Heroína
16 Comemore seus pecados e, onde menos esperar, ali estará sua redenção
Notas iniciais
E até hoje quem se lembra,
Diz que não foi o caminhão
Nem a curva fatal, e nem a explosão
Johnny era fera demais pra vacilar assim
E há quem diga que foi tudo por causa de um
Coração partido
— Dezesseis, Legião Urbana
—Capítulo XVI–
Comemore seus pecados e, onde menos esperar, ali estará sua redenção
Ela o encarava com uma intensidade de tirar o fôlego. Seus olhos – os mesmos que Naruto costumava fitar por horas a fio – carregavam uma nuvem densa e opaco, vermelhos e inchados. Gotas alojavam-se em seus cílios, e a pele desprovida de maquiagem deixava-a mais frágil do que ele jamais vira. Não parecia irritada, e ele desejou, por um momento, que estivesse. A raiva deixava Hinata altiva, a fazia reagir. Parados diante da lápide, os sentimentos que as íris peroladas exibiam eram anuviados, como alguém que, há muito, desistira. E aquilo o envolveu.
— Foi depois que você foi embora. Quase dois anos. – desviou o rosto novamente, desta vez repousando sobre a sepultura, com um olhar nostálgico e os lábios trêmulos. Naruto atentou-se as suas palavras como nunca antes, embora soasse como se ela recordasse uma lembrança muito antiga, em vez de estar contando a alguém – Eu lembro muito pouco daquela época. Não se foi a tristeza por você ter partido, a raiva. É como se estivesse bloqueado. – seus ombros fizeram movimentos de riso, mas sua expressão continuou impassível. Naruto, por outro lado, engoliu em seco, baixando os olhos e encarando os próprios pés, a vergonha impedindo-o de fitá-la. Mordeu os lábios, tão forte que quase sentiu gosto de sangue. Ela não o estava acusando, como outrora, todavia, o aperto em seu peito se intensificou mais do que quando ela o fez – Acho que eu fiquei realmente insuportável nos primeiros meses. – riu, lamuriosa – Me culpando pelo que aconteceu. Eu pensava: “Poxa, se eu tivesse feito as coisas diferentes, ele teria ficado”. – sua garganta coçou para que gritasse que não, que jamais havia sido culpa dele, que ele era um babaca imaturo, mas não conseguiu dizer nada – Não era para tanto. Mas, sabe como é, o primeiro coração partido. É realmente difícil superar. – seus dedos saíram do guarda-chuva para escorregar pelo mármore curvo, como se o acariciasse.
Naruto fechou os olhos, sentindo-se um intruso. Aquelas palavras eram tão íntimas, aqueles gestos eram tão íntimos, que se considerou até mesmo indigno de olhar. Enquanto a voz dela, baixa e suave, preenchia sua mente, memórias iam e vinham, invadindo-o. Ele se lembrava dos primeiros meses também – como, embora estivesse em um novo continente, do outro lado do mundo, cercado de todo o luxo que o dinheiro e a fama podiam comprar, nada parecia completo.
— Primeiro eu ficava trancada no quarto o dia todo. Não queria ir para lugares que me lembrassem você. Mas acho que você pode imaginar que era difícil ficar até mesmo na minha própria casa. Você estava em todo lugar. – o sorriso mais triste pintava as curvas de seus lábios – Pareceu semanas, mas foram meses assim. Eu não tinha mais noção de nada. – um suspiro pesado, e seu braço caiu, inerte, ao lado do corpo – Foi quando eu conheci Kiba.
A menção do nome fez Naruto despertar, abrindo os olhos abruptamente. Mesmo de perfil, ele enxergou uma sombra parca em seu semblante. Não conseguia ler o que se passava em sua mente, mas Hinata parecia perdida em pensamentos, com o corpo imóvel e fitando fixamente um ponto no horizonte. Seu nariz franziu. O Uzumaki pensava que seria torturante ouvi-la falar sobre ele, contudo, percebeu que não se importava com isso. Aquela melancolia era tão palpável que ele seria capaz de fazer tudo, tudo, para acabar com ela.
— Ele era bom para mim. Um verdadeiro anjo. Não se importava que eu falasse o tempo todo de você, que eu chorasse todas as vezes que nós saíssemos. Éramos vizinhos, e quando ele não conseguia me tirar do quarto, ficava na janela para conversarmos da sacada. – não houve pontadas de ciúmes dentro dele, apenas um sentimento incômodo de que aquelas lembranças pareciam erradas. Como se algo sombrio pairasse por elas – Quando ele me chamou para sair, Hanabi também incentivou.
Ela parou, subitamente embargada. Seus olhos se fecharam, e ela tinha os traços delicados, desde a silhueta do nariz arrebitado até o contorno das sobrancelhas. Parada, era como uma escultura. Seus dedos tremeram, e Naruto acompanhou a decida solitária de uma lágrima, impedindo com toda a força o impulso de limpá-la. Hinata engoliu em seco duas vezes, respirando, mas sua boca não parava de vacilar. Naruto fez menção de interrompê-la e dizer que estava tudo bem, que não precisava dizer mais nada – ele não queria mais vê-la sofrer daquela maneira –, mas ela continuou, a voz mais apressada e dúbia.
— Hanabi sempre esteve do meu lado, todo o tempo. Não importava se eu estivesse irritada ou ressentida. Ela não se ligava se eu a xingava, ou ignorava. Ela estava comigo. Esse foi um dos motivos para eu pedir que não publicassem nada sobre. – esfregou o rosto com uma das mãos – Não queria que se lembrassem por isso. Ela sempre foi boa. Inclusive, quando Kiba surgiu, ela disse que era uma boa oportunidade para seguir em frente. – mais lágrimas escorreram, e Naruto reprimiu um soluço, com a garganta seca – Ele começou a me levar em festas, e boates, e eu descobri que o álcool era uma boa maneira de esquecer. – falhou, os olhos fixos no chão e os ombros para frente, com aparência cansada – É claro que eu era uma negação para isso. Não aguentava dois copos, vomitava, tinha ressacas horríveis. Mas durante aquele curto período de tempo, eu esquecia. – sorriu debilmente – Eu achava que era só sobre você, mas foi só o começo. Eu me perdi, eu não era mais a mesma. Era como cair em um buraco sem fundo, caindo e caindo, e afundando. – virou-se, então, para que seus olhos fizessem rápido contato visual. Naruto não foi corajoso o suficiente para desviar, e ela parecia ler todos seus pecados. Durou três segundos, e ela afastou novamente – Não sei o que aconteceu. Sinceramente, não sei até hoje. – torceu a barra do vestido – Falta uma parte em mim. Uma parte que eu nunca consigo preencher. – levou a mão até o peito, puxando o tecido.
Naruto lutou para manter a sombrinha aberta acima deles, enquanto a chuva engrossava. Estava tudo muito silencioso, mas, dentro de si, repuxões deixavam-no enjoado. Estava preso no mesmo lugar, até que ouvisse toda a história, mesmo que cada palavra penetrasse em sua pele como agulhas afiadas.
— N-Naquela noite – gaguejou pela primeira vez – eu e Kiba fomos a uma festa. T-Tanto tempo tinha passado, e eu não queria sair. Eu gostava das músicas, das cores, das bebidas. – arfou, parecendo sem ar – C-Começou a chover, e fomos embora mais cedo. Eu não conseguia enxergar u-um passo, mas quando eu cheguei, ela me esperava, acordada. Q-Queria que eu levasse ela para tomar sorvete. E-Era de madrugada, eu estava bêbada, mas como podia negar isso para ela? – um soluço alto rompeu, e Hinata parecia estar presa em um pesadelo vivo, tentando acordar. Naruto falhou uma batida, já sabendo como terminaria – Pegamos o carro, ela estava de pijama. Não era longe, e-eu conseguia levar. S-Sei que sim. Mas chovia tanto. — sua voz se tornou um gemido sôfrego – E-Eu só consegui ouvir a buzina e o farol alto. Tentei frear, m-mas o sinal estava aberto para nós. E-Ele veio de encontro, e e-eu só consegui sentir a batida antes de... de...
Hinata cedeu.
Naruto não soube porque seu corpo reagiu sozinho. Quando a viu desabar, as pernas dobrando-se e o corpo caindo para cima, seu único pensamento foi segurá-la. Estendeu o braço a frente de sua barriga, puxando-a precariamente contra si. Ela se curvou contra seu gancho, repentinamente segurando-se em seu antebraço, apertando. Ele ajeitou o guarda-chuva sobre eles, mantendo-a de pé. Ela tremia ruidosamente, e Naruto a puxou pela cintura, virando-a de maneira que seu rosto se escondesse contra sua jaqueta. Ele não quis ver sua expressão. Manteve os olhos para cima, sustentando-a da melhor maneira que pôde, apertando suas costas, a perna direita ainda escorada na frente. Suas lamúrias se tornaram gaguejos, e seus gaguejos se tornaram gritos. Desconexos, carregados de uma dor incapaz de ser descrita por palavras.
As lágrimas quentes começaram a molhar sua camiseta, e ele baixou o rosto, pego pelo próprio choro sufocante.
— Eu sinto muito, eu sinto muito. – sussurrou, ninando-a, tentando controlar seu desespero. Hinata começou a soluçar muito, os dedos apertados contra a jaqueta e as pernas fracas. Lembrar do acidente deixava-a vulnerável, e, mesmo depois de dois anos, ainda conseguia ouvir perfeitamente o som nauseante dos pneus escorregando, da buzina, o cheiro de enxofre e combustível. Mesmo que se esforçasse, no entanto, não conseguia se lembrar das últimas palavras da irmã. Seu cheiro, seu rosto, sua voz. Era sempre o mesmo pesadelo.
O loiro mordeu os lábios, evitando quaisquer barulhos. Não se sentia no direito de chorar, mas sabia que se engasgaria com aquelas lágrimas. Nem mesmo a dor física em sua boca foi capaz de livrá-lo daquela angústia que tomava seus pulmões. Sentia suas mãos queimarem. Como fora ingênuo. Imaginara, por muito tempo, que a mágoa de Hinata era a única com a qual teria de lidar quando voltasse. Que um coração partida fora seu único pecado. Ele ferira Hinata de tantas maneiras, ele a destruiu, a fez procurar consolo em um outro alguém – a fez preferir sofrer fisicamente –, a transformou. Se não fosse por ele, nunca precisaria ter preciso beber para esquecer o passado.
Se não fosse por ele, Hanabi estaria viva.
Aquela dor era profunda, lhe tirava o fôlego. O peso da compreensão tornava o ar mais rarefeito, sua mente clareando para a verdade. Estava com nojo de si mesmo, o estômago embrulhado, a bile subindo pelo esôfago. Estava com tanto ódio, tanto asco.
— Eu sinto muito. – repetiu, gemendo – A culpa é minha, eu sinto muito.
— Não! – Hinata engastou, afastou-se repentinamente para encará-lo. Seu rosto estava inteiro vermelho, e ela ofegava – Naruto, não! Não foi culpa sua! – ainda segurava firme em suas roupas, e tinha parado de tremer. Ele balançou a cabeça, cabisbaixo.
— É culpa minha, eu causei tudo isso. – lamuriou – Hinata, eu sinto tanto, eu, eu gostaria de poder voltar no tempo, eu gostaria de poder mudar as coisas. – sua voz estava ligeiramente angustiada, e Hinata espalmou a mão contra seu rosto.
— Naruto, não! Não foi sua culpa. Eu não culpo você. – sussurrou – Eu sei disso agora. Eu não culpo você. – a própria Hinata parecia mais leve depois daquelas palavras, o rosto brilhando – Como eu poderia? – puxou o ar com força, ainda um tanto instável – Hanabi te amava também. Ela jamais me perdoaria se eu o culpasse. – fechou os olhos quando uma brisa mais gélida passou por eles. Estavam em um enlaço até mesmo engraçado, Naruto apoiando o peso contra a perna e se equilibrando entre Hinata e o guarda-chuva. Ela o segurava desesperadamente pelo rosto.
— Mas se eu não tivesse ido, se eu não tivesse sido um... um... – sua voz engasgou, morrendo. Quis desviar o olhar, mas Hinata o manteve firme contra ela.
— Acredite, ninguém nesse mundo imaginou tantos ‘se’ quanto eu. – soprou em um fio de som. Deixou de segurá-lo pelas bochechas, baixando os braços e recompondo-se, ainda com os joelhos fracos. Suas mãos buscaram, inconscientemente, tocar a lápide. Parecia apática, quase doente – Mas ela se foi. E nada no mundo poderia trazê-la de volta. Nem mesmo raiva, ou rancor. – foi como se a atmosfera se tornasse repentinamente pesada demais para respirar – Por isso eu preciso te pedir desculpas. Eu espero que, agora, você consiga entender, Naruto, que eu não preciso de um herói. Eu sei que era isso que você buscava. Acontece que eu não posso ser salva.
Pego desprevenido, seus ombros caírem, e ele deixou o guarda-chuva oscilar em sua mão, algumas gotas molhando sua jaqueta e escorrendo. Hinata tinha o semblante voltado para ele, e, surpreso, ele enxergou um sorriso, seu rosto em paz, uma paz que achava impossível de ser refletida. Era como um veredito bem-vindo, como se ela estivesse ciente da situação, e resignada. Não queria mais lutar contra aquilo.
Naruto não entendeu porque aquelas palavras o afligiram tanto.
— Por que continuou com o Inuzuka? – repentinamente, a pergunta saltou de sua boca antes que pudesse ser refreada. Fungou, aproximando-se meio passo, voltando a cobri-la totalmente.
— Naruto, por favor... – Hinata suspirou, de repente muito cansada.
— Não! Não é o que você está pensando. – ele sentiu as palavras vindo subitamente, sufocando-o. Sua mão livre procurou pela dela, agarrando-a de maneira quase desesperada, e ela se assustou com a intensidade – Você sabe que eu seria a primeira pessoa a te apoiar completamente, se você estivesse verdadeiramente feliz. Você sabe disso. – Hinata sabia. Olhando no fundo dos topázios vibrantes, ela sabia – Então, por que? – parecia que muitas perguntas estava implícitas – Por que afastou seus amigos? Seus verdadeiros amigos?
— Eram eles que queriam me afastar de Kiba. – puxou sua mão do aperto, com a garganta fechada. Não esperava por aquilo, tampouco que a atingisse tão duramente. Tentou parecer firme, entretanto sabia como tinha soada atormentada.
— Porque se importavam com você! – rebateu, um tanto agitado – Eles queriam te ajudar, como eu quero agora. Eles te amam, e sentem sua falta. Eles também sofreram. – ela não sabia como reagir. Queria gritar para que ele parasse – Eu conheço meus pecados, e as consequências. Eu estou pronto para lidar com elas. Eu posso nunca mais recuperar seu amor. – piscou com força, tentando lucidar a mente – Ou seu perdão. Eu sei disso. Mas acredite quando eu digo que há muitas pessoas que fariam tudo, tudo, para te ver feliz. – estendeu a sombrinha transparente para suas mãos tremelicantes, sentindo as primeiras gotas geladas em seu cabelo. Em seguida, inclinou-se para o sepulcro e acariciou suas inscrições, falando mais suave: – Eu sinto muito mesmo. Mais do que eu posso dizer. Ela era incrível.
Deu as costas, se afastando pelo longo corredor de jazidos, a chuva grossa rapidamente escurecendo suas roupas e enlameando seus sapatos. Hinata observou-o partir até virar para a saída, a silhueta se tornando embaçada demais para identificar.
Ela não notou que estava tremendo até os nós de seus começarem a ficar brancos.
Não saberia dizer quantas horas ficaram ali, uma vez que as nuvens carregadas cobriam o céu, sem dar sinais de trégua. As gotas engrossaram, rebatendo no plástico de seu guarda-chuva e espirrando para todos os lados. Sentia os tênis afundarem em barro e os joelhos pinicarem de grama. Contudo, permaneceu virada, encarando o horizonte infinito sem expressões. Seus pensamentos eram linhas confusas e reprises vívidas das cenas que tinham acabado de acontecer. Para ela, eram como instantes, mas também poderiam ter sido horas.
Mordeu o lábio, girando para a frente da placa, agachando-se de cócoras para passar o dedo pelo entalho mais uma vez. De certa maneira, sentia-se indescritivelmente mais leve do que quando chegara. Seu espírito não estava em paz – como poderia? –, todavia, ao menos livrara-se de parte dos fardos que tornavam seus ombros doloridos.
— Que loucura, Hana. – sussurrou, como quem confidencia um segredo.
Curvou a boca para cima em um meio sorriso fraco. Ela não esperava que Naruto aparecesse no cemitério, embora pensasse ser inevitável. Em sua bolha de luto, pensava em nada mais poderia atingi-la tão dolorosamente quanto a morte de Hanabi, até que ele veio, com sua sinceridade fastidiosa e sua transparência bruta. Hinata apenas não sabia como lidar com a facilidade com que ele exprimia o que pensava, o que sentia. Se não se sentisse tão exausta, poderia ter se enfurecido, ter visto com ferocidade e crueldade a maneira que ele atirou, uma após a outra, as verdades que se recusava a enxergar. Poderia ter lhe dito que não era da sua conta. Mas não poderia culpá-lo, afinal. Em seu âmago, ela sabia – pior que a dor da morte de Hanabi, eram as dores das pessoas que ficaram para trás. Elas estavam vivas, ela se lembravam. Assim como Hinata se lembrava.
Como borrões desconexos, ela pouco recordava do início do relacionamento, efetivamente dito, com Kiba. Era como cenas aceleradas, rostos desconfigurados, palavras reconfortantes. Ela memorava Sakura – ah, Sakura! – e sua simpatia desconfiada. Se lembrava de Ino, com suas unhas e seu veneno, porque não tinha gostado dele desde o começo. Se lembrava de Gaara, com quem passava horas no telefone, e seu olhar superprotetor. Da mesma maneira dos apagões das bebidas – e, posteriormente, das drogas também –, buracos não permitiam que ela acessasse todas suas memórias. Trancafiadas seguramente em pastas inacessíveis, Hinata não era capaz de dizer, com clareza, quando começou. Teria sido um pedido de Kiba? Uma reclamação inocente? Teria ela o feito por livre e espontânea vontade? Quando os almoços acabaram, quando os cruzamentos nos corredores passaram a ser evitados? Quando ela excluiu suas conversas no celular?
No entanto, mesmo assim, uma coisa sempre lhe surgia – nunca tinha se livrado da mágoa de vê-los desistir tão rápido. Quer dizer, ela não era do tipo que esperava com seu orgulho. Mas, de alguma forma, eles simplesmente pararam de tentar. Sakura foi a última. Depois de meses, ela ainda telefonava, a procurava na casa dos pais e na secretaria. Com um bolo incômodo, pensou em todas as desculpas, em todas as brigas e todos os esquivos.
Eles teriam continuado mesmo que ela não desse abertura. Não teriam? Tinham que continuar – mesmo com todas as respostas ríspidas, e os olhares cortantes, e as acusações. Era isso que amigos faziam.
Hinata não tinha mais certeza se eram perguntas ou respostas que confundiam seu devaneio.
Tornou a se levantar, com as panturrilhas queimando. Não tinha levado flores – agora se arrependia de não ter comprado um ramalhete bonito de margaridas –. Seu rosto secara de lágrimas, ainda que seu coração cultivasse semelhante aperto desolado. Naquela manhã, entretanto, não sentiu como se fosse uma despedida, ao passo que deu as costas, caminhando pela grama molhada e desfeita – sentia um arrepio agradável atrás da orelha, e acreditava que ela continuava ao seu lado, e dentro de si.
Saiu pela mesma entrada que cruzara, e o movimento na calçada tinha aumentado consideravelmente, assim como a chuva, que passou de garoa fria para uma contínua queda d’água. Os transeuntes passavam com seus protetores abertos para o céu, e Hinata se distraiu analisando suas cores e tamanhos. O ponto de ônibus tampouco estava seco, mas a linha não tardou passar. Sentou-se, pela primeira vez em horas, com os pés agradecendo. Era um longo caminho de volta para casa. Olhando pelo vidro embaçado de respiração, esfregava o rosto, para se livrar dos inchaços e vermelhidão.
A cidade ficava ainda mais apática quando chovia. Tudo tinha aspecto cinza e deprimente, assim como as pessoas. Mesmo que as senhoras não estivessem sentadas nas calçadas, em seus bancos trançados, ela ainda conseguia sentir sua presença, seus olhos espreitava a espera da próxima crítica – essa era uma das coisas que mais odiava naquele vilarejo de merda.
Desceu na mesma esquina, avistando seu prédio. Cumprimentou o porteiro, que não a olhou estranho por ter os pés cheios de lama, os joelhos sujos e o vestido de luto amassado. Subiu por elevador, evitando encarar seu próprio reflexo. Apertava os dedos – um hábito há muito abandonado – enquanto esperava. Puxou as chaves, surpresa que a porta não estivesse trancada.
O apartamento mantinha a mesma temperatura amena do lado de fora das paredes. Estava silencioso, iluminado pelos raios cinzentos e pela luz amarela artificial. Tudo na mais perfeita ordem, como tinha deixado ao sair. Constatou, pasma, que eram quase onze horas. Do pequeno corredor surgiu Kiba, vestindo um moletom por cima da calça jeans. Sua expressão não era das melhores, mas, ao se aproximar, ele beijou sua cabeça rapidamente, o que significava que ele estava irritado, mas não com ela.
Deixou suas coisas na bancada, já tirando o vestido, sem esperar chegar no quarto – Kiba não gostava que ela usasse vestidos –. Ele nada disse, desaparecendo na lavanderia e voltando com um par de tênis.
— Que bom que chegou agora. Eu te espero tomar uma ducha, estamos indo no Sasori. – sua voz estava neutra, e, sem querer provocar uma briga, ela se apressou para a suíte, buscando uma toalha limpa. Deixou a porta encostada, se perguntando se ele tinha lembrado que dia era, e por esse motivo não tinha implicado.
— O que aconteceu? – gritou, ligando o chuveiro e entrando rapidamente, antes que a água esfriasse. Do quarto, o ouviu fechar as portas do guarda-roupa com demasiada força.
— Problemas. – ele respondeu, e Hinata suspirou, deixando os ombros relaxarem e a ducha levar os aspectos de choro.
Infelizmente aquela palavra representava um âmbito mais amplo da coisa— no caso, que também a afetava diretamente –. Para fazê-lo sair tão apressadamente de casa, só podia ter um motivo. O pior deles. Em todas as vezes, Kiba exercia sua incrível capacidade de se livrar de infortúnios da mesma maneira que os arranjava, mas a situação mudava quando outros de seus amigos estavam envolvidos. Konoha era pequena demais para esconder tanta sujeira embaixo do carpete.
Longe dela querer piorar seu estado de humor, secou-se com rapidez impressionante, enrolando-se na toalha felpuda e correndo para resgatar seu moletom mais quente. Vestiu-o, junto de uma calça justa e botas para inverno. Deixou o cabelo solto, e se dedicou a cobrir cada imperfeição com uma camada bem dada de base. Puxou sua bolsa, e Kiba já a esperava. Estava sem o capacete, e ela suspirou uma segunda vez. Ele nunca usava o carro de segunda classe que mantinha escondido na garagem.
O acompanhou descendo pelas escadas, quase tropeçando ao tentar seguir seu ritmo. Ele apertava sua mão, e, involuntariamente, comparou o toque brusco e firme com o aperto macio e incerto do Uzumaki – agradeceu por estar atrás, e, seu rosto, fora do alcance, sentindo-se imediatamente culpada –. Desceram no térreo, e ele ativou o alarme do Toyota 2012 parcialmente escondido atrás de pilastras. Hinata sentou no banco da frente, tentando, com todas as forças, ignorar os malotes de dinheiro empilhadas atrás, ou as seringas, ou os papelotes enrolados seguramente. Sufocada, abriu uma fresta do vidro, enquanto saíam da garagem.
Não imaginou que teria que fazer justamente aquele caminho tão cedo. Reclinada no encosto de plástico, manteve os olhos na paisagem, reconhecendo as ladeiras e as simpáticas casas de construção tradicional e extensos jardins. Recusou-se a olhar para o lado esquerdo, quando começaram a subir sua rua. Passaram como um borrão por ela, desaparecendo na curva que levava ao restante do bairro. Soltou a respiração, que não sabia que estava presa.
Kiba teve a sensibilidade de acariciar a ponta de seus dedos, lhe dando um olhar quase compreensivo antes de desceram – ela retribuiu da melhor maneira que pôde, reconhecendo seu esforço –. Deu a volta no carro, admirando, como sempre, a elegância da casa dos Sabaku. Visitava-a em períodos consideravelmente curtos de tempo, embora não ficasse sóbria o suficiente para apreciar a decoração do interior, infinitas vezes mais sofisticada que as colunas e a varanda com piso legítimo de cerâmica. Deram a volta pelo portão, entrando pelos fundos, onde um grande quintal se estendia, dando a volta na propriedade – Hinata evitou que certas lembranças a acometessem.
Sasori já os esperava, tão bonito quanto ela se lembrava – mas sua expressão era sombria, as sobrancelhas sem o comum arquear sarcástico, admitindo em suas feições delicadas uma espécie de sombra escura. Ele a cumprimentou com pressa, trocando um longo e expressivo olhar com o Inuzuka, que grunhiu.
— Espere aqui, gata. – não foi como uma ordem, apenas uma sugestão desinteressada. Ela não teve tempo de retrucar.
— Kiba, espera...! – a porta já tinha batido, os dois homens desaparecendo dentro da propriedade, provavelmente subindo para o segundo andar. Sozinha e frustrada, do lado de fora, decidiu entrar e ficar no hall. O clima estava ameno, e a chuva tinha dado uma trégua, ainda que estivesse úmido e quente.
Passou pela porta de tela, fechando-a enquanto abria a outra. Imediatamente foi acometida pela atmosfera morna e aconchegante. Guardou a mãos nos bolsos, olhando ao redor. A longa escada a seguia pela esquerda, o piso brilhando e as paredes aparentando pintura fresca, sempre com o mesmo tom pastel. Avistou mesas de canto, vasos ornamentais e quadros de família. Memórias nostálgicas deixaram-na distraída, se lembrando de como as coisas tinham mudado em quatro anos, e como não mudaram nada.
Engoliu em seco, pela segunda vez no dia, sendo tomada por sensações estranhas. Ainda estava sensível, o rosto formigando e uma dor de cabeça prestes a despontar. Quis ter tido coragem para dizer a Kiba que não queria sair de casa – que tomaria um banho e passaria o dia na cama, cansada demais, triste demais –. Mas não. Em vez disso, agora caminhava até o hall de entrada da residência, correndo os olhos pela decoração em mogno e jogando contra si mesma para ver se ainda se lembrava onde os cômodos ficavam.
Foi então que ouviu trotes escadas abaixo.
— Sasori, me ajuda nessa maldita conta-
Parou, entre o terceiro e o segundo degrau.
Hinata se virou bruscamente, sobressaltada. Afastou o cabelo dos olhos, que se arregalaram lentamente, como se visse um fantasma. Ele não estava tão diferente, encarando-a da mesma forma. Estavam há poucos metros de distância – ela conseguia sentir o aroma de seu perfume cítrico, característico, e ele conseguia sentir o cheiro do shampoo de lavanda –. De repente, um milhão de sentimentos ultrapassaram-na, tirando seu fôlego. Abriu e fechou a boca algumas vezes, sem encontrar as palavras, perdidas em algum lugar entre sua cabeça e sua garganta.
Ele estava claramente mais alto – mesmo alguns degraus acima –. Usava pijamas de frio, uma calça de moletom velha e puída, e uma blusa de mangas cortadas. Ela se surpreendeu com as tatuagens, e como elas ficavam bem nele. Não soube dizer se o mais marcante eram os fios flamejantes, bagunçados para todos os lados, ou as esmeraldas vívidas, agora espantadas.
— Hm, o- – pigarreou, tentando deixar a voz um pouco menos ridícula – O Sasori acabou de subir, com Kiba.
Uma sombra de compreensão ultrapassou seu rosto, e nada respondeu. Seus dedos se apertaram nervosamente no papel, um tique no supercílio. Hinata tampouco falou, sentindo-se acuada. O ambiente ficou, subitamente, quente demais. Mesmo assim, recusou-se a desviar o olhar. Estava, sobretudo, compungida, a boca seca. Sentiu crescer o impulso de se virar e ir embora. Fugir. Mas, então, era como se seu corpo se recusasse a fazer isso.
Gaara sempre teve uma personalidade ácida, dono de respostas sarcásticas e senso de humor peculiar, embora alguns o achassem pândego – fazia comentários demais, e não se importava em dizer o que pensava, mas, de alguma maneira, era extremamente reservado –. Ele e Hinata se deram bem instantaneamente. Ela sempre tivera facilidade em ler suas emoções, criar piadas internas, estabelecer uma conexão tão forte que fazia até mesmo Naruto enciumar, por vezes. Naquele momento, enquanto esquadrinhava seus olhos, ela viu, tão límpida e claramente, vestígios escuros de desolação.
Eles te amam, e sentem sua falta. Eles também sofreram.
Não quis acreditar que ele estava certo.
— É cálculo? Eu posso te ajudar, se quiser. – se fez terna, e a frase deslizou com tamanha facilidade que até ela se surpreendeu.
A reação de Gaara foi – para dizer o mínimo – engraçada. Suas pálpebras se afastaram a medida que sua expressão foi se arregalando. Pareceu não ter escutado direito, e Hinata torceu para que o tivesse – caso contrário, seria constrangedor –. Contudo, depois de alguns segundos de silêncio, Gaara pareceu livrar-se do choque momentâneo e assentiu, morosamente.
— C-Claro, por favor! – gaguejou, confuso, e balançou a cabeça, como se quisesse clarear o raciocínio. Disfarçou a cara de espanto, suavizando a careta – Vamos no meu quarto, eu nunca vou conseguir explicar o problema sozinho. – arriscou, e Hinata se pegou dando uma risada engasgada.
Ele deu as costas, voltando a subir de dois em dois, e ela não precisou ordenar que suas pernas o seguissem – foi instintivo –. Há muito não se arriscava no segundo andar da casa, e, conforme ascendia, o calor aconchegante se tornava mais pronunciado, envolvendo-a como um cobertor. No corredor, andou diretamente até o quarto de Gaara, sem precisar procurar por ele – Hinata conhecia aquele cômodo como a palma da mão.
Parou no batente, enquanto o ruivo se acomodava de volta na escrivaninha. Disfarçadamente, analisou o lugar, tomada por um tino saudoso. Todos os papéis de parede de videogame foram substituídos por ídolos grunge e pôsteres de filmes do século passado. Reconheceu um ou dois de seus preferidos. Prateleiras inteiras estavam preenchidas com livros grossos e um kit completo de béqueres em miniatura. O piso era um pouco mais escuro que o cortinado, e a cama de casal era a mesma de anos atrás, agora do lado direito, depois de um degrau. A decoração amadeirada casou perfeitamente. A escrivaninha estava perto de uma divã almofadado, na janela. Ele puxou algumas roupas para o chão, em um convite silencioso.
Hinata entrou, receosa. Manteve as mãos no bolso, sentando-se sobre uma perna e evitando fitá-lo nos olhos.
— Bem, é este aqui. – Gaara apontou para uma situação-problema com ilustrações em um livro pesado e cheio de páginas. Hinata o puxou, lendo por cima o que era pedido.
Era uma equação simples sobre funções vetoriais, onde o limite do tempo era contínuo, e apenas uma fórmula – que não era ensinada na grade comum – seria suficiente para o resultado. Pediu por um lápis e começou a rabiscar na folha de rascunho, explicando em detalhes o passo a passo da resolução. Por um momento, se esqueceu de quem era, da onde estava, e de como sua vida era uma bagunça desgraçada – gostava de calcular, gostava daqueles exercícios desafiadores e gostava de explicá-los. Gaara era um ótimo ouvinte, assentindo e murmurando conforme compreendia o que precisava fazer. No final, o vinco em sua testa tinha desaparecido.
— Uau, você faz parecer tão fácil! – exclamou, e sua voz despertou Hinata, fazendo-a ruborizar um pouco – Muito obrigado.
— Sem problemas. – murmurou – Eu levei um tempo para aprender a fazer esses também.
— Precisa dessas contas cabulosas em Administração, também? – ela percebeu que ele perguntava educada e distraidamente, conforme puxava as folhas avulsas e unia-as em um bloco amassado. Concentrado em sua tarefa, não notou o suspiro dela.
— Não, hm, é na iniciação científica. Cálculo avançado. – deu de ombros, e ele a encarou, agora prestando atenção.
— Com o professor Asuma? Que filha da puta sortuda! – gemeu, jogando a cabeça para trás meio blasé— É quase impossível conseguir uma boa indicação dele!
Hinata estacou, pega de surpresa. Gaara também pareceu perceber seu erro, porque imediatamente parou de resmungar, aprumando a postura e fechando o rosto em uma máscara envergonhada. No entanto, a garota se rendeu, despropositadamente, a um sorriso bobo, que cresceu para uma risada. Tentou controlar, abafando com a mão, e o ruivo a acompanhou, meio confuso, mas definitivamente aliviado. Quando voltou ao normal, sentia uma sensação de serenidade.
— Hinata, eu- – ela esperou, olhando diretamente para suas íris verdes. Elas estavam turbulentas, e, em uma fração de segundo, ela pôde ver tanta coisa. Um redemoinho de emoções, frases que ele queria dizer. De repente, uma angústia se formou, e Hinata quis lhe dizer tudo. Todos os sentimentos conflitantes, todos os arrependimentos, todos os segredos, todos os acontecimentos que lhe tiravam o sono.
Mas nenhum dos dois chegou a dizer algo. Foram interrompidos por Sasori, que apareceu na porta com pressa. Carregava um semblante mais leve, quase cômico, embora ainda com as sobrancelhas franzidas.
— Hina! – sua voz era urgente – Eu sinto muito mesmo, mas disse ‘pro Kiba que você foi no banheiro. – ele parecia mesmo se desculpar, e a Hyuuga, no susto, pôs-se de pé, com uma careta. Certamente ela não queria ter de explicar qualquer coisa para o namorado, naquele momento. Se virou para Gaara, já indo para a porta.
— Acho que eu já vou indo. – torceu os dedos, meio ansiosa, e definitivamente triste por ter que ir – Foi bom te ver. – murmurou, não sabendo se as palavras tinham se perdido no ar, ou se ele conseguira ouvir.
Desceu as escadas com pressa, já ensaiando um pedido de desculpas. Sua mente estava longe, em um lugar diferente, em uma vida diferente. Aquele dia, especialmente aquele dia, trouxera lembranças demais, e foi quase como se nada tivesse mudado. Se fechasse os olhos, conseguiria sentir um sopro zombeteiro por entre seus ouvidos, e até mesmo sorriria – era dolorosa a saudade, e, sobretudo, era doloroso não ter alguém para lhe dar conselhos sobre o que fazer no futuro.
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