"Você pode me ouvir?
Pode me sentir em seus braços?
Segurando meu último suspiro,
salvo dentro de mim;
Estão todos os meus pensamentos sobre você.
Doce luz raptada, isso termina aqui esta noite"
(My last breath — Evanescence)

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Já amanhecia em Jakku e Ben preparava-se para seguir viagem em direção ao entreposto de Niima. Ele juntou alguns suprimentos gentilmente oferecidos pela família de Gaia bem como roupas velhas para sua proteção contra o Sol. Gaia estava acordada também, já bem cedo, organizando as tarefas do dia, planejando-se para seguir com seus afazeres e rumar junto com seus irmãos a procura de relíquias. Era sua forma de sobreviver.

Mas então eles escutaram um burburinho vindo de algum lugar perto da aldeia, e logo Ben preparou-se para o que poderia vir. Já estava acostumado a viver na defensiva. Gaia e os irmãos também colocaram-se em alerta, com os bastões empunhados esperando pela chegada do som. Assim logo viram que não precisavam se alertar tanto. Eram dois homens e uma criança vindo. E eles pareciam cansados, não estavam na tarefa de ataca-los ou algo do tipo.

"Ajuda! Por favor!" Foi Poe quem primeiro clamou. Ele estava com a menina no colo ainda e Gaia quando viu que o rapaz ia cair pegou a criança de seu colo evitando que ela se machucasse. Em seguida a colocou no chão e aproximou-se de Poe.

"O que aconteceu!?" Ela perguntou no instinto e nisso Ben começou a se aproximar para ter uma melhor visão do que acontecia.

Foi então que seu mundo ganhou cor. Ele aproximou-se lentamente ainda mantendo a distância, e ele não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo. Seu sangue subiu para a cabeça, sentiu toda a porção de seu crânio formigar, e sua respiração agora era pesada, parecia impossível inspirar. Seu coração se acelerou de um modo que ele pôde sentir os batimentos rápidos contra o isso esterno e agora suas pernas estavam fracas, bambas e tremendo, e ele mal conseguia se segurar em pé.

Como aquilo era possível? Estava tendo uma miragem, uma visão? Não. Era ela, era Kira. Ele a reconheceria em qualquer lugar do Universo. E ela usava os três coques como de costume, e ele emocionou-se ao ver que ela ainda o penteava dessa forma. Sentiu a dor, há quanto tempo ela estava esperando por eles a ponto de estar usando ainda a mesma roupa do dia em que ela foi embora? Ela ainda tinha esperança, e isso abalou Ben de tal forma que ele não conseguiu dizer nada ou reagir, ele perdeu a voz enquanto em sua mente ele gritava o nome de sua filha.

Mas haviam dois rostos conhecidos também, Poe e Finn, o que estavam fazendo com a menina? No impulso ele sentiu raiva da forma como Kira veio nos braços de Poe. Então ele se aproximou um pouco mais até que finalmente sua voz saiu. Fraca, desesperada. Ele disse o nome dela em um sussurro que quase não saiu. Nisso os dois rapazes e também Gaia olharam direto para Ben, e surpreenderam-se quando Kira, ao olhar para o homem, gritou a palavra papai.

Ela correu em direção a Ben, num surto frenético e numa ânsia antes não vista por Poe, que houvera vivido com ela por tempo significativo para conhecer algumas de suas reações. Então Ben abaixou-se e abriu os braços enquanto a pequena lançava-se sobre seu colo. Ele a abraçou e a tirou do solo, girando-a em seu próprio eixo mas ele não podia dizer que estava feliz. Ele estava confuso, ele não compreendia sua própria visão.

A menina estava em seus braços, mas quantas vezes antes houvera sonhado e ela esteve ali com ele? Quantas vezes ela se esvaiu em seus braços. Não, ele não podia estar sonhando. Pela Força, não havia sentido. Ele mesmo deu a ordem para que todas as pessoas da vila morressem, ele mesmo viu os troopers atirando e as mulheres e crianças caindo sem vida no solo.

Kira, por sua vez, sentiu uma força invadir todo seu ser quando ela olhou para o lado e viu a imagem do pai. Mal pôde acreditar que o dia que ela tanto ansiou tinha finalmente chegado. Suas esperanças estavam quase nulas, mas, por algum motivo, tudo tinha dado certo agora. E ao vê-lo depois daquele tempo todo fez com que tudo sumisse. Não estava mais sozinha, mesmo que na presença de seus mais amados amigos, pois sem os seus pais ela não seria nada. Ela os amava com tanta força que não pensou em consequência nenhuma, apenas voou em direção aos braços que tanto essa se sentia acolhida.

Mas então Poe e Finn aproximaram-se de forma rude apontando a blaster na direção do homem e gritando para que ele ficasse longe de Kira. Finn estava agressivamente tentando tirar Kira de seu colo, que gritou pelo pai em desespero. Ben não ia deixar. Ele a segurou com mais força ainda, enquanto ouvia os apelos desesperados de Kira.

Então num surto inconsciente Ben fechou os olhos e agiu como o antigo Kylo Ren faria, e quando abriu os olhos, tanto Poe e Finn quanto Gaia e os irmãos estavam no chão há alguns metros distantes de Ben, caídos.

Os parceiros se levantaram com cuidado, ainda com as blasters em posição, mas agora na defensiva e aproximando-se lentamente do homem.

"O que está acontecendo? Como assim ela está te chamando de pai!?" Poe estava incrédulo. Não precisava muito para entender o motivo, mas a ficha não lhe caia, e era impossível. Ou melhor, como aquilo era possível?

"Por acaso é burro, piloto?" Ben respondeu falhando em manter a calma e a filha enterrou o rosto no pescoço do pai enquanto ambos os braços seguravam-se ao redor dele. Ela o segurou forte, tentando impedir que a tirassem dele, de novo.

"Como, como isso é possível?" Poe retrucou.

"Fique longe da minha filha!" Ben rosnou para ambos, e agora até Gaia não entendia mais nada. Estava chocada com a expressão dos poderes de Ben. Já havia ouvido sobre a Força mas nunca houvera visto algo assim de perto. Em questão de segundos ela sentiu algo como um choque a empurrando pra trás, como uma bomba que explodia.

"Papai, eles são meus amigos!" Kira disse para acalmar Ben. "Eles são legais comigo! Eles me salvaram!"

"O que, espera?" Poe aproximou-se um pouco mais. "Kira, minha princesa, ele é mesmo seu pai!?" Perguntou.

"Sim!" Respondeu com um sorriso. "Sim, tio Poe."

"Tio Poe?" Agora quem estava na dúvida era Ben.

"É de consideração!" Respondeu ríspido. "O que faz em Jakku!? Não deveria estar com a Primeira Ordem?"

"Eu desertei." Ben respondeu e Finn deu uma leve gargalhada sem humor.

"Quem é a mãe da sua filha?" Finn aproximou-se e perguntou pois em seu interior havia uma desconfiança incômoda, ele não queria essa confirmação.

Então Ben virou o rosto para Kira. "Se lembra do nome de sua mãe?" Kira assentiu timidamente com a cabeça. "Diga a eles o nome dela, então." Ele pediu.

"Minha mamãe se chama Rey." Kira obedeceu ao pai.

"Espera, o que?" Finn indagou ao perceber que não era mentira. "Como? Cadê ela? Cadê Rey? O que aconteceu com ela?"

Finn agora já estava maluco. Como assim? Rey era a mãe de Kira? Estava ficando louco. Então Ben pediu para que os rapazes se acalmassem e explicou toda a história. Contou que conheceu Rey na academia de Luke, e que houveram se envolvido e disso nasceu Kira. Disse que depois se juntou com a Primeira Ordem e Snoke deixou a menina no planeta quando fora indagado estupidamente o porquê de ter abandonado a filha.

"Você não disse que ela estava morta?" Gaia então se aproximou também confusa, mas tinha um sorriso no rosto, pois ao contrário da dupla, ela podia sentir a felicidade do reencontro.

"Sim, eu achei que ela estava. E Rey também achou. Foi por isso que ela foi embora. Ela achou que era minha culpa."

"E foi sua culpa tudo isso!" Poe rosnou e Ben o fitou com raiva. "Vamos Kira, está ótimo. Temos que ir." O jovem piloto aproximou-se em direção a Ben disposto a pegar Kira, mas Ben virou-se para o lado, segurando a filha ainda mais forte em seu colo e lançando um olhar odioso em direção a Poe.

"Não vai levar ela a lugar nenhum." Ele rosnou, e Poe deu alguns passos pra trás, preferiu não enfrenta-lo. Ele ainda tinha um olhar de Kylo Ren nessas horas.

"Não estou acreditando que Rey se envolveu com você!" Finn ainda incrédulo comentou. "Então vocês não se lembravam de nada? Como isso é possível?" Ele fazia as perguntas para si mesmo, não para Ben, não era dele que ele esperava as respostas.

Ben revirou os olhos para Finn, de certa forma incomodava-se com a forma como eles davam tanto pitaco na vida dela, sendo que ele a conhecia há muito mais tempo do que Finn jamais pudera ter sonhado.

Ele continuou a aninhar Kira. Sussurrou para a filha o quão grande ela estava, o quão forte tinha crescido. Ele sorriu para ela e ela fez o mesmo, abraçando-o e confessando o medo que sentiu de nunca mais encontrar seu pai. Ela disse a ele que o amava, que sentia tanto a falta dele. Então Ben ajoelhou-se na areia e continuou a abraçar a filha, não queriam se separar, eram dois anos de distância e ausência sendo desfeitos agora. Nessa altura ambos estavam chorando. Kira soluçava ao perguntar o porquê de ele ter ido embora.

Ben começou a implorar pelo perdão de Kira, dizendo o quanto se arrependia por ter saído na noite anterior. Preferiu não falar ainda sobre o que realmente aconteceu, quando ela perguntou ele disse que o papai precisou trabalhar para a Primeira Ordem, mas que levaria ela e a mãe junto, mas então Snoke, o homem mal, não deixou que eles se juntassem. Kira deu-se por satisfeita pois afinal ela sabia que tinha sido deixada por aquela criatura asquerosa em Jakku. Mas era nova demais para compreender as motivações de Ben.

Poe torceu o nariz quando Ben disse que teve de fazer trabalhos para a Primeira Ordem, como se tudo aquilo que ele fez tivesse sido o mínimo. Tivesse sido um nada. Ele não interferiu, sabia que não cabia a ele resolver esses assuntos. Mas agora estava confuso, tinha de voltar com Kira e estava com Ben Solo, ou Kylo Ren, a sua frente e ele não o deixaria levar a menina.

Mas quando Poe declarou que Ben estava sendo apreendido pela Resistência e seria obrigado a voltar com eles para a base em D'Qar, surpreendeu-se com a forma com a qual o homem não resistiu. Ele inclusive revelou que esta era sua intenção desde o começo, e que, pelo menos por agora, o lugar mais seguro para Kira era com a Resistência e ele ao seu lado.

Disse também que não sabia onde estava Rey, explicou o ódio que ela estava sentindo, a crença de que a filha estava morta e de certa forma eles gostaram de saber que Rey o quis morto. Mas estavam preocupados agora, não sabiam por onde ela estava e provavelmente teriam recebido notícias caso ela tivesse sido identificada pela Resistência, ou mesmo pela Primeira Ordem.

Poe então acionou o resgate da Resistência e Ben seguiu junto a Kira em direção a base, sem hesitar.
Ben sentou-se com a filha em seu colo, e a aninhou em seus braços agora que podia ver a expressão sonolenta da pequena.

Ele ficou em silêncio por esses minutos, analisando cada centímetro de pele no rosto da filha, cada marca de expressão, cada sarda que lhe percorria o nariz identificando nela as expressões que ele via em Rey. Kira possuía muito da genética de sua mãe em suas feições, menos pelos olhos, que todos sabiam que eram iguais aos dele. Ele sorriu, estava explodindo em felicidade e gratidão por um milagre ter salvo Kira dele mesmo. Depois disso começou a afagar o cabelo da pequena, não podia perder mais nenhum minuto da evolução de sua amada filha agora.

"Entao você desertou. Olha só. O Kylo Ren, o tão imponente e temido mestre dos Cavaleiros de Ren agora nas mãos da resistência." Finn disse com empolgação.

"Está achando engraçado, traidor?" respondeu Ben arisco. "Já disse pra parar de me chamar por esse nome. Sou Ben!"

"Devia agradecer ao Finn, se não fosse pela traição dele sua filha estaria morta. Foi ele quem permitiu que o grupo dela fugisse."

"Eu sei " Ben Respondeu. "Eu reconheço isso e agradeço pelo que fez."

"Não fiz por você!" Respondeu de prontidão ainda na sua dancinha. "Não to nem aí pra você. Escória trevosa." Disse com deboche.

"Da pra falar mais baixo? Vão acordar Kira."

E no silêncio que se iniciou, Ben voltou a analisar a filha, lembrando-se de sua pacata vida em Gesin, de sua filha ainda bebê. Do dia em que ela nasceu e ele se sentiu tão feliz mesmo que desesperado. Também preparava-se interiormente para enfrentar a chegada a Base da Resistencia. Após anos enfrentaria sua mãe novamente, em um jeito particular.

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