não estavam de férias ainda, mas todos estavam viajando, aproveitando sua vida medíocre gastando dinheiro com suas distrações medíocres.
Enojada, bloqueou o celular novamente. Talvez Kiba estivesse certo – redes sociais eram um saco.
Voltou para o fogão, mexendo a gororoba. Seu estômago reclamou. Misturou o molho com a massa e acrescentou queijo, para derreter com o vapor. Jantar pronto. Hinata lavou os utensílios que usara e aproveitou para passar pano com álcool no balcão. Passou a mão no pescoço, alongando. Estava enebriada. Queria dormir, e um bom banho. Daria tempo – ela rezou para que desse. Depressa, tropeçou nos próprios pés. No banheiro da suíte, retirou as roupas e jogou no cesto. Fediam a mijo e chuva. Evitou fitar o próprio corpo de lingerie, e tirou o sutiã, agradecendo pela liberdade. Entrou de calcinha, abrindo o chuveiro no quente. Quando a água a atingiu, ela sorriu. Seus ombros estavam mais doloridos do que imaginava. O banho a deixaria sóbria, mas o remédio a deixaria dopada o suficiente para não precisar fingir. Era mais fácil daquele jeito. Era sempre mais fácil.
Não conseguiria aproveitar o banho como gostaria, porque logo seriam seis. Seu corpo pesava, e ela se sentia cansada o tempo todo. Não imaginava que estaria tão exausta apenas com vinte anos, mas era assim há muito, agora. Se sentia desanimada, desmotivada, somente para que parasse, em seguida, submersa na própria culpa, por só saber reclamar.
Desligou o registro, triste por ter que sair, e seus sentidos estavam confusos. Queria tomar outra cerveja, mas o comprimido a deixou sedada o suficiente, e ela queria estar consciente. Com os membros moles, alcançou a toalha pendurada, e se enxugou sem enrolar, agradecendo por estar, ao menos, cheirosa. Saiu embrulhada, piscando devagar, para se acostumar com o escuro. O interruptor estava no alcance de seus dedos, mas ela gostava da escuridão. Tateou seu guarda-roupa, puxando uma calcinha limpa e um de seus pijamas menos chamativos. O clima estava fresco. Ela gostaria de usar um de seus conjuntos de algodão, mas, novamente, priorizava um bom fim de noite. Vestiu a camiseta preta, unicamente. Penteou o cabelo molhado e prendeu no alto. Estava discreto o suficiente.
Voltou para a cozinha, e, dessa vez, não ignorou o maço de cigarros, que ainda jazia caído da bolsa. Hinata puxou o isqueiro e acendeu, dando uma profunda tragada. Estava em estado de nirvana – sonolenta, preguiçosa e calma. Lembrou-se de deixar os livros no sofá, para não ocupar o balcão, onde Kiba gostava de comer. Sentou-se, com a luz da cozinha acesa, iluminando a sala com tons opacos de azul. Puxou um dos exercícios de cálculo avançado, mas entediou-se no quarto, percebendo que eram todos ridiculamente fáceis.
A fumaça subiu em espiral, esvaecendo no ar. Hinata acompanhava seu movimento, distraída, e sua mente pesava tanto que era impossível pensar. A cada tragava, sua boca amargava um pouco mais, e a nicotina atingia seus pulmões com uma lerdeza irritante. Queria estar sóbria, para ficar irritada – mas tudo a sua volta era cinza, e ela não se importava. O apartamento pequeno, fétido, arrumado da maneira que ela dispôs, mas não tinha sua cara. O cigarro que acabava, o cinzeiro que estava cheio, o fedor que já acostumara seu nariz. Cada mínimo detalhe naquele lugar a enfurecia, mas ela estava entorpecida. Perdida em um mundo só seu, onde tudo era o bastante. Hinata não soube dizer quando parou de ser ambiciosa.
Por fim, o barulho da fechadura chamou sua atenção, e ela apagou o cigarro, abandonando-o com as demais bitucas envelhecidas. Kiba entrou um segundo depois, com a mochila nas mãos e já tirando as botas, deixando-as no canto. Suas meias pretas pareciam secas, e Hinata não tinha reparado se o tempo continuara firme, embora as cores laranjas de horas atrás fossem quase óbvias demais.
— Cheguei. – anunciou, deixando a bolsa perto da cadeira mais próxima.
— Seja bem-vindo. – Hinata respondeu, a voz macia e arrastada do jeito que planejou.
Ela se levantou, caminhando até o namorado, que sorriu charmosamente, a puxando para perto pela cintura. Hinata passou os braços por seu pescoço, erguendo a ponta dos pés para alcançar seu rosto, e ele a apertou, colando seus lábios com voracidade. Ela entreabriu a boca, deixando que suas línguas se encontrassem, e o gosto ácido se mesclou sem que percebessem. Hinata se embriagava com aquele beijo, quando Kiba abraçava suas costas e seus dedos entrelaçavam no cabelo grande demais, até a nuca, e eles se uniam quase como um só. Depois de três anos, ficava feliz quando Kiba a desejava da mesma maneira. Não era um desejo morno – era incendiário, selvagem, que sempre feria alguém. Mas nenhum deles ligava.
Se afastaram, o suficiente para abrirem os olhos. Hinata gostava daquela expressão satisfeita em seu rosto, e do arfar desesperado, sem fôlego. A barba malfeita arranhava sua pele, deixando-a vermelha, assim como suas unhas quando cravavam em seu pescoço. Estavam cobertos de cicatrizes, visíveis e invisíveis, que serviam unicamente para mostrar como se pertenciam.
— O cheiro está maravilhoso. – ele comentou, e Hinata soube que era a deixa para ela montar a mesa do jantar. Se desfez do abraço, indo até o armário para pegar os conjuntos americanos.
— Obrigada. – agradeceu, sorrindo carinhosamente para ele – Fiz macarrão. – o brilho em seus olhos foi um deleite. Hinata gostava quando ele aprovava algo que ela fazia.
— Estou faminto. – o garoto jogou seu peso contra a cadeira, desabotoando a calça e tirando a camiseta social, ficando somente com a regata branca que marcava seus braços. Hinata o fitou, e sua cabeça dopada não fazia pensamentos coerentes.
Ela o serviu com um generoso prato, e, depois de receber mais um elogio, sentou-se de frente para ele, observando-o comer. Não estava com fome – a cerveja tirara seu apetite. Ela aproveitou e pegou outra para Kiba, que acenou com a cabeça, agradecendo. Hinata gostava de observar Kiba fazendo coisas corriqueiras, como comer, ou fazer a barba. Quando estavam bem, ela o acompanhava pelos cantos, os olhos esquadrinhando suas ações, lembrando-se constantemente da paixão que nutria por ele.
Quando estava bem, Kiba era tudo que Hinata poderia querer. Quando estavam mal, ela se lembrava dos momentos bons. As pessoas ao seu redor reclamavam, apontavam problemas, e Hinata admitia que as vezes tinham momentos difíceis, e que o namorado era cheio de defeitos, mas quem não era? Elas não sabiam de nada. Não sabiam como Kiba era atencioso, paciente, e como ficava ao seu lado, mesmo quando a culpa era dela. Ele nunca a abandonava – ela precisava de pessoas que não a abandonariam. Kiba se preocupava em como ela se sentia, e nunca apontava seus erros – a não ser quando ela o irritava, o que era justificável. Kiba esteve lá quando ela precisou, Kiba a viu chorar inúmeras vezes, a viu beber, a viu vomitar. Kiba era seu vizinho, e ela sabia que ele era apaixonado por ela. Foi Kiba, e ninguém mais. Ela devia tudo a ele.
Não importava que seu abraço nunca fosse quente o suficiente, e que seu beijo nunca fosse bom o suficiente, e que suas mãos não fossem grandes o suficiente para segurá-la enquanto ela caía. Hinata fingiria que sim, ela fingiria até o fim do mundo, e ignoraria aquele sentimento de estar faltando, porque não era justo com Kiba que ela fosse uma egoísta inútil. Então ela faria ser suficiente.
— Isso está uma delícia, princesa. – Kiba nunca a chamava pelo nome, a menos que estivesse com raiva. Hinata gostava dos apelidos, porque eles sempre vinham acompanhados de um sorriso aberto. Ela também sorria, acariciando sua mão.
— Obrigada, amor. Como foi seu dia? – sabia que era seguro perguntar, porque ele já comera, e a cerveja estava pela metade.
— A mesma merda. – suspirou – Aqueles babacas não sabem fazer nada sozinhos, então é claro que eu tenho que resolver tudo. A porra da planta está atrasada, mas eu não vou ficar fazendo hora extra sem ganhar por isso. – resmungou, e Hinata assentiu, compreensiva, fazendo carinho em seu punho.
Kiba estagiava em um dos poucos prédios comerciais que ficavam no vilarejo vizinho. O curso de Engenharia fizera dele um privilegiado, e tinha sido promovido para gestor de pessoal, ganhando uma bolsa generosa e benefícios úteis para o casal. Mesmo sendo fora da cidade, chegava mais rápido com sua moto do que Hinata, de ônibus. Ele nunca planejou fazer Farmácia, para herdar as empresas da família, mas seus pais apoiavam o único filho, bem-sucedido.
— Não fique estressado. Vai tomar um banho, e eu faço uma massagem em suas costas, ok? – propôs, meiga, e a carranca em seu rosto automaticamente foi substituída por um sorriso.
— Você é a melhor, querida. – Kiba se levantou, plantando um beijo estralado no alto de sua cabeça, e foi para o quarto com o resto de sua cerveja.
Hinata estava feliz. Tudo correu bem, e a cerveja e a massagem eram o bastante para fazê-lo dormir cedo. Rapidamente, limpou os pratos e deixou a cozinha em ordem, apagando a luz quando saiu. Não pretendia jantar, de qualquer maneira.
Foi para o quarto, deixando tudo arrumado. Puxou os cobertores e ligou o ar-condicionado no frio. Kiba saiu, já com calça, o peito molhado. Hinata mordeu os lábios, o fitando. Ele deitou de costas, apoiando a cabeça no travesseiro, e ela sentou em sua lombar, passando a mão por toda a extensão das costas, focando em pontos de estresse.
— Oh, isso é muito bom, princesa. – o garoto gemeu quase obscenamente, e Hinata sorriu, admirando as costas largas e morenas.
Kiba era um homem bonito – com a barba por fazer e o cabelo rebelde, na altura do ombro. A pele morena sempre queimada de sol e a boca carnuda. Mas Hinata gostava mais de seus olhos. Eram castanhos vibrantes, sagazes, determinados. Ele era alto, e largo. Quando a abraçava, a escondia por inteiro. Tinha o trapézio definido e músculos saltados. Hinata sentia-se sortuda por tê-lo.
Não demorou mais que cinco minutos até que ela escutasse sua respiração pesada. Saiu e o cobriu, beijando sua testa. Foi ao banheiro escovar os dentes e voltou, apagando todas as luzes. Cobriu-se, com frio, e fechou os olhos. Seu estômago queimava, mas ela evitou pensar nisso, ignorando. Focou no enebriamento, e dormiu quase instantaneamente.
Acordou, assustada. O cabelo grudava em sua testa, e seu peito arfava. Ela se sentou no centro da cama, desorientada. Parecia que horas haviam se passado, mas o despertador em cima do criado-mudo marcava pouco menos de três da manhã. Passou a mão pelos fios ainda presos, lhe dando uma dor de cabeça. Os soltou, e estava úmido em algumas partes. Afastou a franja para cima, limpando o suor que escorria. Ela engoliu o bolo que se formou em sua garganta.
Jogou os pés para fora da cama, sentindo o frio do ar-condicionado atingir suas pernas desnudas. Não percebeu que estava tremendo, até que tentou ficar de pé e caiu novamente sentada. Controlou os dedos, esbranquiçados, e convenceu a si mesma de que não iria chorar. Passados alguns segundos, seu maxilar começou a bater, e ela levou a mão até a boca, para não fazer barulho e acordar Kiba. Conseguiu se por de pé e correu até o banheiro, fechando a porta atrás de si. Deixou-se fazer barulho, agora abafado, ao menos um pouco. Apoiou-se contra o balcão da pia, encarando o próprio reflexo assustado no espelho. Os olhos arregalados estavam lhe assustando, e a cor que fugira das suas bochechas a deixava mais parecida com uma assombração. Estava surtando, e sabia disso. Não era comum que era o fizesse no meio da noite, mas o pesadelo havia sido tão real.
Tão vívido. Tantas cores. Ela conseguiria até mesmo descrever o cheiro da campina. Estava tudo claro, tudo brilhante. Ela brilhava. E corria, contra o vento. Seu cabelo embaraçava atrás de si, comprido demais. Ela olhava para trás, rindo, estendendo a mão para que fosse tocada, para que ele a acompanhasse. E ele vinha, rindo, com o sorriso de rugas e os olhos cerrados. Parecia novo demais – o que a fazia pensar que era uma versão do passado de si mesma.
Aquela foi a primeira noite em que Hinata sonhou com Naruto Uzumaki.
Em sua mente, parecia cravejado as duas safiras, e queimavam sua visão. Para onde olhasse, a via. O sorriso, aquele sorriso que ela costumava amar. O rosto que se curvava em minúcias quando o sol o atingia. Hinata engasgou com um choro seco que a atravessou, e seus ombros tremiam ruidosamente.
Chega.
Se recompôs da melhor maneira que pode, e, ainda trêmula, abriu o armário de espelho. Todos seus remédios ficavam no banheiro de fora, mas havia os de Kiba ali. Deveriam ser suficientes. Puxou o vidro de calmantes, e os com comprimidos para dor de cabeça. Pegou um de cada. Os encarou, enquanto suas mãos tremiam violentamente, quase derrubando tudo pela pia. Pegou mais três de cada. Os uniu em sua palma e jogou todos dentro da boca, enquanto o sabor amargo derretia em sua língua. Abaixou-se e bebeu água da torneira, engolindo-os com dificuldade. Respirou fundo, até se acalmar. Não demoraria a fazer efeito.
Voltou para o quarto, apagando a luz. A escuridão lhe deixou momentaneamente atordoada. Entrou de novo nas cobertas, cobrindo-se dos pés a cabeça. Se virou para a esquerda, e sentiu uma movimentação. Depois, o braço de Kiba estava em sua cintura, e seus corpos se uniram. Hinata se aconchegou, já sentindo-se tonta. Não demorou para ela adormecer novamente, pouco ciente do corpo junto ao seu – mas saber que ele estava ali já era suficiente.
Quando o despertador tocou, parecia que sofrera uma pancada demasiada forte na cabeça. Esticou o braço e teve que bater três vezes até que o som infernal parasse. Rolou, coçando os olhos, gemendo com a dor de cabeça que teria de lidar ao longo do dia. Tateou as cobertas, e viu que estava sozinha. Kiba já tinha saído para trabalhar, o que significava que aquele era o segundo despertador, e não o primeiro. Suspirou. Mais uma manhã sem ter tempo de tomar café.
Se sentou, ignorando o enjoo e a ressaca. Se arrastou até o banheiro, tirando a roupa pelo caminho, e não resistiu a uma ducha fria, embora o clima do quarto estivesse gelado. A água ajudou a lhe despertar, e bastaram dois minutos para que ela estivesse aceitavelmente acordada. Se secou com a tolha um pouco úmida e pegou o conjunto de lingerie que deixara pendurada na noite anterior. No espelho, lutou contra a vontade de alisar o cabelo. As ondas do laço estavam marcadas, e ela gostava quando ele ficava totalmente liso – mas nunca parava de prendê-los enquanto molhados.
No quarto, arrumou a cama com velocidade recorde, pegando as roupas jogadas e dobrando-as cuidadosamente. Em seguida, puxou a camiseta social branca apertada demais no busto, e a calça jeans escura que começava a ficar folgada. Não queria usar salto, mas puxou o Scarpin preto. Endireitou a postura, decidindo que teria tempo de passar maquiagem quando chegasse ao serviço. Pegou uma muda de roupas para trocar quando saísse, e deixou o quarto.
Alisou o cabelo com a mão enquanto reunia os itens de sua bolsa com a outra. A mochila estava velha e surrada, mas Hinata gostava dela. Colocou seus livros de estudos, a muda de roupa, pegou o maço de cigarro quase no fim e seu isqueiro. Pegou alguns trocados na carteira e seu cartão de ônibus. Quase esqueceu o crachá.
Por fim, olhou para o relógio na cozinha e sorriu ao constatar que estava no horário. Saiu mais tranquila, trancando o apartamento com as chaves e pegando o elevador. Agradeceu por estar vazio – não estava com humor para conversar com os vizinhos naquela manhã. Rezou para não estar chovendo, e, quando saiu na calçada, comemorou os primeiros raios de sol morno que despontavam atrás do prédio. Andou em passos rápidos, para chegar mais cedo ao ponto de ônibus. Com a cronometramento correto, conseguiria comprar uma rosquinha na padaria da esquina antes da sua linha passar.
Seu rosto estava mais suave sem a maquiagem carregada, e conseguiu esquecer até mesmo do cabelo ondulado. Cumprimentou o atendente simpático que sempre lhe dava um copo de café de cortesia e mordiscou a massa ainda quente, com o recheio derretendo em sua boca. Hinata reprimiu um gemido satisfeito. Seu estômago agradeceu pela ingestão de comida sólida, e ela sequer sentia a queimação pela quantidade de remédios que ingeriu na madrugada. Era como se não tivesse acontecido.
O ônibus chegou no momento exato em que ela puxou seu cartão. Ainda eram oito horas, mas todos os lugares estavam ocupados. Com sorte, ela conseguiu sentar nos bancos do fundo, e se acomodou para uma longe viagem. A distância da universidade era a única coisa realmente desvantajosa em seu emprego.
Hinata não sabia o que uma “secretária de administração” fazia, mas descobriu, com o tempo, que se tratava de uma verdadeira faz-tudo. Cuidava de todos os setores do bloco C, desde a secretaria, impressão de documentos, auxílio a estudantes perdidos, registro de atividades, contabilidade, até ficar na biblioteca monitorando os empréstimos. Apesar de ser meio período, a bolsa era boa o bastante para ela conseguir pagar as contas, e o auxílio estudantil completava suas necessidades básicas, sobrando, no fim do mês, para o cigarro, as cervejas, e as ocasionais festas dos amigos de Kiba. Seu professor de cálculo avançado estava trabalhando em uma dissertação para ela apresentar no próximo congresso, em Tóquio, mas ela não tinha conversado com o namorado sobre isso ainda.
Divagou sobre sua vida enquanto o ônibus parava de ponto em ponto, e o sol esquentava seus pés. Mal podia esperar para passar para o turno da tarde. Durante as férias, trabalhava das oito até as duas, ou até as três, se fosse almoçar. Mas, com o período letivo se iniciando, ela seria transferida das quatro às nove, que era muito mais vantajoso, uma vez que Kiba estudava no período noturno, e lhe dava uma carona.
Tudo em sua vida parecia estar se arranjando. Hinata deliberadamente ignorou qualquer tentativa de seu cérebro de autossabotar seu reassumido bom humor, e, quando desceu em frente a UK, cumprimentou o motorista. Era cedo demais, e poucas pessoas frequentavam o lugar. As aulas começariam na próxima segunda, e ela agradeceu por ser sexta-feira. Atravessou os jardins, não deixando de admirar a construção monumental da faculdade, que ocupava cinco blocos, mais de duzentas salas, auditórios, ginásios, laboratórios experimentais e práticos, ateliês. Estava no top 10 de todo o lado oriental, e, além da verba governamental, recebia doações generosas de pais orgulhosos e patrocinadores anônimos.
Hinata chegou até sua sala e cumprimentou Shizumi, sua supervisora, que parecia atolada em papéis, e não teve tempo de responder seu bom dia. A garota foi até o banheiro e puxou seu estojo de maquiagem, passando corretivo para cobrir as olheiras e delineador para ressaltar os olhos. Não queria carregar a sombra ou o batom naquele dia. Encarou o espelho com um ar ousado, como se desafiasse o reflexo a apontar algum defeito. Estava aceitável, e ela saiu, verificando no relógio de pulso que estava orgulhosos cinco minutos adiantada para bater o ponto.
— Precisa de ajudar, Shizumi? – perguntou, quando guardou a bolsa e colocou o crachá.
— Oh, Hinata, querida, está tudo bem. – a mulher mal conseguia equilibrar as pastas – Mas está para chegar um grupo de visitas. Sabe, alunos novos, perdidos. Eu ia fazer a tour com eles, mas a diretora me pediu para organizar esses papéis. – ela olhava para Hinata como quem pedia desculpas, mas a garota sorriu sincera.
— Pode deixar comigo! Só nosso bloco ou todos? – Hinata estava verdadeiramente animada. Mostrar a universidade para alunos novos fazia o tempo passar mais rápido, e ela se distraía. Melhor que ficar carimbando documentos a manhã toda.
— A, B e C. – respondeu a mulher – São alunos dos cursos Humanos. – a garota assentiu, entendendo.
— Sem problemas, Shizumi. Vou pegar os roteiros. – a mulher assentiu, agradecendo, e Hinata se abaixou para entrar no almoxarifado, procurando algumas cópias de mapas e panfletos.
Saiu da sala e caminhou para o hall principal, sorrindo abertamente. Arrumou o cabelo e a franja, e os brincos. Alisou a blusa e parou, esperando. Não demoraram, e logo cerca de dez ou quinze pessoas caminharam em sua direção, olhando em volta como pombos turistas admirados com o novo mundo. Reprimiu uma risada.
— Sejam bem-vindos! – saudou, a voz suficientemente alta e um sorriso receptivo – Meu nome é Hinata Hyuuga e eu serei sua guia esta manhã. Espero que gostem do nosso passeio e de tudo que a Universidade de Konoha tem a oferecer! – seu discurso chamou a atenção, e o grupo se reuniu na sombra, enquanto Hinata distribuía os panfletos.
Ela contornou as pessoas, respondendo saudações e sendo simpática. Chegou aos últimos, reunidos atrás, e seus pés estacaram no chão, como se pisasse em concreto fresco. O sorriso desapareceu lentamente, e seus olhos se arregalaram de maneira involuntária. Hinata começou a tremer, e sua mente desmanchava-se em pânico, lembrando da madrugada anterior. Por muito pouco os mapas restantes não voaram de sua mão. Ela sequer conseguiu disfarçar, enquanto encarava um único ponto a sua frente, com a garganta trancada e o sangue fugindo de seu rosto. Era como seu pesadelo, real, vivo. O sol já estava mais forte, e batia contra seus olhos, tornando difícil enxergar a silhueta.
Mas Hinata jamais esqueceria a cor daqueles olhos azuis presos nos seus.
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