Heroína
30 Se houvesse um Paraíso, nós nos encontraríamos nele
Notas iniciais
Apenas deitada na minha cama
Nem tentei sair com meus amigos
Menti para minha médica, ela sabia que eu estava fingindo
Me deu alguns comprimidos, mas estou com muito medo de tomá-los
Eu tento e tento
Mas estou triste demais para chorar
—Capítulo XXX–
Se houvesse um Paraíso, nós nos encontraríamos nele, mas não podemos amar no Inferno
Algumas semanas tinham se passado. Um par delas. Era estranho como o tempo corria de maneira adversa no Instituto Médico de Recuperação Dr. Yoru Kim-Tenshi. Grandes prédios restaurados, de localização isolada e desconhecida, levavam o nome do pesquisador que tinha idealizado os primeiros tratamentos não-ofensivos para casos de depressão profunda e transtornos de personalidade. Mesmo assim, alguns dos pacientes se divertiam com o duplo sentido em seu nome – o instituto era chamado “Caminho dos Anjos”, porque suicidas em potencial sempre acabam morrendo naquele lugar.
Hinata acomodou-se em um lugar onde o sol não pudesse machucar seus olhos, mas pudesse esquentar sua pele. A manta sobre suas coxas, enquanto permanecia sentada nos bancos de concreto dos jardins, fazia com que continuasse com a mesma cor pálida; exceto pelo roxo abaixo dos olhos, os quais ela não sabia se pertenciam aos hematomas em recuperação, ou as olheiras dadas por noites maldormidas.
Não poderia dizer que gostava, ou desgostava, do Instituto Médico. Para tal determinação, teria de ser capaz de, efetivamente, sentir coisas, o que ela não conseguia; não desde que acordou no hospital.
Foram dias apáticos. Cinzas. Tudo era muito cinza no Instituto. Hinata sabia que era porque a cor neutra acalmava os mentalmente problemáticos. O contraste era hilário – passava dias admirando cenas comuns, com pessoas gritando e sendo sedadas por enfermeiros treinados e ligeiramente assustadores. Hinata era uma das poucas pacientes que tinha assinado, por livre e espontânea vontade, um período de férias na ilha dos malucos. Enquanto isso, pessoas no refeitório tentavam se matar com facas de plástico, e ela tomava sol durante a tarde.
Mas tudo era muito cinza. Os prédios, três ou quatro – ela nunca tinha ido tão longe durante seus passeios –, de tijolos novos e pintados. As paredes dos corredores, sem retratos ou espelhos, também cinzas. Seu quarto, desprovido de qualquer elemento pessoal que pudesse deixá-lo parecido com um lar, de colchas, travesseiro e rodapés cinzas. Suas roupas, uma túnica de hospital que cobria seus joelhos, ou camisetas desbotadas, cinzas. Tudo era cinza. Hinata sentia falta das bitucas de cigarro, cinzas, e do cinza do céu prestes a chover. Ali, as nuvens eram sempre cinzas, mas nunca chovia. Tampouco o tempo expressava sentimentos.
Hinata também era cinza.
Acordar foi um milagre. Quando o fez, achou que tinha morrido, e estava sendo recebida no céu – ou, muito provavelmente, no inferno. Contudo, quando tentou mover as mãos, foi acometida por uma dor incômoda do acesso em sua veia, e soube que, se a dor era real, possivelmente estava viva. Tinha sobrevivido. Sobrevivido à Kiba.
As memórias eram confusas. Ela se lembrava de ter desmaiado muitas vezes, e acordado. Não se lembrava da dor; mesmo que lembrasse, muito vividamente, dos socos, dos chutes e das palavras. As palavras jamais deixariam sua mente, não importa o quanto tentasse. Não saberia dizer quanto tempo teria se passado, e não se lembrava de muitas coisas que não fossem a sensação de seus pulsos amarrados, o metal frio contra sua coluna e a escuridão tórrida em seus olhos que já não enxergavam mais.
Ao acordar, a escuridão retornou, o que a levou a pensar na morte como primeira alternativa. Descobrira, poucas horas depois, que não conseguia enxergar porque seus olhos estavam inchados; como grandes bolas de golfes, provavelmente de aparência assustadora, com uma paleta de cores roxas, violetas, amarelas e vermelhas.
O inchaço não doía, e não doeu quando os médicos, que entravam e saíam, aplicaram injeções sobre todo seu rosto. Pouco tempo depois, uma pequena fenda no olho esquerdo permitiu que ela voltasse a enxergar o suficiente para distinguir o quarto da emergência onde estava.
Profissionais entravam e saíam. Não conseguiu falar na primeira hora, porque sua garganta também doía, amassada e dolorida. Alguém lhe disse que suas cirurgias foram um sucesso. Que suas costelas se recuperariam, e que sua mandíbula voltaria ao lugar, embora falar pudesse ser particularmente doloroso. Ela não tentou.
Enquanto isso, dopada pela anestesia, forçou sua mente a se lembrar dos detalhes. Pensar em Kiba não fazia seu coração acelerar – ela sabia porque os bipes da máquina não se alteravam, mas também porque o garoto não tinha nada mais para tirar dela; sequer seu senso de autopreservação.
Esforçou-se, e lembrou do quarto de metal, e do cheiro de urina. De desmaiar nos braços de Kiba quando sentiu um pequeno furo em seu braço, de surpresa. Levou mais tempo do que gostaria, mas também se recordou do porquê estar em Komu, e dos papéis em sua mão, e do sorriso em seu rosto.
A gravidez de pouco menos de três semanas confirmava que o bebê era de Naruto.
Meu bebê! Nosso bebê!
A felicidade transbordou de um lugar escuro e abandonado em seu peito, tornando-se luz. A perspectiva de uma criança ciciando em seus braços, balbuciando com os olhos azuis e ralos fios dourados, um pequeno Naruto, fazia tudo resplandecer.
Mas, pouco a pouco, os detalhes tomaram conta de sua mente, e sequer fora capaz de sorrir. O médico retornou, falando coisas das quais ela não entendia, com um tom condescendente que ela não queria. Uma única frase foi dita, e, subitamente, tudo mudou.
Não havia mais cor.
Os raios solares, ínfimos durante a tarde, desapareceram, e o vento gélido fez sua nuca arrepiar. Levantou-se, sozinha, e caminhou, em passos lentos, de volta para a ala de recreação, onde os pacientes eram incentivados a fazer atividades que ajudasse em sua recuperação; uma maneira gentil de dizer para que interagissem antes que a loucura em suas mentes tomasse conta de todo seu sistema.
Havia um piano, e livros. Telas em branco e tintas, que Hinata não ousava se aproximar – lembrar dela acendia um resquício de emoção em seu corpo morto; era doloroso. Preferia ler. Contos antigos, folhas amareladas. A estante daquele lugar não era atualizada havia décadas. Mas, também, poucos pacientes conseguiam ler depois dos remédios que os dopavam. Hinata tomava dois pela manhã, e dois antes de dormir, vivendo entre esse intervalo de tempo em extrema letargia.
Agora, já não doía mais como há algumas semanas atrás. Era apenas um pensamento, um sopro. Aparecia, bagunçava e desaparecia, como se nunca tivesse existido. Parecia uma boa metáfora para a situação.
Sinto muito, mas não pudemos fazer nada pelo bebê.
Três semanas de gravidez. O feto tinha o tamanho da cabeça de um alfinete – tinha lido em algum lugar, em algum momento. A maioria das mulheres sequer sentiam enjoos naquele momento. Apenas com um mês era que a gravidez se manifestaria. Claro, era tudo muito subjetivo. Um amontoado de células que acabaram de se estabelecer em seu útero. Abortos espontâneos eram tão comuns que os médicos sequer consideravam.
Nem um mês. Era tempo suficiente para amar uma existência tão insignificante?
Se não, por que doía tanto?
— Hinata? O que está fazendo por aqui? – ela balançou a cabeça na direção da enfermeira que cuidava dela pela manhã – Quer ler um pouco? – negou, em silêncio – Tudo bem. O jantar logo será servido, eu levo no seu quarto. – o sorriso era polido na medida certa. A Hyuuga concordou, voltando a andar. Quase não se lembrava do som da própria voz.
Depois da notícia, era como se não houvessem mais motivos para falar. Não havia nada a ser dito. O médico sugeriu a clínica psiquiátrica como intervenção para o silêncio dela. Não queria ser examinada, ou curada; não tinha mais esperanças.
No fundo, sabia que o centro de recuperações era apenas uma fachada para o hospício, mas, longe de tudo e todos, era capaz de se fechar em sua própria dor, e não magoar mais ninguém. Tinha consciência de que Naruto esperava do lado de fora da UTI, e, sendo incapaz de encarar seu rosto uma última vez, assinou a cláusula do formulário que impedia visitas.
Era covarde, e havia fugido.
Durante os primeiros dias, permaneceu sedada quase que vinte e quatro horas, para que seus ferimentos se curassem apropriadamente. Os inchaços diminuíram, e conseguia abrir os olhos, embora não fitasse, no espelho, seu reflexo quebrado. Seus pulsos tinham a cor doentia de um amarelo pus, quase esbranquiçado, e outras partes de seu corpo também desmanchavam o roxo. Tampouco se via nua, tomando banho com os olhos fixos na parede.
Cada célula de seu corpo era uma lembrança do que tinha perdido. Sua pele, quente; seus pulmões, respirando; sua boca, seca e dolorida; seu supercílio, com cortes cicatrizando. Suas mãos, seus pés. Seus braços, suas pernas. Seu rosto. Seus seios, sua barriga. Não havia um só espaço em si que não a lembrasse que, um dia, servira de moradia para um bebê que jamais conheceria.
Não havia um só centímetro que Naruto não tivesse tocado.
Com o coração apertado, Hinata sabia que não seria capaz de dizer adeus a Naruto, embora precisasse fazê-lo. Já tinha feito com que sofresse muito; a perda de seu filho seria algo que jamais conseguiria pedir para que perdoasse. Até aquele momento, Hinata sabia que era disfuncional, quebrada, e Naruto continuava, insistentemente, a querer consertá-la. No entanto, nem mesmo ele poderia juntar os pedaços partidos que representavam um coração que já tinha desistido de bater.
Cada nascer e por do sol representava um dia a mais em que existia; não vivia, existia. Era indiferente se respirava, andava, comia, lia. Pessoas iam e vinham, ela tomava sol no jardim e assistia mentes insanas cometerem os piores tipos de atrocidade que o ser humano seria capaz, e tomarem atitudes que ela desejava a coragem para ter. Vagava, sem reações, pelos corredores do Instituto, e percorria o Caminho dos Anjos na esperança de que, em algum momento, fosse capaz de desaparecer, durante a noite. Não tinha medo de sentir dor; cada minuto que passava, a dor já presente a envolvia mais.
Entrou na porta que representava seu quarto. No Instituto, tudo era feito para passar a impressão de que, realmente, se tratava de uma colônia de férias; Hinata tinha autorizado alguns cheques com o formulário, sequer pensando no valor que cobrariam para lhe deixar internada em um hospício. Já não importava mais.
O quarto – cinza — tinha pouquíssimos móveis, e absolutamente nenhum elemento cortante, que representasse perigo para seus hóspedes. Uma cama confortável, no canto, com uma janela pequena o suficiente para deixar ar fresco entrar, sem que ninguém tente pular dela. Cortinas velhas e puídas sacolejavam com a brisa, e uma pequena cômoda, de duas gavetas, não guardava nenhuma lembrança pessoal.
Sentou-se na beirada da cama, mexendo a ponta dos pés, que ficavam suspensas. Costumava passar todos os dias sozinha, menos durante as sessões de terapia em grupo – mais uma forma do Instituto garantir que não fosse processado por negligência dos pacientes. Era uma experiência curiosa, ver dezenas de pessoas depressivas e potenciais homicidas em uma roda, conversando com uma psiquiatra que, por mais que usasse armações de óculos coloridas e sempre sorrisse, não enganava Hinata; ela tinha olhos fugazes.
Hinata nunca falava nas sessões de terapia, mas quase poderia se divertir com os demais pacientes do seu grupo. Reconhecia alguns filhos de figurões e políticos, e se surpreendia em como pessoas ricas também sofriam. Procurava se misturar, e nunca fazia contato visual com ninguém. Ficava encarando suas próprias unhas, curtas e roídas, e fitando as marcas amareladas dos pulsos – um lembrete constante do que havia acontecido, há tanto tempo agora.
A enfermeira chegou com seu jantar, e deixou próximo a cama, sem dizer nada. Hinata não pretendia comer; quase nunca o fazia. Apenas uma vez a cada dois ou três dias, mas, se desmaiasse, tampouco se importava.
Acreditava que as pessoas que frequentavam aquele lugar tinham alguma esperança, consciente, ou não, de se curarem; ou ela, ou seus familiares, aqueles que as queriam bem. Ou, ainda, talvez fosse um refúgio, um esconderijo longe de escândalos milionários. Não importava. Hinata não tinha por quem lutar, e afastara todas as pessoas que poderiam ter algum tipo de afeto por ela.
Internamente, já não estava mais viva, e aquilo sequer importava.
Aquela tinha sido mais uma longa madrugada. Hinata acordou, ofegante. Em sua testa, fios de cabelo grudavam com o suor, enquanto ela arfava, sem conseguir sentir o oxigênio em seus pulmões. Os nós de seus dedos estavam brancos; em algum momento, agarrava os lençóis, tão firme que suas juntas doíam.
Acordou de mais um pesadelo. Eram recorrentes, mesmo com os remédios para dormir. Gritos, principalmente, faziam com que ela se levantasse no meio da noite, incapaz de voltar a dormir. Incapaz de chorar.
Eram sempre as mesmas imagens. Uma cena feliz, onde ela não tinha cicatrizes, e Naruto abraçava sua cintura com carinho e afeição. Ah, Naruto. Seu coração pesava apenas com a mera lembrança. Geralmente, estavam em uma campina, e também havia Sakura, e Gaara. Todos sorriam, felizes. Haviam toalhas na grama e o sol era brilhante; tão diferente daquele lugar. E Hinata vinha com os braços ocupados – neles, um embrulho. Uma manta branca, como neve, feita de trico, embalava um pequeno bebê. Um bebêzinho, que fazia barulhos com a boca, balançando suas mãozinhas. Hinata balançava-o, e, quando olhava sobre os ombros, Naruto estava encarando o bebê com devoção no olhar. E tudo estava perfeito.
Geralmente, não levava tanto tempo para que acordasse. Quase nunca chegava a escutar os gritos – fossem dela, fossem de Kiba, fossem de Naruto. Apenas gritos, agudos, graves, dolorosos, rasgantes. Antes dos gritos, Hinata acordava em desespero. A felicidade era como o sol; muito perto, começava a queimar. Tudo queimava. Sua pele, em chamas, pesava seu peito, e ela não conseguia respirar.
Seu rosto também queimava, com lágrimas que ela era incapaz de derramar.
Desde o hospital, Hinata já não era capaz de chorar. Ela queria, por Deus, ela queria chorar. Desfazer o nó em sua garganta, aliviar a dor em seu peito, sentir-se leve, ter esperança. Mas não. Nenhuma lágrima sequer atingia seus olhos, e ela continuava a encarar suas mãos, trêmulas, e ofegante, porque o peso que sentia era como afundar no oceano.
Tentou respirar fundo. Qual o sentido? Já não valia mais a pena.
Hinata estava adiando o inevitável.
Durante muito tempo, muito, ela sentia que era capaz de superar todas as merdas que aconteciam, uma após a outra. Naruto tinha ido embora; que importância tinha? Era apenas um coração quebrado. Milhares de pessoas eram magoadas, e nenhuma delas tinha morrido por um amor juvenil. Foi doloroso, mas aprendeu a lidar com aquele sentimento. E então, quando Hanabi... quando Hanabi se foi, Hinata achou que jamais voltaria a respirar novamente. Que os pedaços de seu coração não poderia ser juntados, porque aquela dor, aquele sofrimento, era sufocante. Mas aprendeu a lidar.
Hinata sempre aprendia a lidar. Todos os tapas, todos os socos, todos os chutes, todas as palavras afiadas. Quatro anos de uma relação conturbada com o Inuzuka, e nenhuma dor chegava a ser suficiente para fazê-la desistir. Já estaria acostumada? Já estaria morta? Acabava voltando, de novo e de novo, para um falso sentimento de segurança, de pertencimento, de necessidade. Queria que sua existência fosse necessária para alguém. Queria ser amada, desesperadamente. Talvez o amor pudesse mesmo curar anos de uma vida miserável e um coração despedaçado.
E, então, Naruto voltou. Hinata foi capaz de sorrir novamente. Mesmo que por alguns instantes, sentiu como se pudesse, mesmo, renascer. Superar todas as adversidades, entender que tudo na vida tinha um propósito, e ela cumpriria o seu, de bom grado. Superar, em vez de lidar.
No entanto, como seria capaz de lidar com aquilo?
Como superar a morte de um filho? Não era apenas o bebê – um amontoado de células que mal havia se desenvolvido quando foi arrancado de dentro de seu corpo. Era o que ele representava. Era esperança. Começar uma família, se dedicar, de corpo e alma, a uma criança que era fruto do amor. Um amor verdadeiro, intenso, forte o bastante para resistir a tudo. E aquilo também foi tirado dela.
Hinata não merecia a felicidade?
O dia começou de forma curiosa. Quando a enfermeira entrou, e Hinata teve de fingir estar dormindo, para ser acordada e tomar seus remédios, percebeu pequenos feixes de luz entrando pelo quarto. Levantou-se, mal se equilibrando sobre suas pernas frágeis. Não sabia quanto peso tinha perdido até agora. Caminhou até a janela, e, com um suspiro, viu o céu abrir poucas nuvens esbranquecidas, e um azul-claro encheu seus olhos. Não era cinza, embora a cor envolvesse todo o resto do céu. Talvez fosse um sinal.
Desceu para a área de interação, avistando pessoas tão apáticas quanto ela. Vítimas da sociedade, da violência, de uma existência miserável. No Instituto, Hinata pôde ver como, as vezes, uma boa vida não significava uma vida que valia a pena. Ninguém interagia – alguns poucos falavam sozinhos, outros gritavam em surtos coléricos, mas nunca entre si. Era bom ficar sozinho, mas nem sempre com os próprios pensamentos.
Sentou-se no canto da sala, abraçando os joelhos. Os olhos caídos piscavam lentamente, e sua garganta raspava ao engolir. Gostaria de poder estar chorando, para se livrar da sensação angustiante que a acompanhava desde a madrugada – mas descobriria, em algum momento, que era algo que a acompanhava há muito mais tempo que apenas uma noite.
Muitas pessoas pareciam ter ficado surpresas com o céu azul. Poucas estavam na sala, do lado de dentro. Todos os dias, uma nova pessoa chegava, e uma antiga saía. Hinata estava ali a tempo suficiente para reconhecer os rostos antigos de pacientes perdidos, os rostos vazios de quem acabara de chegar, e os rostos esperançosos de que estava para sair – a não ser quando desapareciam; estes tinham as expressões mais profundas e dilaceradas que alguém poderia exibir.
Hinata não estava exatamente dormindo, mas não ouviu quando outra pessoa sentou-se na poltrona ao seu lado. Inerte, procurava afastar os pensamentos que repuxavam seu estômago.
— Hyuuga, não é? – uma voz rouca falou ao seu lado. Ligeiramente intrigada, virou o rosto em sua direção. Não reconheceu o homem. Tinha em torno de trinta e poucos anos, embora seu rosto tivesse cicatrizes que não pareciam vir de uma vida saudável na flor da idade. Tinha cabelos ralos, quase careca, o que lhe dava um estranho ar de loucura caricata. Se perguntou como ele poderia saber seu nome, mas não se importava o suficiente – Está aqui há bastante tempo, garota. Recuperação difícil? – ele parecia estar querendo puxar assunto, mas algo em seus olhos incomodava Hinata – Essas cicatrizes no seu rosto parecem ser de alguém que já comeu o pão que o Diabo amassou. Não é tão simples superar tantas mortes, não é?
Como se tivesse levado um choque, Hinata sentiu as costas retesarem, rígidas como madeira. O homem, de olhos injetados, tinha um sorriso afetado, como se soubesse um segredo e não fosse contar. Era incômodo, e, sobretudo, pungente, ouvi-lo falar aquelas palavras tão naturalmente.
— Só estou dizendo, as pessoas fofocam muito por aqui. – ergueu as mãos, defendendo-se da postura subitamente hostil. Hinata não gostava da maneira que ele parecia relaxado— Está a fim de curtir um barato?
— O que?
Saiu antes que pudesse pensar. Doeu, porque sua garganta estava seca; a voz, rouca, falha e sussurrada, era estranha em seus ouvidos.
— Você parece ser o tipo de garota que sabe curtir. – provocou, aproximando-se enquanto apoiava o peso sobre ambos os pés, em cima da poltrona. Estava perto o suficiente para Hinata sentir o cheiro pútrido de suas roupas – E eu consigo ver nos seus olhos. Você está precisando se distrair de... tudo. – os olhos arregalaram-se de maneira assustada, mas Hinata não se importou. Seus dedos apertaram o pulso, um pouco trêmulos – Eu costumo cobrar um bom preço, mas para você eu faço uma cortesia.
Hinata conhecia bem o tipo. Traficantes, viciados, dependentes – em um lugar como aquele, não era surpresa imaginar que existiria um fornecedor de drogas para os pacientes. Já tinha percebido como alguns pareciam inertes. Só não entendia o que ele queria dizer com toda aquela conversa, e porque tinha se aproximado.
O homem não disse mais nada, levantando-se. Antes de sair, aproximou-se, cobrindo Hinata com sua sombra, e deixou cair, em seu colo, uma pequena trouxinha de pano, enrolada sem muito cuidado. Antes que pudesse dizer algo, o homem saiu, deixando-a inexpressiva e confusa.
O pacote em seu colo era ligeiramente pesado, e grande para ser transportado sem cuidado. Ponderou abrir ou não – a situação era tão absurda que ponderou realmente ter acontecido. Com os dedos leves, desamarrou o laço, ofegando silenciosamente e tornando a fechar ao redor de sua mão, surpresa com o conteúdo.
Depressa, levantou-se, guardando o pacote dentro de suas roupas e caminhando de volta para o quarto, onde seria deixada em paz até o almoço. Seu coração batia descompassadamente, enquanto suas terminações nervosas deixavam-na alerta. Sua pele grudava de suor, e Hinata não sabia o que estava acontecendo.
Entrou no cômodo, batendo a porta e arrastando as persianas para fechá-las totalmente. Sentou-se na cama, puxando o pacote e abrindo-o totalmente para fora do pano. O primeiro componente que escorregou para seu colo foi uma pequena seringa, fechada e limpa. Era menor que as comuns, com a agulha embalada cuidadosamente, como se fosse profissional.
Ao seu lado, um pequeno frasco, de líquido âmbar. Uma risada nervosa surgiu, morrendo em sua garganta, antes que pudesse chegar em seus lábios. Claro que ela conhecia aquilo – quantas vezes tinha visto Kiba, Toneri e todos aqueles desgraçados utilizarem aquela merda ao seu lado. Por Deus, ela mesma já tinha injetado algumas vezes em suas veias, quando estava tão chapada que sequer conseguiria lembrar seu próprio nome.
Não entendeu porque aquele homem estranho tinha simplesmente lhe dado aquilo, ou que tipo de fofocas percorriam nos corredores, sobre seu nome. Não era famosa, não era importante; era só uma garota perdida, fodida, sozinha.
Rodou o frasco entre seus dedos, pensativa. O líquido marrom parecia suficiente para duas, ou três doses. Já estava pronto para ser usado, sem precisar de uma colher e isqueiro para aquecer a morfina, até conseguir o ponto ideal. Particularmente, nunca tinha sido muito fã de drogas ilícitas em geral, mas algo dentro de si não a deixava jogar aquilo no lixo.
Apenas algumas doses de heroína seria suficiente.
Apesar de não ser tão popular nas boates que a elite da classe alta frequentava, heroína era realmente fácil de ser feita naquele país. Algumas gramas de morfina, ou mesmo de ópio, já eram o bastante para algumas boas doses daquela droga, de efeitos poderosos.
O que Hinata, supostamente, deveria fazer com aquilo?
Suas mãos tremiam, e suavam. Tinha tudo ao seu alcance; uma seringa, alguns poucos minutos. Sequer precisaria de um elástico para amarrar o braço. No entanto, a verdadeira questão não era essa.
Era aquilo que Hinata queria?
Para que serviram todos aqueles dias, isolada naquele maldito hospício? Recuperação física? Os inchaços em seu rosto estavam quase imperceptíveis, suas costelas não doíam, sua mandíbula, outrora imobilizada, já não estralava mais. Fisicamente, estava quase impecável; para quê? Cada segundo que se passava, sua mente ficava pior.
Hinata não conseguia dormir, não queria comer. Já não vivia mais. Era refém de seus pensamentos, torturada pelas lembranças, pela dor, pela angústia. Pela saudade. Seu coração era um amontoado de cacos jogados pelo chão, e ela sequer tinha forças para varrê-los. De novo.
Estava cansada.
Foda-se.
Puxou a seringa e abriu o frasco, puxando uma quantidade mínima, muito menor do que outras pessoas usariam – merda, muito melhor do que ela já tinha visto Kiba usar. Não era nada demais. Não era nada demais. Hinata só queria deixar de sentir por alguns instantes. Só queria paz, nem que fosse dopada. Chapada. Apenas algumas horas livre do seu corpo, da sua mente.
Esticou o braço esquerdo, e, respirando fundo, injetou. Apertou a agulha o mais fundo que conseguiu, com uma careta, e, assim que o líquido penetrou suas veias, ela ofegou. Retirou a agulha, deixando-a em sua cômoda, junto do frasco.
Não demorou mais do que alguns segundos, e Hinata teve de recostar na cama, fechando os olhos. Os efeitos arrebataram-na como um soco no estômago. Imediatamente, sentiu–se leve, os membros moles. Depois de semanas, queria tirar um cochilo. Tranquila, como há tanto não sentia.
Respirou fundo, abrindo um sorriso frouxo. Fazia muito, muito tempo. Mais do que ela poderia dizer. Mais do que se orgulhava. A sensação de euforia e prazer ativaram cada sentido, cada nervo, cada célula. Seu coração batia tão rápido que ela poderia ter uma arritmia, mas, sinceramente, não se importava. Tentou se concentrar somente no bem-estar.
Em não pensar. Não se lembrou do sonho daquela madrugada, ou de cada um dos dissabores que já experimentou ao longo de sua vida. Sem mais dor, sem mais pesar. Sem mais culpa, sem mais abandono. Sem mais mortes.
Ah, isso é bom.
A semiconsciência era muito bem-vinda naquele momento, e Hinata agradeceu o estranho traficante dos olhos injetados, por aquele pequeno momento de desassociação de si mesma. Sentia-se flutuar, para além daquela realidade, daquele mundo. Nada mais existia, que não fosse ela e sua pequena bolha de felicidade.
Então, algo aconteceu.
Um choro. Choro de bebê.
Hinata abriu os olhos tão rápido que a luz incomodou. Arregalou as pálpebras, sentando-se, ereta, na cama. Olhou para os lados, assustada. De onde vinha aquele choro. Havia um bebê chorando! Ela precisava encontrar o bebê!
O choro aumentou, como uma criança agonizando. Hinata, em sobressalto, sentia o coração batendo rápido, muito rápido. Olhava para os lados, e as paredes de seu quarto se fechavam ao seu redor, deixando-o menor. Ou ela estava crescendo, ou o cômodo diminuía.
O choro não cessava, e Hinata queria gritar. Queria achar o bebê, embalar ele, cuidar de sua dor. Mas não encontrava, não importava para onde olhasse.
Foi então que, olhando para as próprias mãos, viu manchas de sangue. Horrorizada, soltou um grito sufocado, tentando limpar as mãos nos lençóis. Não saiu. Uma enorme poça vermelho-vinho manchava suas pernas, e o choro infantil doía seus ouvidos.
Tentou se acalmar, respirar fundo e voltar para a realidade, mas, não importava o quanto piscasse, não saía daquela posição. Estou alucinando. Não é real. Nada disso é real.
Não é real.
Piscou.
De repente, alguém no canto do quarto. Uma figura pequena, tão indefesa. Menor que sua altura, de braços finos. A pele como porcelana, com alguns arranhões. Hinata, com os lábios instáveis, encarou a figura, ofegando quando identificou os olhos, gentis, zombeteiros, e, sobretudo, iguais aos seus.
— Hanabi...
Era Hanabi. Sua irmã, sua irmãzinha. Há tanto tempo que não a via, tanto tempo que não sonhava com ela. Com seu sorriso, suas caretas, suas provocações. Parecia toda uma vida; sequer se lembrava do som de sua risada. Hinata jamais se perdoou por não ser capaz de sonhar mais com Hanabi.
Quis se levantar. Fez menção de colocar as pernas para fora da cama, em direção da irmã, mas, em um instante, a imagem se transformou, e a garota, ainda no canto do quarto, teve suas roupas manchadas de um sangue putrefato, tomando seu rosto, seus ombros.
Hinata engasgou, reprimindo um grito angustiado. A verdade era devastadora. Hanabi estava morta. Morta. E era culpa sua.
Um bebê chorava, e também era culpa sua.
Hinata estava cheia de culpa, e aquilo a consumia. Não conseguia respirar. Sequer conseguia viver. Ela tentou, ela realmente tinha tentado. Mas não sabia como chegou a pensar que era uma pessoa que merecia ser feliz.
Hinata não merecia a felicidade. Nunca mereceu. Era uma pessoa ruim, uma pecadora, uma assassina. Por sua culpa, Hanabi tinha morrido. Por sua culpa, Naruto tinha ido embora. Por sua culpa, várias pessoas tinham sofrido. Por sua culpa, seu bebê se fora.
Era sua culpa. Era sua culpa.
O que fazer? Sequer conseguia respirar. Arfando, sem oxigênio, Hinata quis gritar, implorar por uma resposta. Como continuar vivendo? Qual era o propósito? Ela estava ali, sozinha, cheia de culpa, de cicatrizes, de um peso tão intenso, atado aos seus pés, que continuava puxando-a para baixo. Nunca houve esperança, e todos que tentavam salvá-la afundavam consigo.
Sim. Hinata não podia ser salva.
A imagem de Hanabi estremeceu, e Hinata quis alcançá-la. Em um lapso de lucidez, completa e pura, foi capaz de alcançar a cômoda. Sua mão não tremia. Os dedos estavam firmes quando ela abriu novamente o frasco, puxando a seringa e enchendo-a com todo seu conteúdo. O líquido brilhou, âmbar.
Antes que pudesse injetá-lo em seu braço, Hinata pensou em Naruto.
Sim, Naruto. Naruto, a quem ela gostaria de dizer tantas coisas. Principalmente, perdão. Ele sempre seria o amor de toda sua existência, mas, agora, era covarde demais. Em um único segundo, sentiu falta de todas as coisas que não poderiam viver juntos. Hinata era muito quebrada para isso. Naruto não merecia sua bagunça, sua podridão, suas cicatrizes. Ele tinha tentado, e, por isso, ela o amava.
Hinata pensou em Shion. Sua amiga, sua melhor amiga. Sua companheira. Unidas por uma vida injusta, a quem ela tentara afastar, mas a quem fora, inevitavelmente, atrelada. Hinata jamais gostaria de magoá-la. Gostaria de ter dito como Shion tinha salvo sua vida, e lamentou-se não poder ter salvo a dela.
Pensou até mesmo em seus pais. Seu coração se apertou, porque, há tantos anos, não abraçava sua mãe. Não cumprimentava seu pai. Não ouvia seus conselhos, não ria de suas piadas. Eles não mereciam a filha que tinham. Sua existência era uma ofensa para pais tão bons. Foi grata pela vida que lhe deram, e desejou poder se redimir por todo o mal que tinha causado a eles.
Finalmente, Hinata pensou em Hanabi. Agora poderia, finalmente, vê-la. Mesmo que por um instante – Hinata sabia que não iria para um lugar bom. Não merecia o Paraíso, mas estaria satisfeita se pudesse ver sua irmãzinha, apenas mais uma vez.
Quando a agulha perfurou um novo lugar de seu braço, Hinata sentiu-se tão calma quanto jamais poderia. Surpreendeu-se quando, depois que a seringa deslizou por seus dedos, já inertes, algumas lágrimas escorreram de seu rosto. Tinha estado muito triste para chorar, contudo, naquele momento, foi capaz de libertar, consigo, parte da dor que tinha dentro de si.
E bastou.
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