Herdeiros do Império - (Reylo)
31 Penitência
"Tudo está bem agora,
vamos dormir aonde os cães dormem;
Nossas decisões já foram tomadas,
nós causamos isso;
Ninguém está fora do tempo, não.
O que será, será;
Deixe tudo para trás,
deixe o oceano levar tudo embora."
(Religion — Lana Del Rey)
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Parecia um moribundo perambulando pela areia. Ben caminhava sem rumo, eternamente, por vezes se rastejava, por vezes ficava paralisado no solo ali mesmo, esperando pelo fim. Mas seus instintos mais profundos, a ânsia por sobrevivência de sua espécie todas as vezes o trazia forças para se salvar. Era como alguém que tentasse prender o ar, você poderia tentar, poderia segura-lo o maior tempo que sua vontade de morrer quisesse, mas seu cérebro, seu bulbo, ele não o deixaria se sabotar. Ele te obrigaria a respirar, ele te obrigaria a voltar a viver. As espécies não foram feitas suicidas, elas foram feitas para prosperar.
Por esse motivo ele continuou. Havia algo dentro dele, algo muito maior que qualquer força, que não o deixava parar. Ele estava com fome, sede, estava com a pele desgastada, o rosto queimado pelo Sol, protegendo alguns centímetros pelos pedaços de pano que rasgara de sua túnica para cobrir uma parte.
Estava anoitecendo, pelas contas ele deveria estar andando há pelo menos dois dias do horário de Jakku, e o frio começou a invadir o deserto, novamente. Durante o dia o Sol lhe arrancava até a última gota de suor, e durante a noite o frio não o permitia dormir. Estava tremendo já, tencionando os músculos, encolhendo-se em sua própria existência quando viu uma breve luz. Ele achou que aquela fosse a hora. Seu corpo não aguentou mais, ele caiu sob seus pés, novamente acompanhando-se da areia, e suspirando suas últimas expirações de vida, até que ouviu uma voz feminina aproximando-se, passos rápidos acompanhando.
"Pela Força! " A voz disse, e com sua visão embaçada ele pôde enxergar a figura distorcida de uma mulher.
"Rey?" Ele sussurrou fechando os olhos, desistindo.
Nesse momento ele apagou. O vazio e eterno tomando conta de sua visão. Um sono profundo que o teria levado embora, sem noção da Graça que estava recebendo. Ele acordou com golpes de água na face, ouvindo vozes clamando para que ele acordasse, e quando abriu os olhos ainda era noite, mas agora não via estrelas, e sim um teto de palha e três rostos. Dois homens e uma mulher.
"Pela Força!" Ela disse de novo dessa vez agradecendo, suspirou aliviada. "Achamos que tivéssemos perdido você!" Quando ele se deu conta de que estava ainda vivo ele levou um susto, tentou esquivar-se, mas fora impedido pelos dois rapazes. "Calma!" A moça disse novamente. "Estamos aqui para ajudá-lo! Céus, você está péssimo."
E então ela lhe ofereceu uma caneca, e sem ao menos pensar Ben a tomou de sua mão e engoliu o líquido que compunha num gole só.
"Mais!" Ele ordenou. "Por favor..." Se policiou, não eram seus subordinados.
A jovem o analisou com complacência e lhe entregou mais água. Agora ele recuperava a visão e definitivamente, ele já sabia, aquela não era Rey. Era uma moça que aparentava ser pouca coisa mais nova que ele, talvez entre a idade dele e a de Rey, e ela possuía cabelos bem compridos, lisos e negros, os olhos ligeiramente puxados, o rosto arredondado, era bonita e forte.
"Aqui, tome." Ela disse preocupada, depois virou-se para pegar alguma comida para ele. Ele devorou o que a jovem lhe ofereceu de novo, sob os olhares curiosos do trio. Ele então agradeceu aquelas pessoas, não se lembrava da última vez em que agradecera por algo.
"Me chamo Gaia, e esse é Roger e Adonis. E você, como se chama?" Ele os olhou desconfiado, hesitante. "Pode nos dizer."
"São da Resistência?" Perguntou de modo rude. "Ou da Primeira Ordem? Ou alguma merda de ordem?"
"Não!" Gaia sorriu negando com a cabeça. "Somos de Jakku." Ela continuou a fita-lo. "Está com medo?"
"Não!" Respondeu quase a interrompendo. "Meu nome é Ben."
"Ben... Ben da onde?" Ele permaneceu com o olhar desconfiado. "Pode dizer, não vamos te fazer mal."
"De Chandrila." Respondeu.
"Okay, Ben de Chandrila, pode nos dizer como veio parar aqui? O que está fazendo no deserto?"
Então Ben explicou a ela vagamente que fora deixado no local por alguém, e que estava andando sem rumo sem saber o que fazer da própria vida. A essa altura Gaia mal podia acreditar que o homem estava vivo, mas sua história era definitivamente confusa, difícil de processar, e ele não parecia do tipo que revelaria os detalhes facilmente.
Com um tempo Ben passou a se acostumar com a hospitalidade do grupo. Ele foi recebido pelos demais membros da família, que viviam nesse local isolado, e foi cuidado por eles por pelo menos uns três dias. Gaia era atenciosa, tinha um sorriso bonito, ela era bondosa, e Ben sabia que não merecia aquilo. Todas as pessoas que um dia foram gentis com ele, o que ganharam em troca? Muitas estão mortas hoje, muitas morreram pelas mãos dele, e o sentimento de arrependimento e amargura sob ele crescia cada vez mais.
Ben era um nada, autodenominava-se como um nada. Ele não merecia piedade, ele precisava sofrer. Ele matou a própria filha por ganância, pelo menos mil anos de penitência ele merecia. Morrer em Jakku não era o suficiente, a morte ia apagar aquilo, apagar a dor, e ela precisava ser sentida.
Depois dos três dias Ben resolveu se abrir com Gaia e lhe contou toda a história, exatamente como ela era, sem tirar nem por, e revelou-se como Kylo Ren. Ele esperava que a moça tivesse medo dele, mas ela preferiu entender. Ela entendeu que ele amava a filha, que sua dor já era o suficiente para sua redenção. Ben finalmente estava se redimindo. Só o amor por sua família poderia fazer aquilo. Mas não bastava a redenção, ele ainda precisava pagar.
Então no meio da conversa, quando Gaia perguntou quais eram os planos de Ben, ele disse que não os tinha, mas que se pudesse se entregaria para a Resistência e que eles lhe aplicassem a maior penitência que considerassem. Que sua própria mãe o julgasse, ele precisava expurgar, ou não teria paz junto à Força nunca. Gaia disse que não sabia como ajudar, que há tempos não ouvia falar sobre intervenções da Resistência no planeta. Disse a Ben que ele poderia ficar lá pelo tempo necessário, explicou sobre a existência do entreposto de Niima a alguns quilômetros dali, e que talvez alguém por lá poderia lhe ajudar melhor a contatar a Resistência.
"Pode ir até lá, com certeza alguém tem informações. A Resistência já esteve por lá, geralmente há viajantes também, com certeza alguém pode te ajudar. Talvez a Resistencia entenda."
"Não precisam entender." Disse Ben. "O que fizerem comigo já está de bom tamanho, eu devo me tornar um prisioneiro de guerra deles, e é o que eu mereço."
"Okay, Ben. Como você achar melhor. Deve seguir para a direção do por do sol, seguindo em linha reta em algum tempo chegará a um local amplo, com comércio. Adentrando chegará até Niima, deve chegar a Unkar Plutt, ele deve ser quem mais tem informações."
"Farei isso pela manhã Gaia, muito obrigada."
Ben então se levantou e seguiu até o leito improvisado que houveram preparado pra ele. Ficou quieto de novo, contemplando sua própria dor. Ben já houvera escutado sobre o entreposto de Niima, era o local do qual Rey tinha vindo. Unkar Plutt também não lhe era um nome incomum, mas não tinha precisão sobre as informações.
Então ele se abraçou com os próprios braços e deitado de lado sentiu a lágrima deslizar de seus olhos, andar pelo nariz e depois chocar-se com o solo passando pela boca antes. Mais uma vez, aquele homem, chorava. Que fraqueza era essa? Como podia alguém tão pequenininho significar tanto? Como podia amar tanto alguém ao ponto de doer tanto a sua inexistência? Perambulava entre a vontade de morrer e a necessidade da punição. Haviam dois lados em colisão, como sempre houve dentro dele.
Não era mais o mesmo, não era mais trevas, Kylo Ren estava morto. Mas definitivamente ele não era luz, e ele não possuía mais um lado. A própria Força agora era um vazio dentro dele.
Gaia estava hesitante, não queria imaginar o que aconteceria se Ben se rendesse, temia o que poderia acontecer com ele, em pouco tempo houvera se apegado ao rapaz, talvez até de um jeito a mais que seus sentimentos permitiam, mas ela sabia que ele, apesar de tudo, amava a ex esposa. Mas aquele era um pedido dele, ele queria redimir-se perante a Galáxia, e ela não podia tirar isso dele. Ben Solo estava abrindo mão das trevas, finalmente.
Na mesma noite, há alguns quilômetros da aldeia de Gaia, estava acontecendo um evento clandestino.
"É ela!" Poe exclamou para Finn ao seu lado, num sussurro. Estavam no fundo do lugar, por trás das mesas que comportavam os seres bem abastados da galáxia, e alí estavam num leilão.
Kira estava sendo vendida como escrava, estavam anunciando a menina como uma mercadoria, e já haviam passado por isso diversas outras crianças antes dela.
Pelo que Poe se lembrava dela, a menina parecia muito mais fraca e abatida, triste. Ela não se esforçou para esconder a dor, nem o quão maltratada estava, e era o próprio Unkar Plutt quem estava a leiloando, falando sobre como a menina poderia ser útil e que com o tempo ela ganharia diversas outras funções.
Ela era pequena, então ele dizia que seria fácil domá-la. A verdade é que Unkar sabia que Kira não era fácil de se controlar, e quanto antes pudesse se livrar dela, melhor. Ele ganharia por isso e ainda deixaria para trás a baita encrenca.
Então Unkar conseguiu vende-la para um Hutt abastado e o sorriso que se formou em seus lábios fez Poe querer vomitar. Como podiam tratar as pessoas daquele jeito? Como um nada. Por ele sairiam atirando por ali até que pegassem a menina.
Eles esperaram a madrugada chegar enquanto ficavam de plantão escondidos nos fins da hospitalidade do novo dono de Kira.
Quando todos estavam aparentemente dormindo e não seriam interrompidos, eles aproximaram-se mais e avistaram a pequena amarrada a tubos de metal com correntes e uma coleira em seu pescoço. Ela estava de olhos fechados, não sabiam se dormia ou agonizava, pois a respiração era fraca e ela quase não se mexia. Devia estar sem comer há dias.
Ele decidiu agir logo. Poe e Finn lentamente seguiram até a menina, e quando Poe viu os olhos dela se abrirem lentamente, ele deixou o sorriso invadir sua face.
"Princesa!" Ele sussurrou e ela arregalou os olhos se encolhendo. "Sou eu, o tio Poe."
Então ela foi recuperando a noção de tudo e então o reconheceu, ela se atirou em seus braços e apertou os olhos chorando.
"Tio Poe!" Ela disse eufórica, fazendo com que Poe pedisse para que ela diminuísse o tom.
"Vamos tirar você daqui!" Ele falou no meio do sorriso analisando as correntes e procurando por alguma coisa que pudesse tirá-la dali. Mas agora já era tarde, as luzes acenderam em meio circulo em torno do grupo, e agora o Hutt que havia comprado ela tinha seus capangas ao lado prontos para impedirem os dois membros da Resistência.
Poe levantou os braços então como se estivesse se rendendo, pedindo calma e com charme tentando convencê-los a uma conversa. Mas não deu em nada, o que lhe restou foi agir rápido e sacar a blaster e atirar em direção à milícia. Todo o plano de não chamar atenção, tudo por água baixo.
Haviam corpos espalhadas pelo chão, e Finn em choque só fez repetir as ações de Poe e sacar sua blaster e ajudá-lo a acabar com as criaturas. Enquanto isso Kira se encolhia e apertava os olhos protegendo-se dos tiros.
Entao o hutt estava agora no chão, assim como os milicianos que gemiam enquanto esvaiam a vida. Poe correu até o corpo caído no chão e inspecionou os pertences dele enquanto Finn permanecia ao lado de Kira agora a aninhando fazendo uma barreira para ela.
Poe vasculhou até que achou um molho de chaves. Ele correu até Kira e testou cada uma das chaves até que finalmente conseguiu desacorrenta-lá.
"Precisamos fugir, agora!" Poe gritou pegando Kira no colo e a dupla começou a correr.
Ao longe ouviam um barulho estranho, o som de veículos se aproximando, mas continuaram correndo, e não sabiam exatamente o que seria aquilo, quem estaria indo atrás da menina.
Entraram no deserto sem rumo, avançando em direção ao desconhecido, longe demais de seus pertences e naves para procurar por uma rota diferente. Agora o barulho estava mais próximo, e constataram ser mais milicianos a medida que se aproximavam.
Finn sacou sua blaster novamente e começou a atirar em direção aos três capangas que vinham em speeders correndo atrás deles e atirando contra o trio. Foi então que Poe levou um tiro na altura do ombro esquerdo e caiu com Kira em seu colo. Não pensou muito, o instinto o fez colocar-se totalmente por cima do corpo da garota, e ele começou a orar para a Força para que ela fosse protegida.
Kira estava totalmente embalada pelo corpo de Poe enquanto Finn continuava a atirar contra os três. Então um silêncio ocorreu e Poe temeu em olhar para trás esperando que Finn estivesse no chão. Mas quando olhou não foi o que viu, mas sim os três corpos jazendo no chão e seu companheiro com uma feição assustada pois os três haviam caído ali em sua frente, duros, como robôs que haviam sido desligados.
Não sabia dizer de aquilo fora um milagre, se fora algo relacionado a força, ou simplesmente sorte, mas por ora não queria duvidar de mais nada. Então Poe se levantou e olhou pra Kira, ela estava muito assustada, e ao redor dela ele viu uma luz envolvendo-a. Ele então abriu a boca em formato de o e com Finn compartilhou o espanto.
"Está vendo o mesmo que eu?" Perguntou Finn esfregando os olhos para ter certeza.
"Sim." Poe respondeu. Kira era muito mais do que uma criança qualquer.
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