Heroic Wish
16 Capítulo 16
Notas iniciais
As instalações da Torre Titã estavam vazias e silenciosas, pois o dia em São Francisco finalmente havia nascido ensolarado. Os residentes permanentes do QG Titã esperam ansiosos por dias quentes como aqueles para enfim poderem usufruir da praia particular daquela pequena ilha. Mesmo Ravena e sua predileção pela escuridão, fazia companhia aos colegas, devidamente protegida por um gigantesco guarda-sol e litros de filtro solar na pele pálida e frágil. Estava meditando silenciosamente enquanto Estelar e Mutano banhavam-se nas águas do mar. O transmorfo corria saltitante e sorridente da água para sua toalha, ao lado de Ravena, aquecendo-se o quanto podia por conta da água gelada.
— Acho que ainda não é a melhor época para banhos de mar. – Mutano riu e jogou-se na toalha, observando Estelar andar pela água e molhar-se, parecendo muito satisfeita com aquela folga, tudo em movimentos leves executados com tamanha sensualidade que outrora levava os hormônios adolescentes de Gar borbulharem em excitação. – Nunca é um problema para a Kory... – Admirou-a com algum carinho. – Não que eu esteja reclamando, a vista está ótima... – Não se sentiu confuso diante aquela verdade, Koryander realmente era muito atraente. – A gente sempre se reunia aqui nos finais de semana, lembra?
Sorriu para a amiga e percebeu que Ravena não participava do seu papo furado, permanecendo calada em sua meditação. Pegou os óculos escuros redondos ao lado de sua toalha e os colocou, fingindo não estar ofendido com a postura da filha de Trigon para consigo, mas entendendo que a moça precisava e muito daqueles momentos de descanso mental. Admirou o mar e suspirou, aproveitando o sol lhe aquecendo a pele. Espreguiçou-se e procurou o pequeno aparelho com suas músicas favoritas pela toalha. Ligou o som e colocou os fones de ouvido, apoiando os cotovelos na areia e observando as ondas do mar cintilarem sob os raios solares daquela manhã californiana. Balançou o corpo acompanhando o som das batidas da música e cantarolou, curvando os lábios em um leve sorriso de apreciação por conta daquela paz.
“You can't fade away
The way I feel for you
There ain't no word that I can say
For what I'd do for you
And every single day I make it through this game called life
It's alw- -” (...)
Os olhos pesaram e uma sonolência começava a provocá-lo, e então sentiu um cutucão nos ombros.
— Você já falou com o Bart sobre Washington? – Ravena o chamava atenção.
O jovem transmorfo arregalou os olhos ao perceber que havia se esquecido de tal detalhe, logo os fechando novamente quando pensou que se preocupar com aquilo era besteira.
— Agora você quer conversar, não é? – Mutano respondeu.
— Mutano... – Repreendeu ao amigo.
— Está tudo bem, falarei com Kid Flash assim que ele chegar do colégio. – Viu que Ravena balançava negativamente a cabeça. – O que foi? Não tive tempo de falar com ele durante a semana, estive ocupado, sabia?
A verdade era que estava evitando o jovem velocista, mesmo que inconscientemente. O esclarecimento dos seus sentimentos pelo rapaz já havia sido assimilado, mas, de certa forma, vinha sendo ignorado. Mutano fazia de tudo para as coisas permanecerem do jeito que estão em sua rotina, calmas e sem dramas. Mesmo que desejar uma vida sem surpresas e dramas, para um vigilante meta-humano, seja um tanto impossível.
Voltou a ouvir sua música, pegando o filtro solar de Ravena, pronto para passá-lo na pele esverdeada, quando sentiu a areia da praia tremer em uma vibração. O vento provocado pela velocidade de Bart assolou Gar e Ravena, fazendo areia voar pelo corpo e cabelos. Tossiram e esfregaram os olhos quando se deram conta da presença do companheiro de equipe impulsivo.
— Caramba, ligeirinho!! – Cuspiu areia. – Você não deveria estar no colégio??? – Mutano perguntou com olhos vermelhos por conta da areia que assolava as orbes.
— Estudar por livros é um saco... – O rapaz parecia alegre e jogou a mochila e camiseta em cima de Mutano, logo desamarrando os tênis. – Fugi de uma vez!
— Depois reclama quando as pessoas te chamam de burro!! – Empurrou as coisas do herói para a areia, visivelmente incomodado com sua atitude problemática.
Bart estagnou sua corrida até o mar e olhou contrariado para Gar.
— Ninguém me chama de burro... – Respondeu. – Esse é você, seu treco verde chato.
Ravena riu por dentro e Garfield arregalou os olhos e boca diante tamanha audácia.
— Como se atreve??!! – Levantou-se violentamente, jogando mais terra em cima de Ravena. – Retire o que disse IMEDIATAMENTE. – Entrou na brincadeira.
Um gesto atrevido e mal educado fora usado como resposta e Mutano se transformou em cascavel, deslizando rapidamente pela areia, atrás do jovem sorridente que corria normalmente para o mar. Chegando à água, virou um golfinho, chegando a assustar o velocista, passando pelo meio das pernas de Bart, fazendo-o cair sentado naquela parte rasa com água do mar. Gargalhou e mergulhou, boiando naquelas águas geladas, até Mutano lhe empurrar novamente com o focinho, dessa vez com mais delicadeza, somente para lhe chamar a atenção.
— Você tem algo para fazer amanhã de manhã? – Mutano perguntou.
Bart sentou e sacudiu a cabeleira castanha, fazendo respingar água no golfinho-transmorfo.
— Amanhã é sábado, não é?
O mais velho assentiu, nada surpreso com a confusão em relação ao dia do outro (mesmo que ele mesmo tenha parado para pensar sobre o dia relativo).
— Bom, o pessoal todo vai vir, acho que só iremos treinar de novo.
— Então... – Garfield voltou à forma humana. -... Não quer ir junto comigo para a base da Sociedade da Justiça?
Bart pareceu surpreso com o convite.
— Sério?
—... É. – Coçou a bochecha, não percebendo que havia ficado corado ante a reação do jovem Allen. -... Vou buscar seus novos companheiros.
Um brilho pareceu se acender no olhar azulado de Bart, e abriu os dentes em sorriso.
— Seria bem legal conhecer o QG da SJA...
Mutano estranhou aquela declaração.
— Você não conhece?
— Não...
— Mas... Jay Garrick não é um membro da SJA?
Bart abaixou o olhar e Gar percebeu ter tocado em algum assunto frágil, mesmo não sabendo ao certo do que se tratava. Nunca perguntou ao menino como era seu relacionamento com os Flash veteranos, mais por acreditar que não haveria nenhum drama ali. Pensou em como era ingênuo.
— Só vamos pegar os moleques, prepará-los para a chegada a Torre e tal... O que acha, quer me fazer companhia?
O coração acelerou pesadamente ao perceber o olhar de Bart sobre si, admirando-o com certa ternura no semblante. Quis desviar o olhar, por vergonha, mas Kid Flash mais uma vez foi mais rápido.
— Quero... – Tirou o cabelo molhado que havia grudado no rosto e respirou fundo. – Posso te fazer uma pergunta, Gar?
Sentou na areia daquela parte rasa do mar, desviando o olhar para a praia aos fundos da Torre Titã. Mutano ficou ansioso com aquela reação calma tão rara no impulsivo herói e esperou que ele completasse a questão.
— É algo que sempre quis te perguntar, mas nunca tive coragem...
—... Desembucha, ué...
Kid Flash segurou as mãos de Mutano e olhou seriamente em seus olhos.
—... Quando você pega muito sol, você fica ainda mais verde???
O mais velho piscou algumas vezes e desfez a tensão nos ombros, caindo na armadilha do outro. Jogou água na cara risonha e serelepe de Kid Flash e o empurrou, fazendo-o afundar dramaticamente na água.
— Vai passar um filtro solar nessa sua criação de sardas, seu branquelo.
Levantou-se da água e caminhou de volta para a areia, ouvindo Bart gargalhar atrás de si. Sacudiu a cabeça em uma desaprovação falsa e sorriu de leve, tocando as mãos seguradas por Kid Flash com uma feição abobalhada não tão rara. Encontrou o olhar incentivador e quase julgador de Ravena, desviando o olhar envergonhado da amiga. Colocou os óculos escuros novamente e soltou-se em sua toalha.
— Você sempre foi meio lento nesses casos mesmo, não é? – Ravena comentou, rindo da expressão de vergonha de Mutano.
— Me deixa! – Virou de lado, ficando de costas para a amiga, escondendo-se em meio a sua vermelhidão.
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Contorcia-se preguiçosamente em meio aos lençóis amassados daquela cama de casal, com olhos cerrados e lábios crispados que bloqueavam a voz rouca de alguém que havia acabado de acordar. O comunicador soou alto em seus ouvidos descansados, fazendo-o respirar fundo e tatear cegamente o móvel ao lado da cama em busca do aparelho.
— Que?
— Vocês vêm ou não? – Timothy perguntou impaciente.
—... O que?
— É sábado de manhã, Jason, “Titãs em ação”, lembra?
— Ah... É...
— Temos permissão para usar um plano dessa vez, estou esperando vocês na caverna.
Robin desligou o comunicador, um tanto irritado com o atraso irresponsável dos parceiros vigilantes de Gotham, começando a questionar sua decisão de aceitar Jason na Torre Titã, não ouvindo a resposta vaga do outro lado da chamada.
— A-ah... – Gemeu, colocando as mãos no rosto, arqueando levemente o corpo.
Richard Grayson surgiu debaixo dos lençóis, beijando gradativamente o torso de Jason à medida que subia por seu corpo. Demorou-se com beijos no pescoço do rapaz, esperando-o recuperar-se daquele orgasmo.
— Isso foi rápido. – Dick comentou divertido, saindo de cima de Jason, deitando-se ao seu lado.
Jason o ignorou e sentou na cama, ainda segurando a cabeça, respirando fundo.
— Qual o problema?
— Timothy está nos esperando na caverna...
Richard riu e levantou da cama, colocando uma calça moleton cinza e jogando a roupa de Jason em cima do rapaz que parecia acumular coragem para começar seu dia.
— Falar com o Tim te fez gozar mais rápido, não foi?
— Cala a boca, idiota... Que droga.
Jogou um sapato violentamente contra o vigilante mais velho, que pegou o objeto no ar.
— Da próxima vez, vou deixar você se virar com sua ereção matinal.
Pulou para o banheiro, fugindo do outro par de sapatos lançado, ouvindo-o bater na porta. Gargalhou alto para ter certeza que Jason o ouvia, tentando lhe tirar um pouco mais de paciência.
Capuz Vermelho encarava sério a porta que o impedira de punir aquele atrevimento e coçou a cabeça com ambas as mãos, bagunçando ainda mais sua cabeleira preta. Apertou o pescoço, ofegou e respirou fundo, levantando-se da cama e desvirando a roupa amassada para vesti-la. Terminou de se aprontar, não se importando com a aparência descuidada, e esperou Richard decidir sair do banheiro para poder fazer sua higiene pessoal. Cruzou os braços, irritou-se com a demora, colocou-os na cintura, suspirou, acumulando mentalmente alguns xingamentos e então olhou envolta, reparando pela primeira vez no quarto do parceiro. Andou até uma pequena estante com alguns livros e passou os olhos pelos títulos, notando em uma coleção deveras extensa de coletâneas de poesias dos mais diversos autores. Franziu o cenho em estranhamento e pegou um aleatório, folheando-o perdidamente, parando para ler algumas estrofes. Richard saiu do banheiro, penteando os cabelos para trás, jogando o pente em cima da cama e colocando uma camiseta de botão azul, não prestando atenção no que Jason fazia. O vigilante mais jovem virou o rosto para Asa Noturna e pareceu surpreso com o conteúdo literário lírico que acabara de ler.
— Desde quando você gosta de poemas? – Perguntou, realmente curioso.
O parceiro se colocou ao seu lado e pegou o livro das mãos de Jason, olhando-o com certo carinho.
— Sempre gostei de poemas. Sonetos, poesias... Esse tipo de coisa.
Jason o olhou com menos tensão na face e entendeu ali que não sabia muita coisa sobre a vida de Dick Grayson. Abaixou o olhar e sentiu algum remorso diante tal descoberta, já que tal negligência não espelhava o tanto que aquele homem lhe interessava.
— Mais tarde eu leio algumas pra você, que tal? – Richard disse, colocando o livro de volta na estante, sorrindo internamente ao perceber que Jason havia corado.
— Não, eu... Não sou tão ligado nessas coisas... – Pigarreou e encaminhou-se para o banheiro, onde se aprontou rapidamente e já se encaminhava para a porta do quarto. – Vamos, você não quer irritar o Timmy, não é?
Abriu passagem para Richard e teve o rosto segurado por uma mão do vigilante veterano, que o olhava com ternura e um sorriso com um ar quase sacana.
—... O que? – Jason perguntou, estranhando a ação.
— Você me faz ter vontade de ler “Goethe”... – Tirou uma parte da mecha branca da frente de um olho do rapaz, colocando-a atrás da orelha dele.
Foi olhado com desconfiança, pois Jason não fazia ideia do que Richard falava, mesmo acreditando que provavelmente era algo bastante vergonhoso. Tirou-lhe a mão do herói de cima de si e fugiu do olhar profundo de Dick sobre si, resmungando xingamentos leves para o parceiro.
Talvez perguntasse sobre Goethe durante a noite.
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