Heroína

31 Para toda a vida, prisioneiro das tragédias que não vejo


Notas iniciais
VOLTEEEIII olá como estão?? quimera acabou :( depois dela, essa é minha maior fic atualmente, e estamos na reta final dela também!! acalmem o coração, porque as coisas tendem a melhorar (um pouquinho......talvez) obrigada por TODO o apoio, nos comentários, no twitter, cada favorito e acompanhamento significa MUITO pra mim espero que gostem ♥

Estarei ao seu lado, você sabe que segurarei sua mão

Quando fizer frio e parecer ser o fim

E não tiver para onde ir, você sabe

Eu não desistirei

Keep Holding On, Avril Lavigne

Capítulo XXXI–

Para toda a vida, prisioneiro das tragédias que não vejo

Houve momentos, vários deles, em que Naruto não soube distinguir sonhos da realidade. Não exatamente sonhos – quando conseguia adormecer, não eram bons os pensamentos que tomavam conta de sua mente. No entanto, com o passar do tempo, ficava cada vez mais difícil identificar as peças pregadas; sobretudo sem conseguir descansar o suficiente. Os dias eram longos demais, mas as noites apenas não passavam. Quando se deitava, era inundado por uma série de lembranças que despertavam-no; embora seu corpo estivesse exausto, não dormia.

Seus amigos estavam tentando, e ele era grato por isso; eles viam seu reflexo debilitando-se, pouco a pouco, e nada comentavam. As olheiras, cada vez mais profundas. Os olhos injetados, inchados. As roupas folgadas, pelos dias sem comer. O cheiro pútrido de álcool, nas primeiras semanas. Fazia quase um mês, agora, e não conseguia ver como as coisas melhorariam.

Se fechasse seus olhos, Naruto seria capaz de rever, segundo a segundo, as horas angustiantes que passou no hospital. Cada diálogo, cada frase. Cada olhar melancólico, cada semblante pesaroso. Conseguia lembrar-se com perfeição de cada detalhe das paredes esverdeadas que o cercavam, dentro e fora de suas recordações – por muito tempo, considerou sua exímia capacidade de memória uma dádiva; no entanto, demorou para perceber que era uma maldição.

Hinata se fora. Simplesmente se fora; sequer teve chance de se despedir. Jamais seria capaz de esquecer quando a encontrou, acorrentada, sangrando. Destruída. Suas forças vieram da esperança de tê-la novamente, acariciar seu rosto, olhar em seus olhos e dizer que ela estava a salvo. Contudo, o mundo parecia desabar ao seu redor, uma coluna por vez.

As fraturas primeiro. O bebê. O trauma. A decisão de se internar. Sem visitas.

Quando amanheceu, Shion teve de levá-lo de volta para seu carro, e convencê-lo de que precisavam voltar para Konoha. Os bancos estavam manchados de sangue seco; não muito diferente de suas roupas, braços e pernas. Shion tinha carregado a amiga em seu colo, vendo-a agonizar, e tampouco teve a chance de se despedir, de ter notícias. A garota estava tão destruída quanto ele próprio, mas continuava de pé. Muito mais forte do que Naruto jamais seria.

O céu estava claro, sem nuvens. Naruto dirigiu até Konoha, e, depois de muito tempo, percebeu que não se lembrava como tinha feito isso. Seus movimentos, automáticos, o levaram de volta para casa, e ele sequer saberia descrever como. Não se lembrava de estacionar no subsolo, ou pegar o elevador para seu apartamento. Não se lembrava de destrancar a porta e deixar sua carteira sobre a bancada. Mas havia uma coisa da qual ele se lembrava – Shion ficara. Entrara com ele e o ajudou a se despir. Jogou suas roupas no cesto e ligou o chuveiro, na água quente.

Fosse o breve relacionamento que tiveram no passado, fosse os últimos meses de convivência que compartilharam, Naruto e Shion se conheciam muito mais do que poderiam dizer – sabiam que nenhum deles poderia ficar sozinho com seus pensamentos. Ela sabia, também, que o chuveiro disfarçaria as lágrimas de Naruto, porque ele teria vergonha de chorar novamente na frente dela. Ajudou com que ele se banhasse, deixando a água levar as manchas de sangue que dissolviam na espuma. Naruto se gabava quando tomava banho junto de garotas bonitas, mas guardaria aquele momento para sempre consigo, e apenas consigo.

Não dormiram aquele dia, e nos demais que se seguiram. O tempo passou de maneira curiosa para eles. A cada hora, afastavam-se mais do passado, e duvidavam mais do futuro. Naruto desistiu de ter notícias, e deixou de carregar o celular consigo como um bote salva-vidas, que o mantinha acima da superfície; e simplesmente deixou-se a deriva.

Eventualmente, voltou para a faculdade. Perdeu algumas aulas, e fez oficinas para repor os créditos. Quanto mais pintava, mais seu corpo desconectava-se de suas memórias. Não eram quadros felizes, mas, afinal, desde quando a arte era alegre?

Durante o dia, era capaz de fingir que estava bem. Que não havia um buraco em seu coração, devorando-o a cada passo que dava. No entanto, durante a noite, podia desabar; há dias que não conseguia pregar os olhos sozinho. Shion gritava com pesadelos, e dormiam juntos, tentando ajudar um ao outro a juntar, novamente, seus pedaços. Não havia uma intenção sequer na maneira como se abraçavam durante a madrugada – não era nada atraente como Naruto engasgava em seus soluços, e desenvolveram, acima de tudo, um amor fraternal, entre duas pessoas que sofriam pela mesma perda. Além disso, o coração de Naruto já tinha sido tomado.

Foi cerca de uma semana depois do ocorrido — não encontrava outras palavras para descrever aquele dia – que seus amigos procuraram por ele. Não exigiram nada, mas Naruto sabia que devia uma explicação.

Estava deitado no sofá, encarando o teto, quando a campainha tocou. Ponderou levantar-se para abrir, mas, enquanto pensava, a porta foi aberta. Surpreendeu-se um pouco, até ver o cabelo rosa ricochetear furiosamente quando Sakura passou; em vez de ficar bravo, Naruto quis rir um pouco.

— Desculpa, eu tentei impedir. – Sasuke se pronunciou, com o semblante culpado. Naruto sentou-se, dando de ombros.

— Claro que não! Nós tínhamos que vir, Naruto, nós-

O garoto imaginou o que ela estaria vendo – poucas coisas eram capazes de deixar Sakura sem palavras. Ela piscou, se aproximando. Provavelmente via o reflexo de um homem em agonia; Naruto não tomava banho há dois dias, agora, e não fazia a barba, que começava a se acumular em sua mandíbula. Mas imaginava que o pior de tudo eram seus olhos. Como estaria o azul sempre vivido? Exausto? Obscurecido? Contornado pelas olheiras profundas, cada vez mais permanentes, não deveria ser uma imagem muito agradável.

— Por Deus, Naruto, o que aconteceu com você? — guinchou, aproximando-se. A garota sentou-se ao seu lado, colocando a mão em seu ombro delicadamente, como se, a qualquer momento, um mero toque pudesse fazê-lo despedaçar.

— Nada bom, uh? – murmurou, tentando fazer piada. Não convenceu a nenhum deles.

— Quer dizer, vocês sumiram, não atendeu o telefone, a Hinata...

A simples menção do nome dela fez com que Naruto suspirasse, tomado por uma dor quase palpável, com a qual convivia silenciosamente, esperando que se fosse; mas nunca acontecia. Engoliu em seco, preparando-se para as perguntas. Devia isso a eles.

— Foi semana passada. – e pela próxima hora, narrou a sequência de fatos que tinha destruído quaisquer resquícios de esperança.

Não foi uma conversa agradável. Sakura expressava uma série de reações – devidamente adequadas, como ofegos de horror e exclamações incrédulas. Sasuke permaneceu em silêncio, escutando atentamente e respeitando o momento de Naruto. O garoto não sabia qual das duas respostas preferia enfrentar; provavelmente Sasuke. Sakura começou a chorar quando ele narrou a cena do galpão, e foi particularmente difícil prosseguir depois de suprimir as próprias lágrimas.

Quando terminou, o amigo segurou-no pelos ombros, oferecendo um suporte silencioso, porém igualmente emocionado. Sakura tinha os olhos inchados e a respiração entrecortada; ela também perdera uma amiga. Ninguém sabia da recente gravidez, e, lentamente, pareceria que nunca tinha, sequer, acontecido. O Uzumaki pranteava a perda daquele filho em segredo, em partes com medo do que poderiam dizer; em partes porque palavra nenhuma de consolo seria apropriada.

— Você já chegou a procurar o lugar para onde ela foi levada? – a Haruno fungou, energética.

Naruto não negaria que a possibilidade já tinha lhe ocorrido. Contudo, como a maioria das ideias que desenvolvera ao longo dos últimos sete dias, também foi ignorada.

— Vou respeitar o desejo dela. – murmurou, com a cabeça baixa. O que diria quando chegasse? Como encontraria o perdão de ter deixado-a sozinha, desamparada? De não ter chego a tempo? De não ter sido o suficiente?

— Ela precisa de nós! Precisa de você! Não pode simplesmente deixar que ela se isole desse jeito, depois de tudo que-

Sasuke a interrompeu com um acenar de mão. Naruto ergueu o rosto para ela, e a feição de incredulidade se transformou em compaixão e, em seguida, compreensão. Imaginou se ela via o ardor do arrependimento refletido em seus olhos. A verdade estampada em sua expressão mortificada, com exceção dos olhos, indubitavelmente úmidos; Naruto precisava de Hinata. Queria tê-la em seus braços, tão desesperadamente quanto precisava de oxigênio em seus pulmões. Mas se ele – ele — que queimava de agonia e saudade, escolhera permanecer no espaço que Hinata determinou entre eles, então Sakura sabia que tampouco ela deveria fazê-lo.

Seus motivos eram nobres, mas sua causa, perdida.

O garoto sabia que tinha bons amigos. Eles não saíram do seu lado durante todo o dia, e ao longo da madrugada; tampouco no restante da semana. Agora que sabiam da verdade, deixaram que cobrar que ele fosse às aulas, deixando que se sentisse confortável de voltar em seu próprio tempo. Também deixaram de reclamar do álcool em excesso.

Pouco a pouco, as esperanças que Naruto nutria foram se esvaindo. O telefone não tocava, nenhuma carta chegava. Não receberia notícias cedo, e aquilo o estava matando por dentro. Não importava o quão cansado estivesse, os pesadelos não cessavam. Lentamente, deixou que acreditar que voltaria a ver Hinata, e passou a rezar para que ela estivesse bem.

Voltou para a UK, e seus dias foram preenchidos com aulas que não prestava atenção, explicações que não ouvia e atividades que não conseguia cumprir. Pintar já não o agradava mais, e, quando o fazia, suas telas enchiam-se de desenhos sombrios. Nenhum dos professores reclamaram – a beleza da arte surgia dessa tristeza, e suas notas estavam melhores do que nunca.

Naruto mandou vários e-mails para seus pais; não conseguiria disfarçar o tom de voz se atendesse as ligações de Kushina. Soube que estavam indo bem na Europa, e ficou orgulhoso. Mas seus pensamentos sempre iam para longe. Não conseguia evitar de pensar nos planos para o futuro; agora, parecia tudo tão incerto.

E assim seguiu sua vida.

Konoha passou a estar sob uma constante nuvem cinzenta, embora não chovesse. Era quase primavera, e a mudança de estações deveria acontecer de maneira imperceptível. Naruto achava quase poética a coincidência; nunca mais viu o sol.

Estacionou na calçada oposta, atravessando a rua e abrindo a porta, destrancada – mesmo que tivesse uma chave, preso junto as cópias que tinha do seu apartamento. O interior estava iluminado pelo jardim dos fundos, com a janela aberta. Shion, por outro lado, não estava na cozinha, como costume; estava deitada no sofá, o antebraço sobre os olhos. O Uzumaki questionou se estaria cochilando, mas ela se mexeu minimamente ao reconhecê-lo entrando.

— Por que está dormindo a essa hora? – tinha acabado de sair da aula, e comprado qualquer coisa para almoçar. Shion resmungou.

— Estou cansada demais. – murmurou, virando-se para cobrir o rosto – Trabalhei direto essa semana. – Naruto não deixou de comprimir os lábios. O trabalho de Shion era algo que cansaram de discutir. Hinata conseguia colocar um pouco de juízo na cabeça da garota, contudo, Naruto não tinha a mesma habilidade. Shion não deixava que ele ajudasse financeira, mas hematomas constantementes apareciam em seu pescoço.

— Quer que eu prepare alguma coisa? – perguntou. Ela negou com a cabeça, mas o loiro foi para trás do balcão, mexendo nos armários.

Cozinhou em silêncio. Não era um chef, porém, sabia fazia alguns pratos bons. Gratinou algumas cebolas e finalizou o macarrão com queijo que tinha aprendido a fazer na América. Era um dos seus preferidos. É claro que teve de lutar contra as memórias de viagem – há quase 5 anos, agora.

Shion arrastou-se para o balcão, de cara feia, mas não recusou os talheres que Naruto estendeu para ela. Comeu sem dizer nada, a feição mudando a medida que mastigava. O loiro apoiou-se na pia, apenas olhando.

— Teve mais sorte do que eu essa semana? – perguntou, tentando parecer indiferente. Shion rolou os olhos, negando.

— Tanto quanto semana passada. – murmurou depois de engolir. Deu mais uma garfada – Queria ir até o hospital e roubar a ficha dela.

— Que diferença faria? – soltou uma risada seca – Ela não quer nos ver. Teria ligado se quisesse. – o rancor em sua voz ficou mais perceptível.

— Ela passou por muita coisa. – suspirou – Muita. Quer dizer, sequestrada, torturada, perder o bebê. É muito para processar. – defendeu. Naruto grunhiu.

Kiba Inuzuka tinha sido interceptado no porto e levado em custódio para a delegacia de Komu. As acusações não eram nada boas; um inquérito foi aberto, mas, mediante pagamento de fiança, ele saiu da prisão e desapareceu. Não ouviram mais falar dele em Konoha, e a casa de seus pais estavam fazia – a mesma casa de sua infância, vizinho dos Hyuuga. Foi um golpe duro para Naruto.

Ele não tinha informado Hiashi e Hiromi sobre o que acontecera, embora a culpa o remoesse, fazendo-o pensar que deveria. Apesar de tudo, nada disse. Continuava mantendo as esperanças de que a própria Hinata diria algo, se quisesse. Talvez um jeito de disfarçar a compunção.

Quanto a Kiba, seu alívio não era maior que seu ódio. Parte dele queria que o homem pagasse por todos seus crimes; no entanto, como sempre acontecia, pessoas ricas não ficavam na cadeia. Assim, satisfez-se com o sumiço; pelo menos os deixaria em paz. E, caso se atrevesse a voltar, a polícia seria notificada, e, Deus o perdoasse, dinheiro nenhum o impediria de cometer uma loucura.

— Como você está? – Shion o tirou de seus pensamentos. Já tinha acabado de comer, e o encarava com os olhos astutos. Costumava fazer muito aquela pergunta, e nem sempre Naruto era sincero em suas respostas.

— Bem. Sempre bem. – sorriu de maneira triste – Um pouco melhor todos os dias.

— Também não é muito saudável ficar remoendo coisas que estão fora do seu alcance. – opinou. Naruto não respondeu – Vocês se reencontraram, contra todas as possibilidades. Até mesmo contra o destino. – ela se levantou, chamando a atenção do Uzumaki – Não acha que, de alguma forma, ela vai voltar para você? Se for para acontecer? – ergueu uma sobrancelha, questionadora – Hinata já foi muitas coisas, mas não covarde. Pare de se preocupar desse jeito. Nem mesmo tragédias podem impedir que ela volte. Ela sempre volta. – Naruto ficou pensativo, pego de surpresa. Shion foi para a cama, no canto do único cômodo – Obrigada pelo macarrão. Tranque a porta quando sair.

E se deitou.

Naruto, atônito, concordou silenciosamente, dando a volta na cozinha e deixando que a garota dormisse um pouco. Suas palavras deixaram muito para que pensasse. Saiu, voltando para o carro e ligando, no modo automático. Não queria ir para casa, mas sua cabeça, cheia de incógnitas, começou a pesar.

Quando chegou, tomou uma ducha para cochilar. Eram três, talvez quatro da tarde. Deitou em sua cama, um pouco inquieto. Fechou os olhos, e a conversa com Shion voltou a rondar seus pensamentos.

Nem mesmo tragédias podem impedir que ela volte.

Seria verdade?

Hinata voltaria?

Ultimamente, era tudo em que pensava. Sem ela, Naruto apenas não via motivos para continuar. Qual o propósito de assistir as aulas, fazer atividades, receber um diploma? Sair com seus amigos, aproveitar as pequenas coisas? Sem ela, nada fazia sentido. Naruto não precisava dela, mas, por Deus, ele a queria ao seu lado. Sem Hinata, os dias perdiam a cor – era tudo sempre cinza.

Lentamente, deixou que o sono o invadisse, e o levasse, por, pelo menos, algumas horas. Sua cabeça estava pesada, cheia de pensamentos que transbordavam de seu peito, agoniado.

Acordou sobressaltado.

Em um ímpeto, sentou-se na cama, respirando de maneira ofegante. Seus dedos, com os nós brancos, apertavam os lençóis quase furiosamente. Não conseguia respirar, embora arfasse em busca de oxigênio. Seus olhos apertaram-se, e, por um instante, acreditou que estava tendo um ataque cardíaco. Procurou se acalmar, mas o aperto em seu tórax era tão lancinante que não conseguia concentrar-se em outra coisa.

O que era aquela dor? Por que seu coração batia descompassadamente? Não tinha tido um pesadelo; de fato, não lembrava com o que sonhava antes de acordar, urgente. Era como se algo estivesse acontecendo. Um instinto de fatalidade assolou cada célula de seu corpo, sufocando-o. Nunca tinha se sentido daquela forma, e não haviam sinais aparentes para fazê-lo. O apartamento estava trancado, e o alarme, ativo. Não estava em perigo – então por que sentia necessidade de proteção?

Soltou os dedos dos lençóis pouco a pouco. Estavam trêmulos. Levou a mão até o rosto, esfregando. Puxou o cabelo, controlando a respiração e os pensamentos nublados. Quase riu, de maneira cômica. Talvez estivesse, finalmente, enlouquecido.

Quando conseguiu controlar os impulsos do próprio corpo, estendeu-se até a cômoda para pegar o telefone. Seu intuito era mandar mensagem para Sasuke, ou Gaara, mas, antes que desbloqueasse, recebeu uma chamada; o número era desconhecido.

Com a testa franzida, atendeu.

Eu falo com o senhor Naruto Uzumaki? — a voz do outro lado era feminina. Não tinha ruídos, apenas algumas pessoas conversando baixo, ou há certa distância. Naruto fez uma careta confusa para o nada, enquanto sentia o senso de urgência retornar.

— É ele mesmo.

Senhor Uzumaki, eu falo do Centro de Emergência de Komu. — por pouco, o celular não escorregou por entre seus dedos – O senhor era o contato informado na ficha de Hinata Hyuuga. Teria possibilidade de vir até aqui?

O tempo parou; apenas um pouco.

Apenas o suficiente.

— Cla-claro. – gaguejou. De repente, agradeceu por seu cérebro não controlar seus movimentos. Seu corpo tinha vida própria, e, em questão de segundos, levantou-se e procurou pelas chaves do carro. Sua camiseta estava amassada. Ele não se importou. Andou em passos largos até a sala de estar, pegando a carteira e calçando os tênis – O que aconteceu? – aquela pergunta fazia sua garganta apertar.

A senhorita Hyuuga deu entrada na emergência, e precisamos avisar os contatos informados. Acredito que seja melhor dar os detalhes pessoalmente.

— Estou a caminho. – desligou, já fechando a porta e chamando o elevador.

Seu coração batia descompassadamente. A adrenalina que corria em suas veias era suficiente para que tivesse descido pelas escadas, mas obrigou-se a esperar o elevador, para avisar Shion; ela tinha o direito de saber, e Naruto não conseguiria ir sem ela. Ainda estava tremendo um pouco, e sua mente não tinha processado a quantidade de informações dos últimos trinta segundos.

Depois de semanas. Finalmente notícias; levada para a emergência. Tentou bloquear algumas das hipóteses catastróficas que invadiram seus pensamentos. Não tinha tempo para sofrer com antecipação. O que quer que tivesse acontecido, não importava. Hinata estava viva. Tentou se concentrar nisso para manter seu impulso – secretárias de centros de emergência não entravam em contato para falar sobre cadáveres.

Se dependesse da sua atenção, jamais teria chego no carro; seus pés se moviam sozinhos, enquanto seu cérebro associava cada vez mais possibilidades. A urgência de saber o que tinha acontecido; a felicidade, quase paralisante, de ter notícias; o medo do pior; a necessidade de vê-la.

Chegou na casa de Shion em poucos minutos; muito menos do que faria em um dia normal, dirigindo seguramente. Não tinha tempo para isso. A loira já esperava nas escadas, e, ao avistar o carro, atravessou a rua correndo, pulando no banco do passageiro.

— O que aconteceu? – sua voz era impaciente. Tinha vestido uma calça de pano e prendido o cabelo no alto. Naruto não estava tão melhor nesse quesito. Ambos tinham feições preocupadas, como verificou no retrovisor. Não tinha dito nada, apenas mandou uma mensagem rápida dizendo para ela ficar pronta. A menção ao nome de Hinata foi suficiente para convencê-la.

— Me ligaram do Centro de Emergência de Komu. – virou para a rodovia com os pneus cantando – Parece que a Hinata colocou meu número como contato. Falaram que ela deu entrada no hospital agora. – deu alguns minutos para a loira processar as informações que ele mesmo ainda remoía.

Nada disseram por um momento. Naruto já estava na rodovia, andando a uma velocidade que certamente infartaria sua pobre mãe; mas não importava. Tinha que chegar o mais rápido possível. Todo seu corpo estava tenso, e suas mãos apertavam o volante como se ele, de alguma maneira, pudesse mantê-lo são; depois de tantos dias a deriva, finalmente podia respirar.

— O que você acha que aconteceu? – Shion perguntou. Ela roía a unha do dedão, olhando para ele com o corpo virado.

— Não sei. – admitiu, sincero – Estou tentando não pensar no pior. Ela pode ter caído, se machucado. Alguma fratura que não se recuperou bem.

Enquanto falava, um incômodo martelava em sua mente. Lembrou-se da agonia que sentiu ao acordar de sobressalto. Seus membros paralisados, a pele arrepiada, o aperto no peito. Por algum motivo – não saberia dizer exatamente qual – sua mente não o deixava relaxar com aquelas hipóteses. Algo, algo, o dizia que devia se preocupar.

Tentou se convencer que eram seus sentimentos por Hinata; afinal, aquilo era amar. Sempre esperar pelo pior, pelo medo. Irracionalidade. Era por isso, e somente por isso, que não conseguia se convencer do melhor. Mas chegariam no hospital, e tudo daria certo. Tinha que dar. Precisava acreditar nisso, se queria continuar no controle de suas ações.

— Pode mandar uma mensagem para a Sakura nos encontrar no hospital, por favor? Eu disse que ia avisar se tivesse notícias.

— Claro. – Shion puxou o celular e procurou o número da garota, digitando furiosamente. Quando terminou, baixou o aparelho, recostando no banco com os olhos apertados. Naruto imaginou como ela estaria se sentindo também.

O restante do trajeto foi silencioso; e relativamente curto. Não demorou mais que dez minutos para avistar a entrada da cidade. Suas memórias o levaram para algumas semanas antes, quando fizera aquele mesmo trajeto. Curiosamente, era pelo mesmo motivo – as circunstâncias, a necessidade.

Por sorte, o centro de emergência ficava nos primeiros quarteirões depois da rodovia. Virou para o estacionamento. A tarde já findava. Mal desligou o motor e pulou do carro, com Shion o seguindo. Correram pelas portas automáticas. O saguão estava mais movimentado do que da última vez, já noite.

Naruto apressou-se para o balcão. Seu olhar apreensivo deve ter convencido a secretária, que apontou para uma enfermeira com pranchetas. Ela o encontrou quando estava se virando para chamá-la.

— Naruto Uzumaki? – ele assentiu – A senhorita Hyuuga entrou para a cirurgia, e estamos aguardando novas informações dos médicos. O senhor era o único contato na ficha de internação dela no Instituto Médico de Recuperação. – seu estômago retorceu. Sentiu que a enfermeira procurava as melhores palavras, postergando o motivo que o levou até ali – A senhorita Hyuuga teve uma parada cardíaca, recorrente de uma overdose.

Cedeu. Ligeiramente. O suficiente para Shion agarrá-lo pelo abdômen, com os dedos vacilantes, apertando o tecido de sua camiseta. Segurou-se nela como uma bengala, desesperadamente, na esperança de que ela não o deixasse cair.

Não imaginou que uma pessoa normal conseguiria processar uma quantidade tão grande de informações, como ele tentava fazer naquele momento. Milhões de perguntas cruzaram sua mente, nenhum chegando até suas cordas vocais. Abriu a boca, e um mínimo som saiu por ela.

Há poucos dias – não o suficiente, para ele – recebeu a notícia de que perdeu seu filho, naquele mesmo lugar. No mesmo saguão, com as mesmas paredes verde-águas. Sua linha de visão incluía as mesmas portas por onde aguardou o médico, a noite toda. Foi onde despediu-se de Hinata pela última vez, onde teve de abandonar seu coração para trás. E, agora, naquele mesmo lugar, ali estava. Quanto uma pessoa poderia sofrer?

Bem lhe diziam que hospitais não entregam boas notícias.

Todos os sentimentos que cruzaram seu corpo inerte demoraram apenas uma fração de minuto. A enfermeira, olhando-os com compaixão, esperou um pouco antes de continuar.

— Ela foi encontrada em seu quarto, e realizaram RCP a caminho da emergência. – ela tinha morrido. Por um instante — Foi encaminhada direto para a cirurgia, e aguardamos mais informações. Acreditamos que ela vai ficar bem.

— Sabe dizer o que houve? – Shion fez a pergunta que incomodava Naruto. Ambos sabiam que ela não se referia ao incidente. A enfermeira assentiu, compreendendo.

— As autoridades identificaram um fornecedor de substâncias ilícitas dentro do Instituto de Recuperação. Ele já foi detido. Encontraram um frasco e seringa no quarto da senhorita Hyuuga, e uma quantidade acima do normal de morfina em seu organismo. Acreditam que era heroína, já diluída.

Alguém emitiu um som horrificado; talvez tenha sido o próprio Naruto. A mulher os deixou sozinhos, entendendo que precisavam de um tempo. Shion se esforçava para segurar o choro, rangendo os dentes enquanto escondia o rosto no peitoral do Uzumaki. Ele a abraçou pelos ombros, apertando-o com mais força do que faria. Era como se precisasse daquela pressão para continuar de pé; não duvidava que a garota também.

Ah, Hinata.

Naruto e Shion conheciam duas Hinatas diferentes – momentos diferentes, personalidades diferentes. Embora tivessem convivido juntos nos últimos meses, e, de fato, uma fusão das duas garotas tivesse revelado um frágil equilíbrio entre a pessoa que ela desejava ser, eram duas identidades singulares. No entanto, ambos tinham uma certeza – Hinata não faria aquilo.

Não era ela. Quanta dor ela deveria estar sentindo? Quanta agonia, quanta desesperança, até que decidisse acabar com tudo?

Tudo que Naruto queria era confortá-la. Seu coração sangrava a cada momento em que percebia o quão quebrada Hinata estava. Naquele instante, percebeu que não poderia deixá-la. Não importava o quanto chorasse, o quanto se machucasse. Hinata não poderia ficar sozinha. Ela tinha que ver que não estava lutando só. Era difícil se curar sem apoio – e tinham percebido isso. Tentou se isolar, para poupar outros, e, agora, quase tinha morrido.

Naruto não precisava que ela pedisse para que ficasse; ele ficaria por livre e espontânea vontade. Era prisioneiro de Hinata, porque seu coração estava atado. E assim estaria até quando deixasse de bater.

E, por esse motivo, conseguiu acalmar-se. Por se dar conta de que o coração de Hinata também batia. Ela pode querer acabar com tudo, mas estava lutando, inconscientemente. Não tinha desistido ainda. Hinata queria viver; embora não entendesse como, ou porquê. Mas Naruto sabia, e Naruto ficaria.

Puxou Shion para que sentasse com ele. A garota parecia abalada, respirando com dificuldade. Continuou confortando-a, de olhos fechados. Era mais fácil pensar com claridade, depois que o choque tinha passado. Mas não confiava nas próprias habilidades; a qualquer momento, cairia no choro.

Não soube dizer quanto tempo se passou até que Sakura rompesse pela porta do hospital. Ela veio em um furacão, tampouco vestindo suas melhores roupas. Sasuke a seguia, com as chaves. Naruto fraquejou de gratidão, e acenou para que viessem a seu encontro.

— Naruto! O que aconteceu? Onde está Hinata? – perguntou apreensivamente, sentando-se com ele.

O garoto explicou, a voz quebradiça. Sakura arquejou, como ele esperava. Sasuke apertou seu ombro, e Naruto agradeceu silenciosamente. Não sentia-se tão instável cercado de seus amigos, e sabia que Hinata ficaria feliz quando acordasse. Porque ela iria acordar.

O quarteto ficou na sala de espera. A tensão era quase palpável, mas Naruto evitava pensamentos negativos. Concentrou-se nas palavras que diria quando a visse novamente. Segurar sua mão, seu rosto. Deus, ele a amava tanto.

Aconteceu muito rápido. O saguão, interceptado por duas portas, em lados opostos, estava tranquilo. De frente para os bancos da recepção, era possível ver, com clareza, a porta que levava ao centro cirúrgico, do qual o médico de Hinata saiu da última vez. Do lado oposto, a direita, a outra porta era uma interrogativa que nunca tinha perturbado Naruto. Contudo, foi de lá que surgiram as vozes apressadas.

Viraram a cabeça, curiosos. Distraído, o garoto tentou descobrir o que estava acontecendo. De repente, uma maca, com três médicos, surgiu do corredor. Estavam gritando ordens incompreensíveis, e duas enfermeiras tomaram a frente, correndo para os fundos e digitando furiosamente. Algo com a sala de cirurgia. Outras duas pessoas no saguão de espera também assistiam a cena. Não era todo dia que algo assim acontecia.

No entanto, algo chamou a atenção de Naruto. Quando a maca passou, cheia de fios, máquinas e médicos gritando, algo no porte da pessoa deitada sobre ela era familiar. O oxigênio cobria todo seu rosto, com as maçãs proeminentes, bem magro. Mas o cabelo que escapava da touca cirúrgica era preto – mais que preto, quase azulado.

Naruto levantou-se, com os olhos arregalados. Suas mãos começaram a tremer, e o grito angustiado que surgiu de sua garganta soou dolorido em seus próprios ouvidos.

— HINATA!

Tentou correr até ela, tropeçando na confusão de pés que impediam seu caminho. Sua visão ficou nublada, enxergando somente a garota. Não conseguiu avançar – um par de braços o segurou, enquanto Sakura prostrou-se a sua frente, o rosto assustado. Segurava-o no lugar, enquanto ele lutava para se desvencilhar de Sasuke. Precisava chegar até ela.

Algumas pessoas viraram-se para fitá-lo, surpresas e curiosas. A maca passou, os médicos movendo-a agilmente de volta para o corredor da esquerda. O corredor da morte – por onde Naruto via chegar as más notícias.

Gritou o nome dela mais algumas vezes, até que os fios, e as máquinas, e o barulho tivesse desaparecido por trás da porta. O choro reprimido surgiu em seus olhos, e ele só percebeu que suas pernas cederam quando o colocaram de volta nas cadeiras. Apoiou a cabeça contra as mãos, respirando com dificuldade.

Era diferente. Diferente vê-la na maca, coberta de fios. Diferente ver como seu rosto estava pálido, e, sobretudo, sem vida. Pego de surpresa, Naruto deixou que todos seus maiores temores surgissem. As próximas horas seriam cruciais, e as piores de sua vida.

Já tinha perdido muito. Não podia perder Hinata. Não de novo.

Notas finais
pra conversar no twitter: @hi_erohime pra me ameaçar: fugi do país