Havia um incômodo, uma certa dor. Havia também paz e felicidade. Havia a ansiedade de olhar a face da pequena criança pela primeira vez, bem como o receio em não saber exatamente o que esperar do futuro.

Mas era assim, sempre seria. O futuro era incerto, e Rey preferia viver o agora, o amor ao lado de Ben, Kira, e o bebê.

"Respira." Disse Ben enquanto acariciava a testa da esposa deitada sob o leito enquanto as mãos apertavam os lençóis.

Haviam parteiras no recinto, bem como enfermeiros e médicos. Até mesmo Dorn garantiu sua presença. Rey continuou a respirar fundo, de forma exasperada enquanto o suor lhe percorria as têmporas e o medo misturado à alegria percorria-lhe a espinha.

Um... dois... três... respira... e continuou assim por um bom tempo até que o intervalo entre as contrações diminuísse exageradamente.

"Ben!" Ela chamou num agouro, fortemente apertando a mão do marido. Ela estava cansada, desgastada, e tudo pelo que ela rezava era que o filho nascesse bem.

Foi então que finalmente ouviram o choro, a satisfação pairar no ar, pois afinal ele estava ali, e vivo, e bem...

As enfermeiras limparam o bebê sob os protestos de Rey que queria apressadamente conhecer sua criança.

"Está tudo bem!" Dizia o marido em lágrimas de felicidade enquanto um sorriso largo era estampado na face.

"Eu quero meu bebê." Ela disse já mais fraca, cansada. Os olhos quase se perdendo no sono, um desespero em se afastar da criança que somente uma mãe que fora separada de um filho uma vez poderia entender.

"Está aqui." Ela ouviu alguém dizer, uma das enfermeiras, e momentos depois a criança estava finalmente em seus braços, movimentando seus pequenos membros enquanto explorava a vida e sentia pela primeira vez o conforto do colo de sua mãe. "É um menino!" Disse.

Rey abriu um singelo sorriso enquanto os olhos se fechavam e ela acariciava a pele do bebê com a ponta de seu nariz inalando o cheiro ferroso do sangue ainda impregnado na criança.

"Ele é tão especial!" Rey complementou enquanto beijava a testa do bebê lhe dando as boas vindas ao mundo. "Você é tão amado, bebê!"

O olhar de Ben encontrou-se com o da esposa e agora ambos compartilhavam o sorriso. Os olhos dela também estavam marejados, e era aquele tipo de felicidade que Rey se perguntava se um dia voltaria a sentir, e a resposta era sim.

"Ele é forte!" Comentou Ben timidamente sem saber de forma exata o que dizer.

"Ele é." Concordou Rey. "Forte como Kira!" Então ela aproximou sua testa da dele, e eles ficaram por alguns segundos apreciando a proximidade até que Rey sussurrasse: "Ben, obrigada por não ter desistido de mim!"

"Por que eu desistiria de você?" Ele a encarou. "Você nunca desistiu de mim." E assim Rey recebeu um beijo de Ben em seus lábios, terno e amoroso. "Como iremos chamá-lo?" Rey levantou os olhos, permaneceu por um tempo até que disse para Ben que ela havia escolhido o nome de Kira, então nada mais justo que ele escolhesse o nome do bebê. Ele sorriu, sentiu-se gratificado com a chance, até que finalmente revelou: "Eu gosto de Jacen."

"Jacen?" Levantou Rey as sobrancelhas. "É bonito, e até combina com ele."

"Meu pai gostava desse nome, dizia que me chamariam de Jacen antes de decidirem por homenagear Ben Kenobi."

"Kenobi." Ela sorriu ao repetir. "Jacen Kenobi Solo."

Algum tempo mais tarde, Rey já um pouco mais recuperado e o bebê totalmente limpo e amparado com roupinhas quentes, o casal recebeu as primeiras visitas do dia: Leia, Owen e Kira.

A euforia de Kira era a mais perceptível, a menina andava agitada pelos corredores perguntando pelo novo bebê fazendo com que Leia precisasse de certa forma acalmar seus ânimos.

Quando entraram no recinto, Kira correu em direção à mãe e viu pela primeira vez o irmãozinho. Seus olhos se encontraram, e o menino arregalava-os tentando entender as palavras de Kira com uma feição curiosa e confusa.

"Oi irmãozinho!" Ela disse já com intimidade. "Eu estava te esperando! Vamos brincar muito agora." Ela riu e foi para o lado de Ben, que a aninhou com um dos braços. Em seguida Leia e Owen se aproximaram.

"Rey!" Exclamou Leia dando-lhe um beijo gentil na testa.

"Mãe, este é o Jacen!" Disse Ben com certo orgulho, sabendo que a mãe entenderia exatamente o motivo pelo qual lhe deram esse nome.

"Seu pai..." Leia sorriu e depois os olhos marejaram. "Seu pai deve estar contente, Ben!" Ela então voltou o olhar para o neto. "Bem-vindo Jacen! Você será muito amado e cuidado, meu querido!" E o bebê continuava a encarar as pessoas em busca dos sons.

Owen foi para o outro lado do leito para se aproximar da filha. Ele se abaixou até o nível de sua face, confortando Rey com apertos nos ombros.

"Ele se parece muito com Ben!" Owen ousou um sorriso tímido entre o casal e Rey sorriu ao saber que pelo menos seu pai estava tentando, por mais difícil que pudesse parecer.

Algum tempo se passou, as coisas estavam finalmente começando a se ajeitar, e Rey e Ben finalmente podiam curtir um pouco a vida nova que estava em seus braços, bem como fornecer a Kira a atenção, amor e carinho que por tanto tempo foi ausente.

A Primeira Ordem havia sido extinta, a Repúplica era o sistema vigente agora e estava inicialmente ligada ao êxito da Resistência. Os planetas que ainda apoiavam-na agora uniram-se a Leia sem medo, e o Conselho Intergalático ainda tinha coisas a resolver em relação aos condenados da Primeira Ordem, e Ben estaria entre eles, é claro, ainda havia um julgamento para ele.

Os representantes dos maiores sistemas democráticos reuniram-se todos no Conselho e ouviram o que os membros da Resistência tinham a dizer sobre Ben Solo.

Haviam crimes praticados por ele, mas a dominância de Snoke por suas ações e sob a maioria dos Cavaleiros de Ren, foi colocada muito em pauta. Também foi considerado todo o auxílio de Ben com os planos da Resistência, e até mesmo Owen colocou-se em defesa do genro pouco adorado.

"Tive muitos problemas em aceitar a existência de Ben Organa Solo na vida de minha filha, mas não posso negar e fingir que não vejo os esforços do rapaz. Ele se redimiu, não olhou para trás quando deixou a Primeira Ordem, e ainda se sacrificou por Renesmy quando ela foi manipulada por Snoke. Sei, totalmente, que naquele momento ele poderia ter dado a vida pela Resistência."

Rey, que estava sentada ao lado do pai, lançou seu olhar acolhedor em direção ao marido, que estava ao lado da mãe, encarando o chão sem dizer uma palavra. Ele sabia de todos os seus crimes, todos os antigos membros influentes da Primeira Ordem estavam sendo julgados, e ele não seria uma exceção, ele nem achava que deveria.

Ele olhou para ela e deu um sorriso torto logo desviando o olhar. Rey estava preocupada, é claro, mas não havia muito o que fazer. Ela também teve uma participação significativa na Primeira Ordem, mas o fato de ela ter libertado escravos pesou mais do que suas ações possivelmente negativas. E afinal ela matou Snoke, por fim sendo considerada como um tipo de agente duplo necessário para o fim da ordem.

"O que você sugere então, Owen?" Ouviram um dos membros do conselho perguntar.

"Sugiro que Ben Solo seja exilado. Eu sei que muitos de vocês acham que ele merece uma pena mais rude, mas ele tem uma família, dois filhos potencialmente poderosos na força, e eu acho uma má ideia deixar essas crianças crescerem sem o auxílio de ambos os pais." Ele pausou, limpou a garganta e retornou. "Rey e Ben sabem como lidar com a luz e a escuridão, as crianças precisam aprender a lidar também, ou teremos um possível novo problema no futuro, talvez ainda maior."

"Então está sugerindo que os filhos de Kylo Ren podem ser um perigo também?" Alguém riu de modo irônico. "No meu tempo seriam eliminados."

"Não estamos mais nos tempos antigos, e é exatamente para ele que não queremos voltar. As crianças são filhos de Ben Solo e Renesmy Kenobi, não existe espaço Kylo Ren. Eles não são um perigo, eu disse que eles poderiam ser caso não lhes déssemos o auxílio necessário." Owen revirou os olhos. "Não vamos começar um novo conflito. Tudo pode ser resolvido na paz."

"Eu concordo." Ouviram uma mulher alta dizer, cabelos rosa. Depois Rey descobriu que seu nome era Amilyn Holdo. "Nós sabemos o quanto Ben foi essencial para a vitória da Resistência e todos temos nossas divergências e ressentimentos quanto a figura de Kylo Ren. Mas Ben mostrou-se disposto a se redimir e não hesitou em nos ajudar. Podemos exila-lo em seu planeta natal."

"Podemos voltar a Gesin." Renesmy se levantou na multidão. "Deixem-nos criar nossos filhos em Gesin. Queremos paz, apenas isso, uma vida tranquila. Não iremos atrapalhar as decisões da República. Nunca..." Ela continuou. "Eu sei o que é sentir o poder do lado sombrio, mas eu também sei o que é sentir a luz, muito maior, e eu sei que meu marido é luz agora, todos que o conhecem bem sabem."

Leia trocou olhares com Rey, confidente. Ela sorriu de forma tímida ao ouvir as palavras de sua nora sobre o seu filho.

"Pode ser uma ideia plausível." Respondeu Holdo.

"Nós iremos acolher essas crianças, iremos providenciar um desenvolvimento estável para suas emoções, ambas luz ou trevas." Ouviu-se a voz de Luke ao fundo. "Não posso mais falhar." Ele disse de forma cansada. "Não podemos deixar que tudo aconteça de novo."

"O equilíbrio!" Disse Rey. "O equilíbrio é o único caminho, e nos iremos ajudá-los a alcançá-lo! Kira, Jacen, eles são parte de uma profecia, crianças que possuem ambas luz e trevas em seus cernes, poderosos demais para serem contidos de forma errada."

"Como saberemos que tudo corre bem?" Perguntou alguém.

"Viverei para isso." Argumentou Luke. "Até meu último suspiro."

"Viveremos!" Uma voz feminina na multidão surgiu, Dana. "Nós também iremos para Gesin."

O sorriso de Kira aquecia a fria manhã no último dia deles em Crait. Ela estava no meio de ambos no largo leito, rindo contando suas aventuras em Jakku enquanto Rey levantava-se lentamente em direção a Jacen resmungando em seu berço. Era hora de alimentá-lo.

"Então eu fui correndo pra cima dela, papai!" Dizia Kira eufórica demonstrando com pequenos gestos. "Se Amber achou que eu ia deixar ela chamar meus pais de mentirosos ela estava muito enganada!"

"Espera, você foi e enfrentou ela?" Perguntou Ben empolgado. "E como foi isso? Você ficou na vantagem, né Kira? Acabou com a menina?"

"Ben!" Rey repreendeu enquanto agora Kira ficava mais agitada e sorrindo de emoção com o pai. "Kira isso não é certo, não é porque alguém não concorda ou fala algo ruim pra você que precisa agir com agressividade!" Ela lançou um olhar em direção ao marido.

"É verdade Kira..." ele baixou a empolgação, "sua mãe tem razão." Mas então quando Rey se virou ele deu um cumprimento de aprovação na direção da filha enquanto piscava com um olho só. Ela riu.

"Eles não acreditavam que ainda existiam jedi. Diziam que era uma lenda... eu tive que mostrar que eu estava certa!"

"Kira..." Rey repreendeu novamente. "Na sua vida irá lidar com muita coisa contra ao que você acredita, com pessoas boas e pessoas não tão boas assim... com pessoas que vão duvidar das suas palavras ou que irão apoiá-la, e precisa aprender a lidar com isso." Ela balbuciava Jacen em seu colo. "Não pode deixar o ego se aprenderam de você, não é como as coisas funcionam." Apesar de toda a brincadeira Ben concordava.

"Sua mãe tem razão, há muita coisa a aprender ainda, filha." Disse Ben. "Iremos ajudar você e seu irmão, para que não acabem entrando em caminhos sem volta."

"Eu também disse que iria resgata-los, tirar eles das mãos do nojento do Plutt!"

"Unkar Plutt?" Rey se virou para encontrar Kira concordando. Ben levantou os olhos em direção a mulher e depois levando-os até a filha.

"O que?" Ele perguntou. "Quem é Unkar Plutt?"

Rey baixou os olhos em desgosto enquanto a expressão de Kira era triste.

"Ele comandava o entreposto de Niima, escravizada o povoado que vivia ali." Completou Rey. "Me diga que ele não encostou em você!"

Ben agora preocupou-se, arregalou os olhos.

"Mamãe, ele machucava todos nós."

"O que?" Ben deu um pulo do leito.

"Ele castigava a gente se achasse que não estávamos trabalhando direito... ou se não seguíssemos suas ordens. Depois ele tentou me vender mas dai tio Poe chegou."

"Tio Poe?" Sorriu Rey confusa.

"Longa história!" Disse Ben rolando os olhos em desavença.

"Eu quero saber de toda a história!" Disse Rey. "Pelo jeito há muitas coisas que precisa no contar, Kira."