Heroína

24 Estamos andando sobre as duas linhas do trem


Notas iniciais
A ALETHEA DEIXOU UMA RECOMENDAÇÃO E EU NÃO TO SABENDO LIDAAAAAAAAAAAAAAARFJSDKFKSJDHFKDSJ Foi a coisa mais linda do mundo, só posso agradecer do fundo do coração, e te dedicar esse capítulo ♥ Estão preparados???? Só ladeira abaixo agora! Por favor, ~não me matem p.s. vai ficar pior rs

Bem, eu acabei de ouvir as notícias de hoje

Parece que minha vida vai mudar

Fechei meus olhos, comecei a orar

Então lágrimas de felicidade desceram rosto abaixo

— With arms wide open, Creed

—Capítulo XXIV–

Estamos andando sobre as duas linhas do trem

Hinata piscou para os primeiros raios solares que atravessaram as cortinas. Demorou para abrir os olhos por completo, e, quando o fez, a luz cegou-a parcialmente. Sua mente estava confusa; não se lembrava de onde estava, e não sabia explicar de onde vinha aquele cheiro agradável.

Assim que ajustou sua visão, enxergou prateleiras organizadas com enciclopédias e uma escrivaninha bagunçada de papéis — aquele não era o quarto de Shion –. Lentamente, acostumou-se com a claridade. As paredes eram de cor luminosa e alegre, e o quarto estava agradavelmente fresco, ainda que sentisse a pele grudar. Bocejou. Apurou os demais sentidos, de repente, aguçados demais. Espreguiçou-se, virando o corpo preguiçosamente. Afastou o cobertor de seus braços nus, libertando-se. Sentiu o colchão macio chacoalhar, e, enquanto se alongava, esbarrou em outro travesseiro. Percebeu que estava sozinha na cama.

Despertou de imediato, o coração acelerando. Sentou-se em abrupto, atormentada.

Hinata tinha acordado, e Naruto não estava ali.

Olhou para os lados em desalento. Era o mesmo quarto – as mesmas cortinas, que se entreabriram com uma brisa e iluminaram o cômodo; o mesmo guarda-roupa, a mesma decoração, o mesmo papel de parede. A mesma cama. A mesma cama vazia.

Lembranças a invadiram. A festa da faculdade – que não deixara uma incômoda dor de cabeça, pela primeira vez –, a dança infame, o convite indecoroso. A noite maravilhosa. Cada toque de Naruto sobre seu corpo havia ficado marcado; ela reviveu cada sensação, acalorada. As palavras de amor, os olhares gentis, os apertos sôfregos, o gosto salgado. Não fazia ideia de que horas seriam quando desabaram, exaustos, e adormeceram, juntos.

Teria sido um sonho? Um sonho bom que, subitamente, transformara-se em seu pior pesadelo?

Ela não queria acordar sozinha. Não queria que Naruto fosse embora – não mais. Nunca mais.

Sua garganta estava fechada, e o ar começou a faltar. Apertou os lençóis contra seus dedos, agarrando-se a eles. Seus olhos lacrimejaram, contudo, antes que os tremores se espalhassem por todo seu corpo, Hinata ouviu a porta ranger e abrir, e uma voz chegar até ela:

— Bom dia, meu amor.

Ergueu a cabeça repentinamente. Como se a vista se abrisse, ali estava ele. Seu sorriso era capaz de iluminar a noite mais escura. Naruto atravessou o quarto carregando uma bandeja recheada e decorada, o cabelo bagunçado para todos os lados, vestindo nada mais que uma samba-canção de estampas ridículas. A pele amorenada refletia marcas roxas e arranhões em alto relevo, como troféus. Hinata soltou o ar – que ela não sabia ter prendido –, livrando-se de um fardo que pesava seus ombros. Sorriu, trêmula, quase que incontrolavelmente. Afrouxou o aperto dos dedos, já de nós brancos, e relaxou, o coração voltando a encher-se de luz.

Naruto se aproximou da cama e depositou o café da manhã na cômoda, para poder se inclinar sobre ela, com os braços suportando o peso. Sua sombra cobriu Hinata, que o seguiu com os olhos, admirando as feições serenas e harmoniosas. Em algum canto irrelevante de sua mente, pensou se não estava, de fato, sonhando.

— Espero que esteja com fome. – soprou, beijando o alto de sua testa. Hinata o encarou, abobada.

— Você ficou. – sussurrou.

Naruto viu as pérolas assumirem um brilho peculiar, e reprimiu um suspiro. Quando acordou, levantou-se em silêncio, e ficou incontáveis minutos admirando-a dormir; percebeu que nunca tinha feito isso o suficiente. A maneira que seu peito subia e descia era como arte – ela parecia tão em paz. Quis preparar algo especial, para fazer com que aquela manhã fosse tão inesquecível quanto a noite que passaram juntos. Todavia, de certa maneira, ele podia esperar por aquela reação – e não haveria um só dia em que não se culpasse por aquilo.

Sorriu, terno.

— E pretendo ficar por quanto tempo for possível. – se precisasse passar o resto da sua vida convencendo-a daquilo, assim fosse.

Hinata baixou os olhos, e Naruto observou, deliciado, suas maçãs corarem. Afastou-se o suficiente para encará-la de frente. Ela sustentou o olhar, envergonhada. Nunca tinha se acostumado com a clareza de sentimentos que o Uzumaki demonstrava, sem receios.

— Eu amo você. – sua voz soou com natural transparência, o bastante para enrubescê-la por completo. Beijou seus lábios suavemente, e arrumou a postura, voltando a sorrir abertamente – Preparei um café reforçado para nós.

A morena virou o pescoço, admirando a bandeja bem organizado. Passado o susto, ao acordar, ouviu o estômago finalmente rosnando. Riu baixo. Sentia-se mais leve; como há muito não se sentia. Poderia aproveitar cada momento daquele dia sem se importar com o futuro; era tudo que importava.

Jogou as pernas para fora da cama, descobrindo-se, nua. Ficou de pé, e Naruto a encarou de cima a baixo, despudoradamente. Sorriu, agora libertino. Hinata ergueu seus braços e rodeou seu pescoço, erguendo a ponta dos pés.

— Que tal tomarmos um banho antes? – propôs, inocente. Deus o livre recusar uma proposta daquelas.

Hinata se lembrava do banheiro – com um espelho monumental sobre a pia de mármore e a banheira luxuosa de cerâmica. Ela se lembrava dos vários banhos de espuma que tomou naquela banheira, ainda que nenhum deles se equiparasse àquele. Seus corpos se encaixaram perfeitamente, como se moldados para aquilo. Ao mesmo tempo que Naruto brincava com as bolhas em seu cabelo, apertava seus ombros e beijava a curvatura de suas omoplatas. Aquela dualidade era deliciosa.

Os beijos esquentaram mais que a água, e Hinata gemeu sem pudor quando Naruto a penetrou, apaixonado. O quão clichê era dizer que ele a completava, de todas as maneiras possíveis e existentes? Já não ligava mais. O abraçou pelo pescoço e pelos ombros, deixou a água levar embora seus temores, delirou nas sensações que arrepiavam sua pele. Vieram juntos, plenamente satisfeitos; e continuaram se beijando, ardente, pelo resto do dia. Naruto sabia que era daquela maneira que deveria ter sido, e era daquela maneira que seria dali para frente.

As coisas voltaram ao normal, ou tão normal quanto poderiam.

Embora Naruto tivesse insistido muito perserverantemente para que Hinata se mudasse com ele em seu apartamento, a garota estava irredutível em sua decisão de ir com calma, pelo menos por enquanto. Dessa forma, permaneceu na casa de Shion, e sua rotina, de alguma maneira, pareceu entrar nos eixos. Não era como se pudesse manter o garoto afastado – uma vez que ele já tinha permissão para transitar livremente pela casa, Shion não se importava mais em acordar com o loiro em sua cozinha, uma vez que isso significava uma refeição completa esperando por ela.

Naruto procurava compensar, de certa modo; compensar o abandono, quatro anos antes, ainda que parecesse claro que Hinata já não mais o culpava por isso; compensar sua presença na casa, tornando-a o mais leve possível, fazendo as compras no mercado e cozinhando receitas sofisticadas apenas para as duas garotas. E, claro, compensar todo o tempo perdido, simplesmente não desgrudando de Hinata – ela não sabia se gostava ou não –. Enquanto estavam juntos, Naruto encontrava uma maneira de estar sempre tocando-a, fosse direta ou indiretamente. A beijava sempre que passava ao seu lado, acariciava seu cabelo, apalpava – desavergonhado – sua bunda e brincava com suas roupas. Preparava suas comidas preferidas, assistia a todos os documentários científicos que ela propunha, mesmo que parecessem entediantes. E, mais que simplesmente querer agradar, ele fazia aquelas coisas para deixá-la feliz.

Hinata não estava acostumada a ser mimada daquela maneira, e, todas as noites, antes de dormir, ela convencia seu subconsciente a não se afeiçoar tão rapidamente – ela não queria sofrer –. Não que adiantasse, de qualquer forma; já estava irremediavelmente apaixonada. Talvez sempre esteve. Era inútil lutar contra aquele sentimento, e, cada vez mais, se inclinava a meramente se deixar levar. Claro, realmente não ajudava que Shion fosse a maior incentivadora daquele relacionamento, surpreendendo a garota – ela esperava contar com alguém que fosse racional, prendesse seus pés no chão, principalmente alguém que conhecia Naruto.

— Você não está ajudando. – a Hyuuga resmungou, deitada no sofá com uma pilha considerável de livros, tentando se concentrar na própria leitura.

— Eu só estou dizendo que você está agindo como uma covarde. – Shion cantarolou, da cozinha. Desde o dia da festa, Hinata a vinha atormentando pela declaração de amor não esperada; em contrapartida, a loira tinha se tornando um pouco obsessiva demais em tirá-la do sério – O que te impede de morar naquele apartamento maravilhoso, enorme e luxuoso? – Hinata suspirou, já conhecendo aquele roteiro.

— Eu estou te incomodando? – rebateu, virando o pescoço para encará-la por cima do braço do sofá – É sério, se você não quer mais que eu more aqui, é só me dizer. – fez-se de vítima, ouvindo um palavrão e rindo baixo.

— Como se isso fosse possível. – revirou os olhos, se acomodando na poltrona com um prato cheio de calda. Hinata observou, em silêncio, como o rosto da amiga estava incólume; sem manchas, ou inchaços. Fazia dias que nenhum acidente acontecia, embora ela continuasse trabalhando, a contragosto da morena. De qualquer maneira, aquilo a deixava feliz – Mas está na cara que você quer. Vocês finalmente se acertaram, as coisas estão indo de vento em popa. Você tem que começar a se permitir ser feliz.

Hinata não respondeu. Embebeu aquelas palavras, refletindo sobre elas. Shion estaria certa? Ela tinha que começar a se permitir ser feliz? Há tanto tempo não sabia o que era isso; tinha sobrevivido, por muito tempo, apenas esperando por dias melhores, que nunca vinham. Ela só não sabia como fazer aquilo – como deixar. Havia melhorado, sabia. Já não passava a maior parte do tempo com medo; no entanto, ele ainda existia.

Kiba tinha desaparecido do mapa. Shion e Naruto voltaram no apartamento, para buscar algumas das coisas que tinham ficado para trás, e disseram não ter visto sinais de que ele tivesse voltado para lá, sozinho. Hinata não conseguia parar de pensar no que ele estava consumando – conhecia o garoto bem o suficiente para temer seu silêncio. Não ficava com medo de se ferir; ele já não podia machucá-la mais que fisicamente, e não era como se nunca tivesse acontecido. Sua preocupação estava com as pessoas que gostava. Kiba era mentalmente instável, um garoto mimado com poder. Se ele fosse atrás de quem amava, ela jamais o perdoaria.

— Chega. – empurrou os livros para o chão, incapaz de ler mais um parágrafo que fosse. Sentiu uma dor de cabeça chegando, e acomodou-se para um cochilo.

— Vai dormir de novo? – o tom incrédulo de Shion a deixou confusa.

— Qual o problema? – retrucou, espreguiçando.

— Hina, você tem dormido umas doze horas por noite, e está sempre bocejando. – Shion acusou, estupefata – Não é possível que você sinta tanto sono assim. – provocou.

— Deve ser porque você me mantém acordada a noite toda, querida. – devolveu, sorrindo, já com os olhos fechados. Estava mesmo cansada.

Antes que percebesse, maio chegou ao fim. Sua vida entrou em um ritmo agradável, entre estudar, trabalhar na iniciação científica com Asuma e passar cada momento livre com Naruto; era uma boa rotina. Era como se, aos poucos, finalmente estivesse se reencontrando, unindo os pedaços que perdeu pelo caminho. As coisas não mudaram da noite para o dia – ainda tinha receio, e ainda não se abria completamente. Mas, seu cabelo estava crescendo; ela sabia porque alguns fios começaram a incomodar, e o corte reto assumia várias direções. Ela encontrou uma velha camiseta entre suas coisas, branca com uma pintura colorida, e a usou um dia, para ir para a UK. Abandonou o batom escuro, ainda que gostasse do delineado marcante, agora usava cores vibrantes de vermelho. Em uma noite, saiu, depois da reunião, com as garotas da secretaria, e foram a um bar para o happy hour. Quando trombou com Ino, no ateliê, a cumprimentou, e ficaram conversando até que Naruto saísse da aula.

Estava mudando. Como se estivesse caminhando para encontrar aspectos de uma versão passada que ela gostava de ser, estava criando confiança para se descobrir. Por muito tempo, tinha sido apagada, vivendo na sombra de um homem que lhe alimentava com migalhas, e a mantinha por perto apenas para mostrar que podia. Agora, sentia-se livre – estar com Naruto era estar consigo mesma, e transbordar. Ele tornava tudo mais fácil apenas existindo. Lhe dava espaço e era atencioso, interessado no que ela tinha a dizer. Como uma flor, ela desabrochou no sol.

Outros ângulos da sua vida também contribuíam para aquela melhora significativa de humor. O curso de Administração continuava tão maçante quanto se lembrava, então pegou todas as matérias optativas que pôde – finalmente entrou para o programa avançado de cálculo, matérias de contabilidade aplicada e qualquer coisa que envolvesse números. Asuma estava confiante com a iniciação, e otimista quanto ao Congresso, na primavera. Podia conversar com seus colegas de turma, e os trabalhos se tornaram menos entediantes. Não tinha comentado com ninguém ainda, mas tinha pego uma cartilha com indicações de como fazer transferência interna. Além disso, insistiu para auxiliar Shion nas contas da casa, mas sobrava uma quantidade significativa de dinheiro, que ela guardava em uma poupança, para um futuro.

As coisas estavam indo bem.

Na quarta-feira, chegou mais cedo da aula, exausta. Jogou-se no sofá, atirando a bolsa para o chão e soltando reclamações. Shion estava na cozinha, preparando o almoço, e nem se deu ao trabalho de cumprimentá-la.

— Onde está seu namorado? – geralmente eles voltavam juntos para casa, e Naruto almoçava com elas.

— Minha aula acabou mais cedo, então eu vim de ônibus. – ignorou deliberadamente a provocação. Antes que pudesse respondê-la com algum outro disparate, seu nariz torceu – O que você está preparando?

— Macarrão com queijo, seu preferido. Por que? – a loira desviou do fogão, já alerta.

Hinata não conseguiu mais responder, porque o enjôo chegou mais rápido. Aos tropeços, correu para o banheiro, jogando-se de joelhos a tempo de vomitar ruidosamente. O líquido era amargo e nojento, e ela sentiu os dedos finos de Shion afastando seu cabelo do rosto. Quando sentiu que estava novamente sob controle, soltou alto o ar. Apoiou-se contra o vaso para levantar, repentinamente esgotada. Virou para a pia, lavando a boca diversas vezes, respirando fundo.

— Vem, para a cama. – Shion a arrastou para o quarto, fazendo-a se sentar contra a cabeceira. Limpou seu rosto, a expressão preocupada – O que diabos aconteceu?

— Não sei. – sua voz estava rouca, e sua garganta, dolorida – O cheiro ficou horrível de repente, com certeza tinha alguma coisa estragada. – fez uma careta, fechando os olhos.

— Hinata, não é a primeira vez que isso acontece. – a loira ficou subitamente séria. No começo da semana, a Hyuuga acordou vomitando, mas, como tinham bebido vinho até tarde da noite, no dia anterior, culpou o estômago vazio, tomou um remédio e seguiu sua vida.

— Não é nada demais, talvez eu vá ficar doente. – gemeu, cansada. Não queria preocupar Shion, provavelmente seria uma virose qualquer.

— Cansada o tempo todo, dormindo muito, enjoando. – Hinata não estava gostando daquele tom – Há quanto tempo foi sua última menstruação?

Abriu os olhos repentinamente.

— O que?

A seriedade nos traços da loira indicava que não era uma brincadeira.

— Quando foi a última vez que você menstruou? – repetiu, incisiva.

— E-Eu... Eu não sei! Meses! – Hinata nunca tivera um ciclo regular, presumivelmente pela quantidade de bebida, remédios e drogas que ingeria. Nunca se importara o suficiente para procurar um médico – Você sabe, n-nunca foi certo! – com os pulmões pesados, ela sentia seu peito comprimir.

— Vocês usaram camisinha? – a loira insistiu, mantendo-se calma e racional; ao contrário de Hinata, que sentiu, subitamente, o cérebro congelar.

— Sim! – recordou-se, desesperadamente, da última vez em que ela e Naruto transaram – Não, quer dizer, eu não sei! – a noite da festa voltou como um soco em suas memórias – Não todas as vezes. – sua voz falhou. Ficaram em silêncio por alguns segundos – Shion, o que isso significa? – sussurrou, apertando as mãos contra os lençóis. A loira levantou-se em um salto da cama, deu a volta pelo quarto e puxou a bolsa.

— Vou comprar um teste. – saiu, batendo a porta.

Hinata permaneceu na mesma posição, encarando o vazio. O quarto parecia mais gelado, e sua pele estava arrepiada. Era como se tivesse se esquecido de como pensava. Os braços, flácidos, ao lado do corpo, moveram-se inconscientemente até suas pernas, pousando sobre o abdômen. Piscou.

Seria possível?

Não haveria de ser.

Sua saúde era uma merda – já tinha ingerido comprimidos suficientes para foder com cada um de seus órgãos. Como, de repente, ela era fértil? Como, de repente, ela poderia estar grávida?

Que tipo de brincadeira de mau gosto do destino era aquela?

Permaneceu sem reação pelo que pareceu uma eternidade, até Shion retornar. A loira deixou a bolsa no balcão e foi até ela abrindo uma embalagem de papelão, com as sobrancelhas unidas e uma linha de expressão marcando sua testa. Retirou um pote de plástico transparente e um bastão que parecia de papel. A morena, sem nada dizer, levantou-se, acompanhando-a até o banheiro novamente. Abaixou-se, tentando relaxar. Encheu metade do pote, e o colocou sobre a pia, com o bastão dentro. Aguardaram poucos minutos. Hinata voltou para a cama, sentando, sem conseguir esperar.

Shion voltou com a fita em mãos, momentos depois, e entregou a ela.

Duas linhas.

A outra sentou-se ao seu lado, passando o braço por seu ombro. Hinata continuou a encarar o teste, como se ele pudesse mudar, de alguma maneira. Sua visão desfocou, e seus dedos afrouxaram, fazendo a fita pender. As palavras se perdiam antes que chegassem a sua boca.

— O que... – levantou o rosto para Shion, os olhos úmidos, a boca seca – O que eu vou fazer? – perguntou, quase inaudível.

Percebeu que tudo que eles diziam era uma mentira. Ela não se sentia exultante, inesperadamente desperta para os segredos do mundo, imediatamente ligada ao pequeno ser humano que crescia dentro dela. Não era emocionante, como nos filmes. Tudo que ela sentia era confusão e desespero; estava grávida, e não queria estar.

— Você sabe de quem é? – Shion perguntou, delicadamente. Hinata abriu a boca, pronta para defender-se da pergunta ofensiva, contudo, percebeu o que ela queria dizer.

Tudo tinha acontecido muito rápido – mesmo que estivesse com Naruto há pouco mais de três semanas, sua última relação com Kiba tinha sido há não mais que dois meses. Uma vez que seu ciclo não era regular, para que ela pudesse fazer as contas, não tinha como saber quando tinha acontecido. Começara a sentir os sintomas nos últimos dias, mas isso não queria dizer nada – em seu subconsciente, estava apenas rezando para que fosse de Naruto; a menor possibilidade de estar gerando, em seu ventre, um filho de Kiba a deixava transtornada.

Não. Mesmo que fosse, ele jamais saberia. Nunca mais voltaria a ser aprisionada por ele.

— Você precisa falar com ele. – a voz da amiga trouxe Hinata de volta de seus pensamentos. Ela sabia que Shion não falava de Kiba.

— Não sei se devo. – sua garganta se fechou. Toda a estabilidade de mundo que experimentara nos últimos dias começara a esvair, escorrendo como areia por suas mãos – Eu nem sei o que vou fazer. – a desculpa não soou convincente nem para si mesma.

— Hina, ele não vai te deixar por isso. – não havia como esconder algo dela – E, se fizer isso, então ele é o mesmo babaca de quatro anos atrás. Eu vou estar aqui com você. – entrelaçou suas mãos, e Hinata engoliu em seco. Lembrou-se que costumava não gostar de ser amiga de Shion, porque elas se ajudavam em situações ruins; eram ciclos viciosos que não conseguiam sair. Agora, ali estava ela, em uma nova situação ruim, com Shion ao seu lado. Hinata sequer conseguia pensar em como passaria por aquilo sem ela.

— Eu estou com medo. – a primeira lágrima escapou, em um fio de voz. A loira estendeu o dedo e a limpou, puxando a cabeça para seu ombro, onde Hinata se acomodou.

A porta se abriu, e Naruto parou, da soleira.

O garoto tinha acordado com uma premonição ruim. Era um sentimento sufocante, daqueles inexplicáveis, que ele apenas ignorou. Foi para a aula, e recebeu uma mensagem de Hinata, dizendo que tinha ido mais cedo e que eles se encontrariam no almoço. O garoto respondeu, tranquilo; ainda que não tivesse muitas certezas, sabia que Hinata sempre seria uma constante para ele. Nos estudos sobre cores, fez um retrato escuro, com borrões ininteligíveis. Aquilo certamente devia significar alguma coisa, mas não sabia o que.

Deu carona para Sakura até a sorveteria, e voltou para a casa de Shion. O dia estava claro, o céu aberto, sem nuvens. Mesmo assim, sentiu um aperto, pouco antes de subir os degraus e abrir a porta.

Quando entrou, avistou, da entrada, a cena, e parou – Shion abraçava Hinata como se a consolasse, e a própria atmosfera estava pesada. Imediatamente, preocupou-se; algo tinha acontecido com a Hyuuga.

— Hina, está tudo bem? – caminhou, apressado, fechando a porta com um baque. Shion se levantou, e Hinata aprumou os ombros, o rosto vermelho e molhado. Elas se entreolharam, conversando silenciosamente, deixando-o afoito.

— Quer que eu fique? – a loira perguntou em voz alta, por fim.

— Preciso fazer sozinha. – balançou a cabeça. Naruto sentiu o coração apertar. Shion assentiu, e se inclinou, abraçando-a protetoramente, mais uma vez. Em seguida, passou por Naruto, pousando a mão em seu braço por dois segundos, como advertência, e saindo.

Ficaram sozinhos. O Uzumaki não sabia o que fazer, então se aproximou. Notou que Hinata segurava algo, e suas mãos tremiam. Sentou-se, com cuidado, na beirada da cama, a uma distância segura. Nenhum começou a falar. Observando a garota, ele notou como ela parecia frágil – queria consolá-la, mas tinha que dar espaço para que se sentisse segura para contar.

— Hina, o que aconteceu? – perguntou quando não aguentou mais. Seu rosto, que estava baixo e coberto, ergueu-se, e ela o encarou profundamente com as orbes peroladas. Uma nova lágrima escorreu, perdendo-se ao cair.

— Eu acho que estou grávida.

Aquelas palavras – dizê-las em voz alta – tornavam-se estranhas. Hinata também percebeu. Apenas não pareciam tangíveis. Naruto julgou ter ouvido errado, entretanto, não era capaz de se enganar daquela forma. Os olhos úmidos, a expressão abatida, a fragilidade; cada pequeno detalhe era explicado por aquela frase. Era a última coisa que ele esperava, mas era real.

Seu estômago deu um nó que fez cócegas. Seu cérebro derreteu, e ele não sabia as coisas certas a se dizer naquele momento. Mesmo atônito, mesmo processando, mesmo em silêncio, não passou por sua cabeça, por um só instante, levantar-se e ir embora. Foi quando soube que ele ficaria, por definitivo. Em qualquer circunstância. Para sempre.

— E-Eu vou entender se você quiser ir. – Hinata gaguejou, esperando xingamentos que nunca vieram. Naruto magoou-se com a alternativa que ela propunha, porém, sabia que a culpa era exclusivamente sua. Sobretudo naquela situação. Teria que se esforçar para fazê-la compreender; para conquistar sua confiança.

— Hina. – chamou, sério. Segurou, com ambas as mãos, seu rosto. Os dedos acariciaram suas bochechas com carinho. Hinata o encarou, confusa – Eu amo você. – deixou-se mostrar surpresa – Eu amo você mais que tudo. – ele sorriu, tranquilizando-a – Eu não vou sair do seu lado, principalmente agora. Não importa o que você escolher, eu vou ficar. – Hinata soluçou – E serei o homem mais feliz do mundo, se me deixar acompanhar você.

Ela o abraçou como se dependesse disso para viver; como se pudesse respirar novamente, com os braços apertando suas costas. Naruto a puxou para seu peito, afagando seu cabelo enquanto a deixava chorar, de alívio. Foi simples – não perguntou de quem era, ou de quanto tempo estava. Não houve uma centelha sequer de dúvida. Ele aceitou, somente. Porque ele a amava.

Algum dia ela se convenceria?

Os primeiros dias percorreram em uma espécie de torpor. Hinata faltou da faculdade, e Naruto insistiu em acompanhá-la, assim como Shion. Independentemente da decisão – que não tinha sido tomada ainda –, eles queriam acompanhá-la nos primeiros exames, para terem certeza de que tudo estava bem com a Hyuuga. Foi pensando nisso que marcaram uma consulta na clínica fora da cidade, em Komu. A morena ficara com medo do prédio imponente – honestamente, ela estava com muito medo de qualquer coisa.

Sua tranquilidade tinha acabado. Sua vida tinha dado uma guinada de trezentos e sessenta e graus. Ela não detinha mais o controle, e havia pouco o que podia fazer. Todavia, quando se deitava para dormir, com Shion abraçando-a, ela pensava no que tudo aquilo significava. Se ela poderia ser feliz com Naruto. Foi assim que decidiu, em segredo, que pediria para que o exame de sangue confirmasse de quantas semanas estava grávida. Se livraria daquela agonia, e poderia pensar com maior clareza. E, dependendo do resultado, seu coração já teria uma resposta.

Naruto ficou esperando no carro, no estacionamento, e Hinata entrou sozinha na clínica, para a consulta. Da esquina, a espreita, outra pessoa acompanhava seus movimentos.