Hermione
9 Sombras de sangue
POV Hermione
A presença dos dementadores em Hogwarts mudara tudo.
O ar parecia sempre pesado, mesmo nos dias de sol. Os corredores tornaram-se mais silenciosos e os risos mais raros. Para mim, era pior. Quando um deles se aproximava, não vinha apenas o frio — vinham vozes, sussurros antigos, ecos de uma verdade que eu tentava esquecer.
Durante o treino de Quadribol, senti primeiro a dor de Harry.
Ele perdeu o controlo da vassoura e caiu. O mundo pareceu parar.
Corri antes de pensar.
O dementador pairava no ar, aproximando-se lentamente.
Senti o medo… mas também algo mais profundo, mais escuro, como se uma parte de mim reconhecesse aquela criatura.
— Expecto Patronum! — gritei.
A luz saiu da minha varinha com força, formando um Patronus prateado e sólido, que avançou contra o dementador e o afastou.
O silêncio caiu sobre o campo.
— Ela… conjurou um Patronus? — ouvi alguém dizer, incrédulo.
As pernas tremiam quando me aproximei de Harry.
— Estás bem?
Ele assentiu, olhando para mim como se me visse pela primeira vez.
— Tu salvaste-me.
Mas dentro de mim, a pergunta não me largava:
Porque foi tão fácil?
POV Bellatrix
Soube do Patronus antes mesmo do pôr do sol.
Um feitiço daquele nível, naquela idade… só podia ser dela.
Minha filha.
Observei Hogwarts à distância, sentindo um orgulho que nunca admitiria em voz alta. Ela resistia aos dementadores. Resistia ao medo. Resistia até ao próprio sangue.
Mas outros estavam a reparar.
E havia alguém que precisava de saber a verdade antes de usá-la contra ela.
Meu sobrinho.
POV Draco
Não esperava vê-la.
Bellatrix Lestrange surgiu na rua lateral de Hogsmeade como se sempre tivesse pertencido ali.
— Tia… — murmurei, com a garganta seca.
— Draco — disse ela calmamente. — Tens andado a chamar alguém de sangue sujo.
O meu estômago revirou.
— Granger?
A varinha dela ergueu-se de imediato.
— Hermione não é isso.
— Então o que ela é? — perguntei, irritado.
Bellatrix aproximou-se um passo.
— Hermione é minha filha.
O mundo perdeu o equilíbrio.
— Isso é impossível…
— Não é — respondeu friamente. — Sou irmã da tua mãe. O sangue dela é o teu sangue.
— E o pai? — perguntei, embora já soubesse.
O silêncio confirmou.
— Então… — engoli em seco — ela é… minha prima.
— É — disse Bellatrix. — E está em perigo.
— Porque me contas isto?
O olhar dela tornou-se calculista.
— Porque família protege família. Mesmo quando discorda.
— E o Lorde sabe?
— Ainda não tudo — respondeu. — E convém que continue assim.
POV Hermione
Cruzei-me com Malfoy no corredor naquela noite.
Esperei o insulto habitual.
Ele não disse nada.
Apenas parou, observou-me por um instante longo demais… e afastou-se.
Senti um arrepio.
— Hermione? — chamou Harry. — Está tudo bem?
Assenti, mas algo dentro de mim sabia:
As sombras estavam a mexer-se.
E desta vez, tinham o meu nome.
POV Bellatrix
Vi-a uma última vez naquela noite, através dos limites da escola.
Forte. Determinada. Diferente de tudo o que eu e Tom planeámos.
— Faz a tua escolha, minha filha — murmurei. — Porque em breve… já não será só tua.
E nas sombras, o mundo começou a preparar-se para exigir o seu preço.
POV Hermione
Eu senti-a antes de a ver.
Havia algo no ar, uma pressão estranha, como quando a magia fica densa demais para ser ignorada. Saí da torre da Grifinória sem saber bem porquê, os pés levando-me sozinhos até os limites do castelo.
— Sabia que virias.
A voz ecoou atrás de mim.
Virei-me lentamente.
Bellatrix Lestrange estava ali, encostada a uma árvore antiga, o rosto mais magro do que eu me lembrava, mas os olhos… os olhos eram impossíveis de esquecer.
— Não devias estar aqui — disse, firme, tentando esconder o tremor. — Se fores apanhada—
— Não me interessa o Ministério — interrompeu. — Nem Dumbledore. Só tu.
O silêncio entre nós era pesado.
— Porque voltaste? — perguntei. — Já não disseste tudo em Azkaban?
Ela aproximou-se um passo, cautelosa, como se eu pudesse fugir.
— Não. Disse-te o suficiente para sobreviveres. Não para entenderes.
— Entender o quê? — rebati. — Que me abandonaram? Que sou filha de dois dos maiores monstros do mundo mágico?
Bellatrix fechou os olhos por um instante.
— Abandonar é deixar sem se importar. Nós escolhemos salvar-te.
— Salvarem-me? — ri, amarga. — Cresci a odiar tudo o que vocês representam.
— E isso é exatamente porque resultou — disse ela, com calma inesperada.
Olhei-a, confusa.
— O Patronus — continuou. — Um Patronus completo aos treze anos. Sabes o que isso significa?
— Que sou boa em feitiços defensivos.
— Não — corrigiu. — Significa que escolheste a luz, mesmo tendo trevas suficientes para seres consumida por elas.
As palavras atingiram-me com força.
— O Voldemort sabe que estou aqui? — perguntei, em voz baixa.
Ela não respondeu de imediato.
— Ele sente — disse por fim. — Como eu sinto. Mas não te toca. Ainda.
— Ainda — repeti.
Bellatrix aproximou-se mais um passo.
— Hermione… — disse meu nome como se fosse sagrado. — Não te peço que me chames de mãe. Nem que me perdoes.
— Então porque vieste?
Ela ergueu a mão, hesitou… e deixou-a cair.
— Para te avisar. O mundo não te vai deixar ser apenas uma rapariga inteligente da Grifinória. Vão querer usar-te. Dos dois lados.
— E tu? — perguntei. — O que queres?
Os olhos dela brilharam.
— Que sobrevivas. Mesmo que seja contra nós.
Engoli em seco.
— Eu amo o Harry.
Ela estremeceu, quase imperceptivelmente.
— Eu sei.
— E não o vou abandonar.
— Também sei.
Ficámos ali, frente a frente, dois lados de uma história que nunca pedi para viver.
— Se voltares a interferir na minha vida — disse, reunindo coragem — eu conto tudo a Dumbledore.
Bellatrix sorriu, triste.
— Tens a coragem dos Lestrange… e a consciência que eu nunca tive.
Deu um passo atrás.
— Adeus, Hermione.
— Adeus… Bellatrix.
Ela desapareceu nas sombras, deixando-me sozinha com o coração acelerado.
Mas uma coisa era clara:
Eu não era apenas filha de Voldemort.
Eu era Hermione Granger — e a escolha ainda era minha.
— Então porque vieste?
Ela ergueu a mão, hesitou… e deixou-a cair.
— Para te avisar. O mundo não te vai deixar ser apenas uma rapariga inteligente da Grifinória. Vão querer usar-te. Dos dois lados.
— E tu? — perguntei. — O que queres?
Os olhos dela brilharam.
— Que sobrevivas. Mesmo que seja contra nós.
Engoli em seco.
— Eu amo o Harry.
Ela estremeceu, quase imperceptivelmente.
— Eu sei.
— E não o vou abandonar.
— Também sei.
Ficámos ali, frente a frente, dois lados de uma história que nunca pedi para viver.
— Se voltares a interferir na minha vida — disse, reunindo coragem — eu conto tudo a Dumbledore.
Bellatrix sorriu, triste.
— Tens a coragem dos Lestrange… e a consciência que eu nunca tive.
Deu um passo atrás.
— Adeus, Hermione.
— Adeus… Bellatrix.
Ela desapareceu nas sombras, deixando-me sozinha com o coração acelerado.
Mas uma coisa era clara:
Eu não era apenas filha de Voldemort.
Eu era Hermione Granger — e a escolha ainda era minha.
POV Hermione
Não contei a ninguém naquela noite.
Voltei para a torre com o coração acelerado, repetindo a conversa vezes sem conta na cabeça. Bellatrix não me ameaçara. Não me pedira nada. Isso era o que mais me assustava.
Ela parecera… sincera.
— Hermione? — Harry chamou baixinho quando me sentei na cama. — Estás estranha desde que saíste.
Olhei para ele. Quis contar. Juro que quis.
Mas as palavras ficaram presas.
— Só estou cansada — menti.
Ele não insistiu, apenas segurou a minha mão por baixo das mantas.
— Se for algo que te assuste… não tens de passar por isso sozinha.
Fechei os olhos.
Eu sei. Mas ainda não.
POV Hermione – sonho
Acordei a meio da noite, mas o quarto já não estava lá.
Eu estava num espaço vasto e escuro, como uma câmara sem paredes. O ar cheirava a pedra antiga e magia velha.
— Hermione.
A voz não vinha de um lugar específico. Vinha de todo o lado.
— Não te escondas de mim.
Senti um arrepio percorrer-me o corpo inteiro.
— Não sou tua — respondi, mesmo sabendo quem era.
Uma figura começou a formar-se à distância. Alta, indistinta, incompleta.
— Ainda — disse Voldemort com suavidade. — O sangue chama sangue. Sempre chama.
— Eu escolho quem sou.
Houve uma pausa. Depois, algo que quase pareceu… curiosidade.
— Veremos.
Acordei ofegante.
POV Harry
Ela teve um pesadelo. Eu senti.
Hermione acordou assustada, o corpo tenso, os olhos cheios de algo que não era apenas medo.
— Sonhos outra vez? — perguntei.
Ela assentiu, abraçando-se a mim como se precisasse de ter a certeza de que eu era real.
— Harry… — começou, hesitou. — Se um dia descobrires algo sobre mim que não gostes…
— Não vai mudar nada — respondi de imediato.
Ela levantou o rosto.
— Prometes?
— Prometo.
Ela encostou a testa à minha.
E eu não fazia ideia do quanto essa promessa seria testada.
POV Dumbledore
Observei a Srta. Granger com atenção redobrada nos dias que se seguiram.
O Patronus precoce.
A proximidade com os dementadores sem colapso.
E agora… sonhos.
— A magia antiga manifesta-se de várias formas — murmurei para Minerva. — E algumas linhagens despertam mais cedo do que deviam.
— Acha que é influência externa? — perguntou ela.
Sorri levemente.
— Acho que Hogwarts voltou a ser observada.
POV Hermione
Cruzei-me com Draco Malfoy na biblioteca.
Ele não disse nada. Não provocou. Apenas me olhou e inclinou ligeiramente a cabeça antes de se afastar.
Aquilo confirmou o que eu já sentia.
Bellatrix não veio só para se despedir.
Naquela noite, escrevi no meu diário (o normal, não mágico):
Não posso negar o sangue que corre em mim.
Mas também não posso deixar que ele decida por mim.
E pela primeira vez desde que descobri a verdade, senti algo próximo de paz.
Ainda que frágil.
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