Heroína
15 Cuidado, Alice, suas lágrimas vão inundar o país das maravilhas
Notas iniciais
Se um dia eu pudesse ver
Meu passado inteiro
E fizesse parar de chover
Nos primeiros erros
Meu corpo viraria sol
Minha mente viraria ar
Mas só chove
— Primeiros Erros, Capital Inicial
—Capítulo XV–
Cuidado, Alice, suas lágrimas vão inundar o país das maravilhas
Hinata conseguiu ver dois filmes no canal pago antes de procurar desesperadamente por um cigarro. Era uma maratona especial água com açúcar, e ela, secretamente, adorava-as. Passava madrugadas inteiras devorando os roteiros previsíveis demais, torcendo para que a garota escolhesse o cara certo no final – e ela sempre escolhia –. Talvez fosse um paradoxo interessante de sua própria vida, mas quem era ela para reclamar. No entanto, naquela tarde específica, não estava com cabeça para ver a receita batida de Hollywood com uma atriz ordinária, então se levantou e foi procurar um cigarro qualquer abandonado em um canto qualquer daquela casa.
Com verdadeira sorte, encontrou um na gaveta da cômoda, de um maço provavelmente vencido e úmido. Não importava. Voltou para a sala, o cômodo mais iluminado, e bateu o filtro contra a mão antes de levá-lo aos lábios, acendendo com o isqueiro que ficava sempre sobre a mesa. Tragou profundamente, e a nicotina, nem de longe, era das melhores, mas serviu para alimentar seus pulmões doentes. Inalou devagar, expirando uma nuvem de fumaça acinzentada que subiu em espiral acima de sua cabeça, dispersando pelas rachaduras. Na televisão, mudou para um canal local de entretenimento, mas não passava nada de interessante. O som preenchia o silêncio de maneira agradável, e Hinata ficava com seus pensamentos.
Queria que sua vida fosse um filme. Não um filme de drama, mas um daqueles que ela gostava – onde a mocinha precisa decidir entre dois caras, e tudo gira em torno dela. Queria que seus problemas se resumissem naqueles malditos olhos topázio que insistiam em fitá-la diretamente, como se não tivesse nada a esconder.
Mais uma lufada, e o filtro diminuiu consideravelmente entre seus dedos. Bateu as cinzas, vendo-as despencar em câmera lenta. Tudo estava em câmera lenta. Hinata quis algo para se ocupar, e não permitir que sua mente a traísse com aqueles raciocínios – contudo, era inevitável. Sempre voltava para ele.
Quando estava perto, e o calor da sua pele emanava tão forte quanto o sol, ela conseguia ter lapsos de uma garota que conheceu um dia, há muito tempo. Uma garota que sabia o que queria, sobretudo, e não aceitava menos do que merecia. Uma garota que saberia exatamente o que dizer, como agir. Que não tinha medo. Que vivia apaixonadamente. Hinata estava cansada daquela água morna – ela queria se queimar, ou, se nada desse certo, queria morrer congelada –. Naruto era um gatilho perigoso, porque a fazia querer viver. Porém, ao mesmo tempo, despertava nela toda a fúria reprimida, uma fúria indômita, que dominava suas células, e ela não sabia o porquê.
Bom, ela sabia, em partes.
Naruto era seu cara legal. Bom, honesto. Cavalheiro, justo. Alto, bonito e musculoso. O cabelo loiro que descia pela nuca, os ombros largos que saltavam, o rosto simétrico que sempre usava uma máscara de admiração quase religiosa quando voltado para ela. E, assim como todo homem perfeito, ele era perfeitamente irritante. Hinata não conseguia suportar toda aquela aura que ele a emergia, onde todos seus problemas dependiam única e exclusivamente das suas decisões, e tudo era fácil demais. Preto no branco demais. Seu senso prático chegava a ser ridículo, e ela se sentia verdadeiramente mal por ficar irritada com ele. Naruto queria ser a droga de um super-herói – mas aquele era o mundo real, e no seu mundo real, Hinata não precisava ser salva da malevolência. Ela precisava sobreviver.
Ainda assim, era doloroso não poder interpretar o papel da garota perdidamente apaixonada – aquela também era sua realidade estúpida.
O cigarro acabou, e não chegou nem perto de acalmar seus nervos. Desdobrou as pernas e apagou a bituca no cinzeiro cheio demais para sua saúde – quem se importava? –. Com um suspiro, deitou contra o sofá, admitindo que era preferível se ocupar pensando em Naruto que em outras coisas; mais angustiantes, mais intangíveis. Com franqueza, Hinata queria dormir. Deixar-se levar em um sono profundo, mergulhar em um mundo de cores e escapar daquela palheta pastel de tons caligens.
Perdida em devaneios, apenas notou que escureceu quando seu estômago emitiu queimações dolorosas. Reflexo da fome ou de corrosões gástricas, ela não sabia; voltou para a prática, despedindo-se do por-do-sol e acendendo a lâmpada de luz fraca. Alongou os músculos, percebendo que fedia das roupas do dia anterior. Com preguiça, arrastou-se para o banheiro do quarto, despindo-se no caminho. De lingerie, analisou seu reflexo na bancada, feliz por a pele alva estar quase totalmente recuperada dos últimos hematomas – embora as linhas de gordura sobressalentes definitivamente a incomodassem. Mergulhou no chuveiro gelado, que nada serviu para despertá-la das aspirinas; apenas lhe daria uma gripe. Ensaboou-se distraída, cantarolando alguma coisa que não conhecia. Eram raros os momentos em que sua cabeça decidia lhe dar uma trégua, e ela podia aprazer-se com coisas como as bolhas de sabão.
O tempo estava fresco para março, e ela vestiu uma camiseta de alças finas e calcinha. Penteou o cabelo molhado, arrumando a franja para longe dos olhos, e voltou para a cozinha. Na geladeira, alcançou alguns ingredientes úteis para um refogado. Cortou, cozinhou e preparou; tudo sem pressa. Durante seus rituais noturnos, não pensou em garotos complicados e certinhos, ou na faculdade, ou nas pessoas. Não pensou em nada – e aquilo era uma dádiva.
Todavia, sua tranquilidade acabou quando o refogado já cheirava bem, e a porta foi aberta. Manteve a cabeça baixa enquanto ouvia Kiba entrar, pendurar o casaco de couro, tirar os tênis e colocar a bolsa sobre a bancada. Não o cumprimentou no primeiro momento. Desligou o fogo e arrumou a comida em uma travessa bonita que ganhara no bingo das secretárias – ela se orgulhava daquilo –. Deixou na pia. Não ouviu nada, então, se virou.
Kiba a observava atentamente, apoiando nos cotovelos. Arregaçara as mangas da camiseta até o antebraço, e prendera o cabelo para trás. Estava um pouco suado, mas provavelmente sua aula acabara mais cedo – o céu não estava tão azulado quanto estaria às nove da noite –. Hinata quis correr; foi um instinto maior, que surgiu sem sua permissão. Então, quis desviar o olhar, como se estivesse sendo julgada por um crime terrível. Manteve-se firme – ora, ela não fizera nada de errado. Kiba sabia, sempre soube, que Shion era sua prioridade acima de tudo e qualquer coisa. Ela sempre socorreria sua amiga, e, se ele quisesse brigar por aquilo, então que fosse.
— Oi. – sua voz estava neutra, mas não era exatamente um bom sinal.
— Oi. – Hinata respondeu, torcendo o guardanapo em suas mãos. Ficaram em silêncio. Ela nada disse, torcendo para que Kiba não ouvisse as batidas de colibri de seu coração traidor.
— Que bom que voltou para casa. – muitas coisas naquela frase desarmaram-na. A aparentemente genuína preocupação de Kiba; sua colocação de casa. Embora com as sobrancelhas franzidas, seu rosto não estava descontrolado. Ela não soube o que dizer de imediato.
— Claro que voltei. – lutou para não engasgar. Aproximou-se alguns passos, ficando do lado oposto do balcão. Ela não entendeu porque seus olhos estavam tão pesarosos.
— Achei que não voltaria. – sua voz se tornou baixa, surpreendendo-a – Que me abandonaria. – falhou no final, e Hinata deixou-se entreabrir a boca – Sei que sou uma pessoa difícil, e sinto muito ciúmes. Mas é por medo de te perder, Hina. – ela não estava conseguindo entender porque seu peito estava se apertando. Aquele era mesmo seu namorado? Os ombros caídos estavam derrotados, e ele falava com uma angústia que já ouvira antes, sob outros circunstâncias – E mesmo depois de tudo, depois de todas as coisas que superamos, quando eu te perdoei pelas coisas que você fez, pensar em perder você... eu não aguentei. Tive que vir para casa antes.
Foi como fogo lento, que consumia. Veio de baixo, subindo por sua coluna, tomando conta primeiro de seu estômago; depois, vieram os pulmões, e se tornou difícil respirar. Hinata ficou ansiosa, e se curvou sobre o granito, buscando cegamente pelas mãos de Kiba. Precisava segurá-las. Precisava mostrar para ele que estava ali. Onde estava com a cabeça, pensar que ele queria brigar, quando, na verdade, estava com medo. Abrindo seu coração, seus medos, e ela agindo de maneira tão egoísta.
— Não, amor, claro que não. – apertou seus dedos, e o Inuzuka retribuiu, ainda sustentando o olhar apático e profundo – Me desculpe, tudo bem? Me desculpe, eu fui precipitada, Shion estava com problemas, e você sabe que eu precisava ajudá-la, mas foi isso, eu juro! Eu fui para a casa dela, cuidei dele e voltei assim que pude. – de repente, sentiu que precisava se explicar, pedir desculpas por tê-lo feito pensar que o abandonaria. A culpa começou a queimar, então, em seu peito. Kiba assentiu, agora com o semblante aliviado, e deu a volta no balcão, parando a sua frente. Mesmo alguns centímetros mais alto, conseguia manter-se na altura de seu olhar, ainda segurando sua mão contra o peito, contra ela.
— Eu não aguentaria te perder, Hina. – parecia desesperado – Eu não sei, eu não aguentaria, não posso te perder. – Hinata puxou o rosto contra seu ombro, consolando-o de um soluço, e ele abraçou sua cintura com força. A garota engoliu em seco, tremendo um pouco.
— Isso não vai acontecer. – murmurou, menos convicta que antes.
— Você sabe, não sabe, amor? Sabe que eu te amo? – ela assentiu silenciosamente, agarrando-se em seu pescoço, enquanto ele afundava em sua curvatura. Quando falou de novo, sua voz estava na base de seu ouvido, sussurrada: – Sabe que precisamos ficar juntos. Eu sou a única pessoa que você tem.
Hinata não conseguiu responder.
Mordendo o lábio, fechou os olhos com força, lembrando-se de quem era, e o que a fizera ser daquela maneira. Kiba se afastou o suficiente para traçar uma vereda de beijos molhados da base de seu pescoço até sua boca. A atingiu com deveras brutalidade, mas Hinata só enxergou desespero e urgência. Retribuiu o beijo, sem se importar que seus dentes tivessem machucado ligeiramente seu lábio inferior. Tinha gosto de fel – era como Hinata sentia-se por inteira.
Se afastaram, e ela abriu os olhos, com os cílios úmidos. Kiba a olhava intensamente, com um sorriso torto e ar vitorioso – ela não percebeu isso –. Sorriu, envergonhada.
— Bem, eu fiz um refogado, está quentinho. – apontou para a travessa esquecida.
— O cheiro está ótimo, amor. – o Inuzuka retrucou, desvencilhando-se do abraço e indo para a mesa – Estou morto de fome. – sentou-se.
Hinata correu para buscar seu prato, servindo-o. Pegou uma cerveja gelada na geladeira, retirando a tampinha e colocando a sua frente. Só relaxou quando ele deu a primeira garfada, fechando os olhos e deleitando-se. Suspirou aliviada, com parte do remorso apaziguado. Pegou um pouco da comida para si mesma, mas, a essa altura, já tinha perdido o apetite. Comeu o suficiente, e, satisfeita, se apressou para limpar a louça, enquanto Kiba se espreguiçava, terminando sua cerveja. Trocaram poucas palavras, falaram sobre seu dia, e, ao findar o jantar, foram juntos para o quarto, apagando as luzes ao passar.
A Hyuuga arrumou a cama, enquanto Kiba tomava uma ducha antes de deitar. Ela o esperou, sentindo formigamentos, e ele saiu poucos minutos depois, com gotas escorrendo pelo peitoral e a toalha cobrindo sua cintura. Vinha com um sorriso transformado, que Hinata entendeu depois de sua investida surpresa sobre ela. Deitou-se sobre ela, encaixando seus quadris e beijando seu pescoço voluptuosamente.
— Kiba, eu... – ofegou, com as mãos empurrando seu ombro e contorcendo. Onde ele tocava, o asco se instaurava, contra sua vontade.
— Ora, amor, vamos lá. – mordiscou a ponta de sua orelha, a voz persuasiva e grave martelando contra sua cabeça – Você está me devendo essa, por tudo que fez, e eu te perdoei. Acho que mereço. – lambeu o contorno de seu ouvido, enquanto uma das mãos descia até o interior de sua coxa, brincando com o elástico da peça.
Hinata sentiu um bolo na garganta. Kiba tinha razão – devia aquilo a ele. Por isso, quando sentiu dois dedos penetrarem-na, dolorosamente e a seco, ela não impediu. Virou o rosto, fechando os olhos com força, tentando reprimir a repugnância. Kiba puxou a toalha para o chão, apalpando-a lascivamente. Seus seios doeram quando ele os apertou com força, e não havia amor na maneira que ele a segurava. Ele a penetrou, e ela mordeu os lábios – tão forte que poderia ter sangrado. A cama acompanhou suas investidas, e Kiba gemia ruidosamente. A cada estocada, Hinata sentia mais e mais vontade de chorar. Só queria que acabasse. Era incômodo, e doía.
Finalmente, ele gozou. O líquido quente escorreu de dentro dela por suas coxas, e Kiba saiu, sorrindo preguiçosamente. Não se levantou. Ainda nu, acomodou-se contra as cobertas e dormiu, satisfeito. Hinata, por outro lado, ainda estava na transversal, com parte das pernas para fora, Não conseguia se mexer. Parte com repúdio, parte em conflito, permaneceu deitada, fitando o teto escuro. A luz do banheiro vinha pela fresta da porta, mas não era suficiente. Por fim, ela conseguiu sentar. Baixou a camiseta, erguida até seus ombros, e buscou a calcinha no chão. Caminhou até o banheiro, mecanicamente. Sentia um desconforto no colo e na vagina. Limpou-se do fluído branco, e lavou o rosto. Não chorou – não sentiu nada. Apenas o vazio.
Voltou para a cama. Deveria ser dez ou onze horas. Queria um cigarro – ela não costumava fumar depois do sexo, mas queria um cigarro. Não fecharia os olhos naquele momento, não conseguiria dormir. Virou de um lado para outro, entre suspiros e resmungos desconexos. Foi assim até finalmente se cansar e ir até o banheiro do corredor em busca de dois comprimidos para dor de cabeça. De volta à velha rotina.
Tentou se convencer de aquilo era o certo a se fazer. Kiba sempre conseguia lhe lembrar de suas dívidas, e de que, no final, não podia simplesmente dizer foda-se para o mundo, porque não era como funcionavam as coisas. No que ela estava pensando, afinal? Estava ficando louca? Bastaram dois minutos com ele, e, de repente, sua cabeça se enchia de ideias impossíveis. Estava na cara que não era nada daquilo. Nada. As coisas eram o que eram.
Supôs, em um fio de pensamento solto, que era a época do ano. Quando se sentia mais sentimental, mais imponente, e quando deseja mais ardentemente que pudesse voltar no tempo. Consertar os erros que tinha cometido – todos eles. Sim, era isto. A época do ano. Dia primeiro estava se aproximando, como uma sombra que se arrasta, à espreita, sempre aguardando, e Hinata, como o anoitecer, deixava-se ser menos iluminada. Nunca daria certo – não com ela, não com Naruto.
O cansaço chegou, e ela não soube qual o motivo da lágrima solitária que escorreu para o travesseiro.
O findar da semana decorrente daquela fatídica noite pareceu, para Hinata, como uma contagem regressiva. Os dias eram longos demais, as noites simplesmente não passavam. Sua rotina voltara, aos poucos, nos eixos. A festa na quarta, a ressaca na quinta, a madrugada cuidando de Shion e a sexta, com Kiba, faziam parte de um livro de lembranças recentes que ela deixava guardado no fundo de suas memórias. Agradeceu, quase religiosamente, a chegada do fim de semana. Não queria passar o dia todo com o namorado, mas, como esperado, Kiba ficou fora a maior parte do tempo, cuidando de seus assuntos — ele não dizia, e Hinata não queria saber –. Sozinha, era árduo lidar com as constantes flagelações mentais de como ela era uma vagabunda egoísta.
O fato era que aquele apartamento minúsculo a fazia se sentir insuficiente. Encarcerada, amarrada, aprisionada, algemada – livre, e presa. Tudo, absolutamente tudo ali, era um lembrete constante da pessoa ruim que ela era. As decorações que ela não escolheu, os móveis velhos e as memórias que eles traziam, a luz que era fraca, as rachaduras que se estendiam, a janela que não abria, o maldito espelho de molduras douradas. Esmurravam em sua cara não quem era não era, mas quem ela havia se tornado. A fraude submissa, uma viciada de merda, perdida. Tudo que ela devia, todos seus pecados, estavam ali, naquele lugar.
Então, quando ela encontrou Naruto uma nova vez – foi como parte dos seus desejos mais íntimos se tornassem realidade. Uma volta no passado, uma recordação de quem ela já fora, um dia. Naruto não era um lugar, mas, de certa forma, ele era sua casa. Por isso, ao seu lado, sentia-se nervosa, irritada, mas desimpedida. Não tinha culpa ou arrependimentos. Quando ele a beijava, seus lábios adormeciam, o gosto doce penetrava em sua língua como a mais mélica das drogas. Ela acreditava, realmente acreditava, que poderia se expurgar. Que ele seria sua libertação.
Mas ela sempre precisava acordar, e sempre precisava se lembrar.
No apartamento de Naruto, onde suas melhores e piores experiências aconteceram, ela lhe deu uma carta branca. Assinou o tratado de paz, deixou que ele penetrasse em suas barreiras. Contudo, sabia que ele não estava pronto para enfrentar seus segredos, abrir seu armário de esqueletos. E Hinata se culpava também por ser tola — agir como uma idiota apaixonada que não media consequências. Cicatrizes não se curam com beijos. Cicatrizes não se curam. Erros não podem ser consertados.
O tempo não volta.
O miserável domingo amanheceu chuvoso – que deliciosa ironia. O tempo se fechou com nuvens pesadas e cinzas, pairando sobre o humor dos moradores da pacata vila de Konoha. Hinata acordou mais cedo que o habitual. De fato, o correto seria afirmar que ela mal dormira. Viu quando Kiba chegou de madrugada, e saberia que ele acordaria depois do meio dia. A essa hora ela já estaria longe.
Naquela manhã, Hinata acordou pesarosa. Buscou em seu guarda-roupa uma peça de roupa preta. Não preta como todas suas outras peças de roupa, mas uma caixa perfeitamente embalada e escondida no fundo, onde um vestido preto jazia, dobrado elegantemente em três partes. Ela o vestiu. Era o único dia em que usava um vestido. O tecido macio em negrume só contrastava com mangas de renda, desenhadas por todo seu braço. Descia para suas coxas, cobrindo-as, e ela usava tênis surrado. Sem salto, ou spikes, apenas um bom e velho tênis. Com o cabelo para trás, não colocou maquiagem. Pegou uma jaqueta, o passe do ônibus e dinheiro. Saiu em silêncio, quando ainda não tinha amanhecido – ou já tinha amanhecido há horas, ela não sabia. O céu estava triste. Assim como ela. Todos os dias.
Não era uma viagem tão longa quanto ir para a universidade. Cruzou o lado norte, viu os prédios levantarem e caírem, viu as casas tradicionais e a planície. Desceu no ponto da quadra de trás, abriu sua sombrinha transparente – era uma sombrinha curiosa –, caminhando em passos normais. Nem lentos, nem rápidos. Nem pesados, nem leves. Normais. Chegou no portão de ferro que servia para manter as pessoas do lado de fora, e não proteger o lado de dentro; não faria sentido.
Hinata entrou, caminhando pelo silêncio. Em um bom dia, era bonito como o mármore brilhava contra o sol. Mas chovia. Sempre chovia.
Como naquela noite.
Andou pela grama úmida, enterrando os pés nos buracos lamacentos, os olhos passeando pelas fileiras intermináveis. Aquele passeio a deixava taciturna.
O cemitério de Konoha tinha flores bem vivas para um lugar cheio de gente morta. Coroas coloridas formando desenhos, buquês convencionais e raros também. Hinata nunca tinha imaginado o quão grande aquele campo era, mas o vilarejo era de uma região tradicional, e gerações inteiras estavam enterradas ali – e assim continuariam, por toda sua sucessão. Ela era muito nova para conhecer o mausoléu dos Hyuuga antes, e agora – bem, agora também não o conhecia. Tinha pedido por uma lápide a céu aberto, porque as lápides brancas ficavam realmente bonitas no sol.
Chegou quase no final do campo, cruzando todas as tumbas e as normais, atravessando flores murchas e grama molhada. A garoa deu uma trégua, deixando gotas frescas de orvalho em cada folha. Parou sobre uma pedra com duas estátuas do lado. Não eram, nem de longe, tão chamativas quanto as outras, mas tinham detalhes formidáveis, como os olhos esculpidos para baixo, velando, e as asas pontudas que faziam a diferença. Hinata parou, abaixando até na altura do epitáfio. Não importava o quão bonitas eram as flores, ou o mármore branco, ou as estátuas de anjos. Ela não gostava daquele epitáfio – existia uma linha, com oito números. Era a linha mais feia de todas.
2000 – 2016.
Hinata sempre tinha lágrimas para chorar. Era um choro diferente de dois anos atrás, mas as mesmas lágrimas. Antes, ela chorava um choro alto, agudo e desesperado. Um choro que desejava chegar nos céus, que inchava seus olhos e tirava seu fôlego. Agora, tudo mudou, e ela chorava um choro silencioso, para dentro. Internalizava toda a dor, guardando em seus ossos, em seu sangue. Escorria por suas bochechas e pingava. Como gotas de chuvas, e a chuva estava em todo lugar.
Engoliu um soluço, levando o dedo até a inscrição. Ela sempre visitava a lápide quando se sentia angustiada, ou quando algo muito bom acontecia – o que era mais raro. E nos aniversários. Hinata a visitou dia 7 de março, em seu aniversário de nascimento, e naquela manhã, em primeiro de abril. O aniversário do acidente.
Não houve um só momento em que Hinata não desejou estar no lugar da irmã.
Hanabi era sua parte favorita do dia. Quando ela a acordava, pulando em sua cama; quando roubava sua comida, apenas para irritar; quando pedia ajuda nas lições; quando Hinata passou a buscá-la na escola, e ela contava minuciosamente sobre suas aulas. Hanabi era sua irmã, sua irmãzinha. E ela jamais se perdoaria por tê-la feito partir. Tão cedo.
Suas canelas ardiam com a posição, mas ela não queria ficar mais alta. Preferia daquela maneira. O vestido se ajustava nas curvas das pernas, e Hinata sentia algumas gotas que voavam até ela. Ainda era muito cedo, de maneira que só havia ela. Gostava de visitar Hanabi bem cedo – não era adepta de chorar na frente de outras pessoas. Quando suas pernas começaram a fraquejar, deixou que os joelhos se afundassem na terra fofa, sem se importar com o barro. Sentou sobre os calcanhares, as mãos postas e o nariz fungando. O peso da solidão era realmente maior quando parava para pensar nele.
De longe, era observada por alguém que não teve coragem de se aproximar.
Naruto não tinha levado guarda-chuva, de maneira que se abrigou no toldo estendido pelo muro, na parte de dentro. Sua jaqueta também escorria algumas gotas, e a calça jeans tinha manchas escuros. Teve o impulso de correr até a garota quando a viu cair completamente de joelhos, mas freou, não sabendo como ela reagiria – e não querendo interromper o que parecia um momento delicado de luto.
O Uzumaki não tinha pretensão de procurar por Hinata, naquela manhã. Passou todo o sábado em casa, tentando se concentrar nos trabalhos e fichamentos que tinha de fazer para a faculdade, mas sua mente ora ou outra dispersava, o levando de volta para o sofá da casa dos Hyuuga, não necessariamente na sexta-feira daquela semana.
Pediu a Sasuke para que mantivesse segredo, ao menos por enquanto, sobre Hanabi. Quis respeitar o sigilo imposto por Hinata, em forma de respeito por sua perda – que, embora já não tão recente, ele imaginava que deveria doer como se o fosse –. Tampouco falou, mesmo para o Uchiha, sobre a data de aniversário de seu falecimento, de forma que, quando dia primeiro de abril chegou, Naruto dirigiu sozinho para o cemitério de Konoha. Fora Hiromi quem informara a ele, estando ão próxima, e ele quis visitar seu túmulo. Optou ir pela manhã por ter perdido o sono – seria justo dizer que mal dormira na madrugada passada –.
Foi com surpresa que identificou a silhueta de Hinata, surpreendentemente usando um vestido de mangas longas e rendadas, e tênis baixos. Ela andava com os ombros curvados e uma sombrinha diferente. Naruto não quis segui-la, tão-pouco indicar que estava ali. Considerava o momento íntimo demais, lamentoso demais – se seu próprio peito estava apertado, entristecido, ele não conseguiria pensar em como Hinata se sentia.
Aquele era o ponto da questão – Naruto não conseguia imaginar como Hinata se sentia, sob todas as óticas de todas as circunstâncias. Quando pensava em todas as tragédias que lhe abateram, todos os acontecimentos que tivera que suportar, sua garganta fechava-se em um bolo seco e apertado. As infinitas maneiras que pensava para poder ajudá-la, por menor que fosse, apenas não pareciam certas. Naruto ter voltado para sua vida não parecia certo.
Ele a acompanhou com os olhos até vê-la parar mais adiante. Ficou para trás, com as mãos no bolso, imerso nos próprios devaneios, analisando suas reações. A maneira que ela se abaixou e acariciou a lápide, como seu rosto se escondeu e uma cascata de fios negros o cobriu. Naruto percebeu os ombros tremendo, e pensar em Hinata chorando o queimava de maneiras inexprimíveis. Seu desejo era correr até ela e envolver seu corpo com os braços. Ciciá-la com palavras doces e dizer que tudo ficaria bem, que mesmo o mundo sendo o lugar que era, nada mudaria entre eles, e Naruto estaria ali para protegê-la.
Mas não era possível, era? Eles estavam diante do túmulo de Hanabi, e nada era como antes.
Naruto deixou suas próprias lágrimas descerem, pranteando em silêncio e só. Limpou o nariz que escorria, apertando os punhos, com raiva dos homens e de si mesmo. Ele queria xingar Deus, lhe perguntar porque as pessoas partiam, e porquê deixavam dor, culpa e agonia para seus entes queridos. Nunca precisou lidar com o luto daquela forma, e ele lamentava por Hanabi, mas também lamentava pela garota de quinze anos que tinha toda uma vida pela frente. Lamentava por seus pais, que nunca mais seriam os mesmos, e lamentava pela irmã mais velha que pranteava ajoelhada em sua sepultura.
A chuva voltou a cair, e era realmente incomum para aquela época do ano. Naruto desencostou do muro, andando até Hinata quando percebeu que ela não se mexia. Não sentiu borboletas de ansiedade como costumeiro – e agradeceu por seu corpo saber que aquela não era uma situação para reagir com formigamentos. Chegou até a garota, se perguntando se ela saberia que era ele quem se aproximava – provavelmente sim. Sem dizer nada, pegou a sombrinha e abriu, erguendo acima de ambos, e as gotas finas e geladas começaram a rebater no plástico e escorrer. Seu punho tremia ligeiramente, e o rosto estava quente. Desviou os olhos da figura abaixo dele, para as inscrições em dourado. Amada filha e amiga. Havia uma frase poética bonita que acompanhava, e Naruto se perguntou quem a tinha escolhido. Quase no rodapé, os anos de nascimento e de morte. Seu lábio inferior tremeu, e um novo choro quente surgiu. Apenas dezesseis anos. Era doloroso demais.
Um farfalhar chamou sua atenção. Hinata movia seu braço contra o rosto, e, em seguida, apoiou a palma no chão para se levantar, ainda sem fitá-lo. Seus joelhos estavam sujos de grama e terra, mas ela não limpou. Apenas sacudiu o vestido, arrumando-o, aprumando a postura e suspirando audivelmente. Naruto lhe deu espaço, mantendo sempre o guarda-chuva sobre ela, principalmente.
A Hyuuga tinha ouvido passos se aproximarem assim que a chuva voltou a cair. Demorou apenas um milésimo para identificar quem era – só não saberia dizer se foi por ter aberto a sombrinha, ou pelo perfume inconfundível. Contudo, não teve reação; exceto, quem sabe, a preocupação de ele vê-la chorando tão pateticamente. Não conseguiu sequer ficar com raiva por ele estar invadindo a única coisa que ainda pertencia a ela, e somente a ela. Apenas por um dia, Hinata estava cansada de brigar – com Naruto, com o mundo, com ela mesma.
Quis se levantar, por fim. Limpou o nariz que escorria e os olhos inchados. Fungou baixinho, apertando os olhos. Se preocupou com o vestido ter se sujado. Não olhou para o lado. A chuva caía ao seu redor, porém não sobre ela. Fitando suas mãos, percebeu como estavam pálidas e ossudas. Muitas coisas passaram por sua cabeça, mas, quando falou, sua voz estava falha:
— O que está fazendo aqui? – murmurou. Sem rispidez ou acusação, apenas exausta. Naruto assustou-se, mas logo recuperou a compostura, pigarreando.
— Eu teria vindo mais tarde se soubesse que estaria aqui agora. – falou gentilmente – Eu soube por seus pais. – parte de si esperou pelo pior, mas Hinata se limitou a suspirar e assentir.
Sabia que, uma hora ou outra, aquilo acabaria acontecendo – no entanto, ouvir sobre seus pais ainda era doloroso. Não ficou irritada por terem falado de Hanabi, e tampouco por Naruto ter ido visitá-la também. Acreditou em sua sinceridade quando disse que teria ido em outro momento, e agradeceu, por fim, por ele estar ali, pela irmã. Percebeu como era cansativo sentir raiva, as vezes.
— Eles sentem sua falta. – Naruto comentou, depois de alguns minutos. Hinata balançou a cabeça minimamente, engolindo em seco a medida que o estômago queimava.
Ela também sentia falta deles. Sentia como o inferno. Cada maldito segundo dentro do apartamento solitário era um segundo que sentia falta de seus pais. Sua casa, seu quarto, sua família. Seu lar. Era o pior dos castigos, porque ainda sabia o endereço de cor, e as vezes passava na frente da fachada, quando subia a rua na garupa da moto de Kiba. Hinata estaria disposta a abdicar de tudo, tudo, para poder voltar – seu orgulho, seus receios. No passado, saiu pela teimosia, alguém que não conhecia a vida e estava magoada, ferida. Agora, nada mais importava, porque ela já os tinha ferido também, e não era digna de voltar. E, mesmo assim, sentia falta deles, dos sorrisos da mãe, das carícias do pai, das conversas e da proteção.
Crescer, para Hinata, foi aceitar a solidão, e a consciência de que se tornara alguém que nutria nada além de culpa.
Naruto se arrependeu de ter falado, e baixou a cabeça, encarando seus pés. Sentia-se um intruso na bolha que Hinata criara para si, que exalava uma dor pungente. Ele não sabia como ajudar, também não sabia se poderia.
As gotas tornaram-se mais pesadas, e, olhando através do plástico, Naruto conseguiu ver uma pesada nuvem pairando. Provavelmente pararia de chover logo, mas o tempo esfriaria. Voltou para Hinata. Ela tinha puxado o cabelo, e a lateral de seu rosto refletia uma palheta incomum de cores. A pele ebórea estava pálida; o redor dos olhos estava inchado e avermelhado; as maçãs aparentavam o mínimo de coloração, e os lábios estavam minimamente azulados. Não conseguiu ver seus olhos, e tinha medo do que poderiam aparentar – o Uzumaki aguentaria a cólera, contudo, seria lancinante caso as pérolas refletissem o mínimo de angústia que ele julgava conhecer nela.
— O que aconteceu? – a pergunta escapou antes que pudesse impedir, e, se ela não quisesse falar sobre, Naruto prometeu a si mesmo que sairia e a deixaria em paz.
Hinata não respondeu de imediato, parecendo ponderar. Naruto não fazia ideia do que se passava em sua cabeça. Ela respirou fundo, julgando já estar na hora de falar para alguém. Shion foi a única que soubera, na época, porque socorrera Hinata de mais um de seus porres. Mais ninguém. Seus pais conheciam o laudo policial, mas ninguém conhecia a história de seus pecados. Precisava falar. Libertar aquilo, de alguma maneira, antes que a consumisse.
Naruto a viu pender a cabeça para fechar, com os olhos fechados. Rosto voltado para o alto, parecia rezar. Foi invadida por meia-luz que atravessou as nuvens densas, e ele prendeu a respiração, de repente incomodado com a profundidade daquela cena. Então, Hinata baixou, e, finalmente, abriu os olhos para fitá-lo.
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