"Você tem um rosto que não
foi estragado pela beleza
Eu tenho algumas cicatrizes
de onde estive
Você tem olhos que podem ver
diretamente através de mim
Você não tem medo
de nada que eles já viram."
(Song for Someone — U2)

•••

Ben não poderia conviver com aquela imagem em sua cabeça. Rey em seus braços enquanto o sangue fluia de seu ferimento e a vida esvaia-se. Sua esposa, seu único amor, ela precisava lutar, não poderia viver sem ela...

"Por favor, aguente." Ele implorou mais uma vez enquanto os olhos da jovem esforçavam-se em se manter abertos.

O rapaz a carregou em seu colo, podia sentir a respiração pesada de Rey contra seu peito. Ela repousou o rosto na porção de pele entre o ombro e o pescoço de Ben, enquanto o ar quente e abafado que saia de sua boca contraia os músculos dele. Ele sentiu tanta falta desse toque, da sensação de poder tê-la em seus braços.

Mera, desgraçada. Ela tinha que se meter mais uma vez em suas vidas? Aquela mulher, pelo menos, agora houvera recebido o que merecia. Estava morta, e, definitivamente, não poderia mais se aproximar deles. E Snoke também não, como se todos os seus problemas tivessem desaparecido. Mas ainda havia algo a se enfrentar: quando chegassem ao solo de Crait, uma batalha gigantesca teria de ser enfrentada.

Ben avistou um transportador da Resistência aproximando-se da nave e imediatamente foi ajudado pelo grupo que veio neste. Eles posicionaram Rey deitada sob a superfície macia de um leito improvisado enquanto Richard Dorn vinha correndo em sua direção para juntar-se à tripulação.

A cabeça de Rey pendeu para o lado procurando os olhos de Ben. Ela estava quieta, tão sonolenta. Ele não sabia exatamente quanto tempo ela poderia durar, isso corroía todas as chances de não surtar, de manter-se calmo, manter Kylo Ren longe de tomar o controle. Ben enlaçou os dedos da jovem, apertando-os entre os seus enquanto as lágrimas rolavam em sua face e ele soluçava em conjunto.

Logo ele pôde avistar a bagunça que estava lá em baixo: O exército todo de Rey estava lutando ao lado da Resistência contra os membros da Primeira Ordem. Muitos acabaram rendendo-se em razão da destruição do líder supremo e de toda a estrutura da Primeira Ordem, mas ainda haviam aqueles que estavam confusos e ainda sentiam que precisavam lutar pela Ordem.

O exército de Rey unido ao da Resistência era maior em número, e agora, no céu, os destroços das naves da Primeira Ordem eram vistos caindo na atmosfera enquanto os caças da Resistência voavam em rasante atirando contra as tiefighters de poucos que insistiram em continuar na luta.

Houveram perdas na Resistência, mas nada comparado a destruição iminente da Primeira Ordem. Hux estava em apuros agora, houvera perdido o comando de seu exército e já não possuía mais a a fidelidade de sua tropa, maldita hora em que Rey assumiu o controle e permitiu que um número grande de troopers abandonasse seus postos. Se pelo menos ele tivesse ido em frente com os clones...

Os raios dos tiros de blasters dançaram pelo ar de Crait, e quando alcançavam o solo, fumaça vermelho vivo embelezava o cenário da batalha. Troopers contra os próprios "aliados" da Primeira Ordem. Hux sempre soube que não poderia confiar em Renesmy, mas Snoke acreditava demais em seu poder de persuasão. Por fim Hux, pensou que aquele foi um final merecido a ele, uma vez que morrer pela própria ignorância era algo já punitivo.

Mas agora estavam todos perdidos, o general não sabia mais que cargo ocupava, na verdade ele apenas sabia que a Primeira Ordem não existiria mais. Armitage preferiu se render, ordenando que as naves ainda em batalha na atmosfera e os troopers em solo cessassem o fogo. A maior parte não hesitou em se render, não queriam perder suas vidas, e por fim nem entendiam os motivos pelos quais estavam lutando pela Primeira Ordem ainda, a organização que houvera lhes sequestrado e lhes obrigado a um regime de servidão eterna.

Agora a general Leia possuía um exército duas vezes maior do que aquele que outrora obtinha, e apesar disso, esperava que eles não fossem necessários, talvez nunca mais. Houve-se um burburinho de comemoração, a Resistência saudando a vitória, festejando por terem Rey de volta. Rey era luz, sempre seria, Leia sabia disso em seu mais profundo interior. Não fosse por ela e seu exército, eles certamente não teriam vencido essa guerra contra Snoke.

A alegria, porém, foi interrompida pelo desespero na face de Ben que corria entre os membros da Resistência com a esposa no colo acompanhado por Richard Dorn e ambos concordaram que deveriam levar a jovem para a enfermaria da Resistência.

Chegando lá, Rey foi colocada sobre um leito, ainda acordada mas com muita dificuldade em se manter forte. Ben chorava enquanto segurava em sua mão implorando que ela permanecesse acordada. Era muito sangue, ele não sabia nem dizer se o bebê ainda estava vivo dentro dela.

A agitação na enfermaria começou, os médicos da mais alta patente da Resistencia uniram-se a Richard e os membros de sua equipe para tentar fazer com que a mulher vivesse.

Tentaram tirar Ben da sala mas logo concluíram que seria impossível tentar contra um homem tão forte e instável como no momento. Ben não sairia do lado de Rey nem um por um segundo sequer, e seria capaz de acabar com qualquer um que tentasse afastá-lo dela. A instabilidade no humor era algo que Ben precisaria continuar prestando atenção daqui em diante para se manter no lado certo, se é que ele existia.

Não havia mais muito o que fazer, a morte de Rey era certa e por mais que os médicos do grupo se esforçassem, nada mais podiam contra uma artéria em ebulição jorrando o pouco do sangue que ainda restava no corpo dela para fora. Talvez se tivessem feito algo antes, ela ainda teria chances.

Rey sorriu mais uma vez para Ben tentando confortar o rapaz em desespero. Ele se deitou em seu peito enquanto ela acariciava as mechas de seu cabelo, suas lágrimas deslizavam pela face e uniam-se à pele da esposa.

"Está tudo bem." Ela disse de forma suave, protetora, quase perdendo a voz pelo cansaço. "Me deixe vê-la uma última vez." Ela sussurrou.

Ben levantou o rosto devagar para olhar em seus olhos. Neste instante Owen entrou na sala abruptamente, indo em direção à filha com os olhos já ardentes de chorar.

"Renny!" Ele disse como se implorasse, o apelido pelo qual a mãe dela a chamava quando criança. "Minha filha. Me desculpe, eu nunca devia ter te deixado sozinha em Alfheimr, me desculpe."

"Está tudo bem, meu pai, eu amo você." Ela sorriu. "Pai, Kira... eu preciso vê-la." Ela suplicou.

Então Ben, em choque, pediu para que os companheiros da Resistência fossem cumprir o último desejo de Rey e trazer a filha para finalmente reencontrar a mãe. Quando ela chegou, acompanhada da avó, Leia pediu para que todos se retirassem do recinto e que apenas Ben, Rey e Kira tivessem o momento deles.

Quando a garotinha finalmente passou pela porta, Rey de imediato sentiu uma vibração em seu interior mudar. Era avassalador, era denso, o amor que sentia por ela era tão forte, desesperador. A menina correu até o leito para os braços da mãe, sem ao menos pensar.

Kira estava em seus braços, o cheiro da filha que ela tanto sentiu saudades, agora estava ali para ela sentir. A ternura do abraço, sentir a pureza desse amor que carregava mãe e filha separadas por uma tragédia.

"Mamãe..." Ela chamou com a voz falha, cerrando o cenho para desabar em lágrimas. Ben aproximou-se da filha e as envolveu no abraço. "Mamãe, eu senti tanta falta!" Ela continuou. "Eu te amo mamãe."

"Eu também te amo, minha menina." Rey sorriu para Kira já com certa dificuldade em respirar. "Kira, eu senti tanta falta de você." Rey limpou as lágrimas de Kira com ambas as mãos em sua face. "Não houve um dia em que eu não tenha pensado em você, que eu não tenha pedido à Força para te trazer de volta para mim, e finalmente você está aqui!" Ela sorriu novamente, analisando cada detalhe do rosto da filha. "Está tão bonita e forte, minha pequena! Vai ficar tudo bem, seu pai vai cuidar de você. E você, cuide de seu pai para mim!"

"Não mamãe, não pode ir embora de novo!" Ela a abraçou mais forte, destruída. "Estamos juntos agora, mamãe, todos nós, não podemos nos separar de novo. Por favor mamãe, fique aqui!" A menina implorou.

Rey estava cada vez mais fraca, até que olhou para Ben uma última vez. "Cuide dela para mim." Seus olhos se fecharam. Ele então apressou-se em sua direção, apanhando o corpo de Rey em seu colo, aproximando-a, já sem vida, de si. Sua testa colou-se na dela e suas lágrimas caiam sob o rosto da esposa.

"Não, Rey, não vá!" Ele implorou mais uma vez, mesmo sabendo que seria em vão. Ele gritou em fúria, olhando para cima e caindo em seus joelhos com o corpo da esposa no colo. Ele continuou ali, arrasado e chorando enquanto aninhava sua amada. "Por favor, por favor!" Ele soluçava em seu luto, relutante em aceitar os fatos, franzindo o cenho com tanta força que agora o rosto pálido estava todo vermelho de tanto chorar.

Ben pressionava o tecido das vestes de Rey com força em ódio, ira de si mesmo. A culpa era dele, pensou, nada disso teria acontecido se não fosse por ele. Agora sua filha estava em choque e chorando abraçada ao corpo desfalecido da mãe.

Kira abraçou o ventre de Rey, como se estivesse tentando falar com o irmão. Foi então que o ambiente começou a ficar instável, Ben podia sentir. Kira estava chorando por cima do ventre da mãe quando as luzes se apagaram e uma forte luz concentrou-se em seu ventre, uma luz que apenas Ben ou Kira poderiam enxergar.

O brilho fluía do corpo de Kira e unia-se ao âmago de Rey, que a cada segundo fazia com que a intensidade fosse maior. Neste instante Ben se assustou, confuso com o que via. De súbito o clarão englobou a sala inteira e, quando finalmente desapareceu, Ben ouviu um suspiro vindo da boca de Rey.

Ele olhou para a face dela enquanto lentamento seus olhos tentavam se abrir. Ela piscava, suas expressões pareciam confusas e uma intensa sonolência tomava conta dela. A jovem estava fraca e assim Ben sentiu a respiração de Rey voltando ao normal. Em segundos ele já podia sentir o seu coração voltando a bater normalmente e ela finalmente abrindo os olhos.

"Ben?" Foi a primeira imagem que viu. Suas feições ainda pareciam confusas enquanto ela piscava os olhos tentando concentrar-se na realidade. "Está aqui!"

"Você está aqui!" Ben finalmente sorriu e trouxe Rey para mais perto de si, a abraçando em satisfação e felicidade, ele a envolvia em sua luz de felicidade, depositando beijos ao longo da face da esposa enquanto agradecia em lágrimas pelo milagre.

Kira e o irmão, em sua forte união, trouxeram a mãe que tanto amavam à vida de novo. Como algo assim era possível? Como poderiam enganar a morte? O fato é que a força do amor das duas crianças fora capaz de curar as feridas da mãe. Algo além do que a própria compreensão dos códigos jedi. Ninguém nunca entenderia exatamente como funcionava a Força, mas ela estava lá, estaria sempre.

Quando Rey abriu os braços, Kira aconchegou-se neles ao mesmo tempo em que também era envolvida pelo pai. Ben, Rey e Kira, finalmente reunidos, nada destruiria essa união, nunca mais, ninguém. Ben ainda não podia acreditar que a esposa estava alí de volta a vida, mas vê-la sorrindo o fazia o homem mais feliz do mundo.

"Eu amo tanto vocês!" Ele disse para elas envolvendo-as mais ainda. "Eu amo vocês três."

Dias se passaram, a ilha estava em um estado deplorável, os membros da Resistência recolhendo os restos da batalha. Muitos estavam feridos e se ajudavam a superar as perdas. Outros, em grande parte antigos membros da Primeira Ordem, permaneciam sob o olhar atento dos grandes líderes da Resistência. Eles não seriam exterminados, isso não era coisa da Resistência, nem de nenhuma outra ordem, mas algo precisaria ser feito em relação a eles.

Hux foi feito prisioneiro de guerra por um tempo até que um julgamento fosse finalmente aplicado a ele. Ben acabaria tendo de passar por um julgamento também, e isso era algo que ele esteve esperando por esse tempo. O que aconteceria com seu futuro pertencia aos membros do conselho galáctico das federações republicanas, uma vez que com a destruição das forças pró Império, a democracia estava se reestabelecendo na galáxia.

A base da resistencia em Crait havia sido bem abalada com toda a batalha, mas eles estavam partindo agora que não existia uma ameaça iminente e suficientemente poderosa para desestabilizar a paz por um tempo.

Os grandes sistemas da galáxia se uniram, novas leis intergaláticas haviam sido estabelecidas, a república novamente havia ganhado força e a democracia estava mais próxima do real do que antes imaginado.

Leia e seus companheiros de Resistência estavam satisfeitos com o resultado da guerra: uma grande aliança, grandes combatentes para defender a república.

Rey estava andando pelo solo de Crait, observando por si mesma os efeitos bonitos da neblina vermelha do sal no solo enquanto ela caminhava. Ben estava a seu lado.

"Ben, eu..." Ela começou a falar, ele olhou para ela de forma atenta. "Eu preciso..."

"Não, Rey." Ele a interrompeu. "Sou eu quem precisa pedir desculpas."

"Pare de ler a minha mente." Ela sorriu agora mais próxima a ele, com os olhos para baixo encarando seu peito.

"Sabe que não estou lendo." Ele levantou o rosto da mulher delicadamente pelo queixo. "Me deixe lhe pedir desculpas. Eu devo isso. Te causei muito sofrimento e eu sei o quanto isso tudo foi dolorido para você. Te coloquei em perigo. Coloquei Kira também."

"Ben, eu entendo agora." Seus olhos estavam fixados nos dele, um pouco mais próximos do que antes, fisicamente. Eles se perderam um no olhar do outro por alguns segundos antes que ela continuasse. "É muito difícil resistir às trevas, ainda mais quando elas fazem parte de você, quando está no seu sangue." Ben deu um leve sorriso em concordância. "Eu senti o poder da escuridão e ele pode ser muito confortável... é perigoso." Ele assentiu. "Mas isso é passado, agora. Estamos finalmente juntos de novo. Eu, você, Kira..." Ela olhou para o ventre, segurando na mão de Ben e aproximando-a de seu ventre. "E nosso bebê."

"Está quase na hora." Ele sorriu ainda acariciando o ventre, sentindo um chute.

"Ele está feliz em ter você aqui!" Rey comentou. "Eu posso sentir a felicidade dentro de mim. Ele sempre tentou se comunicar, eu sempre o repeli. Fui tão burra." Ela abaixou a cabeça.

"Não seja tão dura com você mesma." Ben acariciou a face de Rey com ambas as mãos nas bochechas da jovem. Ele aproximou-se, colou sua testa com a dela, finalmente roçando seus narizes e seguindo com seus lábios em direção a boca.

Eles selaram um beijo. Era confidente, era real. Era tudo pelo que estiveram esperando. Eles só queriam estar juntos agora e em família, nenhum poder, nenhuma ordem, nenhum peso sob o sangue. Apenas a família importava.

Se afastaram mas seus narizes ainda se encostavam, ambos sorrindo em conjunto, compartilhando da ternura que possuíam desde o primeiro dia em que se conheceram. O amor que era algo só deles, que existiria para sempre.

"Serei julgado pelo conselho agora, você sabe." Ele apertou os olhos. "Não sei o que esperar."

"Você ajudou muito a Resistência, na verdade foi essencial, eles com certeza irão considerar." Levantou o olhar e colocou as mãos de Ben em que estavam em ambos os lados de seu rosto por baixo de suas mãos. "Você estava sob a influência de Snoke, é outro ponto."

"Mamãe, papai!?" Eles ouviram a voz de Kira aproximando-se, chegando contente e vindo em direção a eles. Ela correu até que Ben a pegasse no colo e a girasse em seu eixo. Ben continuou a interagir com Kira em seu colo, alternando entre cócegas e brincadeiras no ar.

"Você está mais pesada do que eu me lembro!" Ele comentou rindo, e ver o sorriso de Rey ao seu lado era tudo o que o deixava feliz.

Ela se aproximou dos dois com o olhar focado na filha, brilhando. Ainda mal podia acreditar que finalmente estavam todos juntos, rumo a uma vida normal. Mas foi aí que a expressão de Rey mudou, e de repente ela levou a mão até o baixo ventre enquanto começava a sentir um desconforto. Quando olhou para baixo um líquido descia por suas pernas.

"Ben!?" Ela soltou em agonia. "Acho que está na hora!"