Heroína
25 Um digníssimo conto de fadas sobre a outra face do diabo
Notas iniciais
Whiskey era seu amigo
Ele não tinha outro
Vicodin seu vício
Seu real e único amante
Sim
Fumou um ou dois maços
Isso nunca foi um problema
Tomou uma pílula ou duas
Elas realmente o fizeram florescer
— Everybody gets high, MISSIO
—Capítulo XXV–
Um digníssimo conto de fadas sobre a outra face do diabo
A cidade de Komu era, popularmente, conhecida como uma extensão mais bonita e mais rica do pequeno condado de Konoha. Há muito tempo, por algum motivo, as indústrias decidiram fixar suas instalações nas terras que saíam dos limites da antiga e tradicional Konoha – posteriormente, Komu foi construída ao redor dessas fábricas, e o desenvolvimento aconteceu como esperado. Com o tempo, o vilarejo continuou como sempre foi, enquanto sua cidade vizinha atraía shoppings center, empresas multinacionais, emprego em massa e alta tecnologia. Ainda que Konoha tivesse conseguido a universidade – e, de fato, incrementado sua economia e se tornando um ponto renomado de referência –, Komu possuía os melhores supermercados, os melhores centros de assistência, as melhores lojas, os melhores hospitais.
Foi por esse motivo que um casal, morador de Konoha, resolveu procurar ajuda especializada em Komu. Eles tinham residência na vila, assim como seus pais tiveram, e como os pais dos seus pais, antes deles. Vinham de uma orgulhosa raiz ancestral, e tinham seu próprio mausoléu no cemitério. Se conheceram na única escola de ensino secundário, e foram, juntos, para a faculdade. Quando formados, retornaram para Konoha, onde se casaram e abriram seu próprio – e, futuramente, próspero – negócio. Eram tempos mais simples, e, assim como todo casal da época, mal podiam esperar para ter um filho.
Eles tentaram, e tentaram, contudo, ela não conseguia engravidar. Procuraram um médico, em Konoha, que, sem poder ampará-los, indicou-os a um colega que possuía mais recursos, residente da cidade ao lado. O casal estava esperançoso, mas suas expectativas esvaíram a quase nulas quando o especialista disse que seria quase impossível ela conceber um filho de seu próprio ventre – uma disfunção hormonal hereditária fazia com que produzisse menos óvulos que o normal, e isso dificultaria uma possível concepção. No entanto, o casal não desistiu. Investiram em tratamentos caros e avançados. Remédios, consultas eletrônicas, acompanhamento semanal.
Foi então que, durante o verão, eles receberam a notícia – ela esperava um bebê. Foi uma gravidez de risco, monitorada de perto por todos os tipos de cirurgiões, pediatras e obstetras que Komu poderia oferecer a um casal de classe alta, dispostos a pagar o que fosse preciso para ter um filho. Os últimos meses que antecederam o nascimento foram difíceis, o parto teve complicações – ele teve de recorrer a uma cirurgia de emergência, e não poderia mais ter filhos. Mesmo assim, quando ela segurou aquele pequeno bebê em seus braços, prematuro, minúsculo e indefeso, ela soube que não haveria nada que aquela criança não fosse ter – ele seria o bebê mais amado, bem cuidado, protegido e mimado. E eles lhe deram o nome de Kiba; entre outros significados, também queria dizer rei, e era isso que aquele filho representava para eles. O rei de seu mundo.
A nova família recusou-se a mudar para Komu, embora fosse mais fácil de realizar o acompanhamento necessário, nos primeiros meses. Em vez disso, mudaram-se para um bairro mais pacífico – e mais sofisticado –, nos altos da cidade. Era tranquilo, com casas familiares; seus vizinhos também tinham acabado de dar a luz a uma garotinha, e eles esperavam que seus filhos fossem amigos. Um novo horizonte de possibilidades se estendia por um futuro brilhante, e todos seus sonhos estavam se realizando. Ambos formados em Química, com pós-graduação técnica em Farmácia, abriram uma empresa de manipulação, e logo fizeram sucesso no pequeno vilarejo. Acumularam uma pequena fortuna, e a vida se tornou boa.
Os Inuzuka eram, como esperado, superprotetores em relação ao filho. Ele era um bebê relativamente calmo, chorando pouco pela madrugada, se alimentando bem, tomando todas suas vitaminas sem engasgar. Mesmo assim, dezenas que babás foram contratadas. Empregados fixos ocupavam os diversos quartos vazios da mansão para dois – e meio –, e Kiba não passava um só segundo sozinho. Ao longo do dia, era entretido por mulheres que existiam apenas para isso. Alimentado pela mãe, que fazia questão de voltar para casa a cada horário de almoço. No jantar, seu pai o ninava até que dormisse, e, então, os três dividiam a enorme cama de casal – ela não aguentaria colocá-lo em um berço, longe de seus braços.
Nenhuma criança foi mais amada que Kiba Inuzuka. Ao passo que crescia, forte e saudável, não foi descuidado um só minuto. Estava sempre acompanhado de alguma cuidadora, e, quando sua mãe finalmente concordou que ele estava crescendo demais para dividir a cama, seu quarto era amplo e ensolarado. Ele tinha todos os melhores brinquedos e bichos de pelúcia. Suas babás eram instruídas pelas melhores instituições de cuidados infantis, e psicólogos acompanhavam seu desenvolvimento intelectual de perto – ele era avançado para as crianças da sua idade, e aquilo era promissor.
A fortuna Inuzuka crescia consideravelmente, ao passo que a empresa aumentava os lucros e comprava filiais. Eles se preocuparam em criar uma conta especialmente para Kiba, com poupanças que seriam suficientes para bancar a faculdade e todas as regalias que lhe eram garantidas. Nada de material faltaria para ele, desde as necessidades mais básicas, até as mordomias mais luxuosas.
Mas os Inuzuka não eram más pessoas. Enriqueceram do trabalho árduo, construíram seu império, como seus pais fizeram, e seus avós, e os avós deles. Eram uma família tradicional na cidade, e todos os moradores os conheciam. Eram cumprimentados no armazém, e todos parabenizaram o nascimento do filho. Eles frequentavam a capela local aos domingo, assistiam a missa, ajudavam, como podiam, os desafortunados. Honravam seu sobrenome, e tinham bons princípios. Todos os dias, educavam seu filho para ser um homem digno, como seu pai, e gentil, como sua mãe. Passavam para ele valores como ética, humildade, amor. Nenhum apoio emocional e sentimental jamais faltaria para Kiba.
Seus pais se sentiam em dívida, de alguma maneira, por não conseguirem lhe dar um irmão. Acreditavam que nenhuma criança deveria crescer sozinha, mas, devido aos problemas do parto, conceber outra criança de sangue era impossível. Dessa forma, tentaram compensar a ausência com o máximo de atenção que podiam. Todo desejo de Kiba foi atendido a menor menção. Eles viajaram todos os verões, e foram a todas as estreias de filmes infantis. Contrataram professores de fora para piano, boxe, pintura e montaria. Finalmente, aos quatro anos, presentearam o filho com um filhote, que substituiria, em parte, a companhia que os pais não poderiam fazer cem por cento do tempo. Akamaru acompanhou Kiba durante toda sua infância e juventude, e, já velho, ganhou o devido descanso, ainda muito estimado.
É assim que começa a história de Kiba Inuzuka. Uma criança amada, cuidada e desejada. Kiba cresceu e viveu na mesma casa durante toda sua vida – a propriedade número cinco de Asakusa Valley. Ele era uma criança tranquila; nunca deu trabalho ao seus pais ou babás, aos seus professores ou tutores. Era inteligente, perspicaz e observador. Deu suas primeiras palavras aos oito meses, e os primeiros passos aos catorze. Ainda há uma caixa cheia de fitas de gravação de momentos adoráveis com sua mãe batendo palmas e ele usando um macacão listrado com touca. Quando atingiu idade suficiente, começou a frequentar a creche e o parquinho do bairro. Seus pais passavam os fins de semana escorregando ou empurrando balanços, e estavam felizes com aquilo. Era um ambiente feliz, bem-aventurado.
Não havia uma razão sequer que explicasse porque Kiba se tornou o que ele se tornou.
Não houve ambiente agressivo. Não houve traumas de infância. Não houve pais abusivos ou ausentes. Não houve bullying. Kiba tinha amigos na creche, e na escolinha. Ele levava seus colegas das aulas de línguas para jogar o videogame mais moderno que tinha ganho. Era convidado para festinhas de aniversário do condomínio, e para as comemorações de fim de ano. Não lhe faltava dinheiro, tampouco. Quando fez dezesseis, tirou uma habilitação especial, e ganhou um carro de presente. Tinha liberdade e um cartão de crédito premium.
Não havia motivos. Talvez fosse apenas a essência – ele nascera assim, e assim seria; indiferente às suas raízes, sua criação ou seu passado.
Kiba soprou para longe a fumaça do cigarro. Jogou a bituca no chão e pisou, apagando-a. Em seguida, virou-se para trás, vendo se Toneri já tinha retornado com a mercadoria. Sinceramente, não tinha paciência para toda aquela burocracia, mas eram os ossos do ofício, e tinha de esperar. Enquanto esperava, recostado no capô de um carro de classe média – do tipo que não levantava suspeitas –, observou as luzes da cidade. Komu oferecia um verdadeiro espetáculo luminoso, com todas aquelas fontes brilhantes no escuro. O garoto conhecia bem a cidade – além de trabalhar em uma das diversas multinacionais de projetos que existiam ali, também se lembrava dela de suas lembranças, dos passeios na pick-up do pai e dos médicos de rotina. Até gostava da metrópole; era infinitamente melhor que aquela vila de merda.
O sócio voltou, carregando malotes pesados, sendo ajudado pelos demais companheiros. Abriu o porta-malas discretamente, distribuindo pelo espaço e cobrindo com lonas. Toneri dispensou os homens e entrou no banco de carona. Kiba o imitou e deu partida, desviando do porto e pegando a rodovia, ambos em silêncio. Não havia necessidade de conversa entre eles, não enquanto faziam negócio.
Ele não saberia dizer o porquê, exatamente. Porque se envolver com Toneri. Porque financiar aquele esquema. Tinha começado com um interesse quase inocente – uma maneira de fugir do tédio. Quem sabe aquele fosse o cerne de tudo. O âmago do fundamento. Kiba vivia em uma infindável espiral de tédio. Nenhuma das distrações bastavam, nada era bom o bastante. Ele queria sentir. Queria estar vivo. Em uma noite, aos dezesseis, despediu-se da mãe na sala com um beijo na testa. Foi ao escritório do pai e acenou. Arrumou a roupa elegante casual e saiu para encontrar alguns amigos na boate do momento. A casa noturna tinha sido inaugurada quase nos limites da cidade, afastada da área residencial, e gerou curiosidade. O Inuzuka partiu, e não se animou com as luzes estroboscópicas. Seria apenas mais uma noite entediante.
Até encontrar Toneri. O dono do estabelecimento promissor tinha apenas dezoito anos – dois a mais que ele. Ele chegou no camarote e cumprimentou os convidados vip — algo que apenas nome e o dinheiro comprariam –. Interessou-se por Kiba, o puxou para um canto menos barulhento. Seu sorriso era simpático, mas seus olhos eram ferozes. Ele estendeu a mão, como alguém que ajuda um amigo em um ato de misericórdia. Kiba puxou aquele pequeno comprimido de sua mão, e colocou sob a língua.
Foi glorioso.
Pela primeira vez em toda sua vida, Kiba sentiu coisas. Sensações abissais, que paralisaram suas correntes sanguíneas, saltaram aos olhos, superaram quaisquer emoções. As correntes elétricas que percorreram cada uma de suas células eram algo totalmente novo. Quando a eficácia acabou – e, logicamente, os efeitos colaterais o atingiram –, estava claro que ele voltaria em busca de mais. E Toneri sabia disso. Se iniciou, ali, uma nova sociedade, embora eles não soubessem ainda.
Haviam poucas coisas que Kiba não tinha experimentado ainda, àquela altura. Sua preferida era a cocaína. Sem marcas, efeito rápido e efetivo. Gostava da sensação de energia e intensidade. No dia a dia, o cigarro comum, ainda que utilizasse de diversos métodos para disfarçar o cheiro ao chegar em casa – ele morreria antes de causar desgosto aos seus pais; embora acreditasse que eles preferiam fingir que não percebiam nada –. Claro, não recusava as pílulas e os papelotes, mercadoria famosa na boate. Com seus amigos, arriscava uma picada no antebraço, agulha limpa. Em pública, apenas o que pudesse controlar à vista.
Era convenientemente oportuno que seus pais tivessem uma verdadeira fábrica de manipulação. Antes de atingir a maioridade, Kiba já conhecia diversas combinações medicinais que causavam os mais variados efeitos, desde euforia, calmantes, estimulantes, alucinógenos. E, certamente, um estoque infinito de dopantes, antigripais e contra dores de cabeça, todos supostamente prescritos. O interesse pela farmácia também orgulhava os pais, que apoiavam sua decisão de cursar Química depois de terminar o curso.
Kiba sempre esteve em busca de se sentir vivo, e era aquela adrenalina que procurava, dia após dia. Não somente usar, mas cada transação, cada mala escondida na garagem, cada montante de dinheiro vivo – o poder era inigualável. Ele gostava. Era viciado naquele sentimento; o controle absoluto. Ser rei.
Os Inuzuka moraram sempre na mesma casa – onde Kiba passou sua infância e juventude. A propriedade número cinco de Asakusa Valley tinha um enorme jardim, sempre verde, e um gazebo de madeira, todo branco. Os vizinhos ao lado, da propriedade número seis, pertenciam a uma família nobre e reservada, de um professor universitário renomado, já aposentado, e uma dona de casa que possuía diversos talentos, um diploma de magistério e contabilidade e desenhava croquis de passatempo. Como vizinhos próximos, estavam sempre em contato, as mães eram amigas, os pais eram bons colegas. Os pais de Kiba esperavam, internamente, que ele e a primogênita fossem grandes amigos. O garoto não se lembrava da primeira vez que pôs os olhos em Hinata Hyuuga, mas, ao seu ver, ela sempre foi perfeita.
Hinata era uma criança corada – de pele branca como porcelana e cabelos escuros, quase sempre presos a trancinhas que se desfaziam no vento. Ela era tímida nos primeiros encontros, mas, assim que se libertava da estranheza, se tornava sorridente. Kiba adorava quando eles brincavam nos jardins, usando seus brinquedos caros, que ele gostava de dividir. Hinata tinha as mãos gordinhas, e ela segurava as suas quando queria levá-lo no parquinho. Eram grandes amigos, assim como seus pais desejavam.
Cresceram mantendo uma relação cordial de amizade. Hinata passou pela adolescência com excelência; os traços infantis foram substituídos pelas feições do que viria a ser uma bela mulher. Kiba gostava de matar tempo com ela e sua irmã mais nova e mais atrevida. Exultou de alegria quando caíram na mesma sala de aula, na única escola de ensino secundário. Eram, por assim dizer, melhores amigos.
No entanto, no começo do ano letivo seguinte, Hinata não estava na mesma lista de presença. Não demorou para descobrir que ela tinha mudado para a outra turma, com seus outros amigos. Kiba nunca saberia descrever a fúria que tomou seu corpo naquele instante, quando viu a Hyuuga almoçando com a garotas de cabelo cor de rosa, o garoto Uchiha e o – pior deles – loiro de olhos azuis do sorriso gigante.
E, naquele segundo, Kiba decidiu que ele a teria.
De certa maneira, sempre tinha sido um pouco obsessivo com Hinata. Não entendia como uma garota podia ser tão bonita, educada, gentil, engraçada e brilhante como ela. Sua mera presença tornava todo o lugar resplandecente – aquilo o irritava na mesma proporção que o encantava. Ele queria possuí-la, queria dispor daquela luz natural. Era, decerto, um plano a longo prazo. Estava indo muito bem, conquistando-a aos poucos; comendo pelas bordas. Entretanto, bastou surgiu aquela desgraçada de cabelo colorido, para tudo ir por água abaixo. Mesmo que fossem, literalmente, vizinhos de portão, a perda da convivência diária seria um empecilho futuro.
As coisas não pareciam muito favoráveis quando Hinata começou a namorar Naruto Uzumaki. Ele não era um cidadão tradicional de Konoha – como Kiba era –, ainda que seus avós fossem bastante conhecidos na cidade. Seus pais, curadores de arte, eram como nômades, sempre viajando e se mudando. Não tinha estabilidade, renome ou herança como Kiba. Ele não entendia o que Hinata tinha visto nele – seria a aparência? A pele queimada, o cabelo dourado, os olhos topázio, como um estrangeiro. Estava sempre sorrindo, como um idiota. Ele passou a frequentar a residência dos Hyuuga, e Kiba o via frequentemente na varanda do quarto de Hinata, que ficava a vista do seu. Quantas noites não passou, a fio, assistindo-os rir e se beijar, queimando lentamente, planejando cada passo. Não se importava se demorasse – em algum momento, ele cometeria um deslize, e Hinata seria dele.
Ao mesmo tempo, Kiba teve muitas namoradas ao longo de sua adolescência. Não eram relacionamentos duradouros – ele nunca chegara perto de amá-las, ou sentir algo intimamente próximo de interesse. Era apenas pelo prazer de conquistar. Descobriu cedo os deleites do sexo, e o que aquele tipo de envolvimento acarretava. Aprendeu todos os truques de conquista, e os aplicava como uma espécie de teste, simplesmente porque podia. Sabia qual era a aparência que elas queriam, o comportamento, as juras. Tão logo as levava para a cama, todo o fascínio desaparecia, e ele as dispensava rapidamente. Tomava cuidado de nunca magoar uma moça de família, optando por garotas da cidade vizinha ou de origem nem tão tradicional.
Kiba cresceu e descobriu a vida. Era discreto e dominador; eram essas as características preferidas de Toneri, que o fez sócio rapidamente. Queimavam notas de cem com drogas, bebidas e prostitutas. A noite era uma criança, e eles eram os pais. Claro, o Inuzuka também não era burro. Manteve um nível de primor na graduação, alcançando as maiores notas, estudando tudo sobre todos os assuntos – conhecimento era poder. Se formou com honras, e entrou, sem dificuldades, no curso de Engenharia Civil. Não era sua primeira escolha, mas era o que renderia o melhor emprego, a melhor posição social, e, logicamente, as menores suspeitas. O filho perfeito, o aluno perfeito.
O namorado perfeito.
Exatamente como ele previra, o Uzumaki saiu de cena. Imbecil. Como alguém era capaz de cometer um erro atrás do outro, e destruir a própria vida? Bastou ter paciência, e lá estava ela, frágil, sozinha, magoada. O alvo ideal era um coração partido. Kiba se tornou o vizinho prestativo, o amigo preocupado. Primeiro Hiromi, depois Hiashi, depois Hanabi – um a um, convenceu-os de que ele jamais abandonaria Hinata como o outro fez. Conquistando sua confiança, tinha passe livre para dentro da casa, e então, bastaria apenas dominar a garota.
Não foi tão fácil. Hinata era teimosa, independente e estava fechada para o mundo exterior. Quanto mais ela o rejeitava, mais Kiba a queria. Era o desafio perfeito – foi por isso que ele ficou tanto. Hinata não era como as outras, não. Ela era difícil de ser domada, um cavalo selvagem, dona de si. Mesmo depois que iniciaram um relacionamento, ela ainda demonstrava sinais de rebeldia, de que não tinha se curvado totalmente. Kiba a queria moldar para ser a mulher perfeita – dos seus sonhos –. Mesmo quando ela cortou o cabelo, mesmo quando parou de usar suas roupas preferidas, mesmo quando desistiu de cursar Astrofísica e entrou em Administração – para herdar, com ele, a empresa de seus pais –, mesmo quando parecia que ele tinha vencido, ela se erguia, o enfrentava.
Ele não planejava a primeira agressão, mas ela estava pedindo por isso.
O uso da força física passou a ser inevitável. Hinata o enfurecia, o deixava cego de ódio, e ele agia sem pensar. Embora guardasse uma espécie de orgulho contido, ele sempre voltava atrás, implorava seu perdão – sabia que, se não o fizesse, deixaria ela lhe escapar pelos dedos, insubmissa como era. Tomou cuidado para moldar seus pensamentos, fazê-la acreditar que estava sozinha e que apenas ele a amava; ter o controle integral e totalmente. Funcionou durante um tempo, e sua vida seguia de vento em popa.
Até que, inevitavelmente, começou a ruir.
Estacionou nos fundos da boate, e ajudou Toneri a descarregar a mercadoria. Aquele estoque vinha pela costa para Komu, e, de Konoha, redistribuíam pelo interior até chegar na capital. Levou tempo até que formassem um império respeitável na região, mas, agora, detinham o controle de grande parte das gangues e redes de informação. Não teria havido outro jeito de Kiba escapar de todas as multas e acusações por agressão. O chefe pegou sua maleta de dinheiro e terminou de despachar a entrega, ao passo que Sasori saiu pela porta. Kiba não acreditava na completa lealdade daquele cara, mas Toneri parecia confiar nele.
— Tudo pronto para o envio do caminhão. – seus olhos já estavam embaçados – Posso ir?
— Não. – foi Kiba quem respondeu – Precisa me cobrir esse turno, eu tenho pendências para resolver.
O ruivo fez menção de reclamar, mas o Inuzuka o ignorou, entrando novamente no carro. Deu meia volta, cantando pneu, e foi em direção à sua casa. A madrugada já caía, fria, mas ele não sentia sono – queria estar em posição já na primeira hora da manhã. Queria ter pego sua moto, mas precisaria do espaço do automóvel.
Foi particularmente difícil permanecer longe naquelas últimas semanas. Kiba sabia que seu controle começou a desaparecer no instante em que o Uzumaki retornara. No início, ele não percebeu os sinais; contudo, não era idiota. Hinata estava diferente, e ele conhecia o motivo. Sempre soube, também, que os sentimentos dela pelo ex-namorado nunca tinham desaparecido – estava tudo bem, desde que fosse ele a domesticá-la. Mas as brechas sempre existiram, ínfimas, quase desprezíveis. Aquele foi seu erro.
A começar pela prostituta maldita. Aquela amizade era perigosa, contudo, nem mesmo suas ameaças surtiram efeito. Elas eram ligadas demais, quase uma irmandade. Era para Shion que Hinata corria quando as coisas ficavam intensas demais, e a loira nunca escondeu seu repúdio sobre ele. A volta do Uzumaki era a cereja do bolo – a constante que faltava na equação. Hinata já vinha se mostrando mais resistente, mais desafiadora. Kiba não estava gostando de toda aquela petulância, e não contava com o apoio daquelas duas pedras no seu sapato. Foi inevitável que ela colocasse um basta por si só, embora ele tivesse usado todas suas armas contra ela.
Ter menosprezado as brechas foi uma atitude fatal, sabia. Mas estava acostumado a lidar com contratempos, e, como sempre fazia, retomaria o controle da situação. Quando percebeu que Hinata tinha corrido para os braços da meretriz, sabia que não conseguiria abordá-la sozinha – não sem seu cão de guardas para detê-lo –. Com o Uzumaki na jogada, e eles certamente reatariam, em algum momento, ficaria arriscado se aproximar. Em vez disso, deixou que pensassem que estavam seguros, e ficou na espreita, estudando, analisando.
Viu quando o Uzumaki entrou na casa, aflito, e todas as vezes que saía para comprar alguma coisa. Observou que Shion tinha diminuído sua carga de trabalho, e provavelmente estaria cuidando de Hinata. Na universidade, ficou sabendo da iniciação com Asuma e da aproximação corajosa com o curso de física – foi desagradável ter de controlar a vontade de puni-la por estar desobedecendo uma ordem direta dele –. Cada passo, cada decisão, ele estava sabendo. Procurou conhecer mais do Uzumaki, planejando seus passos contra ele também. Finalmente, o dia da festa para angariar fundos atraiu sua atenção – desgostoso, viu que ela também estava voltando ao contato com seus outros amigos.
Quando eles foram embora juntos, não havia mais dúvidas. A semana decorreu relativamente calma desde então, até que ele testemunhou uma movimentação interessante. A prostituta saiu apressada, com a feição atormentada. Kiba a seguiu até a farmácia que ficava na esquina, e esperou ela sair com uma pequena sacola. Entrou no mesmo lugar, e enrolou até que a atendente contasse o que ela tinha comprado.
Um teste de gravidez. Que surpresa deliciosa.
Ele não sabia de quem era o filho, mas tinha uma ideia – conhecia o ciclo desregular de Hinata, e, para que ela tivesse começado a sentir os sintomas, como suspeitava, só podia ser recente, duas ou três semanas, apenas.
Mal podia esperar.
Conhecendo Hinata como ele o fazia, sabia que ela voltaria para pegar o exame sozinha – ainda que seus guarda-costas a tivessem trazido da primeira vez, como constatara. Kiba só teve de ser paciente; isso ele sabia fazer muito bem. Acendeu um cigarro, soprando a fumaça lentamente, apreciando a nicotina. O sol raiou e iluminou a clínica de análises e diagnóstico. Ele não sabia, mas, há muito tempo, aquela fora a clínica onde o casal Inuzuka iniciara o tratamento para poder engravidar.
As horas passaram – não se importou em ligar para seu chefe e dar uma justificativa do seu sumiço – e, tão certeiro quanto ele previra, o ônibus parou, Hinata descendo dele. Ela estava agarrada à sua velha bolsa-carteiro, usando jeans e uma blusa de alças. Kiba crispou os lábios. Já estava na hora de ensinar uma lição para aquela vagabunda.
Ela entrou na clínica e ele preparou o carro. Não demorou vinte minutos e ela saiu, com um sorriso e um envelope aberto em mãos. Kiba leu em seu rosto o resultado, e se concentrou na seringa que segurava. Expeliu o líquido da ponta da agulha e saiu de trás do prédio, misturando-se à multidão. Quando ela o viu, não deu tempo de fazer mais que uma careta confusa. O garoto esbarrou em seu braço e aplicou a injeção – ele entendia bem de seringas, o suficiente para saber onde perfurar. Hinata piscou e desfaleceu. Kiba a segurou em seu colo e caminhou até o automóvel ligado, com as portas traseiras abertas. Sentiu a pele quente e o peso do corpo que pertencia a ele. Hinata pertencia a ele.
Faria com que ela se lembrasse disso.
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